quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

UM ANIMAL MENOR (2009)

 


       






        

        Carregando uma profunda carga alegórica, “Um Animal Menor” tem, desde o seu início uma atmosfera densa, opressora e claustrofóbica. Uma mulher desperta ferida dentro de um poço. Sem saber como foi parar ali, passa a ter a companhia de José, um garoto que surge do lado de fora do poço e lhe promete trazer ajuda.

         Antes de mais nada, é necessário enfatizar as ótimas atuações de Elisa Volpatto e Jorge Júnior. O entrosamento da dupla é um destaque extremamente positivo para a construção do enredo.

         Com roteiro e direção de Marcos E. Contreras e Pedro Harres, “Um Animal Menor” leva o espectador para uma profunda imersão num universo psicológico complexo e cheio de simbolismos. A trama, aparentemente simples, envolve uma gama de camadas e significados que se revelam ao longo do curta.

            A relação de opressão a que José sujeita a mulher tem elementos subjetivos e interpretativos. Porém, o relacionamento entre eles é abusivo e tóxico. E os realizadores exploram muito bem os labirintos da mente humana, tanto na figura do opressor quanto na do oprimido.

         Assim como a protagonista, não sabemos como ela foi parar no poço, um espaço escuro e claustrofóbico, assim como o estado mental de uma pessoa que vive num relacionamento tóxico e abusivo. José promete tirar-lhe daquela situação. Em alguns momentos, onde oferece comida e remédios, ele brinca com a corda, baixando e levantando, se divertindo com o sofrimento da mulher. Se, por um lado, isso parece ser apenas uma brincadeira de uma criança, por outro, na alegoria criada pelos realizadores, revela de forma contundente uma relação de poder e posse de um lado e de impotência do outro.

          Um dos grandes acertos de “Um Animal Menor” é a ausência de respostas. O filme, por si só, já revela muito sobre a condição humana dentro de uma relação nada saudável. Os machucados da protagonista não apareceram do nada. A forma de implorar por comida e, pouco tempo depois, o estado de revolta são reações possíveis, partindo de uma pessoa que vive presa numa situação de relacionamento abusivo.

         Em termos técnicos, “Um Animal Menor” se destaca em todos os elementos. A fotografia, escura e densa não revela apenas o estado de isolamento físico da personagem dentro do poço, mas também o estado mental, isolado de pessoas que realmente possam ajudar. Juntamente com a fotografia, a equipe de arte fez um trabalho maravilhoso, fazendo do poço uma espécie de prisão física e mental.

         A trilha sonora é assertiva em deixar somente o som ambiente e os diálogos entre os personagens, contribuindo para a fluidez da trama. Outros elementos como montagem, figurino e maquiagem merecem destaques.

         “Um Animal Menor” é um filme pesado, tenso e com uma carga emocional incômoda e perturbadora. A dualidade na natureza do personagem José é revoltante, porém, faz parte de um abusador, que ora se comporta de maneira solidária, ora de maneira perversa. E o filme explora muito bem o texto, para destacar a solidariedade e a crueldade de José.

           Com uma linguagem visual rica e perturbadora, “Um Animal Menor” é um Suspense e Thriller psicológico capaz de despertar vários tipos de sentimentos no espectador e levar o mesmo a refletir sobre alguns tipos de relações interpessoais onde o abuso prevalece do sentimento de poder e de fragilização do outro. 


Assista "Um Animal Menor": https://vimeo.com/63974044

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O QUINTO POSTULADO (2006)

 







“O Quinto Postulado” é um filme de Suspense com direção de Rodrigo Grota, roteiro de José de Resende Júnior, e que tem no elenco Gustavo Torres, Suzana Proença e Apolo Theodoro.

Em seu início, a obra aborda a teoria proposta por Euclides, em seu livro “Os Elementos”, propõe a hipótese de que duas paralelas se cruzam no infinito. Essa teoria ficou conhecida como “o quinto postulado”.

O primeiro ato do curta segue um homem que trabalha na linha de produção e que encontra uma mulher desacordada num local abandonado, num ponto entre o seu trabalho e a sua residência. Após isso, a narrativa passa a ter contornos de tensão e thriller psicológico em volta do protagonista.

A trilha sonora tem um papel fundamental em todas as etapas do curta, pois num filme sem diálogos, o som precisa ditar junto com a fotografia os ritmos, as perturbações e os tormentos visuais que passam a fazer parte da vida do protagonista. E isso é feito de forma muito competente pela equipe de realizadores, levando o espectador a um estado de ansiedade sobre o que acontece e como acontece.

“O Quinto Postulado” trabalha com a ideia de temas filosóficos e abstratos, dentro de uma realidade perturbadora, também na questão de causa e efeito. O tormento do personagem se dá por suas atitudes e ele é obrigado a conviver com as consequências dos seus atos.

“O Quinto Postulado” é um filme questionador, provocativo, reflexivo e inquietante. A sua narrativa se afasta de forma sensacional de uma linha convencional, fazendo com que o espectador se perca nas dúvidas e propostas que surgem para o protagonista.




