quarta-feira, 4 de novembro de 2026

AURORA: A RUA QUE QUERIA SER UM RIO (2021)


        Contemplado pelo edital Histórias de Bairros de São Paulo, o curta-metragem de animação "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" apresenta uma proposta bastante original ao transformar uma rua da capital paulista em personagem principal da própria história. Com roteiro e direção de Radhi Meron, o filme acompanha as memórias, os sentimentos e as transformações da Rua Aurora, revelando suas origens, suas conquistas e também suas tristezas diante do abandono sofrido ao longo dos anos.

         Com narração de Priscila Paes, a obra utiliza a primeira pessoa para dar voz à rua, como se ela própria pudesse contar sua trajetória desde os tempos em que ainda fazia parte de uma cidade em formação. Essa escolha narrativa cria uma relação afetiva entre o espaço urbano e o espectador, permitindo compreender que uma rua não é apenas um caminho de passagem, mas também um lugar carregado de histórias, pessoas e acontecimentos que ajudam a construir a identidade de uma cidade.

        A Rua Aurora representa muitas regiões centrais das grandes cidades brasileiras. Locais que, em determinado momento histórico, tiveram grande importância econômica e social, concentrando comércio, moradias e circulação de pessoas, mas que posteriormente passaram por processos de degradação e abandono. O filme apresenta justamente esse contraste: a rua que um dia foi valorizada pela cidade agora observa, melancolicamente, que muitos parecem ter esquecido sua importância. É nesse sentimento de abandono que surge uma das perguntas mais marcantes da animação: “você já viu uma rua morrer?”.

         Ao mesmo tempo em que apresenta suas dores, "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" também resgata com orgulho o passado da personagem principal. O curta relembra sua importância na formação da cidade de São Paulo, suas primeiras construções, seus comércios e sua função como espaço de circulação de mercadorias e pessoas. Através de diferentes técnicas de animação, que passam por desenhos mais simples, imagens detalhadas e até stop-motion, o filme acompanha a transformação da rua ao longo dos séculos.

        Essa evolução visual acompanha também uma reflexão bastante humana. A trajetória da Rua Aurora pode ser comparada à própria vida de muitas pessoas: existe um período inicial marcado pelas descobertas e pelos sonhos, seguido pelo crescimento, pelas conquistas e, posteriormente, pelas perdas e frustrações. Assim como indivíduos podem sentir que perderam seu espaço ou seu reconhecimento, lugares históricos também podem carregar essa sensação de esquecimento.

         A obra também provoca uma discussão maior sobre a relação do brasileiro com sua própria memória. Muitas vezes, cidades, bairros e ruas antigas são tratados apenas como espaços físicos, esquecendo-se que cada construção carrega histórias de gerações inteiras. Ao dar voz à Rua Aurora, o curta mostra que preservar a memória urbana significa também preservar parte da identidade de uma sociedade.

         Apesar da tristeza causada pelo abandono, o filme não termina em desesperança. A Rua Aurora ainda encontra uma possibilidade de renovação e consegue realizar seu sonho. Essa mensagem abre espaço para pensar em outras regiões brasileiras que também enfrentam processos semelhantes. Muitas áreas históricas podem ser recuperadas através de planejamento urbano, investimentos públicos e iniciativas como o retrofit, técnica cada vez mais utilizada para revitalizar construções antigas sem apagar sua história.

        "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" é uma animação sensível sobre memória, transformação e pertencimento. Mais do que contar a história de uma rua específica, Radhi Meron cria uma reflexão sobre todas as ruas, bairros e cidades que carregam histórias importantes, mas que muitas vezes são esquecidos pelo próprio tempo.

         A obra nos lembra que valorizar uma cidade não significa apenas construir novos espaços, mas também reconhecer aqueles que ajudaram a formar sua identidade. Afinal, cada rua possui suas próprias lembranças, e algumas delas ainda têm muitos sonhos para realizar. 

        "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" está disponível no Mubi.


BRASIL – FEB NA ITÁLIA (1952)

 


        Com direção de Jean Manzon, “Brasil – FEB na Itália” é um filme sobre a guerra feito depois da guerra. O primeiro ponto que merece destaque é justamente essa distância temporal. A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, enquanto o filme é de 1952. Portanto, não estamos diante de um registro produzido simplesmente no calor dos acontecimentos, mas de uma reconstrução da memória da participação brasileira no conflito.

         O filme pode ser analisado como uma forma de construir e consolidar uma determinada imagem dos pracinhas. A narrativa sobre a entrada do Brasil na guerra, a campanha italiana, o retorno e as homenagens organiza os acontecimentos dentro de uma trajetória relativamente clara: decisão, combate, vitória, retorno e reconhecimento. O diretor escolhe privilegiar a dimensão heroica e patriótica da experiência, deixando em segundo plano contradições, dificuldades, medo, despreparo ou sofrimento individual.

