sábado, 18 de julho de 2026

COMBUSTÃO NÃO ESPONTÂNEA (2023)

 


Com direção e roteiro de Boni Zanatta e atuação de Dirce Thomaz, “Combustão Não Espontânea” é um Drama surpreendente que trabalha muito mais no campo da metáfora, do simbolismo e do realismo fantástico do que em uma narrativa tradicional. Em vez de conduzir o espectador por uma história linear e convencional, o filme constrói uma experiência que convida constantemente à interpretação, fazendo com que cada imagem, objeto e acontecimento possua significados que ultrapassam aquilo que está sendo mostrado em tela.

         A protagonista, uma mulher negra e idosa, vive em uma casa onde incêndios acontecem repetidamente. Apesar das chamas, ela permanece ali e sobrevive. Quando a sinopse afirma que ela continua vivendo enquanto a casa queima, a pergunta mais importante talvez não seja como ela sobrevive, mas por que continua naquele lugar. Essa questão parece ser o verdadeiro ponto de partida para a reflexão proposta pelo filme.

            A resposta sugerida pela narrativa é que ela permanece ali porque não existe outra possibilidade. Com uma forte carga simbólica, ensaística e política, “Combustão Não Espontânea” aponta justamente nessa direção. A casa não é apenas uma casa. Ela representa algo maior. Da mesma forma, o fogo também não é apenas fogo. O próprio título do filme funciona como uma provocação ao espectador. Ao afirmar que a combustão não é espontânea, a obra rejeita a ideia de que determinadas destruições acontecem por acaso. Existe uma origem, uma responsabilidade e um processo histórico por trás das chamas.

         O uso do discurso de Roberto Alvim na abertura é extremamente significativo dentro dessa proposta. O pronunciamento ficou conhecido nacionalmente por reproduzir trechos muito próximos de uma fala de Joseph Goebbels, ministro da propaganda do regime nazista. Ao iniciar o filme dessa maneira, Boni Zanatta estabelece imediatamente um eixo temático relacionado ao autoritarismo, ao controle ideológico, ao nacionalismo cultural e à tentativa de direcionar quais expressões artísticas devem ou não ocupar espaço dentro da sociedade.

         Somente o fato de o Ministério da Cultura ter sido extinto e transformado em Secretaria Especial de Cultura já reforça essa leitura. Vinculada inicialmente ao Ministério da Cidadania e posteriormente ao Ministério do Turismo, a mudança pode ser interpretada como um sinal do enfraquecimento institucional das políticas culturais. Dentro do contexto proposto pelo filme, isso dialoga diretamente com discursos que sugerem a existência de uma cultura considerada superior em detrimento de outras manifestações populares e periféricas.

         A partir desse momento, a casa da protagonista passa a assumir múltiplos significados. Ela pode representar a cultura brasileira, a memória coletiva, a identidade nacional, a experiência histórica da população negra e o próprio campo artístico do país. O fato de incendiar e ser reconstruída repetidamente é um dos aspectos mais interessantes da narrativa. O filme não fala apenas sobre destruição. Fala também sobre permanência. Fala sobre a capacidade de resistir mesmo quando tudo parece condenado ao desaparecimento.

         Livros, cadernos, cartas, fotografias, documentos e calendários desempenham papel fundamental nessa construção simbólica. Eles representam memória. Representam registros da existência. Quando queimam, não desaparecem apenas objetos materiais. Desaparecem histórias, afetos, lembranças e experiências acumuladas ao longo do tempo. O filme utiliza esses elementos para discutir processos históricos de apagamento cultural que vão muito além do contexto político recente.

        Nesse sentido, a obra sugere uma reflexão sobre a maneira como determinadas contribuições culturais foram historicamente marginalizadas. O apagamento de manifestações artísticas e culturais negras não surge como um fenômeno isolado ou recente. Pelo contrário, aparece como parte de um processo mais amplo relacionado ao controle das narrativas sobre a formação da identidade brasileira.

