quinta-feira, 28 de agosto de 2025

VACA PROFANA (2017)

 


Produzido por Juliana Vicente, com roteiro de Gabriela Amaral Almeida e direção de René Guerra, o curta-metragem “Vaca Profana” conduz o espectador pela rotina íntima e delicada de Nádia, interpretada por Roberta Gretchen Coppola, uma mulher trans que se prepara para se tornar mãe. Desde os primeiros minutos, o filme mergulha no universo interior da personagem, revelando seus desejos, ansiedades e a expectativa quase tangível da maternidade. Cada gesto de Nádia, do cuidado com os detalhes do quarto de bebê à escolha dos utensílios mais simples da lanchonete que administra, comunica um amor silencioso e urgente, capaz de preencher a tela com emoção.

Ao mesmo tempo, o filme não se limita a Nádia. Ana Maria (Maeve Jinkings) surge como contraponto emocional, revelando uma maternidade inesperada, não planejada, mas profundamente sentida. O contraste entre o desejo cuidadosamente cultivado de Nádia e a surpresa da maternidade de Ana Maria cria uma tensão delicada, quase palpável, que sustenta o arco dramático do curta. A câmera, muitas vezes atenta aos detalhes do olhar, da respiração e dos pequenos gestos, captura essas nuances com sensibilidade, permitindo que o espectador sinta a intensidade do conflito interno de ambas.

A complexidade emocional aumenta à medida que Ana Maria se vê confrontada pelo próprio afeto. A decisão de entregar sua filha para adoção, que em teoria seria um ato de altruísmo, se transforma em um dilema doloroso. O espectador acompanha de perto cada hesitação, cada sorriso contido, cada olhar que denuncia a ambivalência de sentimentos. Paralelamente, o filme apresenta a realidade social que Nádia terá que enfrentar como mãe trans: o reconhecimento legal, a aceitação social, o julgamento silencioso e explícito. A narrativa coloca em evidência o contraste entre a estabilidade material e a complexidade emocional, entre o direito biológico e o direito de ser reconhecida enquanto mulher e mãe.

O espaço em que Nádia habita, um apartamento cuidadosamente arrumado e um quarto de bebê cheio de detalhes escolhidos com carinho, não é apenas cenário, mas extensão de sua personalidade e de seu sonho de maternidade. Cada objeto, cada cor, cada textura comunica cuidado e planejamento. É evidente que ela está preparada para oferecer à criança não apenas recursos materiais, mas um ambiente de acolhimento, amor e segurança, algo que Ana Maria, por mais amorosa que seja, não poderia proporcionar da mesma forma.

“Vaca Profana” não tem medo de mostrar a dor de seus personagens. A frustração, o medo e a angústia de Ana Maria se manifestam com a mesma intensidade da angústia de Nádia, que enfrenta a burocracia do fórum e a obrigação de se apresentar como “ele”, negando temporariamente sua identidade para poder exercer seus direitos. O curta questiona, com delicadeza e firmeza, a desigualdade de experiências impostas por preconceitos estruturais, ao mesmo tempo em que humaniza a maternidade em todas as suas formas.

O resultado é um filme que emociona, impressiona e provoca reflexão. Ele aborda tabus enraizados em uma sociedade machista, homofóbica e misógina, lembrando que as escolhas e dificuldades de uma mãe trans são muitas vezes invisíveis para quem olha de fora. Ao mesmo tempo, convida o espectador a sentir, a se colocar no lugar das personagens e a questionar suas próprias concepções sobre família, gênero e amor.

“Vaca Profana” é um curta que une sensibilidade estética e força narrativa. Cada cena, cada enquadramento e cada diálogo estão imersos em uma poesia silenciosa, que transforma uma história de maternidade em um convite à empatia, à reflexão e à consciência social. É um filme que permanece na memória do público, porque toca questões universais: a dor, a esperança e o desejo de oferecer o melhor para aqueles que amamos, independentemente de quem somos ou de como a sociedade nos vê.


Essa crítica é dedicada à memória de Roberta Gretchen Coppola.




domingo, 24 de agosto de 2025

HAROLDO COSTA – O NOSSO ORFEU (2015)

 


O Documentário dirigido por Silvio Tendler, intitulado "Haroldo Costa – O Nosso Orfeu", é uma rica homenagem a um dos maiores ícones da cultura brasileira, Haroldo Costa. O filme oferece uma imersão completa na vida e obra desse multiartista, cuja trajetória se mistura de maneira indelével à história do teatro, cinema, televisão e música no Brasil. Com depoimentos emocionantes do próprio Haroldo Costa e da renomada atriz Léa Garcia, o documentário é habilmente conduzido pela narração envolvente de Zezé Motta, uma voz que acrescenta ainda mais profundidade à narrativa.

A direção de arte, fotografia e montagem se destacam pela maneira com que capturam a essência da carreira multifacetada de Haroldo. As imagens de arquivo, mescladas a depoimentos e cenas históricas, transportam o espectador através de décadas de dedicação à arte e cultura. O documentário não apenas ilustra sua jornada pessoal e profissional, mas também revela a força cultural que ele representa.