        Jean Manzon tinha uma trajetória ligada ao fotojornalismo e, a partir do início dos anos 1950, passou a dedicar-se à produção de documentários por meio da Jean Manzon Films. Estudos sobre sua obra destacam justamente a relação de seus filmes com propaganda, instituições públicas e interesses privados. Esse histórico é importante para compreender que suas imagens não podem ser observadas apenas como registros neutros da realidade.

         Isso não significa simplesmente chamar o filme de “propaganda” e encerrar a análise. O mais interessante é perguntar como a linguagem cinematográfica transforma uma versão da história em algo que parece naturalmente verdadeiro. A força do documentário está também nessa capacidade de organizar imagens, acontecimentos e símbolos de maneira que determinada interpretação pareça evidente. Cabe ao espectador perceber essas escolhas e interpretar o que é mostrado no curta.

         A guerra permite ao filme falar também sobre o próprio Brasil. A participação da FEB poderia ser apresentada simplesmente como um episódio militar, mas pode funcionar como uma oportunidade para construir uma imagem de Brasil moderno, integrado internacionalmente e capaz de participar de acontecimentos de dimensão mundial.

        Esse aspecto combina com uma característica atribuída à obra de Manzon: a construção de imagens de um Brasil associado ao progresso, à ordem e à ideia de grandeza nacional. Os soldados brasileiros, nesse sentido, não representam apenas indivíduos que participaram de uma guerra estrangeira. Eles também podem representar uma imagem de país que deseja afirmar sua importância diante do mundo.

         Existe uma questão histórica muito forte e, ao mesmo tempo, uma contradição em relação à entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial que não é explorada pelo filme. Os brasileiros foram enviados à Europa para combater regimes fascistas e defender os Aliados e os sistemas democráticos, enquanto o Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas, uma ditadura inspirada em elementos autoritários e corporativistas.

         Pesquisas sobre os cinejornais do período chamam atenção justamente para essa contradição: imagens da participação brasileira na guerra podiam exaltar a luta pela democracia sem necessariamente problematizar o regime autoritário existente no próprio país. É importante ressaltar que a ditadura do Estado Novo havia acabado em 1945. Porém, em 1952, ano da produção do filme, o presidente brasileiro era Getúlio Vargas, eleito democraticamente.

         É muito importante compreender a montagem como instrumento de convencimento. Manzon vinha do fotojornalismo e tinha uma preocupação bastante consciente com a composição visual. Estudos sobre sua obra destacam justamente a qualidade fotográfica, o tratamento sonoro e o uso de recursos como corte, luz, movimentos de câmera, zoom e diferentes tipos de enquadramento.

        Sendo assim, as imagens relacionam tropas, batalhas, autoridades, população e cerimônias. A ordem das imagens produz uma interpretação dos acontecimentos tão importante quanto a própria narração do filme. Uma sequência de imagens pode estabelecer relações de causa, consequência, heroísmo e pertencimento nacional sem precisar explicá-las diretamente.

         Outro elemento que merece reflexão é o que as imagens de guerra mostram e o que escondem. Um documentário histórico nunca consegue mostrar “a guerra inteira”. Ele mostra aquilo que sobreviveu e aquilo que foi escolhido para entrar no filme. Toda seleção de imagens implica também uma seleção de memória.

         Isso é particularmente importante no caso da FEB, porque posteriormente outros cineastas questionariam a imagem oficial dos expedicionários. Sylvio Back, em “Rádio Auriverde”, utilizaria materiais de arquivo para desmontar justamente determinados aspectos da narrativa heroica construída em torno da FEB. O contraste é interessante: o filme de Manzon pode ser observado como parte da construção de uma memória oficial, enquanto filmes de décadas posteriores procurariam contestar essa construção.

        O trecho dedicado ao retorno e às homenagens aos soldados merece uma atenção especial. Existe uma diferença cinematográfica importante entre mostrar a guerra e mostrar a memória da guerra. Quando os soldados voltam para casa e os mortos são homenageados, o conflito deixa de ser apenas uma experiência militar e passa a ser incorporado ao ritual público da nação. O filme utiliza cerimônias, pessoas comuns, autoridades, bandeiras e monumentos para transformar a experiência individual dos soldados em memória coletiva e patriotismo.

         “Brasil – FEB na Itália” possui valor evidente como documento histórico sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, mas também é um documento sociopolítico sobre a maneira como o Brasil queria lembrar essa participação.

         Essa distinção é fundamental: o filme não é apenas uma janela para 1944–1945. Ele também é uma produção de 1952, realizada por um cineasta com uma determinada concepção de documentário e destinada a um público daquele período. Portanto, é necessário compreender o contexto político e social do Brasil na década de 1950 para não reduzir o documentário a uma simples peça de propaganda. Seu interesse está justamente na tensão entre aquilo que registra e a maneira como escolhe construir esse registro.




AURORA: A RUA QUE QUERIA SER UM RIO (2021)

          Contemplado pelo edital Histórias de Bairros de São Paulo, o curta-metragem de animação "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio...