sexta-feira, 30 de outubro de 2026

TRIPOFOBIA (2019)

 


        Com direção e roteiro de André Juarez Parolin, “Tripofobia” se apresenta como uma obra que ultrapassa os limites convencionais da narrativa de horror para mergulhar em um território marcado pelo simbolismo, pela abstração e pela experiência sensorial. Em vez de organizar seus acontecimentos a partir de uma lógica cronológica tradicional, o curta constrói um universo fragmentado, onde imagens, sons e repetições assumem papel central na produção de significado.

         O filme acompanha dois homens aparentemente desconectados entre si. Um deles permanece isolado em um ambiente escuro, escrevendo compulsivamente a palavra “tripofobia” em uma folha de papel. O outro encontra-se acorrentado e submetido à presença de uma criatura grotesca que parece manipular tanto seu corpo quanto seu sofrimento. Entre esses dois espaços surge uma ampulheta preenchida por areia negra, elemento que funciona como eixo visual, narrativo e simbólico da obra.

        A ausência de diálogos revela uma decisão formal extremamente coerente com a proposta do filme. “Tripofobia” não busca explicar sua realidade por meio da palavra. Pelo contrário, transfere a responsabilidade da construção de sentido para a fotografia, o desenho de som, a montagem e a performance física dos atores. Essa escolha ajuda a compreender os reconhecimentos recebidos pelo curta, vencedor dos prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Som no Curta Suzano e pré-selecionado ao prêmio de Melhor Fotografia da Associação Brasileira de Cinematografia.

         A fotografia de Vitor Meloni desempenha papel fundamental nessa construção. Os espaços escuros e isolados produzem uma sensação constante de confinamento, enquanto a iluminação limitada por velas e pequenas fontes de luz transforma cada ambiente em uma extensão do estado psicológico dos personagens. Não se trata apenas de criar atmosfera. A própria composição visual participa da construção temática do filme, reforçando ideias de aprisionamento, impotência e deterioração.

            Nesse contexto, a criatura surge como um dos elementos mais complexos da narrativa. Embora sua aparência remeta imediatamente ao horror físico, sua função parece ultrapassar a condição de antagonista tradicional. Ela pode ser compreendida como uma manifestação do medo, uma projeção psíquica ou mesmo uma força responsável pela manutenção daquele universo. O fato de controlar a ampulheta e reiniciar continuamente sua contagem sugere uma ligação direta com o tempo, com o destino e com a própria lógica de repetição que estrutura a obra.

         Os agrupamentos de pequenos buracos presentes tanto na criatura quanto nos personagens constituem outro símbolo central. Em vez de servirem apenas como referência visual à tripofobia, eles passam a operar como sinais de uma contaminação progressiva. O horror deixa de ser uma simples reação emocional e adquire materialidade. Os buracos espalham-se, transformam os corpos e estabelecem uma relação física entre vítima e entidade. Nesse sentido, a criatura não apenas provoca a transformação. Ela parece ser a própria origem dela.

         A ampulheta representa talvez a imagem mais poderosa do curta. Inicialmente associada à passagem do tempo, ela gradualmente assume uma função muito mais profunda. Quando a criatura a vira e reinicia sua contagem, a ideia de encerramento desaparece. O tempo deixa de apontar para uma conclusão e passa a representar um mecanismo de aprisionamento. O sofrimento torna-se cíclico. A condenação torna-se permanente. O horror passa a existir dentro de uma estrutura temporal que não oferece saída.

        Essa lógica da repetição atravessa toda a obra. Ela aparece na escrita obsessiva da palavra “tripofobia”, na recorrência dos espaços, na propagação dos buracos e na própria dinâmica temporal estabelecida pela ampulheta. A repetição não funciona apenas como recurso narrativo. Ela constitui o princípio organizador do filme. Tudo retorna. Tudo recomeça. Tudo parece condenado a perpetuar-se indefinidamente.

         A relação entre os dois homens também abre espaço para interpretações particularmente interessantes. Embora o filme os apresente como indivíduos distintos, a narrativa permite enxergá-los como manifestações diferentes de uma mesma condição. O homem que escreve compulsivamente poderia representar a dimensão mental do sofrimento, enquanto o homem acorrentado encarnaria sua manifestação física. O filme jamais confirma essa hipótese, mas também nunca a invalida, preservando sua natureza ambígua e interpretativa.

         A repetição da palavra “tripofobia” merece atenção especial. Mais do que um simples gesto obsessivo, a escrita assume características ritualísticas. O personagem parece tentar compreender aquilo que o atormenta através da linguagem. No entanto, quando o papel é consumido pelo fogo, o filme sugere o fracasso dessa tentativa. Nomear o medo não significa controlá-lo. A palavra desaparece, mas a contaminação permanece.

       Uma das maiores qualidades de “Tripofobia” está justamente em sua recusa em fornecer explicações definitivas. André Juarez Parolin apresenta consequências, mas evita revelar suas causas. O espectador testemunha sofrimento, transformação e deterioração sem jamais receber todas as respostas necessárias para reconstruir completamente sua origem. Essa ausência deliberada de explicações amplia a força do horror, pois transforma o desconhecido em parte essencial da experiência.

         Ao transitar entre Terror, Suspense e Cinema Experimental, “Tripofobia” constrói uma obra que privilegia sensações em detrimento da causalidade tradicional. Sua narrativa opera através de associações entre imagens, sons e símbolos, convidando o espectador a participar ativamente da construção de significado.

         Com fotografia marcante, desenho de som excepcional, direção de arte eficiente, montagem precisa e excelente maquiagem de efeitos, o curta transforma uma fobia em linguagem cinematográfica. Mais do que uma história sobre medo, “Tripofobia” torna-se uma experiência sobre contaminação, repetição e aprisionamento, consolidando-se como uma das propostas mais singulares e interpretativamente ricas do Terror brasileiro em curta-metragem.




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