Com roteiro de Marco Fé e direção
do roteirista junto com Sérgio Spina, “Congá” é um filme de denúncia, mas
também de afirmação. “Congá” parte diretamente de uma questão: a intolerância
contra as religiões de matriz africana no Brasil. A obra não se limita a
apresentar a violência sofrida por essas tradições, mas procura também
reafirmar sua importância cultural, religiosa e histórica.
Na
ocasião do lançamento, Marco Fé explicou que o filme pretendia dar voz a um
povo que luta pelo respeito à sua cultura há séculos, enquanto Sérgio Spina
destacou a intenção de produzir novas formas de pensar, ouvir e falar através
do audiovisual. Isso é importante porque o filme não coloca essas religiões
apenas na posição de vítimas. Ele também as apresenta como expressões de
cultura, identidade, memória e resistência, mostrando que existe uma história
que precisa ser conhecida e respeitada.
“Congá” não é um título escolhido apenas por sua sonoridade. O congá, especialmente no contexto da Umbanda, é associado ao altar ou espaço sagrado onde se encontram diferentes referências religiosas e espirituais. Estudos sobre a Umbanda descrevem justamente essa riqueza de elementos presentes no congá. Isso dá ao título uma força simbólica e faz com que ele esteja diretamente relacionado ao universo que o curta pretende apresentar.
O
filme fala sobre aquilo que acontece quando uma sociedade olha para um espaço
religioso e, em vez de enxergar fé e pertencimento, enxerga algo que deve ser
combatido. O próprio nome do filme já desloca o olhar para dentro desse espaço,
permitindo que o espectador conheça aquilo que tantas vezes é alvo de
preconceito sem sequer ser compreendido.
Mesclando elementos dos gêneros Documentário e Drama, Marco Fé e Sérgio Spina constroem uma obra forte, intensa e que traz uma reflexão extremamente relevante para o debate público sobre as violências sofridas pelas religiões de matriz africana. A combinação dos gêneros permite que a denúncia seja acompanhada por uma dimensão mais humana e sensível.
Essa
reflexão procura diferenciar o “não concordar com uma religião” e o “perseguir
alguém por sua religião”. A intolerância aparece quando a diferença deixa de
ser aceita como diferença e passa a ser tratada como ameaça. No caso das
religiões de matriz africana, isso se cruza historicamente com questões raciais
e culturais. A perseguição não pode ser compreendida simplesmente como uma
divergência entre crenças, porque envolve uma história mais profunda de
exclusão e marginalização.
Existe
uma dimensão de racismo religioso. Essa expressão é importante porque ajuda a
compreender que a violência contra terreiros e seus praticantes não ocorre em
um vazio histórico. Há uma longa trajetória de marginalização dessas tradições
no Brasil, e o filme contribui para colocar essa realidade diante do
espectador.
O
curta pode ser interpretado também como uma defesa da memória. As religiões de
matriz africana carregam histórias, símbolos, músicas, rituais, conhecimentos e
formas de compreender o mundo que foram transmitidos através das gerações.
Preservar esses elementos significa preservar experiências que fazem parte da
formação cultural brasileira.
Quando
um terreiro é atacado, portanto, não está sendo atingido somente um prédio.
Está sendo atingido um lugar de memória e transmissão cultural. Essa
perspectiva amplia o alcance do filme: proteger essas religiões significa
também proteger uma parte da própria história brasileira.
A
presença de Leci Brandão é particularmente significativa. Ela esteve
diretamente envolvida no lançamento da obra na Assembleia Legislativa de São
Paulo. Isso aproxima o filme de uma tradição de arte e militância cultural.
Leci não aparece simplesmente como uma personalidade conhecida emprestando seu
nome ao projeto. Sua presença dialoga com a própria temática de defesa das
religiões afro-brasileiras e da cultura negra, reforçando a dimensão pública da
mensagem.
A
narrativa poética é uma escolha extremamente importante por parte dos
realizadores. Isso é interessante porque o filme poderia simplesmente
apresentar uma sucessão de depoimentos ou denúncias. A opção por uma abordagem
poética permite trabalhar a questão de maneira menos jornalística e mais
sensorial. O filme não precisa apenas informar que existe intolerância. Ele
procura provocar uma sensação, criar uma reflexão e aproximar o espectador de
uma realidade que talvez desconheça.
Dessa
forma, os trabalhos técnicos da direção de fotografia e de arte são
fundamentais para a qualidade do filme. Com closes, detalhes, planos abertos ou
fechados e com as estruturas de objetos, figurinos e locações, o curta consegue
inserir o espectador no universo proposto pelos diretores. Isso é importante
porque, ao mesmo tempo em que apresenta os elementos característicos dessas
religiões, oferece ao público não praticante uma possibilidade de conhecimento
e aproximação.
Trilha
sonora e montagem também se destacam por aprofundar a experiência sensorial do
espectador. Todos os pontos de sons e imagens estão perfeitamente alinhados. E
a narração de Leci Brandão é extremamente potente para transmitir as
informações necessárias, acrescentando força à construção da mensagem.
O curta coloca o espectador diante de uma pergunta essencial: por que a fé do outro incomoda tanto? Não se trata de perguntar qual religião está certa. A pergunta é anterior a isso. Por que alguém precisa destruir, humilhar ou atacar aquilo o que outra pessoa acredita? O filme propõe que a resposta está menos na religião atacada e mais na intolerância daquele que não consegue aceitar a existência da diferença.
O
filme também fala sobre liberdade de crença e fé. Liberdade religiosa não
significa apenas ter autorização para professar uma fé. Significa poder existir
publicamente sem medo de violência ou perseguição. Essa dimensão é importante
porque a intolerância transforma uma liberdade constitucional em uma
experiência concreta de insegurança. O terreiro deveria ser um espaço de fé.
Quando seus praticantes precisam se preocupar com ataques, ameaças ou
discriminação, essa liberdade deixa de ser plena. Assim, “Congá” pode ser
entendido como uma defesa do direito de crer, praticar e pertencer.
O
filme também tem na resistência uma palavra-chave. Marco Fé afirmou, na
divulgação do lançamento, que esperava que a mensagem do filme levasse “paz,
amor, união” e, sobretudo, uma mensagem de resistência.
Resistir, nesse contexto, não significa apenas reagir à violência. Significa continuar existindo, continuar praticando, continuar transmitindo conhecimento, continuar cantando, celebrando e mantendo uma tradição viva apesar daqueles que tentam apagá-la. A própria existência de um filme como “Congá” pode ser entendida como parte dessa resistência, pois transformar essa realidade em obra audiovisual também significa disputar espaço para essas vozes.
Uma
qualidade potencialmente importante do curta é que ele não depende de o
espectador ser praticante ou estudioso de Umbanda, Candomblé ou outras
tradições afro-brasileiras. A questão central é mais universal: o direito à
diferença. Você pode não compartilhar determinada fé e ainda reconhecer que
seus praticantes têm direito de exercê-la. Essa é talvez uma das mensagens mais
importantes do filme.
“Congá”
pede que o espectador reconheça sua legitimidade. Ele parte da intolerância
para chegar a uma defesa da identidade. Parte da violência para falar de
resistência. Parte do preconceito para defender a convivência. E isso é
importante porque o filme não precisa convencer o espectador de que determinada
religião é verdadeira. A questão é outra: a fé de uma pessoa não precisa ser a
minha para que eu reconheça seu direito de existir.





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