O PEREGRINO DE CATABRANCA (2018)


        







Baseado em “A Pata do Macaco”, de W.W. Jacobs, o curta, com roteiro e direção de Leonardo Rolla, apresenta um casal que vive num local isolado. Através de um viajante que passou pelo local, eles recebem uma caixa contendo três ovos mágicos, capaz de realizar seus desejos.

         “O Peregrino de Catabranca” tem atuações geniais de Doró Cross, Edmilson Cordeiro, que interpretam o casal e que se veem nos ovos possibilidades de resolverem alguns de seus problemas. O filme conta ainda com a participação de Carlos Eduardo Valente, que está na pele de um padre local e tem a difícil missão de comunicar sobre o atropelamento e morte do único filho do casal.

         Embora, “O Peregrino de Catabranca” seja um filme de Suspense e Terror, ele aborda de forma muito forte a questão do luto e do estado de negação diante da morte. Podendo recorrer a dois ovos restantes, o casal passa por um turbilhão emocional sobre trazer ou não o filho de volta ao mundo dos vivos. O drama psicológico envolvido carrega um peso enorme, e os realizadores acertam em cheio na escolha de ambientes escuros, com atmosfera densa e pesada, que reflete o estado mental e emocional dos personagens diante da tristeza e do luto.

         O curta conta com um trabalho primoroso da equipe de som na trilha sonora, com sons intrigantes e misteriosos, o que deixa o clima ainda mais carregado, principalmente no terceiro ato e na resolução final.

         O ambiente fechado e escuro, com alguns pontos clareados por velas, transmite a sensação de isolamento físico, mas também mental, diante da perda e do perigo que os personagens sofrem, ainda mais após o segundo ovo ser quebrado, com a intenção da volta do filho morto. Neste ponto, o filme tem um nível elevado de tensão, com uma mistura de sons que confundem. Além dos estalos da lenha que queima, há sons que podem indicar que o filho está de volta. Essa confusão de sons leva o espectador a altos níveis de curiosidade, suspense e medo.

         “O Peregrino de Catabranca” tem uma direção de arte extremamente eficiente em criar o ambiente onde o casal vive, com o rústico se destacando em meio à pobreza do casal. Além da qualidade narrativa, o curta tem elementos técnicos utilizados de forma perfeita, causando vários tipos de sentimentos no espectador. O Terror de “O Peregrino de Catabranca” é sensorial, levando quem assiste para dentro daquela realidade, sem mostrar exatamente, mas sugerindo, como o mal pode chegar até a residência do casal e como aquilo pode representar a destruição deles.




INFERNO (2013)

https://vimeo.com/groups/terroribero/videos/91624782









Um jovem desperta num lugar desconhecido devido aos ruídos de um rádio. O cômodo tem acesso para três portas que permanecem trancadas e, quando cada uma se abre, a sua experiência é de puro desespero.

         O processo de construção do personagem é extremamente positivo, pois o espectador inicia o filme dentro da confusão mental do protagonista, sem saber onde ele está, o que tem por trás das portas e nem como ele foi parar ali. “Inferno”, avança, apresentando gradualmente mais sobre o personagem e o lugar onde ele está. O filme não entrega tudo, abrindo margens para interpretações sobre a origem, o desenvolvimento e o final do filme.

        Com roteiro de João Marciano Neto e direção dele juntamente com Jorge Bonny, “Inferno” é o pesadelo sóbrio de um jovem que está preso a um local e que não sabemos desde quando ele está ali e se o primeiro despertar é, realmente, o primeiro.

         Interpretado por Pedro do Livramento, o protagonista tenta a todo curto escapar dali. Porém, o seu destino está traçado e a sua vida é despertar ali por várias vezes e sem outras alternativas. Ele está preso num espiral de desespero e sofrimento.

         Em muitos momentos, a fotografia faz uso de câmera fixa e enquadramentos que exploram o aprisionamento do local. E os detalhes do desespero do jovem naquela condição, revela também o estado mental perturbado dele. Ele não está preso somente fisicamente. Mentalmente, ele está numa prisão na qual ele mesmo se colocou.

            Com as aberturas das portas, fica evidente que as escolhas do jovem foram determinantes para ele terminar naquele local e viver e reviver aquela situação indefinidamente. O curta conta ainda com a participação de Anna Paiva, que dá a dimensão de que o protagonista ainda vai ter muito o que enfrentar naquele lugar.

         “Inferno” é um tipo de filme desafiador, tanto narrativamente quanto dramaticamente, porque precisa se justificar em dez minutos com apenas um personagem e um cômodo. Se, com um elenco de dois ou três personagens, o texto precisa ter muita qualidade, em “Inferno” o desafio é ainda maior. Daí, então o processo de imersão do espectador precisa ser feito de forma fluida e pontual. A equipe de produção consegue colocar o espectador dentro do ambiente e da mente do jovem, consumindo suas dúvidas e seus desesperos.

         Tecnicamente, “Inferno” é muito bem produzido, com fotografia, trilha sonora, arte e montagem trabalhando em alto nível e contribuindo para a coesão narrativa e dramática do filme. “Inferno” é um filme que intriga e perturba. É um Terror com forte apelo psicológico e que funciona muito bem.


Você pode assistir "Inferno" no Vimeo: https://vimeo.com/groups/terroribero/videos/91624782

EM CIMA DO MURO (2019)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
Neste excelente curta conhecemos Amélia, uma solitária mulher que encontra refúgio na internet e nas redes sociais para diminuir a sua sensação de solidão. Amélia é interpretada de forma magistral por Nayara Homem.

         A sequência inicial, com Amélia avisando as pessoas de que ela está indo para uma “baladinha top” já revela como muitas pessoas, assim como Amélia, precisam usar as redes sociais para mostrarem uma vida que não têm, uma felicidade inexistente e uma realização ilusória.

         “Em Cima do Muro” demonstra com perfeição, através de um Musical muito bem inserido na trama, que Amélia tenta trazer a sua suposta felicidade do mundo virtual para o mundo real. O Musical traz leveza e fluidez para a trama, à medida que dá uma dimensão do buraco em que Amélia vive.

         “Em Cima do Muro” trabalha através da perspectiva da necessária aprovação que muitas pessoas desejam ter o tempo todo, através de likes, comentários e reações. Porém, o mundo virtual pode ser (e é) bem perigoso, onde um simples comentário pode gerar uma situação de conflito extremamente desgastante. Infelizmente, ainda hoje, muitos campos nas redes sociais costumam ser “terra sem lei”, onde agressões, ofensas e ameaças rolam soltas.

         O “bom dia” de Amélia logo dá lugar a uma enxurrada de comentários ofensivos, após ela ser vítima de um cancelamento virtual. O perigo desse tipo de situação é que o mesmo é executado em “efeito manada”, o que pode atingir diretamente uma pessoa, o seu emocional e o seu psicológico. O curta mostra como Amélia ingere todos os ataques contra si e, num determinado momento, é necessário vomitar tudo o que terminou a atingindo e a corroendo por dentro.

        Com elementos técnicos e narrativos refinados, a diretora e roteirista Hilda Lopes Pontes se destaca pela ótima condução de “Em Cima do Muro”. A narrativa é fluida e muito bem pontuada por uma fotografia, arte, trilha sonora, figurino e maquiagem que constroem de forma perfeita o universo de Amélia. O arco dramático funciona como o espelho dos sentimentos, desejos e frustrações da protagonista. O filme tem ainda em seu elenco, Enoe Lopes Pontes, Karol Senna, Luisa Prosérpio, Paula Lice, Marcelo Praddo, Vinícius Bustani.

         “Em Cima do Muro” traz à tona um debate atual e necessário, que afeta as relações sociais e, em grande parte, contribui para muitos problemas de ordem psicológica e psiquiatra um grande número de pessoas. De forma inteligente e criativa, os realizadores fazem uma crítica pontual e urgente sobre os malefícios que a necessidade extrema que as mídias sociais podem causar.


"Em Cima do Muro" está disponível no perfil da Olho de Vidro Produções no Vimeo: https://vimeo.com/334181012/99a2b1c6c6

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

ANIMAIS NA PISTA (2020)









Adaptação do conto “Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência”, de Rubem Fonseca, o curta-metragem, com roteiro e direção de Otto Cabral narra o fim de uma madrugada, tendo como palco e pano de fundo um acidente ocorrido numa estrada.

Em meia à escuridão, o nascer do sol já se apresenta, junto com luzes de veículos e flashs de câmeras fotográficas. “Animais na Pista” tem em quase sua totalidade, um magnífico e longo plano-sequência, demonstrando muita competência tanto do diretor, quanto da equipe de fotografia, arte, som e montagem.

Se iniciando com a corrida de uma mulher com uma faca em uma estrada de terra, o filme passa a ganhar corpo quando a faca é passada das mãos dela para um homem. A câmera paira por todo o ambiente, apresentando um cenário trágico e com uma atmosfera mórbida. A faca, o homem, a mulher, e outros personagens, diferente de peritos e investigadores que trabalham no local, retalham uma vaca, também envolvida no acidente, procurando pelos melhores pedaços de carne.

Além do cadáver da vaca, há ainda cadáveres de pessoas envolvidas no sinistro que acontecera no local. A trama se desenrola, apresentando vários pontos de vistas, entre balanços e desfoques de lente, o que causa uma aflição maior ainda sobre o acidente.

O interesse de muitos ali está longe das vítimas fatais ou da situação de vítimas que ainda estão vivas. A forma como alguns atacam a vaca, tentando partes do animal, demonstra uma certa desumanização em prol de garantir como alimento uma carne que pode até ser adquirida, mas que custa caro. Perdendo a humanidade – e a empatia e compaixão –, muitos se comportam como animais que lutam pela sua sobrevivência, arrancando cada pedaço precioso da vaca. Para essas pessoas, o acidente ficou em segundo plano.

“Animais na Pista” é um Drama, com um tom misterioso e sobrenatural na sua resolução final. Essa abordagem é muito interessante porque trabalha com a imprevisibilidade. Se o espectador começa a interpretar o filme de uma forma, a aparição que surge no final, ou complementa alguma confirmação, ou pede que o espectador interprete o início e o miolo de uma maneira diferente.

