“A Ilha”, produzida por Mário Lellis e Roger Burdino e com roteiro e direção de Alê Camargo, narra a impressionante história de um jovem que anda pelo centro de uma grande cidade e, de repente, se vê preso a uma situação inusitada.
Entre
o movimento de pessoas e carros, o jovem protagonista percebe que seu celular
está com a bateria prestes a descarregar. Observa que, do outro lado de uma
avenida, há um telefone público. A sua aventura começa ao atravessar a, até
então, pouco movimentada avenida, que se transforma num caos de veículos em
alta velocidade. O jovem pula e consegue alcançar uma ilha de trânsito que
divide a enorme avenida.
O
jovem tenta escapar da ilha, porém, suas tentativas são frustradas por velozes
e perigosos veículos que transitam nos dois sentidos.
Com uma narrativa fluida e divertida, dividida em capítulos, “A Ilha” mostra a adaptação do jovem naquele espaço restrito, onde é completamente ignorado por motoristas que vem e vão. O filme faz uma crítica de como a cidade, com seus fluxos e movimentos, engolem as cidades e transformam pessoas em seres invisíveis em meio à multidão. O jovem está ali, precisando sair da ilha, mas todos estão muito ocupados consigo mesmos, dirigindo os seus carros e ignorando a existência do jovem. O isolamento do jovem transmite a sensação que, mesmo numa cidade grande, ele está desconectado do todo. E isso ocorre também com os motoristas, que apenas seguem o fluxo, indo ou voltando do trabalho, tendo como objetivo apenas chegar o mais rápido possível em seus destinos. O trânsito caótico contrasta com a “vida” do jovem, preso e sem alternativas.
Uma
das grandes críticas contida em “A Ilha” reside também ao individualismo
exacerbado da sociedade moderna. Quantas vezes o protagonista já deve ter
passado pelo local e nunca prestou atenção em alguém que estivesse preso na
ilha? Quantas vezes ignoramos os problemas visíveis de pessoas no centro da
cidade e ignoramos, ou porque não temos tempo ou simplesmente porque a vida
alheia não é da nossa conta?
“É
necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós”.
A citação inicial do conto de José Saramago deve ser refletida junto com a
imersão do espectador nesse curta-metragem. Muitas vezes só damos importância
aos problemas de outras pessoas após passarmos por algum problema parecido. Ao
conseguir sair da ilha, o jovem sai transformado e passa a ter uma nova
percepção de si, e também, um novo entendimento sobre o mundo. Passados alguns
dias na ilha, agora ele tem como enxergar coisas que não eram possíveis,
justamente pelo fato de até então ter tido uma vida limitada somente ao seu mundo.
Entrar e sair da ilha fazem parte de um aprendizado de autoconhecimento e
compreensão do mundo.
“A Ilha” tem elementos técnicos perfeitos, contribuindo para uma narrativa coesa e intensa. O filme tem todos os predicados necessários para uma obra que puxa o espectador pelo braço para uma reflexão de muito mais do que aparece em tela. “A Ilha” é um filme que alterna cenas de humor, num cenário dramático e de aflição. É uma animação de alto nível e que merece ser vista e revista muitas vezes.
"A Ilha" está disponível no Porta Curtas



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