sábado, 19 de setembro de 2026

O DIA DE JERUSA (2014)

 


        Com direção e roteiro de Viviane Ferreira, “O Dia de Jerusa” é um sensível e adorável Drama, protagonizado por Léa Garcia e Débora Marçal, que conta com uma narrativa extremamente emocionante e um potencial dramática muito elevado.

         O ponto central do filme gira em torno do encontro de duas mulheres. Jerusa é uma senhora idosa negra que vive no bairro do Bixiga, na capital paulista. Silvia é uma jovem negra que trabalha como pesquisadora de opinião que precisa convencer pessoas a responderem um questionário sobre sabão em pó. Silvia chega à casa de Jerusa para aplicar a pesquisa e deveria permanecer ali apenas alguns minutos. O encontro, porém, se transforma numa experiência de troca, memória e afeto.

        O interessante é que as duas mulheres estão em situações muito diferentes, mas também têm algo em comum. Silvia é jovem e está trabalhando como pesquisadora de opinião, uma atividade aparentemente banal, mas que também revela sua condição social. Jerusa tem 77 anos, vive sozinha e carrega décadas de experiências. O questionário, portanto, funciona como um laço narrativo para colocar duas gerações de mulheres negras frente a frente.

         Silvia está ali para transformar uma pessoa em dado de pesquisa de mercado. Jerusa deveria responder perguntas sobre um produto. É uma relação quase mecânica de perguntas, respostas, informações e estatísticas. No entanto, Jerusa subverte completamente essa lógica. Ela não aceita ser apenas uma entrevistada. Ela transforma a entrevistadora em interlocutora. A forma afetuosa com que Jerusa trata Silvia faz daquele momento a percepção de Silvio sobre a carência, melancolia e complexidade de Jerusa.

         Porém, Silvia precisa alcançar metas. E um detalhe importantíssimo faz com que a jovem reconheça que a sua ida até a casa de Jerusa não se deu por acaso; ela estava ali porque deveria estar. Isso permite uma leitura muito bonita: o filme começa tratando Jerusa como objeto de pesquisa e termina tratando-a como sujeito de uma história. E isso conversa diretamente com a questão da velhice.

         A complexidade da personagem interpretada por Léa Garcia se dá em várias camadas. Jerusa não é simplesmente uma mulher idosa. Ela é uma mulher negra idosa. E essas duas condições se encontram dentro de uma sociedade que frequentemente invisibiliza tanto a velhice quanto a população negra. Nesse caso, as duas coisas recaem sobre a mesma personagem. O filme poderia ter transformado Jerusa numa personagem simplesmente solitária, triste e carente. Mas Léa Garcia lhe dá outra dimensão. Ela possui memória, possui opinião, possui humor, possui desejos, possui uma história. E, principalmente, possui voz.

      Outro detalhe interessante é sobre a casa. A casa guarda aquilo que Jerusa guarda. Não é simplesmente o lugar onde ela mora. É o espaço onde sua memória permanece materializada. Isso também aproxima o filme da ideia do espaço como testemunha da passagem do tempo. E o Bixiga torna isso ainda mais interessante.

         O filme foi rodado no Bixiga, bairro paulistano historicamente associado à imigração italiana, mas que também possui uma presença negra muito importante. O Portal Plano Crítico chama atenção para a escolha do território e para a presença da Rua 13 de Maio e da Rua da Abolição. Ou seja: o bairro também carrega camadas de memória histórica. E isso combina perfeitamente com Jerusa. Ela não é apenas uma mulher que lembra da própria vida. Ela é uma pessoa que pertence a um território carregado de histórias.

         Jerusa fala sobre a vida das mulheres negras e sobre a senzala. O passado pessoal da personagem começa a se misturar com um passado histórico muito maior. Isso cria uma passagem interessante: a memória individual que dialoga com a memória familiar, que, por sua vez, dialoga com a memória coletiva, e que finalmente dialoga com a memória histórica. Jerusa lembra da própria vida, mas sua lembrança não está isolada da história do Brasil. "O Dia de Jerusa" coloca uma mulher negra idosa no centro da narrativa.

        Outro detalhe é que o encontro não é unilateral. Seria fácil e simplista interpretar o filme como se Jerusa, uma senhora solitária, encontrasse uma jovem que lhe fizesse companhia. Porém, essa escolha diminuiria Silvia. Silvia também precisa daquele encontro.

         Ela está trabalhando em uma atividade provavelmente precarizada, circulando pelo bairro fazendo perguntas sobre um produto comercial. Há uma distância enorme entre aquilo que ela está fazendo e aquilo que Jerusa oferece. O encontro funciona porque as duas recebem alguma coisa. Jerusa recebe companhia. Silvia recebe memória. Jerusa oferece afeto. Silvia oferece presença.

          Um detalhe extremamente importante se destaca logo no início do curta, quando um poeta declama trechos de "Minha Mãe", de Luiz Gama. Este elemento narrativo não é peça de decoração. Luiz Gama foi um intelectual negro fundamental na história brasileira, e sua presença estabelece uma espécie de ponte entre literatura, memória negra, cidade e personagem.

         Com grandes acertos nos recursos técnicos, Viviane Ferreira constrói uma obra tocante, sensível e impecável em seu desenrolar. Fotografia e arte trabalham em conjunto, dando vida à rua, à casa e às protagonistas. Todos os detalhes de planos, ângulos, detalhes e objetos potencializam ainda mais as performances de Léa Garcia e Débora Marçal.

        Não há um ponto fora do lugar em “O Dia de Jerusa”. A trilha sonora trabalha silêncios quando necessário, permitindo que somente a voz de Jerusa tome conta do ambiente, interagindo com sons ambientes. No entanto, há espaços para mudanças com sons não-diegéticos extremamente pontuais, o que reflete nas sensações transmitidas ao espectador.

          “O Dia de Jerusa” é muito mais do que o encontro casual entre duas mulheres. É um filme sobre memória, sobre aquilo que permanece quando o tempo passa e sobre a importância de ouvir quem tantas vezes é colocado à margem. Jerusa transforma uma simples pesquisa de mercado em uma experiência de humanidade, fazendo com que Silvia deixe, por alguns instantes, de procurar respostas para um questionário e passe a ouvir respostas para perguntas que talvez nem soubesse que precisava fazer.

         Viviane Ferreira constrói, com delicadeza e enorme sensibilidade, uma narrativa sobre duas mulheres negras separadas pela idade, mas aproximadas pela experiência, pelo afeto e pela necessidade de serem vistas. E talvez seja justamente essa a maior força do filme: lembrar que nenhuma pessoa é apenas um número, uma estatística, uma entrevistada ou uma idosa que vive sozinha. Cada pessoa carrega uma história. Algumas histórias, como a de Jerusa, só precisam encontrar alguém disposto a escutá-las.




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