Carregando uma profunda carga
alegórica, “Um Animal Menor” tem, desde o seu início uma atmosfera densa,
opressora e claustrofóbica. Uma mulher desperta ferida dentro de um poço. Sem
saber como foi parar ali, passa a ter a companhia de José, um garoto que surge
do lado de fora do poço e lhe promete trazer ajuda.
Antes
de mais nada, é necessário enfatizar as ótimas atuações de Elisa Volpatto e
Jorge Júnior. O entrosamento da dupla é um destaque extremamente positivo para
a construção do enredo.
Com
roteiro e direção de Marcos E. Contreras e Pedro Harres, “Um Animal Menor” leva
o espectador para uma profunda imersão num universo psicológico complexo e
cheio de simbolismos. A trama, aparentemente simples, envolve uma gama de
camadas e significados que se revelam ao longo do curta.
A relação de opressão a que José sujeita a mulher tem elementos subjetivos e interpretativos. Porém, o relacionamento entre eles é abusivo e tóxico. E os realizadores exploram muito bem os labirintos da mente humana, tanto na figura do opressor quanto na do oprimido.
Assim
como a protagonista, não sabemos como ela foi parar no poço, um espaço escuro e
claustrofóbico, assim como o estado mental de uma pessoa que vive num
relacionamento tóxico e abusivo. José promete tirar-lhe daquela situação. Em
alguns momentos, onde oferece comida e remédios, ele brinca com a corda,
baixando e levantando, se divertindo com o sofrimento da mulher. Se, por um
lado, isso parece ser apenas uma brincadeira de uma criança, por outro, na
alegoria criada pelos realizadores, revela de forma contundente uma relação de
poder e posse de um lado e de impotência do outro.
Um dos grandes acertos de “Um Animal Menor” é a ausência de respostas. O filme, por si só, já revela muito sobre a condição humana dentro de uma relação nada saudável. Os machucados da protagonista não apareceram do nada. A forma de implorar por comida e, pouco tempo depois, o estado de revolta são reações possíveis, partindo de uma pessoa que vive presa numa situação de relacionamento abusivo.
Em
termos técnicos, “Um Animal Menor” se destaca em todos os elementos. A
fotografia, escura e densa não revela apenas o estado de isolamento físico da
personagem dentro do poço, mas também o estado mental, isolado de pessoas que
realmente possam ajudar. Juntamente com a fotografia, a equipe de arte fez um
trabalho maravilhoso, fazendo do poço uma espécie de prisão física e mental.
A
trilha sonora é assertiva em deixar somente o som ambiente e os diálogos entre
os personagens, contribuindo para a fluidez da trama. Outros elementos como
montagem, figurino e maquiagem merecem destaques.
“Um
Animal Menor” é um filme pesado, tenso e com uma carga emocional incômoda e
perturbadora. A dualidade na natureza do personagem José é revoltante, porém,
faz parte de um abusador, que ora se comporta de maneira solidária, ora de maneira
perversa. E o filme explora muito bem o texto, para destacar a solidariedade e
a crueldade de José.
Com uma linguagem visual rica e perturbadora, “Um Animal Menor” é um Suspense e Thriller psicológico capaz de despertar vários tipos de sentimentos no espectador e levar o mesmo a refletir sobre alguns tipos de relações interpessoais onde o abuso prevalece do sentimento de poder e de fragilização do outro.
Assista "Um Animal Menor": https://vimeo.com/63974044











