         Ao presenciar mais um dos incêndios que atingem sua casa, a protagonista parece oscilar entre a agonia e uma espécie de transe. Sua reação cria uma sensação de estranhamento que amplia o caráter simbólico da narrativa. Ao mesmo tempo, o filme alterna imagens do incêndio doméstico no jardim com registros que remetem a incêndios florestais, à Cinemateca Brasileira e ao Museu Nacional.

         Essas associações visuais são particularmente poderosas porque conectam a experiência individual da personagem a acontecimentos reais que marcaram profundamente a memória cultural do país. Nesse momento, o fogo deixa de ser apenas um problema particular. Ele passa a representar uma tragédia coletiva. A protagonista deixa de simbolizar apenas uma pessoa específica e assume uma dimensão muito mais ampla, representando comunidades, tradições culturais e até mesmo a própria memória nacional.

         A escolha de uma mulher negra como figura central reforça ainda mais essa interpretação. Se a casa representa a cultura brasileira, então sua presença sugere a importância das populações negras na formação dessa cultura. O incêndio passa a atingir não apenas patrimônios físicos, mas também heranças africanas, memórias ancestrais e contribuições que frequentemente foram invisibilizadas ao longo da história.

        O estado emocional da protagonista também é particularmente rico. Ela parece simultaneamente vítima, testemunha e sobrevivente. Sofre diante da destruição, mas permanece ali para observá-la. Essa dualidade fortalece a ideia de resistência presente em toda a obra.

         A trilha sonora desempenha papel fundamental nesse processo. Os sons distorcidos e sobrepostos reforçam a ambiguidade entre o individual e o coletivo, entre a realidade e a alegoria. Os ruídos deformados parecem traduzir conflitos constantes entre autoritarismo e resistência, opressão e espiritualidade, destruição e reconstrução.

         Mesmo diante dos incêndios e das tentativas de apagamento cultural, a casa resiste. Essa permanência parece sugerir que a cultura brasileira possui raízes profundas demais para ser eliminada completamente. Por mais que existam esforços para reescrever narrativas ou silenciar determinadas vozes, algo continua sobrevivendo.

         “Combustão Não Espontânea” também impressiona pela qualidade de seus elementos técnicos. Tudo trabalha de maneira integrada para ampliar a imersão do espectador em uma experiência sensorial intensa e impactante. A fotografia se destaca ao mostrar ambientes que transitam rapidamente da aparente tranquilidade para o caos absoluto. Os closes em objetos prestes a serem consumidos pelo fogo reforçam a sensação de perda e valorizam o significado emocional desses elementos.

            A direção de arte ocupa papel igualmente importante ao construir e reconstruir espaços, objetos e sensações ao longo da narrativa. Nada parece estar em cena por acaso. Cada elemento possui função dramática e simbólica, contribuindo para fortalecer a mensagem central da obra.

         É justamente por isso que calendários, livros, documentos e fotografias chamam tanta atenção. Todos carregam histórias. Todos representam memórias. Todos ajudam a compor um universo em que cada detalhe possui algo a dizer ao espectador.

         Definitivamente, “Combustão Não Espontânea” não fala apenas sobre incêndios. O fogo funciona como metáfora para apagamentos culturais, históricos e étnicos. Em contrapartida, a reconstrução constante da casa sugere uma ideia igualmente poderosa: apesar das tentativas de destruição, algo permanece. A cultura queima. A memória queima. Os arquivos queimam. Mas a casa continua existindo.

         Talvez essa seja a imagem mais forte construída por Boni Zanatta. A destruição não acontece por acaso. Mas a sobrevivência também não. Ela é fruto da resistência contínua daqueles que insistem em permanecer.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

COMBUSTÃO NÃO ESPONTÂNEA (2023)

  Com direção e roteiro de Boni Zanatta e atuação de Dirce Thomaz, “Combustão Não Espontânea” é um Drama surpreendente que trabalha muito ma...