“Animais na Pista” é um filme com uma carga dramática pesada e com uma narrativa criativa e desafiadora. Praticamente sem diálogos, o filme leva o espectador a questionar não só sobre as atitudes das pessoas que destroçam a vaca, mas de como a sociedade em si pode sobrepor seus interesses acima de uma situação grave e caótica.




segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

BOO.MP4 (2018)









O curta, com roteiro e direção de Jefferson Mendes, mescla de forma muito competente os gêneros de Suspense, Mistério e Terror com ótimas doses de bizarrice e estranheza.

O texto de “Boo.mp4” apresenta um homem, de forma cuidadosa e lenta. A lentidão ajuda para que a construção do personagem seja muito bem estabelecida. Ela também ajuda a contextualizar a mente perturbada e pervertida do personagem. Há um grande acerto da fotografia em manter a escolha do found footage, justamente por transmitir muito mais realismo. Outro acerto foi da trilha sonora em manter o realismo é som ambiente natural.

Depois que já sabemos o suficiente do homem, aí então, conhecemos o ambiente externo e uma criança que brinca sozinha num parque. A figura da criança é tão bizarra quanto o homem, e isso também foi um grande acerto dos realizadores.

Interpretados por Evill Rebouças e Rafaela Caciolatto, os dois personagens estabelecem um jogo de pega-pega, onde reina a curiosidade, porque, apesar de já sabermos sobre a personalidade do homem, não sabemos nada sobre a criança que usa uma máscara e roupas esquisitas. O elemento bizarro faz toda a diferença em “Boo.mp4”. Entre risadas da personagem infantil e a introdução do som de suspense, a tensão e a atmosfera do curta começam a mudar. Nesse ponto, o espectador já tem uma ideia de que alguém vai se dar mal. Basta saber, quem e como.

“Boo.mp4” tem elementos narrativos executados com muita precisão, que ditam o ritmo do filme de forma cadenciada e que eleva o ritmo quando algumas revelações são feitas. A direção de arte, figurino e maquiagem mostra muita criatividade e competência, com pontos perturbadores, assustadores e surpreendentes.

“Boo.mp4” foge dos padrões e esse é o diferencial do filme. Ao se jogar no bizarro e no desconhecido, o filme se permite ousar. E essa ousadia é um elemento crucial na produção do curta. A introdução de elementos, de forma gradual, faz crescer as dúvidas e incertezas sobre a criança. E a revelação de sua função dispensa explicações didáticas. Digamos que ela é uma pedra muito bem colocada no sapato do homem.

“Boo.mp4” tem uma resolução final espetacular, tanto pela narrativa, quanto pela forma como a personagem infantil é mostrada. O curta tem tudo o que um fã de Terror curte, com muita tensão, surpresas e medo.




TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM (2010)

 









Baseado no conto homônimo de Yves Robert, “Traz Outro Amigo Também” narra a história de um detetive com muita experiência e que é contratado para uma investigação um tanto incomum.

A narração em primeira pessoa do protagonista ajuda muito a situar e contextualizar o espectador, bem como causar o impacto do pedido do cliente Artur. Interpretado por Clemente Viscaíno, Artur é um idoso que procura o escritório do detetive, em busca de seu amigo imaginário que viu pela última vez quando contava 5 anos de idade. O detetive se espanta com a proposta de trabalho, porém, Artur estava determinado a encontrar o seu antigo amigo, pagando 5 mil reais no ato e outros 50 mil seriam pagos quando o detetive encontrasse a pessoa.

Felipe Mônaco faz um trabalho brilhante em sua atuação como o detetive. Ele descreve muito bem sobre o seu trabalho, sobre a procura de Artur e desenvolve muito bem seu personagem dentro da narrativa.  As únicas informações a respeito do amigo imaginário de Artur são de que se trata de um palhaço de nome Cornelius, com cabelos encaracolados, que usa um chapéu feito de jornal e toca sanfona.

Ao aceitar o trabalho, o detetive não tem ideia por onde começar. Ele decide continuar com outros trabalhos, imaginando que o trabalho contratado por Artur poderia ser resolvido com mais tranquilidade.

O curta tem uma mensagem belíssima sobre encontrar a nossa criança interior, e consequentemente, a felicidade dos tempos de infância. Ao ter a ajuda de crianças para localizar Cornelius, o detetive também passa por uma transformação. E o filme é muito enfático ao afirmar que, sim, precisamos pagar contas e ter outras responsabilidades, mas também precisamos da alegria e momentos que vivemos durante a infância, com sonhos e imaginações sem limites.

Com roteiro adaptado pelo diretor Frederico Cabral, “Traz Outro Amigo Também” é um Drama, indicado para toda a família. A trama é leve e descontraído. A trama se desenrola de uma forma muito sensível e emocionante. E não há como não relembrar a nossa infância.

“Traz Outro Amigo Também” tem uma qualidade técnica impressionante. O início, com uma atmosfera film-noir sugere um filme mais sério. Porém, o espectador entra na brincadeira para descobrir o paradeiro de Cornelius. Aí, a qualidade do texto, da fotografia, arte, trilha sonora e animação fazem o restante do filme ser uma delícia de ser ver.