A narrativa do filme percorre momentos essenciais da vida de Haroldo Costa, desde seu início no Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento, até suas viagens internacionais com a companhia de teatro Brasiliana, que o levaram a se apresentar em dezenas de países. Um dos pontos altos do filme é o relato sobre o convite feito por Vinicius de Moraes, para que Haroldo protagonizasse a peça "Orfeu da Conceição", uma obra icônica que seria o precursor do lendário filme "Orfeu Negro". Este marco o consagrou como uma das figuras mais importantes da cultura afro-brasileira e do teatro nacional.

Assistir ao Documentário é como reviver momentos históricos através dos olhos de Haroldo Costa, um artista completo que abriu caminho em múltiplas funções. Além de ator, ele foi produtor, diretor, escritor, curador, músico, e continua a atuar como palestrante e intelectual engajado. Haroldo não apenas desempenhou um papel central em diversas frentes artísticas, mas também ajudou a dar visibilidade à cultura afro-brasileira, contribuindo para a luta contra o racismo e a valorização das raízes negras no país.

O filme se destaca ao enfatizar que Haroldo Costa é mais do que um artista brilhante. Ele é um verdadeiro representante da cultura brasileira em sua forma mais pura. Suas contribuições ajudaram a moldar e a projetar a arte brasileira dentro e fora do país, tornando-o uma figura essencial em qualquer discussão sobre a história artística e cultural do Brasil. Tendler, com maestria, constrói um filme que vai além de um simples registro biográfico, revelando o profundo impacto de Haroldo na arte e na sociedade.

"Haroldo Costa – O Nosso Orfeu" é, portanto, um tributo sensível e merecido a um homem que viveu e vive intensamente para a arte, tornando-se um símbolo vivo da resistência e da beleza cultural do Brasil. A obra emociona ao mostrar como a arte de Haroldo Costa transcende o palco e as telas, fundindo-se com a própria história da cultura brasileira.



sábado, 23 de agosto de 2025

XIII (2014)

 


O curta-metragem “XIII” narra, de forma instigante, a história de um homem que, ao se deparar com um corpo em seu quintal, vê sua rotina de domingo transformar-se em um enigma. O protagonista não tem a menor ideia de como aquele corpo foi parar ali, e na tentativa de desvendar esse mistério, ele busca relembrar cada detalhe de seu dia. O roteiro explora não apenas o suspense do momento presente, mas também a confusão mental e emocional do personagem principal, tornando o filme um mergulho psicológico tão profundo quanto envolvente.

“XIII” destaca-se por sua narrativa inteligente e seu estilo intrigante, que brinca com a percepção do tempo e da memória. O curta introduz elementos narrativos de forma gradual, criando uma atmosfera de mistério que prende a atenção do espectador. A história funciona como um quebra-cabeça, onde as peças vão lentamente se encaixando, mas sempre mantendo uma sensação de incerteza e desconforto.

João Marciano Neto, responsável pelo roteiro, produção, montagem, som e direção, imprime uma marca pessoal em cada aspecto do filme, refletindo um domínio técnico e criativo admirável. O elenco conta com a presença de Alexandre Delgado, cuja atuação sutil dá vida a um personagem atormentado por suas próprias lembranças. A direção de fotografia é de Thaína Dayube, com maquiagem de Bruna Munique.

O enredo atinge seu ápice quando o protagonista se recorda de uma visita a uma cartomante com seus amigos. Apesar de seu ceticismo em relação ao tarô, ele se lembra vividamente do momento em que a cartomante revelou a carta de número 13, "O Arcano sem Nome", mais conhecida como "A Morte". A cartomante havia explicado que aquela carta não significava necessariamente o fim da vida, mas sim uma grande mudança iminente e inevitável. A partir desse ponto, a narração do personagem nos guia através de sua tentativa de reconstituir os eventos daquele domingo.

Ele acordou cedo, foi à missa, voltou para casa com uma dor de cabeça, tomou um remédio e adormeceu no sofá. Quando foi ao quintal pela primeira vez, o corpo não estava lá. E então, ele questiona: como aquele corpo apareceu? A presença do cadáver traz à tona lembranças vagas de alguém que ele conhecia, mas não consegue situar de onde. A narrativa em primeira pessoa do protagonista é carregada de angústia e dúvida, e essa incerteza é compartilhada com o público, criando uma imersão profunda.

“XIII” é uma obra de Suspense psicológico que, em seus 4 minutos de duração, explora temas como negação, transformação e destino. A genialidade do curta reside na forma como a mente perturbada do protagonista se entrelaça com o mistério central. A previsão da cartomante sobre uma grande mudança parece se concretizar, mas o personagem hesita em aceitar essa verdade. Estaria ele realmente confrontando uma mudança inevitável ou simplesmente se recusando a enxergar a realidade?

A produção de “XIII” é impecável em sua execução. O suspense é construído de forma cuidadosa, sem pressa, permitindo que o espectador se conecte emocionalmente ao protagonista. A montagem e a trilha sonora colaboram para intensificar o clima de tensão e mistério, enquanto a fotografia reforça a sensação de isolamento e confusão.

“XIII” é um curta que vai além do mero entretenimento, ao questionar a percepção que temos de nós mesmos e das mudanças que a vida nos impõe. A abordagem incomum do Suspense, junto à complexidade emocional do protagonista, torna o filme uma experiência única, onde a dúvida e a inquietação se misturam a cada cena. Um curta que, com criatividade e inventividade, nos deixa refletindo após o seu desfecho.




sexta-feira, 22 de agosto de 2025

BÉRADÊRO: CHICO CÉSAR E MAMA ÁFRICA (2025)


        O curta-metragem “Béradêro: Chico César e Mama África” oferece um mergulho profundo e sensível no universo do cantor e compositor paraibano Chico César, nascido em Catolé do Rocha. A obra traça a trajetória de um artista que partiu de uma cidade do interior da Paraíba para se tornar um dos nomes mais respeitados da música popular brasileira, conquistando reconhecimento nacional e internacional, mas sem jamais abandonar suas raízes. A narrativa do curta nos permite compreender não apenas sua carreira, mas também os vínculos afetivos, culturais e familiares que moldaram sua identidade artística e pessoal.

O filme combina memórias afetivas do artista com entrevistas de familiares, músicos, produtores e amigos, criando um retrato intimista e comovente. Ele nos conduz desde a vida simples no sítio, marcada por experiências cotidianas e pelo contato próximo com a natureza e a comunidade, até o estrelato e o reconhecimento internacional. A sensibilidade do curta revela como Chico César transforma sua vivência pessoal em arte, mantendo sempre um diálogo vivo com suas origens e com a cultura nordestina, sem perder a universalidade de sua música.

A canção “Mama África” ocupa lugar central na obra e serve como uma ponte entre passado e presente, lembrando ao Brasil sua herança africana, marcada por resistência, criatividade e resiliência. Apesar do processo histórico de exploração e violência sofrido pelos povos africanos, a africanidade continua presente na música, na dança, na culinária, na literatura e em todas as formas de expressão cultural brasileiras. “Mama África” não é apenas uma música: é um retrato etnocultural que nos convida a reconhecer e celebrar a ancestralidade africana, muitas vezes ignorada, mas pulsante e essencial para a formação social e cultural do Brasil. Por meio dela, Chico César dá voz a um Brasil plural, diverso e conectado às suas origens, seja na Paraíba, em São Paulo ou em qualquer outra região do país.

O curta também destaca a importância do ambiente familiar na formação do artista. A irmã de Chico, Iracy de Almeida, professora de música e idealizadora do Projeto “Gente que Encanta”, foi fundamental no desenvolvimento do talento do cantor. Iracy conduzia sozinha iniciativas socioeducativas voltadas à música, oferecendo oportunidades para crianças e jovens descobrirem e lapidarem seus potenciais artísticos. Essa dedicação influenciou diretamente a trajetória de Chico, que, em 2001, já reconhecido internacionalmente, fundou junto com a irmã o “Instituto Cultural Casa do Béradêro”, consolidando um espaço de promoção da música, da cultura nordestina e da formação artística.

Com roteiro, animação e direção de Gabriel Navajo, o filme combina dinamismo e profundidade narrativa. O espectador é transportado para Catolé do Rocha, conhecendo sua paisagem, habitantes, familiares e amigos de Chico César, sentindo a energia e a autenticidade da cidade que moldou parte de sua vida. As entrevistas com Aline Fernandes, Aprígio Ferreira do Nascimento, Carina Costa Fonseca, Chico Corrêa, Edclaudio Martins Costa, Emerina Gonçalves da Silva, Gael Mendes, Hermínio Neto, Jake Savona, Luciana França, Maria de Fátima Gonçalves da Silva, Nath Rodrigues, Reginaldo Silvestre e Renan Guaceroni aprofundam ainda mais a percepção do público sobre Chico e sobre a música “Mama África”. Cada depoimento ajuda a construir uma narrativa rica em detalhes, que aproxima o espectador da história do artista e evidencia como a influência africana está presente em todas as regiões do Brasil, conectando cidades pequenas como Catolé do Rocha a grandes metrópoles como São Paulo.

A menção a São Paulo é estratégica: foi nesta cidade que Chico vivenciou experiências transformadoras que, somadas às lembranças de Catolé do Rocha, deram origem à criação de “Mama África”. O curta mostra que a música de Chico não é restrita a um local específico; ela é um hino coletivo às mães brasileiras e a todos que enfrentam desafios diários com coragem, esforço e dedicação, transformando suas lutas em força para sustentar suas famílias e oferecer oportunidades aos filhos. Chico César consegue, assim, universalizar sua experiência, transformando vivências pessoais em mensagens de alcance nacional e internacional.

Tecnicamente, “Béradêro: Chico César e Mama África” se destaca por sua excelência. Arte, fotografia, montagem e trilha sonora se unem em harmonia, potencializando a narrativa e criando uma experiência sensorial rica para o espectador. A produção, realizada pela Xeque Mate Estúdios em parceria com a Xeque Mate Bebidas, resulta em um documentário visualmente impactante, emocionalmente envolvente e culturalmente relevante. Cada elemento técnico é cuidadosamente pensado para valorizar a história de Chico César, sua música e o universo que ele representa.

