Com direção e roteiro de André
Juarez Parolin, “Tripofobia” se apresenta como uma obra que ultrapassa os
limites convencionais da narrativa de horror para mergulhar em um território
marcado pelo simbolismo, pela abstração e pela experiência sensorial. Em vez de
organizar seus acontecimentos a partir de uma lógica cronológica tradicional, o
curta constrói um universo fragmentado, onde imagens, sons e repetições assumem
papel central na produção de significado.
O
filme acompanha dois homens aparentemente desconectados entre si. Um deles
permanece isolado em um ambiente escuro, escrevendo compulsivamente a palavra
“tripofobia” em uma folha de papel. O outro encontra-se acorrentado e submetido
à presença de uma criatura grotesca que parece manipular tanto seu corpo quanto
seu sofrimento. Entre esses dois espaços surge uma ampulheta preenchida por
areia negra, elemento que funciona como eixo visual, narrativo e simbólico da
obra.
A ausência de diálogos revela uma decisão formal extremamente coerente com a proposta do filme. “Tripofobia” não busca explicar sua realidade por meio da palavra. Pelo contrário, transfere a responsabilidade da construção de sentido para a fotografia, o desenho de som, a montagem e a performance física dos atores. Essa escolha ajuda a compreender os reconhecimentos recebidos pelo curta, vencedor dos prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Som no Curta Suzano e pré-selecionado ao prêmio de Melhor Fotografia da Associação Brasileira de Cinematografia.
A
fotografia de Vitor Meloni desempenha papel fundamental nessa construção. Os
espaços escuros e isolados produzem uma sensação constante de confinamento,
enquanto a iluminação limitada por velas e pequenas fontes de luz transforma
cada ambiente em uma extensão do estado psicológico dos personagens. Não se
trata apenas de criar atmosfera. A própria composição visual participa da
construção temática do filme, reforçando ideias de aprisionamento, impotência e
deterioração.
Nesse contexto, a criatura surge como um dos elementos mais complexos da narrativa. Embora sua aparência remeta imediatamente ao horror físico, sua função parece ultrapassar a condição de antagonista tradicional. Ela pode ser compreendida como uma manifestação do medo, uma projeção psíquica ou mesmo uma força responsável pela manutenção daquele universo. O fato de controlar a ampulheta e reiniciar continuamente sua contagem sugere uma ligação direta com o tempo, com o destino e com a própria lógica de repetição que estrutura a obra.
Os
agrupamentos de pequenos buracos presentes tanto na criatura quanto nos
personagens constituem outro símbolo central. Em vez de servirem apenas como
referência visual à tripofobia, eles passam a operar como sinais de uma
contaminação progressiva. O horror deixa de ser uma simples reação emocional e
adquire materialidade. Os buracos espalham-se, transformam os corpos e
estabelecem uma relação física entre vítima e entidade. Nesse sentido, a
criatura não apenas provoca a transformação. Ela parece ser a própria origem
dela.
A
ampulheta representa talvez a imagem mais poderosa do curta. Inicialmente
associada à passagem do tempo, ela gradualmente assume uma função muito mais
profunda. Quando a criatura a vira e reinicia sua contagem, a ideia de
encerramento desaparece. O tempo deixa de apontar para uma conclusão e passa a
representar um mecanismo de aprisionamento. O sofrimento torna-se cíclico. A
condenação torna-se permanente. O horror passa a existir dentro de uma
estrutura temporal que não oferece saída.
Essa lógica da repetição atravessa toda a obra. Ela aparece na escrita obsessiva da palavra “tripofobia”, na recorrência dos espaços, na propagação dos buracos e na própria dinâmica temporal estabelecida pela ampulheta. A repetição não funciona apenas como recurso narrativo. Ela constitui o princípio organizador do filme. Tudo retorna. Tudo recomeça. Tudo parece condenado a perpetuar-se indefinidamente.
A
relação entre os dois homens também abre espaço para interpretações
particularmente interessantes. Embora o filme os apresente como indivíduos
distintos, a narrativa permite enxergá-los como manifestações diferentes de uma
mesma condição. O homem que escreve compulsivamente poderia representar a
dimensão mental do sofrimento, enquanto o homem acorrentado encarnaria sua
manifestação física. O filme jamais confirma essa hipótese, mas também nunca a
invalida, preservando sua natureza ambígua e interpretativa.
A
repetição da palavra “tripofobia” merece atenção especial. Mais do que um
simples gesto obsessivo, a escrita assume características ritualísticas. O
personagem parece tentar compreender aquilo que o atormenta através da
linguagem. No entanto, quando o papel é consumido pelo fogo, o filme sugere o
fracasso dessa tentativa. Nomear o medo não significa controlá-lo. A palavra
desaparece, mas a contaminação permanece.
Uma das maiores qualidades de “Tripofobia” está justamente em sua recusa em fornecer explicações definitivas. André Juarez Parolin apresenta consequências, mas evita revelar suas causas. O espectador testemunha sofrimento, transformação e deterioração sem jamais receber todas as respostas necessárias para reconstruir completamente sua origem. Essa ausência deliberada de explicações amplia a força do horror, pois transforma o desconhecido em parte essencial da experiência.
Ao
transitar entre Terror, Suspense e Cinema Experimental, “Tripofobia” constrói
uma obra que privilegia sensações em detrimento da causalidade tradicional. Sua
narrativa opera através de associações entre imagens, sons e símbolos,
convidando o espectador a participar ativamente da construção de significado.
Com
fotografia marcante, desenho de som excepcional, direção de arte eficiente,
montagem precisa e excelente maquiagem de efeitos, o curta transforma uma fobia
em linguagem cinematográfica. Mais do que uma história sobre medo, “Tripofobia”
torna-se uma experiência sobre contaminação, repetição e aprisionamento,
consolidando-se como uma das propostas mais singulares e interpretativamente
ricas do Terror brasileiro em curta-metragem.





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