“Traz Outro Amigo Também” é um curta muito bem produzido, com uma trama fluida, cativante e carinhosa.




OS IRMÃOS WILLIANS (2000)

 







A Comédia em Animação narra a história dos irmãos gêmeos Willians. Era meia-noite e cinco, quando os treze filhos nasceram numa humilde comunidade paulistana, causando confusão entre a mãe, que tinha contado 13, mas só encontrou 12, e o pai, que, quando chegou em casa e viu os filhos, achou que uma ratazana tinha dado cria novamente.

         “Os Irmãos Willians” é uma Animação hilária, que narra o destino de cada um dos irmãos, até sobrarem quatro, que decidiram criar uma banda de pagode. Tendo Lucifério como empresário, a banda dos irmãos idênticos explodiu com o primeiro sucesso “Campainha da Vizinha”. Porém, cada um dos irmãos teve um fim triste e trágico, deixando uma legião de fãs órfãos.

        O curta tem ótimos elementos narrativos e dramáticos. A ambientação num contexto de pseudodocumentário é uma sacada excelente, propondo uma narrativa divertida, engraçada e dinâmica. O texto é muito bem explorado pelo diretor Ricardo Dantas, que também é roteirista do curta.

         Com uma ótima técnica de animação stop-motion, fotografia e trilha sonora, “Os Irmãos Willians” se apresenta como uma Animação de Comédia, com inúmeras referências a bandas de pagode que fizeram sucesso e com algumas críticas à forma como empresários e gravadoras mantinham relações com artistas.

        Com direção de dublagem de Marcelo Campos, o filme conta com as vozes de Cadu, Carlos Campanile, Daoiz, Eleu Salvador, Helena Samara, Jonas Mello, Marcelo Campos, Raquel Marinho, Roberto Rocha, Sérgio Moreno, Walter Breda e Zayra Zordan para dar vida aos personagens, construindo de forma primorosa o ambiente, os contextos e as personalidades dos personagens.

         Com ironia, sarcasmo e humor mórbido, a equipe criativa é responsável pela produção de um curta que entretém e diverte o espectador do início ao fim.




TITÃS – TUDO AO MESMO TEMPO AGORA (1991)

 








O Documentário em curta-metragem "Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" nos transporta diretamente para os bastidores da criação de um dos álbuns mais icônicos da banda Titãs, lançado em 1991. Com direção de Arthur Fontes e Lula Buarque e roteiro de Cláudio Torres, o filme oferece uma visão íntima e descontraída do processo criativo do grupo, que na época contava com Arnaldo Antunes, Branco Mello, Charles Gavin, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto. Através de uma combinação envolvente de imagens de arquivo e entrevistas, o Documentário apresenta as dinâmicas internas entre os membros da banda e explora os detalhes que moldaram a criação do álbum "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora".

Uma das escolhas mais interessantes e inusitadas da banda foi a decisão de se reunirem para os ensaios e criações em uma casa, em vez de um estúdio tradicional. Esse detalhe, que à primeira vista pode parecer simples, tem grande impacto na atmosfera criativa da produção. Ao optar por esse ambiente mais informal e relaxado, o Titãs recria o espírito de uma banda de garagem, algo que permitiu maior liberdade na experimentação musical. O Documentário ressalta como essa escolha influenciou diretamente o processo criativo, proporcionando aos músicos um espaço onde se sentiam à vontade para testar novos arranjos, experimentar diferentes sonoridades e modificar elementos das músicas conforme surgiam novas ideias. Esse ambiente doméstico parece ter alimentado a espontaneidade e a camaradagem entre os membros da banda, aspectos que transparecem nas cenas de ensaios.

Além das cenas da casa, "Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" também nos leva ao estúdio de gravação, onde o álbum foi finalizado. A transição entre esses dois ambientes — da liberdade descontraída dos ensaios à disciplina técnica do estúdio — é um dos pontos altos do Documentário. A montagem do filme faz um trabalho excepcional em costurar esses momentos, alternando entre as discussões e brincadeiras descontraídas dos músicos e o trabalho mais minucioso e focado das gravações. O espectador se sente imerso nesse processo, como se estivesse acompanhando cada etapa, desde a concepção inicial das músicas até os toques finais que dão forma ao álbum.



Os depoimentos dos integrantes da banda enriquecem ainda mais o Documentário, oferecendo insights valiosos sobre suas percepções individuais do processo criativo. Cada um deles compartilha suas impressões, memórias e curiosidades sobre a produção do disco, o que cria uma camada adicional de intimidade e aproximação com o público. Esses depoimentos não apenas complementam o que vemos nas cenas gravadas, mas também revelam a complexidade das relações entre os membros e a maneira como cada um contribuiu para o resultado final. É como se o espectador tivesse a oportunidade de fazer parte das conversas e debates internos da banda, algo que apenas um Documentário desse tipo poderia proporcionar.