Mais do que um registro biográfico, o curta é uma celebração da música, da ancestralidade e da força transformadora das artes. Ele reforça o legado de Chico César e a importância de reconhecer e valorizar nossas raízes, mostrando como talento, dedicação e consciência cultural podem transcender fronteiras, tocar a alma do público e deixar um legado inesquecível. “Béradêro: Chico César e Mama África” nos lembra que a arte é capaz de unir história, memória e identidade, revelando a profundidade de um Brasil que pulsa em cada nota, em cada verso e em cada trajetória humana. 




quinta-feira, 21 de agosto de 2025

BOLHA (2018)

 


O curta-metragem "Bolha" é uma obra única que transcende os limites da narrativa tradicional, oferecendo uma abordagem abstrata e poética sobre a vida moderna e a relação do indivíduo com o mundo que o cerca. Dirigido por Mateus Alves, com roteiro de Julio Cavani, Marcelo Pedroso e o próprio Mateus Alves, o filme leva o espectador por uma jornada onírica e introspectiva, explorando as profundezas da consciência e subconsciência de um jovem que, embora inserido na realidade cotidiana, enfrenta uma profunda dessintonia com o que está ao seu redor.

O protagonista de "Bolha" vive uma vida aparentemente comum, movendo-se pelos cenários cotidianos de Recife, como as ruas da cidade, sua casa, consultório do dentista e um café. No entanto, há uma desconexão crescente entre ele e o ambiente ao seu redor, um afastamento que reflete a fragilidade das conexões humanas em uma era de hiperconectividade virtual. A trilha sonora do filme, pontuada por sons de notificações de aplicativos, exemplifica esse paradoxo: estamos cada vez mais conectados por meios digitais, mas emocionalmente e espiritualmente, cada vez mais isolados. Com um simples toque de tela, as relações que construímos podem ser desfeitas, e esse conceito é habilmente explorado ao longo do filme.

A produção de "Bolha" é um espetáculo visual que se destaca não apenas por sua narrativa, mas também por sua estética. O filme foi concebido a partir de pinturas a óleo e acrílico criadas pelo artista plástico pernambucano Daaniel Araújo, e essa escolha artística confere ao curta uma qualidade surreal e texturizada que o diferencia de outras animações. A estética das pinturas é integrada à animação de maneira magistral, oferecendo ao espectador uma experiência visual que vai além do simples entretenimento, proporcionando uma imersão sensorial e emocional.

O trabalho dos animadores e da equipe visual, composta por Ayodê França, Daaniel Araújo, Paulo Leonardo, Bruno Firmino, Sara Holmes e Yanna Luz, resulta em uma animação surrealista de altíssimo nível. Os cenários e os personagens transitam entre o real e o abstrato, e essa dualidade é explorada de maneira fluida e fascinante. Há momentos em que a realidade se dissolve, dando lugar a sequências subjetivas e metafóricas que transportam o protagonista e o espectador para uma dimensão desconhecida, onde as regras do tempo e do espaço parecem não se aplicar.

Um dos grandes triunfos técnicos de "Bolha" está na maneira como a fotografia, a direção de arte e a trilha sonora trabalham em conjunto para criar uma atmosfera imersiva. À medida que o filme avança, o protagonista embarca em uma viagem metafórica que começa em sua realidade cotidiana e, pouco a pouco, se expande para o cosmos. Esse mergulho no desconhecido é uma metáfora para a busca por sentido em um universo que, por mais que o conheçamos, ainda guarda muitos mistérios e vastidões inexploradas. O filme questiona o que há de desconhecido no cosmos e propõe uma reflexão filosófica: como seria experimentar a liberdade absoluta, livre das amarras materiais e das limitações impostas pelo tempo e pelo espaço?

"Bolha" também é uma obra que mescla, com maestria, elementos de diferentes gêneros cinematográficos, unindo o Drama e o Experimental em uma fusão que permite múltiplas interpretações. Cada espectador é levado a trazer sua própria experiência pessoal para a narrativa, que, por sua vez, abre margens para uma interpretação subjetiva. Não se trata apenas de acompanhar o que o protagonista está vivendo; é uma oportunidade de refletir sobre nossas próprias vidas, nossas conexões e as limitações do nosso entendimento sobre o universo ao redor.      

Além de sua abordagem estética inovadora, o filme também carrega uma mensagem filosófica profundamente tocante. "Bolha" nos lembra que, embora cada indivíduo habite seu próprio universo particular, estamos todos interligados por algo maior. A cosmologia que o filme sugere é vasta, complexa e abrangente, onde tudo tem o seu lugar e seu papel, por menor que possa parecer à primeira vista. Essa reflexão é intensificada pela representação visual do cosmos, que surge como um espaço metafórico no qual o protagonista se encontra, e no qual também nos encontramos, como seres em busca de significado.

A maturidade do curta é evidente tanto em sua construção narrativa quanto em sua execução técnica. "Bolha" não é uma Animação convencional; é uma obra metafórica e filosófica que exige do espectador uma postura contemplativa e aberta às nuances e subtextos presentes na trama. Ao mesmo tempo que propõe questões sobre a solidão, a desconexão e a fragilidade humana, o filme também nos convida a sonhar, a imaginar o que existe além das limitações de nossa percepção.

