Com produção, roteiro, direção e
fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é
originalmente um longa-metragem que tinha aproximadamente 120 minutos e foi
realizado em sete partes, mas a cópia integral desapareceu. A versão atualmente
acessível tem cerca de 24 minutos. A identificação desse material na Cinemateca
Brasileira ocorreu apenas em 1988. Portanto, um aspecto fundamental é que o
filme precisa ser analisado simultaneamente como obra cinematográfica e como
documento histórico.
A
grande intenção de Walfredo Rodrigues era mostrar um Nordeste diferente daquele
imaginado pelo restante do país. As cartelas do filme deixam isso bastante
evidente. O Nordeste aparece como território de riqueza natural, atividade
econômica, cidades, costumes e diversidade. Não se trata apenas de registrar
paisagens, mas de apresentar uma região que possui uma identidade própria e
múltiplas formas de vida.
“Sob o Céu Nordestino” pode ser visto como um dos primeiros grandes esforços cinematográficos para construir uma imagem da Paraíba através do próprio cinema. Walfredo percorre cidades, paisagens, estradas, apresenta atividades econômicas e manifestações culturais, criando uma espécie de inventário visual do estado.
A
diversidade das localidades como Umbuzeiro, Borborema, Bananeiras, Araruna,
Campina Grande, Patos, Santa Luzia e Cabedelo impede que o Nordeste seja
apresentado como um espaço homogêneo. Há, portanto, uma relação interessante
entre cinema e identidade regional: filmar esses lugares também significa
afirmar que eles merecem ser vistos, registrados e lembrados.
O
Nordeste tradicionalmente foi representado por determinados elementos, como
seca, pobreza, sertão e sofrimento. Walfredo, porém, constrói uma visão muito
mais ampla. O filme mostra cidades, comércio, agricultura, vaquejada, feiras,
litoral e pesca da baleia. A própria variedade geográfica já funciona como
resposta ao estereótipo.
É
interessante perceber que isso não significa que o filme ignore as dificuldades
da região. A questão é outra: ele se recusa a transformar a dificuldade em
definição absoluta do Nordeste. Nesse sentido, existe uma outra dimensão no ato
de filmar. Registrar uma região também é disputar a maneira como ela será
lembrada e imaginada.
Do ponto de vista histórico da linguagem, vale observar que estamos diante de um documentário dos anos 1920, quando as possibilidades do gênero ainda eram bastante diferentes das que conhecemos hoje. Não há entrevistas ou depoimentos no sentido contemporâneo. A informação é organizada pelo próprio filme. Walfredo não está tentando apenas observar. Ele permite que o espectador veja e conheça a cultura, a tradição e a história.
Um
aspecto técnico que merece atenção é o uso de cartelas, mapas e informações
geográficas. Elas não funcionam apenas como legendas explicativas. Ajudam a
organizar o enorme território percorrido pelo filme e transformam o espaço em
elemento narrativo. Uma leitura contemporânea pode até achar algumas dessas
explicações excessivamente didáticas, mas é preciso considerar sua função
naquele contexto: o filme precisava apresentar uma região ao público na década
de 1920. Por isso, os mapas e textos fazem parte da própria estratégia de construção
do Nordeste que Walfredo pretendia realizar.
A
presença do comércio de algodão, da feira de Campina Grande e da pesca da
baleia é particularmente significativa. Walfredo não olha apenas para paisagens
ou costumes. Ele registra atividades econômicas, mostrando circulação de
mercadorias, trabalho e formas de produção. Isso fortalece a ideia de um
Nordeste economicamente ativo e conectado.
Há algo quase aventureiro no projeto. Walfredo percorreu a Paraíba durante anos, em condições bastante precárias, utilizando diferentes meios de transporte e buscando registrar localidades que ainda estavam longe de possuir uma representação cinematográfica sistemática. Isso dá às imagens um valor particular. Hoje podemos simplesmente viajar para uma cidade e fotografá-la. Na década de 1920, colocar uma câmera em determinados lugares e produzir uma documentação cinematográfica era uma operação muito mais complexa. Assim, existe uma espécie de gesto de descoberta no filme: a câmera está descobrindo lugares para o próprio cinema brasileiro.
Um
elemento que se perdeu foi a mistura de documentário e ficção. A obra original
possuía um prólogo ficcional, com Braz Cantizani e Eleonora Cantizani, embora o
restante fosse essencialmente documental. Isso quebra a ideia de que o
documentário de Walfredo seria apenas um registro objetivo. A ficção aparece
associada à própria ideia de formação histórica, incluindo a presença indígena,
segundo a descrição da obra. Portanto, o diretor mistura reconstrução,
encenação e observação documental. Isso também mostra que a fronteira entre
documentário e ficção já era mais fluida do que às vezes imaginamos quando
pensamos no cinema dos anos 1920.
“Sob
o Céu Nordestino” é evidentemente um documento histórico, mas reduzi-lo a isso
seria perder parte de sua força. Walfredo Rodrigues estava fazendo algo
bastante ambicioso: usar o cinema para construir uma memória visual de sua
terra. Ele queria mostrar o Nordeste, mas também queria que determinadas
imagens permanecessem.
E existe uma ironia poderosa no fato de que o filme tenha sobrevivido apenas parcialmente. A obra que pretendia preservar cidades, pessoas, paisagens e costumes acabou precisando, ela mesma, ser preservada. Por isso, talvez o que mais impressione hoje não seja apenas aquilo que vemos, mas a consciência de tudo aquilo que não podemos mais ver.
O
fragmento de 24 minutos funciona, então, em duas direções: é uma janela para a
Paraíba dos anos 1920 e, simultaneamente, uma lembrança da fragilidade da
própria memória cinematográfica. E talvez seja justamente aí que “Sob o Céu
Nordestino” adquira sua maior importância: Walfredo Rodrigues não apenas
registrou um Nordeste que existia. Ele deixou para o futuro vestígios de um
Nordeste que já não existe exatamente daquela maneira.





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