Outro ponto de destaque do Documentário é o uso cuidadoso e eficaz das músicas do álbum "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" ao longo da narrativa. O filme não apenas nos conta a história por trás da produção, mas nos faz sentir essa história através da música. As canções são inseridas de maneira precisa, funcionando como uma trilha sonora que guia o espectador pelos diferentes estágios do processo criativo. A montagem é ágil, e o ritmo do Documentário é tão bem construído que seus 33 minutos passam rapidamente, deixando no público a sensação de que poderia ter durado mais. Essa agilidade e fluidez fazem do curta uma experiência prazerosa, que não apenas informa, mas também entretém e emociona.

"Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" é, sem dúvida, uma joia do cinema documental brasileiro. Para além de seu valor como registro histórico da produção de um álbum de Rock, o filme é uma verdadeira celebração da criatividade e do espírito colaborativo que marcaram a carreira dos Titãs. A fotografia é cuidadosa e intimista, o som é perfeitamente captado para transmitir tanto a atmosfera dos ensaios quanto a potência das gravações no estúdio, e a arte e montagem são impecáveis. Esses elementos se combinam para nos oferecer um retrato genuíno e fascinante de uma das maiores bandas do Rock nacional.

O Documentário se destaca não apenas por capturar a essência da banda Titãs naquele momento específico de sua trajetória, mas também por transmitir ao espectador a sensação de estar "lá", acompanhando de perto o processo criativo e vivenciando junto com os músicos os desafios e conquistas de se produzir um disco. É uma obra imperdível para os fãs da banda, mas também para qualquer um interessado no universo da música e no poder do trabalho em grupo. "Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" é um Documentário indispensável para entender não apenas os Titãs, mas também a história do Rock brasileiro.




sábado, 11 de janeiro de 2025

LUA DE SANGUE 2 (2024)

 

Três amigos se reúnem para comemorar a noite de Natal. Em meio à festividade, relembram um fato ocorrido há um ano: o assassinato de três amigos, realizado por um serial killer conhecido como o Ceifador Mascarado. Um sobrevivente da chacina conseguiu sobreviver e, o grupo de comemora o Natal não tem ideia do perigo que correm, por haver uma ligação entre um deles e o sobrevivente do ataque do Ceifador Mascarado.
        
            O curta “Lua de Sangue 2” é um filme que mescla os gêneros Suspense, Terror e Slasher. A trama é bem conduzida pelo diretor-roteirista Artur Garnetti, tendo boas atuações de Grazielly Oliveira, Luiza Monteiro e Victor Andrew.

        O medo dos protagonistas, ao se lembrarem do evento do ano anterior, terminar por se tornar real quando o assassino surge para concluir o que não havia conseguido: matar o sobrevivente da chacina. O curta tem um clima de tensão alto quando o serial killer invade a casa, fazendo os três jovens como reféns e iniciando um jogo de horror com eles.

         “Lua de Sangue 2” tem ótimos elementos narrativos, dramáticos e técnicos, fazendo do curta uma ótima opção para quem curte o subgênero Slasher, onde tudo corre num misto de pavor, horror e tensão. A narrativa é fluida e o filme tem uma resolução final bastante interessante.




sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

ROÇA URBANA (2024)






Ponte Nova é um bairro humilde, localizado na porção continental de São Vicente, na Baixada Santista, que enfrenta sérias dificuldades estruturais e sociais, agravadas pela pandemia. A região, marcada por uma história de negligência ambiental, já foi alvo de despejo de resíduos tóxicos pela empresa Rhodia, antes mesmo da formação do bairro, contribuindo para os problemas sanitários e de saúde que afetam os moradores até hoje. Essa herança de descaso continua a impactar a qualidade de vida local, tornando ainda mais desafiadora a luta por melhorias, especialmente durante o período crítico da pandemia, quando a carência de serviços públicos se acentuou.

Em meio a esse cenário adverso, o jovem médico Yago Torres decidiu agir. Com um olhar voltado para o futuro, ele idealizou projetos que visavam não apenas melhorar a saúde física dos moradores, mas também promover um senso de comunidade e pertencimento. Um dos primeiros passos foi a criação de um grupo de caminhadas, composto por usuários da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Ponte Nova. A iniciativa, simples à primeira vista, rapidamente conquistou a adesão de muitas pessoas, principalmente idosos, que viram nas caminhadas uma forma de manter-se ativos e socialmente engajados.

No entanto, os projetos de Yago não se limitaram às caminhadas. Ao observar o espaço ocioso no terreno da UBS, ele vislumbrou uma oportunidade de criar algo que pudesse beneficiar ainda mais os moradores: uma horta comunitária. Assim nasceu a “Roça Urbana”, uma proposta inovadora de cultivo sustentável, que alia saúde, bem-estar e consciência ambiental. A horta, suspensa devido à contaminação do solo local pelos resíduos da Rhodia, utiliza terra trazida de outras regiões, garantindo que os alimentos cultivados sejam livres de toxinas e seguros para o consumo. Dessa forma, a “Roça Urbana” se tornou não apenas uma fonte de alimentos saudáveis, mas também um símbolo de resistência e renovação em meio às dificuldades.