"Bolha" é um curta-metragem que transcende as barreiras do cinema convencional e se estabelece como uma experiência artística e reflexiva. Com sua estética singular, narrativa densa e abordagem filosófica, o filme é uma verdadeira joia do cinema experimental, proporcionando ao espectador uma viagem sensorial e intelectual única. É uma obra que nos desafia a olhar para dentro de nós mesmos e, ao mesmo tempo, a contemplar a vastidão do cosmos, relembrando-nos de que, apesar de estarmos conectados digitalmente, podemos estar profundamente desconectados de nós mesmos e do mundo ao nosso redor, precisando partir numa jornada de autodescoberta.




terça-feira, 19 de agosto de 2025

RIFA-ME (2000)

 


“Rifa-me” é um curta-metragem comovente que retrata o desespero e a solidão de Ana Paula, uma jovem mãe em Quixeramobim, no Ceará, que enfrenta uma situação limite. Abandonada pelo marido e sobrecarregada pela maternidade, Ana Paula se vê sem alternativas para deixar a cidade e busca uma solução radical: rifar-se, oferecendo seu corpo em troca de dinheiro para comprar uma passagem e escapar do lugar que a aprisiona.

O filme, protagonizado por Bilica Léo e dirigido por Karim Aïnouz, um dos grandes nomes do cinema brasileiro atual, foi um dos primeiros trabalhos do cineasta, mostrando já a marca sensível e impactante que ele traria em suas obras posteriores. Aïnouz, conhecido por sua capacidade de criar personagens altamente complexos e tramas envolventes, trata o tema delicado da prostituição de uma maneira que evita julgamentos e abre espaço para uma profunda empatia com Ana Paula. Mesmo que sua decisão seja difícil de aceitar, o espectador é conduzido a compreender a dimensão de seu desespero.

A escolha narrativa de Aïnouz de incluir a narração de dois repentistas logo no início não só conecta a história ao contexto cultural do sertão nordestino, mas também cria um distanciamento, em que o público é constantemente lembrado de que está assistindo a uma história contada. Isso é reforçado pelo uso do rádio como um elemento narrativo que marca a passagem do tempo, como uma presença constante que simboliza a continuidade da vida para todos ao redor, mesmo quando Ana Paula está à beira do colapso.

Além disso, a quebra da quarta parede, com alguns personagens interagindo diretamente com a câmera, é uma técnica poderosa que traz o espectador para dentro da situação de Ana Paula, permitindo que suas emoções, angústias e frustrações sejam vivenciadas de forma visceral. A influência do cordel também é evidente nas poesias recitadas ao longo do filme, reforçando a ligação da história com as tradições nordestinas e conferindo uma camada poética ao enredo.

A ambientação de “Rifa-me” é igualmente crucial para transmitir o estado de espírito da protagonista. Ao optar por locações como estradas vazias e um posto de gasolina deserto, Aïnouz simboliza a viagem que Ana Paula deseja realizar, uma fuga para longe da vida que a oprime. O isolamento dessas paisagens, sem o movimento habitual do centro de uma cidade, reflete sua solidão e o desejo de se distanciar de um ambiente que não lhe oferece saídas.

Tecnicamente, o filme impressiona por sua fotografia que, ao mesmo tempo em que realça a aridez do sertão, contrasta com a delicadeza do olhar sobre Ana Paula. A trilha sonora, marcada pelos sons da rádio, contribui para criar uma sensação de imersão no lugar e na cidade. Em meio à desolação de sua situação, Ana Paula não é apresentada como uma vítima passiva, mas como uma mulher determinada, ainda que insatisfeita com as escolhas que a vida lhe impôs.

A crítica social subjacente ao filme é profunda. Ao mesmo tempo em que expõe como muitas mulheres são objetificadas e vistas como mercadorias, o curta-metragem também lança luz sobre a falta de oportunidades e a vulnerabilidade das mulheres em situações de abandono e pobreza. A decisão de Ana Paula de rifar-se não é apresentada como uma escolha livre, mas como a única opção viável em meio a uma sociedade que ignora suas necessidades e a trata com indiferença.

No entanto, o filme também carrega uma mensagem de esperança e empatia. Mesmo diante de um gesto tão radical, a narrativa sugere que a compaixão e a solidariedade ainda são possíveis. O público é convidado a refletir sobre a forma como muitas vezes negligenciamos os dilemas alheios, seja por falta de tempo, seja por simplesmente por egoísmo. O rádio, que segue transmitindo sua programação diária, alheio aos dramas individuais, simboliza essa desconexão, enquanto a decisão de Ana Paula ecoa como um grito de socorro que, por fim, não pode ser ignorado.

“Rifa-me” revela, desde seus primeiros minutos, o talento de Karim Aïnouz em construir personagens multidimensionais, que resistem às simplificações. Ana Paula é uma mulher marcada pela dor e pelo desespero, mas também é alguém que, apesar de tudo, ainda carrega sonhos e desejos. Ela não é um estereótipo; é um retrato sensível de tantas mulheres que se veem forçadas a tomar decisões extremas para sobreviver.

