terça-feira, 9 de setembro de 2025

MENTIRA (1989)

 


Adaptação de um texto de Luis Fernando Veríssimo, "Mentira" apresenta a história de um homem comum que, ao voltar do trabalho, se depara com o pneu de seu veículo furado. O que poderia ser um contratempo simples se transforma em um desafio quase épico: ele precisa se esforçar ao máximo para trocar o pneu sozinho, enfrentando frustrações, cansaço e o ritmo lento do tempo que parece conspirar contra ele. Mas, ao fim desse esforço árduo, uma nova adversidade se apresenta: sua aliança escapa de seu dedo e cai por um bueiro, desaparecendo em meio à escuridão.

Enquanto dirige de volta para casa, o protagonista passa a refletir sobre todas as possibilidades de explicar a perda do anel à esposa. Sua mente se enche de cenários hipotéticos, antecipando reações que variam do desapontamento à raiva, tentando preparar-se para cada nuance do inesperado. Esse mergulho psicológico, sutil e bem-humorado, aproxima o espectador da experiência cotidiana do personagem, permitindo identificação imediata com suas angústias e inseguranças.

O casal é interpretado de maneira cativante por Roney Facchini e Ellen Helene, cujas atuações equilibram naturalidade e humor, conferindo autenticidade às pequenas tensões e gestos cotidianos que permeiam o filme. O brilho da narrativa, entretanto, se intensifica ainda mais com a narração de José Wilker. Sua voz confere a "Mentira" um tom de crônica envolvente, transformando cada cena em uma experiência imersiva, onde o humor e a reflexão coexistem de forma divertida. A narração não apenas explica ações, mas também estabelece um diálogo íntimo com o público, tornando cada pensamento do protagonista acessível e cômico.

Outro ponto de destaque de "Mentira" é a sequência de animação, que ilustra como cobaias de laboratório reagem diante de situações estressantes e gatilhos de ansiedade. Através dessa analogia, o curta aproxima o comportamento animal do comportamento humano, ressaltando nossas próprias reações exageradas ou imprevisíveis diante de pequenos contratempos. A criatividade dessa inserção não apenas acrescenta humor, mas também enriquece o caráter reflexivo do filme, permitindo que o espectador perceba as semelhanças entre nossas experiências diárias e situações estudadas em laboratório.

Tudo isso se combina de maneira brilhante com a direção precisa de Flávia Moraes, que mantém coesão narrativa e ritmo dramático. Flávia consegue extrair do texto original o melhor de forma criativa, equilibrando humor, tensão e pequenas surpresas cotidianas. Elementos técnicos, como trilha sonora, fotografia e direção de arte, são perfeitamente encaixados, criando "Mentira" com um estilo narrativo ousado e sensível, que impressiona tanto pela estética quanto pela narrativa.

A trama se desenvolve com densidade e profundidade impressionantes, explorando as dinâmicas sociais e psicológicas do cotidiano. A perda de uma aliança, aparentemente trivial, desencadeia uma série de eventos e reflexões, mostrando como pequenas rupturas podem alterar padrões repetitivos de vida. O marido é retratado como alguém que vive uma rotina pacata e previsível, enquanto a esposa mantém seu cotidiano igualmente regular. O desaparecimento do anel representa, portanto, uma ruptura nesse padrão, revelando tensões, expectativas e a fina linha entre a verdade e a mentira. O filme joga com a percepção do espectador: uma mentira pode soar como verdade, assim como uma verdade pode parecer tão absurda que é tomada como mentira.

Com criatividade, dinamismo e timing perfeito, Flávia Moraes entrega um filme bem-humorado, que explora com leveza as pequenas surpresas da vida cotidiana. "Mentira" diverte, engaja e provoca, ao mesmo tempo em que convida o espectador a refletir sobre como detalhes simples podem desencadear grandes mudanças em nossas rotinas. É um curta eficiente, leve e memorável, que celebra o humor presente nas sutilezas do dia a dia.


Essa crítica é dedicada à memória de Luis Fernando Veríssimo.


Assista: Mentira (1989)

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