O Documentário “Roça Urbana”, dirigido, roteirizado e com fotografia de Jean Pierre Pierote, acompanha de perto essa transformação no bairro Ponte Nova. Com uma narrativa fluida e envolvente, o filme conduz o espectador pelo cotidiano dos moradores, mostrando como o cultivo da horta e as caminhadas criaram novos laços de amizade e solidariedade entre eles. Os depoimentos de Luciene Formosina de Jesus, Josefa da Silva, Josefa Maria e Manoel Nascimento são carregados de emoção e revelam como essas iniciativas não apenas promoveram a saúde física, mas também trouxeram melhorias significativas na qualidade de vida emocional e psicológica dos participantes.

O Documentário destaca, de forma sensível, o impacto dessas atividades na vida dos idosos da comunidade, muitos dos quais enfrentam o isolamento e a falta de estímulo físico. Para eles, as caminhadas e o cultivo de alimentos tornaram-se muito mais do que simples atividades de rotina; são momentos de convivência, troca de experiências e fortalecimento de vínculos. A melhoria na saúde desses moradores é visível, não apenas pela prática de exercícios regulares, mas também pelo acesso a alimentos frescos e livres de agrotóxicos, cultivados com as próprias mãos.

Além dos benefícios físicos e alimentares, o filme explora a importância do fortalecimento dos laços sociais entre os participantes. O grupo que se formou em torno da horta e das caminhadas representa uma nova forma de convívio comunitário, onde os moradores compartilham suas histórias, cuidam uns dos outros e encontram na coletividade uma forma de enfrentar os desafios do dia a dia. Essa rede de apoio e amizade contribui diretamente para a melhoria da saúde mental e emocional dos participantes, que passaram a ver essas atividades não como uma obrigação, mas como momentos de prazer e realização.

Tecnicamente, “Roça Urbana” é uma produção impecável. Jean Pierre Pierote, acerta em cada detalhe, capturando a essência do bairro e a realidade dos seus moradores com uma sensibilidade única. A produção e som direto de Cinthia dos Santos e Patrycia Nunes, a montagem de Mateus Ribeiro e o design gráfico de Cássia Oliveira se unem de maneira harmoniosa para criar um Documentário dinâmico, que em apenas doze minutos consegue transmitir uma mensagem poderosa e impactante. A fluidez da narrativa, aliada à precisão técnica dos elementos audiovisuais, permite que o espectador se sinta parte da história, acompanhando de perto o crescimento da horta, as caminhadas dos moradores e os depoimentos emocionantes que dão vida ao filme.

“Roça Urbana” não é apenas um registro das transformações que ocorreram na Ponte Nova, mas também um retrato de como iniciativas simples, quando guiadas pela vontade de melhorar a vida em comunidade, podem gerar impactos profundos. O documentário reforça a importância da solidariedade, do trabalho em equipe e da busca por soluções sustentáveis para os problemas que afetam áreas marginalizadas como Ponte Nova. Através de uma narrativa clara e objetiva, “Roça Urbana” celebra o esforço coletivo e a resiliência de um povo que, apesar das dificuldades, continua a lutar por uma vida mais saudável e digna.

Com uma mensagem de esperança e superação, “Roça Urbana” é um exemplo de como o cinema pode dar voz às comunidades que muitas vezes são esquecidas, mostrando que, mesmo em meio ao descaso e às adversidades, é possível plantar sementes de mudança e colher frutos de transformação.




quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

PROGRESSO DE QUEM? (2022)

 

"Progresso de Quem?", com roteiro de Izadora Andrade e Mariana Zanzini, é um Documentário que lança um olhar sensível e profundo sobre a realidade dos catadores de materiais recicláveis na cidade de São Paulo. Apesar de exercerem uma função vital para o meio ambiente e para a saúde pública, esses trabalhadores enfrentam diariamente o preconceito, a falta de reconhecimento e a invisibilidade diante da sociedade. A produção aborda a rotina desses profissionais, trazendo à tona o contraste entre a importância de seu trabalho e o desprezo com que são tratados.

O Documentário conta com depoimentos de catadores como Litz Govk, Maura dos Santos, Maxsuell Wellington e Varonildo Carmo, que compartilham suas histórias de vida e as dificuldades enfrentadas em seu cotidiano. As vozes desses trabalhadores nos levam a compreender melhor o papel essencial que desempenham, ao recolherem toneladas de resíduos que, de outra forma, seriam destinados a aterros ou incinerados. Esses catadores não só diminuem a pressão sobre o meio ambiente, como também contribuem para a reciclagem de materiais como plástico, metal e papel, fundamentais para a sustentabilidade das cidades modernas.

A diretora Izadora Andrade enriquece o Documentário ao incluir o impacto transformador do projeto "Pimp My Carroça", que é retratado de maneira detalhada. A iniciativa busca reformar carroças utilizadas pelos catadores, equipando algumas delas com motores elétricos, tornando-as mais confortáveis e eficientes. Além disso, o projeto usa a arte como ferramenta de conscientização social, estilizando as carroças com grafites e pinturas vibrantes, que transformam esses veículos em símbolos de resistência e dignidade. Esse trabalho não apenas facilita a vida dos catadores, mas também melhora sua visibilidade, desafiando estigmas e preconceitos profundamente enraizados na sociedade.