Com uma construção narrativa sólida, um elenco afiado e uma direção que equilibra o lirismo com o realismo cru, “Rifa-me” é uma obra que transcende o drama pessoal e toca em questões universais sobre a dignidade humana, a solidariedade e a resiliência. É um filme que é enorme em impacto emocional e social.




sábado, 16 de agosto de 2025

LIXO (2023)

 

O que se vê em cena provavelmente não é a primeira discussão sobre o assunto entre Guta e Ernesto, mas, provavelmente será a última. Há algo de cíclico nesse embate, como se fosse um capítulo recorrente na vida conjugal do casal. Sob a direção segura de Renato Simões e com roteiro de Cadu Pereiva, “Lixo” nos apresenta esses dois personagens interpretados com naturalidade e presença por Rebecca Carvalho e Ben Gomes, mergulhando o espectador, já no início, em uma situação íntima que equilibra descontração e franqueza.

A comédia, de imediato, encontra seu ponto de partida no cansaço de Ernesto, mais uma vez abordado por Guta no momento em que ela busca intimidade. O texto, longe de adotar um tom vulgar, opta por brincar com a forma como o sexo é representado em tela, refletindo, com sutileza, sobre a função que o desejo e o contato físico exercem dentro de uma relação. Há humor, mas também existe um subtexto sobre expectativas, rotina e a capacidade (ou incapacidade) de comunicação entre parceiros.

À medida que a narrativa avança, novas camadas se revelam. A recusa de Ernesto não é mero desinteresse, há uma motivação curiosa e inesperada, construída de maneira hilária, que envolve desejos adormecidos, vontades inesperadas e a tentação de experimentar algo novo. O ponto alto da trama ocorre quando Ernesto revela ter encontrado, no lixo do condomínio, um antigo diário pertencente a outro morador. Ao folhear as páginas, ele se aproxima emocionalmente do autor anônimo, numa conexão silenciosa que contrasta com o distanciamento de sua própria esposa.

“Lixo” transcende a comédia romântica ao explorar tabus de forma desarmada. Guta, jovem, atraente e confiante, não consegue compreender como o marido poderia voltar suas atenções para outra pessoa. Mas o roteiro subverte as expectativas: o interesse de Ernesto não se traduz numa traição convencional, e sim numa forma alternativa de intimidade e identificação. Essa descoberta é tanto um choque para ele quanto para o público, pois o obriga a questionar seus próprios limites e o medo de revelar sentimentos que podem não ser correspondidos.

Rebecca Carvalho e Ben Gomes entregam atuações cheias de carisma e sintonia, com um timing cômico preciso e uma energia que mantém a narrativa agradável. A química entre eles é convincente o suficiente para que o espectador acredite tanto no desgaste da relação quanto no vínculo afetivo que ainda os une. A presença de Giulia Tolezzani, numa participação especial, ainda que breve, ajuda a ampliar a percepção do espectador sobre o segredo de Ernesto.

O roteiro é ágil e bem amarrado, evitando dispersões e conduzindo a história de forma fluida até uma resolução final espirituosa, que combina a leveza da comédia com a doçura de um olhar compreensivo sobre as falhas humanas. A direção de Renato Simões demonstra precisão na gestão do ritmo e na harmonização dos elementos narrativos, potencializada por uma fotografia funcional e uma direção de arte que não se impõe, mas constrói um cenário cotidiano verossímil. A trilha sonora, pontual e bem inserida, reforça a pegada cômica sem sobrecarregar as cenas.

“Lixo” é mais que uma comédia de DR’s e desencontros conjugais; é um retrato espirituoso sobre afetividade, comunicação e aceitação das diferenças, seja de idade, orientação sexual ou expectativas emocionais. Um curta que diverte, provoca reflexões leves e, acima de tudo, humaniza seus personagens, lembrando-nos de que nem todo conflito precisa ser resolvido com grandes gestos, às vezes, basta rir junto.




quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A ORELHA DE VAN GOGH (2014)

 


Adaptado do conto homônimo de Moacyr Scliar, o curta-metragem de animação “A Orelha de Van Gogh”, dirigido por Thiago Franco Ribeiro, com roteiro de Cris Lima, Glauciene Lara e Marcelo Bassoli, é uma obra sensível e inteligente, que consegue mesclar humor, drama e uma crítica sutil ao comportamento humano em situações de desespero. A história, contada a partir da perspectiva de um garoto, explora a relação de admiração e questionamento que ele tem em relação ao pai, um comerciante endividado que tenta, de forma quase ingênua, driblar suas dificuldades financeiras com uma solução inusitada.

O garoto narra a trama de forma carinhosa e ao mesmo tempo reflexiva, descrevendo seu pai como uma das pessoas mais inteligentes que ele conhece, alguém em quem ele se inspira. No entanto, essa visão começa a ser desafiada quando um evento específico, relacionado a uma dívida, faz com que o menino passe a questionar a esperteza e as escolhas do pai. O pai, dono de um pequeno armazém, enfrenta dificuldades financeiras por vender fiado, acumulando uma série de dívidas que colocam sua família à beira da ruína. Quando um fornecedor chega ao armazém cobrando uma dessas dívidas, o pai se vê numa encruzilhada.

