O curta é um Drama melancólico e
triste por se tratar de um desejo que Ana Paula quer realizar, mas não encontra
nenhuma outra solução. Mãe de um bebê e esquecida pelo marido que os deixaram
sós, Ana Paula decide abandonar a cidade de Quixeramobim e a única forma que
tem de conseguir o dinheiro da passagem é rifando-se em troca de uma noite de
sexo. Tendo
Bilica Léo como protagonista, “Rifa-me” é um dos primeiros trabalhos
audiovisuais do talentosíssimo diretor, roteirista e produtor Karim Aïnouz. Com
muita sensibilidade, AÏnouz trata o tema da premissa de forma muito envolvente.
Assim, como muitos amigos e conhecidos de Ana Paula, o espectador pode até não
concordar com a decisão da jovem, mas desesperadamente compreende, tendo a
esperança de que ela vá desistir da ideia.
O
diretor explora profundamente o universo de Ana Paula, com as suas
dificuldades, necessidades e sonhos. Com muita competência, não há espaços para
julgamentos em relação à protagonista, mas uma imensa sensação de piedade e
tristeza por vê-la nesta situação.
“Rifa-me” tem seu início cantado por dois repentistas. E a história de Ana Paula continua narrada, não apenas pelas imagens, sons e ações dos personagens, mas pelo rádio que dita a passagem do tempo e pelas quebras da quarta parede e citações de poesia de cordel.
Outra
escolha extremamente pontual é o uso de locações que remetem à viagem que Ana
Paula deseja fazer. Não são mostradas cenas no centro da cidade e que tenham
muitas pessoas. Vários lugares filmados transmitem esse desejo se passando em
estradas e num posto de gasolina à beira de uma dessas estradas. A partida de
Ana Paula fica palpável e inevitável.
Com
qualidades técnicas impressionantes, “Rifa-me” é um Drama comovente, que narra
o desespero de uma mulher. Se, por um lado, faz uma crítica pertinente de como
muitas mulheres são vistas como objetos, por outro, mostra que a compaixão e a
empatia ainda fazem parte do caráter de muitas pessoas.
Em “Rifa-me” já é possível experimentar muitas das características do estilo cinematográfico de Karim Aïnouz. A forma como a personalidade da personagem é construída, demonstra claramente que ela está decidida, mas não satisfeita em fazer o que propôs. Ana Paula não é simplesmente uma personagem de um filme. Ela tem várias camadas, afinal é um ser humano, com seus pensamentos, temperamento, personalidade.
A
construção da narrativa também demonstra toda a qualidade do texto e a forma
como o diretor conduz o arco dramático. Os sons da rádio, com sua transmissão
diária, revela que as vidas das pessoas continuam normais, independente dos
problemas que Ana Paulo enfrenta. Seja por falta de tempo ou por egoísmo, às
vezes, ignoramos uma situação difícil de um vizinho ou parente. “Rifa-me”
aborda essa reflexão de forma eficiente, com a proposta de nos preocuparmos e
darmos mais atenção para as pessoas que estão próximas e que, no desespero,
decidem por caminhos mais rápidos para uma solução de seus problemas.


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