Letícia Tavares, diretora executiva do "Pimp My Carroça", explica como o projeto impacta diretamente a vida dos catadores, proporcionando uma nova perspectiva sobre seu trabalho e sobre a relação deles com a cidade. Ao estilizar suas carroças, o projeto também ressignifica o olhar que a população tem desses trabalhadores, muitas vezes esquecidos e marginalizados. O depoimento de Letícia Tavares é um ponto alto do filme, trazendo à tona a importância de se reconhecer os catadores como agentes ambientais que realizam um serviço imprescindível numa sociedade que, cada vez mais, se afoga em seu próprio lixo.

Tecnicamente, "Progresso de Quem?" impressiona pela forma dinâmica com que transmite sua mensagem em apenas quatro minutos. A montagem ágil, aliada à sensibilidade da fotografia de Alef Paz e ao trabalho de som de Caio Terra, cria uma narrativa visual poderosa, em que a imagem e o som dialogam em perfeita harmonia. O design gráfico de Gabriela Mônaco e a decupagem de Clara Almeida também se destacam, contribuindo para o ritmo fluido do curta-metragem, que consegue envolver o espectador desde os primeiros segundos.

Apesar de sua curta duração, "Progresso de Quem?" é um filme de grande impacto social. Ele não só destaca a importância do trabalho dos catadores para a manutenção da cidade, mas também humaniza esses trabalhadores, lembrando-nos de que por trás de cada carroça há uma história de vida, com sonhos, desafios e esperanças. O Documentário nos convida a refletir sobre nossa própria responsabilidade em relação ao meio ambiente e às pessoas que, muitas vezes, passam despercebidas em meio à correria urbana.

"Progresso de Quem?" é uma produção necessária e urgente, que nos obriga a olhar para a cidade e seus trabalhadores de maneira mais empática e consciente. É um chamado para a ação, para o reconhecimento e valorização daqueles que, silenciosamente, cuidam da nossa sociedade e do nosso planeta.




quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

RIFA-ME (2000)

 

O curta é um Drama melancólico e triste por se tratar de um desejo que Ana Paula quer realizar, mas não encontra nenhuma outra solução. Mãe de um bebê e esquecida pelo marido que os deixaram sós, Ana Paula decide abandonar a cidade de Quixeramobim e a única forma que tem de conseguir o dinheiro da passagem é rifando-se em troca de uma noite de sexo.

         Tendo Bilica Léo como protagonista, “Rifa-me” é um dos primeiros trabalhos audiovisuais do talentosíssimo diretor, roteirista e produtor Karim Aïnouz. Com muita sensibilidade, AÏnouz trata o tema da premissa de forma muito envolvente. Assim, como muitos amigos e conhecidos de Ana Paula, o espectador pode até não concordar com a decisão da jovem, mas desesperadamente compreende, tendo a esperança de que ela vá desistir da ideia.

         O diretor explora profundamente o universo de Ana Paula, com as suas dificuldades, necessidades e sonhos. Com muita competência, não há espaços para julgamentos em relação à protagonista, mas uma imensa sensação de piedade e tristeza por vê-la nesta situação.

         “Rifa-me” tem seu início cantado por dois repentistas. E a história de Ana Paula continua narrada, não apenas pelas imagens, sons e ações dos personagens, mas pelo rádio que dita a passagem do tempo e pelas quebras da quarta parede e citações de poesia de cordel.

         Outra escolha extremamente pontual é o uso de locações que remetem à viagem que Ana Paula deseja fazer. Não são mostradas cenas no centro da cidade e que tenham muitas pessoas. Vários lugares filmados transmitem esse desejo se passando em estradas e num posto de gasolina à beira de uma dessas estradas. A partida de Ana Paula fica palpável e inevitável.

         Com qualidades técnicas impressionantes, “Rifa-me” é um Drama comovente, que narra o desespero de uma mulher. Se, por um lado, faz uma crítica pertinente de como muitas mulheres são vistas como objetos, por outro, mostra que a compaixão e a empatia ainda fazem parte do caráter de muitas pessoas.

         Em “Rifa-me” já é possível experimentar muitas das características do estilo cinematográfico de Karim Aïnouz. A forma como a personalidade da personagem é construída, demonstra claramente que ela está decidida, mas não satisfeita em fazer o que propôs. Ana Paula não é simplesmente uma personagem de um filme. Ela tem várias camadas, afinal é um ser humano, com seus pensamentos, temperamento, personalidade.

         A construção da narrativa também demonstra toda a qualidade do texto e a forma como o diretor conduz o arco dramático. Os sons da rádio, com sua transmissão diária, revela que as vidas das pessoas continuam normais, independente dos problemas que Ana Paulo enfrenta. Seja por falta de tempo ou por egoísmo, às vezes, ignoramos uma situação difícil de um vizinho ou parente. “Rifa-me” aborda essa reflexão de forma eficiente, com a proposta de nos preocuparmos e darmos mais atenção para as pessoas que estão próximas e que, no desespero, decidem por caminhos mais rápidos para uma solução de seus problemas.

UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...