A salvação momentânea surge de forma inesperada: um livro sobre o pintor holandês Vincent van Gogh, esquecido por algum cliente no balcão do armazém. O fornecedor, por coincidência, revela-se um grande admirador do artista, e o clima, antes tenso, se transforma em uma conversa amistosa. Aproveitando a oportunidade, o pai aceita o convite do fornecedor para visitar sua casa e ver de perto as réplicas das obras de Van Gogh que ele coleciona. Determinado a conquistar a simpatia do fornecedor, o pai elabora um plano ousado e mirabolante: ele decide levar um pote de vidro contendo a suposta orelha de Van Gogh, acompanhado de uma explicação criativa e engenhosa sobre como ela teria chegado em suas mãos.

Essa narrativa é o ponto de partida para uma série de reflexões tanto para o garoto quanto para o espectador. O curta não só expõe o desespero do pai ao tentar encontrar uma solução para seus problemas financeiros, mas também mostra como, em situações de crise, as pessoas podem agir de forma impulsiva e irracional, buscando saídas absurdas para escapar da pressão das dívidas. O humor do filme surge exatamente nesse contraste entre a genialidade do plano do pai e o quão absurda é a ideia de que alguém acreditaria que ele possui a orelha de um dos pintores mais famosos da história. Ainda assim, é uma lição para o menino, que, ao ver o pai tentando ludibriar o fornecedor, começa a entender as complexidades do mundo adulto e a necessidade de assumir responsabilidades.

Tecnicamente, “A Orelha de Van Gogh” é um primor. A animação, realizada com extremo cuidado e capricho, recria com precisão os ambientes por onde a história se desenrola: o armazém humilde, as ruas da cidade, a casa da família. Cada detalhe contribui para a atmosfera da narrativa, transportando o espectador diretamente para o cotidiano da família. O trabalho de dublagem também é de alta qualidade, com Samuel Altivo Campos, Leandro Acácio e Marco Nepomuceno dando voz aos personagens de maneira convincente e carismática, o que só enriquece a experiência.

A trilha sonora, de Peregrino Music Studio, com a participação de Izael Castro, Dandan Gallagher, Ana Roberta Resende, Alaécio Martins e Daniel Guedes, é outro destaque do curta. Ela equilibra perfeitamente os momentos de tensão, humor e sensibilidade, acompanhando o ritmo da história e ressaltando os momentos mais impactantes da narrativa. A música serve não apenas como pano de fundo, mas como um elemento fundamental que ajuda a criar a atmosfera envolvente da obra.

Além de abordar temas como a precariedade financeira e as escolhas desesperadas, o curta-metragem faz uma reflexão sobre o processo de amadurecimento do garoto. Ele percebe, ao longo da história, que o pai, apesar de toda sua criatividade e inteligência, comete erros, como a decisão de vender fiado para clientes que não pagam. O garoto já tem consciência de que esse é um dos maiores erros do pai, e essa situação apenas reforça sua percepção de que é preciso aprender a dizer “não” para certas pessoas e enfrentar a realidade com mais assertividade.

“A Orelha de Van Gogh” é uma Animação dinâmica e agradável, que prende a atenção do público ao contar uma história simples, mas cheia de nuances. A equipe de animação, liderada por Marco Túlio Ramos, Thiago Franco Ribeiro e Carlos Matheus Cacá, demonstra grande habilidade técnica ao criar personagens e cenários cativantes, ao mesmo tempo em que mantém a fluidez necessária para que a narrativa se desenvolva de forma natural e envolvente.

O curta é uma ode à imaginação, à ironia e à capacidade humana de encontrar soluções criativas, mesmo nas situações mais difíceis. Ao mesmo tempo, é uma lembrança de que, muitas vezes, a criatividade pode ser insuficiente diante das adversidades da vida real, e que é preciso lidar com as consequências de nossas ações. A experiência do menino, ao lado do pai e do fornecedor admirador de Van Gogh, deixa uma lição importante: o valor de encarar a realidade de frente e a importância de manter o equilíbrio entre a fantasia e a responsabilidade.

Com sua narrativa fluida, personagens cativantes e um humor refinado, “A Orelha de Van Gogh” é uma Animação que conquista tanto pelo conteúdo quanto pela forma. O curta consegue capturar a essência do conto de Moacyr Scliar, trazendo à tona a ironia e o humor característicos do autor, ao mesmo tempo em que oferece uma experiência cinematográfica única e emocionante.




terça-feira, 12 de agosto de 2025

DUPLO SENTIDO (2024)

 


Quando Lívia chega em casa e entra em seu quarto, ela não poderia esperar um choque maior. Ali, sentada em sua cama, está uma versão idêntica dela mesma, imóvel, mas perfeitamente viva. Sem saber o que fazer, ela recorre à sua amiga Lisandra.

Quando Lisandra chega à casa de Lívia, ela é compreensivelmente cética. A ideia de uma “outra Lívia” parece absurda, quase impossível. No entanto, sua descrença se desfaz quando Lívia abre a porta do quarto e revela a duplicidade diante de seus olhos. Ali, dentro do quarto, sentada na cama, está a outra versão de sua amiga. O que antes parecia uma brincadeira ou confusão mental, agora é uma realidade inegável. A partir desse momento, a tensão entre as amigas se intensifica, e o curta-metragem "Duplo Sentido" passa a explorar, com maestria, a crescente atmosfera de angústia e mistério que envolve as duas personagens.

