Com roteiro de Zé Mucinho e
direção dele junto com Marcelo Spomberg, “Sete Vidas” é um Drama que utiliza o
humor para apresentar a vida de um gato. Mas não um gato comum. Tchê, narrado
por Selton Mello, é um escritor que morreu e acordou no corpo de um gato,
passando a observar o mundo humano a partir de uma perspectiva completamente
diferente.
Tendo
ainda no elenco nomes como Ariel Moshe, Christiane Tricerri, Etty Fraser, Jayro
Fagundes, Luisa Mell, Mairun Sevá e Marcelo Mansfield, Tchê circula pela
Freguesia do Ó e conhece diferentes personagens, suas casas, suas vidas, seus
anseios, suas alegrias, dificuldades e incertezas.
O curioso é que Tchê não é apenas o protagonista da história, mas também uma espécie de observador da humanidade. Ao passar de uma casa para outra, ele conhece diferentes pessoas e diferentes formas de viver. Cada uma delas acredita possuir o mesmo gato e, consequentemente, estabelece com ele uma relação própria. O animal recebe diferentes nomes, tratamentos e demonstrações de afeto, de acordo com a personalidade e as necessidades de cada pessoa.
É
justamente aí que o filme encontra uma de suas maiores forças. O gato acaba
funcionando como um espelho de seus donos. Mais do que conhecer Tchê,
conhecemos as pessoas através da maneira como elas se relacionam com ele. O
animal recebe projeções, expectativas, manias e carências. Cada dono parece
enxergar no gato aquilo que gostaria que ele fosse, transformando uma relação
aparentemente simples entre pessoa e animal em um retrato das necessidades
humanas.
A
condição de escritor de Tchê acrescenta ainda outra camada interessante à
narrativa. Ele não observa aquelas pessoas como um animal qualquer. Existe nele
uma consciência humana que permite narrar aquilo que vê e estabelecer relações
entre os diferentes personagens. O gato ocupa, assim, uma posição privilegiada:
pertence à vida de todos, mas não pertence completamente a ninguém.
E essa ideia conversa diretamente com o título. As “sete vidas” não pertencem somente ao gato. São também as vidas das pessoas que ele encontra. São histórias diferentes, com problemas diferentes, mas que têm em comum a necessidade de afeto, companhia e algum tipo de pertencimento. Tchê passa de uma casa para outra e, de certa maneira, vai acumulando experiências que pertencem a cada um daqueles personagens.
A
narrativa consegue ainda brincar com a ideia de propriedade. As pessoas
acreditam que o gato é delas, mas o espectador sabe que existe uma circulação
permanente. Tchê pertence a todos e, ao mesmo tempo, não pertence a ninguém.
Essa situação cria momentos de humor, mas também permite uma reflexão sobre a
própria necessidade humana de possuir aquilo que ama. O afeto, muitas vezes,
acaba acompanhado pelo desejo de dizer “isso é meu”.
O humor é utilizado de maneira bastante eficiente justamente porque não transforma os personagens em simples caricaturas. Existe graça nas situações e na forma como Tchê observa os humanos, mas por trás delas existem pessoas solitárias, frustradas e tentando encontrar alguma forma de conexão. O riso, portanto, frequentemente vem acompanhado de uma certa melancolia.
A
narração de Selton Mello contribui muito para esse equilíbrio. Sua voz dá
personalidade ao gato e estabelece uma relação de cumplicidade com o
espectador. Tchê parece estar contando aquelas histórias diretamente para nós,
permitindo que acompanhemos suas observações sobre os humanos. Existe uma
ironia nessa perspectiva: um gato observa pessoas que acreditam conhecê-lo,
enquanto ele próprio parece conhecer muito mais sobre elas do que elas
imaginam.
A
Freguesia do Ó também ganha importância nesse processo. O filme não precisa
transformar seus personagens em grandes figuras extraordinárias. São pessoas
comuns, vivendo em um bairro comum, com suas casas, seus hábitos e suas
pequenas histórias. É justamente essa proximidade com o cotidiano que permite
que o espectador reconheça algumas dessas características em pessoas que
conhece ou até em si próprio.
Com
bons recursos técnicos, narrativos e dramáticos, “Sete Vidas” é um Drama
sensível que utiliza o humor para apresentar a si mesmo através de Tchê, um
escritor transformado em gato, suas vontades e preferências, mas também os
pontos sensíveis de pessoas comuns, que vivem em bairros comuns e enfrentam
sentimentos que estão longe de ser incomuns.
No fim, a grande questão talvez nem seja descobrir quem é o verdadeiro dono de Tchê. O mais interessante é perceber por que tantas pessoas precisam acreditar que aquele gato pertence a elas. Cada uma encontra no animal uma companhia, uma projeção ou uma possibilidade de afeto. E talvez seja justamente por isso que o gato tenha tantas vidas: porque, ao passar pela vida de cada pessoa, ele assume um significado diferente.
“Sete
Vidas” transforma uma situação curiosa e bem-humorada em uma observação
delicada sobre solidão, afeto, pertencimento e relações humanas. É um filme que
consegue falar de pessoas através de um gato e, principalmente, utilizar um
personagem aparentemente simples para mostrar que, por trás das pequenas
histórias do cotidiano, existem sempre desejos, carências e necessidades muito
maiores.





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