sexta-feira, 23 de outubro de 2026

MAUÁ – LUZ AO REDOR (2012)

 


        Com direção e roteiro de Juliana Vicente, “Mauá – Luz ao Redor” apresenta a ocupação da comunidade Mauá, no centro de São Paulo. No entorno da Rua Mauá encontra-se a vida das 230 famílias que habitam a ocupação de um prédio que estava abandonado. Mais do que apresentar simplesmente um espaço ocupado, o documentário registra pessoas que transformaram aquele edifício em lugar de moradia, convivência e construção de uma nova rotina.

         O ponto central do curta gira em torno da ocupação como lugar de moradia, não simplesmente como “prédio ocupado”. O documentário desloca o olhar da palavra “ocupação”. O termo frequentemente faz pensar apenas no ato de tomar um imóvel, mas o filme apresenta aquilo que foi construído dentro dele: relações, rotina, trabalho, estudo, convivência e pertencimento. Pesquisas posteriores sobre a Mauá mostram justamente essa transformação do antigo Hotel Santos Dumont em espaço habitacional e comunitário. Isso abre uma questão interessante: quando um prédio deixa de ser apenas propriedade e passa a ser casa? A resposta não está somente na estrutura física, mas na vida que passa a existir dentro daquele espaço.

        A vida dos moradores não está confinada ao edifício. A localização central interfere diretamente na existência dessas pessoas. A câmera pode ser pensada, portanto, não apenas como observadora da ocupação, mas como instrumento que mostra a relação entre moradia e cidade. A Mauá não é um lugar isolado: está diante da Estação da Luz, cercada por transporte, comércio, serviços e outras instituições. Estar ali significa ter acesso a uma parte da cidade que muitas vezes permanece distante para populações que precisam morar nas regiões periféricas.

         Daí surge uma questão maior: quem pode morar no centro de São Paulo? O documentário permite pensar a cidade não somente como espaço físico, mas como espaço de disputa. Há imóveis abandonados e, simultaneamente, pessoas sem moradia. A ocupação cria justamente esse choque entre propriedade, abandono, necessidade e função social. Estudos sobre a Mauá tratam a experiência como parte de uma disputa mais ampla pelo direito à cidade e pela habitação de interesse social. O filme transforma essa discussão abstrata em uma realidade concreta, formada por famílias que vivem naquele espaço.

        Tanto os depoimentos de moradores quanto de Mano Brown trazem a reflexão de que o desejo dos que detêm o poder financeiro e político é manter os que não têm direitos longe do centro, do trabalho, de hospitais e, automaticamente, longe de ter dignidade. A questão habitacional aparece, assim, ligada a outras formas de desigualdade. Morar longe significa também enfrentar maiores deslocamentos e dificuldades para acessar serviços e oportunidades.

         O filme mostra como a ameaça de despejo muda o significado de tudo. A ameaça não precisa ser apresentada apenas como um acontecimento futuro. Ela contamina aquilo que já foi conquistado. Uma família que conseguiu estabelecer uma rotina pode perder não apenas quatro paredes, mas escola, trabalho, vizinhança, amizades e referências. É interessante observar como o filme trabalha essa ideia de deslocamento como destruição de uma rede de vida, e não simplesmente como mudança de endereço.

         Merece destaque um trecho da sinopse: “Pessoas que não querem retornar à condição de sem-tetos”. Existe uma diferença entre estar sem moradia e ter conquistado uma moradia, mesmo quando essa moradia está dentro de uma ocupação. A resistência dos moradores não se resume à defesa de um imóvel específico, mas também envolve a recusa de voltar a uma condição anterior. O próprio contexto posterior da Mauá mostra moradores realizando reformas e melhorias no edifício, transformando progressivamente o espaço. Essas mudanças reforçam a ideia de que o local deixou de ser apenas uma estrutura abandonada e passou a carregar marcas de quem vive ali.

         Vale observar a trajetória de Juliana Vicente. Antes e depois desse trabalho, ela realizou outros documentários ligados a questões sociais e, especialmente, ao cotidiano de comunidades e grupos historicamente marginalizados. “Leva”, dirigido por ela e Luiza Marques, também acompanha a vida em uma ocupação no centro de São Paulo.

        Isso permite refletir sobre a maneira como Juliana constrói um cinema interessado não apenas em denunciar uma situação, mas em dar visibilidade à vida existente dentro dela. Juliana dá voz a populações excluídas e marginalizadas. Um exemplo é “Vaca Profana”, que tem direção de René Guerra e Juliana como produtora. No belíssimo Drama, a abordagem reflete sobre a maternidade por parte de uma mulher trans. Em trabalhos diferentes, existe esse interesse por personagens e grupos que muitas vezes permanecem fora das representações mais convencionais.

         Com elementos técnicos muito bem empregados, Juliana Vicente constrói um filme rico para reflexões sobre a questão habitacional no Brasil. Montagem, fotografia e trilha sonora trabalham para mover um tema profundo em poucos minutos. A linguagem cinematográfica contribui para aproximar o espectador da realidade dos moradores sem transformar a questão em uma discussão puramente abstrata.

         O filme registra a Mauá em determinado momento de sua história, quando as famílias passaram a ocupar o edifício. Mas a história da ocupação continuou. Anos depois, a Mauá ainda era habitada por centenas de famílias e continuava envolvida em disputas relacionadas à regularização e à habitação. Essa continuidade dá ao curta uma dimensão ainda maior: aquilo que vemos não é uma história encerrada, mas um momento do início de uma luta que ainda continua viva.



       

Nenhum comentário:

Postar um comentário

MAUÁ – LUZ AO REDOR (2012)

            Com direção e roteiro de Juliana Vicente, “Mauá – Luz ao Redor” apresenta a ocupação da comunidade Mauá, no centro de São Paulo....