sábado, 19 de setembro de 2026

AVISA QUANDO CHEGAR (2025)

 


        Com direção de Catarina Gonçalves e Henrique Pinsdorf, “Avisa Quando Chegar” é um Terror intenso, denso e perturbador, sustentado por excelentes atuações de Dominique Bueno, que interpreta Júlia, e Cristhian Fernandes, no papel do motorista de aplicativo. Em apenas cinco minutos, o curta consegue construir uma situação extremamente desconfortável, explorando um medo muito próximo da realidade e, justamente por isso, tão eficiente.

         O pedido de um Uber em certa noite deveria ser a forma mais segura de chegar em casa. Porém, ao se despedir de uma amiga, Júlia não faz ideia de que está prestes a viver uma experiência aterrorizante. O filme parte de uma situação absolutamente cotidiana, reconhecível para praticamente qualquer espectador, e transforma esse cenário comum em uma fonte constante de tensão.

        O próprio título do curta já diz muito sobre sua proposta. “Avisa Quando Chegar” é uma frase extremamente comum no cotidiano brasileiro. Ela costuma ser dita por pais, amigos, companheiros e familiares como demonstração de cuidado. Ao mesmo tempo, carrega uma preocupação implícita. Ninguém pede para alguém avisar quando chegar porque acredita que tudo ocorrerá perfeitamente, mas porque existe a possibilidade de algo dar errado. Dessa forma, o título já coloca o espectador em estado de alerta antes mesmo de a narrativa começar. É uma escolha simples, mas extremamente inteligente, pois dialoga diretamente com experiências reais e sentimentos compartilhados por grande parte do público.

         Inicialmente, o motorista se mostra gentil, educado e aparentemente confiável. No entanto, conforme o trajeto avança, pequenos detalhes passam a gerar desconforto. A partir desse momento, fotografia e desenho de som assumem papel fundamental na construção da tensão crescente entre Júlia e o motorista. O curta passa a dialogar com elementos do thriller psicológico, do suspense de confinamento e do terror urbano, aproximando-se de situações que poderiam acontecer fora da tela. Essa proximidade com a realidade torna o horror ainda mais inquietante.

         A protagonista está completamente vulnerável. Está sozinha, distante de casa e confinada em um espaço reduzido controlado por outra pessoa. Nesse contexto, o veículo funciona quase como uma prisão temporária. Embora Júlia esteja fisicamente livre, suas possibilidades reais de fuga são extremamente limitadas. Essa sensação de impotência é construída de forma gradual e contribui para o aumento constante da tensão.

        Os elementos técnicos empregados pelos realizadores transformam “Avisa Quando Chegar” em uma excelente experiência para os fãs do gênero. Fotografia, direção de arte, montagem e som trabalham em conjunto para estabelecer uma atmosfera pesada que acompanha a protagonista ao longo do percurso. Quando a narrativa alcança seu terceiro ato, os efeitos visuais mais elaborados surgem como complemento da resolução final, ampliando o impacto de um desfecho direto, eficiente e assustador.

         O áudio desempenha uma função especialmente importante. Ao utilizar sons não diegéticos apenas em momentos específicos, o filme privilegia ruídos naturais como o motor do veículo, a seta e somente as vozes dos personagens. Essa escolha aumenta a sensação de realismo e aproxima ainda mais o espectador da experiência vivida por Júlia, fazendo com que o horror pareça surgir de forma orgânica dentro daquela situação.

         Aspectos narrativos, dramáticos e técnicos se combinam para construir a trama sob a perspectiva da protagonista. Não sabemos para onde estamos indo, assim como ela também não sabe. Compartilhamos sua preocupação quando as mensagens deixam de ir ou chegar e sua insegurança quando o motorista segue por caminhos desconhecidos. Quando o veículo para e o aplicativo informa o destino alcançado, a narrativa conduz naturalmente o espectador para o pior cenário possível.

        Contando ainda com a participação de Letícia Viana como a amiga responsável pela frase que dá título ao filme, o curta surpreende pela eficiência com que desenvolve sua proposta. Em apenas cinco minutos, Catarina Gonçalves e Henrique Pinsdorf constroem uma situação reconhecível, promovem uma escalada contínua de tensão e entregam uma resolução impactante. Em produções tão breves, cada plano precisa cumprir uma função dramática específica, e a equipe criativa e técnica demonstra pleno domínio dessa dinâmica.

        Um dos aspectos mais interessantes de “Avisa Quando Chegar” está em seu final aberto, que amplia as possibilidades de interpretação. Afinal, seria o motorista o verdadeiro antagonista da história ou apenas uma peça de algo maior? O curta evita respostas definitivas e encontra justamente nessa ambiguidade parte de sua força. Com uma combinação eficiente de recursos cinematográficos, uma equipe técnica competente e atuações muito bem alinhadas, “Avisa Quando Chegar” se consolida como uma grata surpresa para os amantes do Terror.




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