"Duplo Sentido" é uma obra primorosa de Suspense, que flerta habilmente com o subgênero "Mindfuck", levando o espectador a questionar a natureza da realidade e da percepção. Dirigido por Luquiras e Gabriel Fernandes, o filme demonstra uma incrível capacidade de manter o espectador em suspense desde os primeiros minutos. A construção do ambiente é meticulosa; mesmo antes de Lívia abrir a porta de seu quarto, já sentimos o peso de algo sombrio e incompreensível prestes a se revelar. A tensão cresce de forma quase insuportável, à medida que mais camadas da história são desdobradas.

Um dos grandes destaques do filme é a atuação impecável de Nicolle Ferreira, no papel de Lívia, e Amanda Stadler, no papel de Lisandra. A performance de Nicolle transita entre o pavor e a confusão, capturando perfeitamente o terror psicológico que sua personagem experimenta ao confrontar uma versão aparentemente idêntica de si mesma. Amanda Stadler também brilha, trazendo à tona uma mistura de ceticismo e preocupação enquanto tenta, desesperadamente, ajudar a amiga a lidar com a situação incompreensível. A química entre as duas atrizes é notável, e a forma como ambas mantêm a tensão em alta, contribui para o constante clima de mistério que permeia todo o filme.

Embora a premissa central gire em torno da duplicidade de Lívia, o filme brinca de forma engenhosa com a percepção do espectador. Quem é a verdadeira Lívia? Existe, de fato, uma versão real? Ou estamos diante de uma situação muito mais complexa e inexplicável? À medida que a trama avança, o espectador é convidado a formular suas próprias teorias, enquanto os realizadores fornecem pistas sutis, mas que levam a várias interpretações possíveis. O filme se recusa a entregar respostas, preferindo manter o espectador em um estado constante de incerteza.

Conforme novos elementos são introduzidos, o desconforto das personagens aumenta. Um dos momentos mais perturbadores é quando o pai de Lisandra começa a enviar mensagens insistentemente pelo celular da filha. Quando ela finalmente decide responder, a trama atinge seu ápice de tensão, levando a um desfecho de tirar o fôlego. É nesse ponto que "Duplo Sentido" demonstra todo o seu potencial, surpreendendo o público com reviravoltas que desafiam a lógica e o entendimento.

Há quem tente interpretar "Duplo Sentido" de uma maneira mais racional, utilizando a Síndrome de Capgras, um distúrbio psiquiátrico no qual a pessoa acredita que alguém próximo foi substituído por um impostor, como uma explicação plausível para o que ocorre na tela. No entanto, para essa teoria fazer sentido, tanto Lívia quanto Lisandra teriam de compartilhar o mesmo transtorno, o que apenas adiciona mais camadas de complexidade à narrativa. Outros podem preferir uma abordagem mais sobrenatural, evocando a figura mitológica do doppelgänger, uma réplica fantasmagórica de uma pessoa. Contudo, o filme habilmente desconstrói todas essas explicações à medida que avança, criando um universo muito mais rico e enigmático.

Tecnicamente, o filme é um espetáculo à parte. A direção cuidadosa de Luquiras e Gabriel Fernandes faz uso inteligente de elementos narrativos e visuais. A trilha sonora é envolvente, contribuindo para o crescente suspense, enquanto a fotografia reforça a sensação de desespero das personagens, utilizando planos e ângulos perturbadores. A montagem é ágil e eficaz, guiando o espectador através das reviravoltas da trama sem perder o ritmo. Até os detalhes da direção de arte são cuidadosamente pensados para criar uma atmosfera carregada de simbolismos.

Mesmo com a limitação de se passar em apenas dois ambientes, o quarto e a sala de estar de Lívia, o filme consegue transmitir a sensação de que o que está em jogo é algo muito maior, algo que transcende a compreensão das personagens e dos espectadores. "Duplo Sentido" é, em sua essência, uma obra sobre o absurdo, o mistério e o inexplicável, culminando em uma conclusão surpreendente e profundamente perturbadora.




quinta-feira, 7 de agosto de 2025

MARANHÃO 66 (1966)

 


O Documentário “Maranhão 66”, dirigido pelo icônico cineasta Glauber Rocha e com colaboração de Fernando Duarte, é uma obra que transcende seu tempo. Lançado em 1966, o filme se debruça sobre a posse de José Sarney como governador do Maranhão, no mesmo ano, e sobre a crua realidade social do estado, marcada por promessas políticas grandiosas, mas desprovidas de ações concretas. O filme, embora antigo, ecoa uma mensagem dolorosamente atual, refletindo sobre como as práticas políticas de discurso vazio e abandono social se perpetuam no Brasil.

Glauber Rocha, um dos maiores expoentes do Cinema Novo, utilizou sua linguagem cinematográfica inovadora para construir uma narrativa impactante e visualmente perturbadora. No Documentário, Sarney, em um palanque majestoso, dirige seu discurso ao povo do Maranhão, exaltando as belezas naturais e prometendo melhorias para o estado. Contudo, o que se desenrola nas cenas seguintes é um contraste cruel: as palavras do político são justapostas com a dura realidade das ruas, onde o abandono, a pobreza extrema e a falta de infraestrutura se tornam protagonistas.

A direção de Rocha é implacável ao intercalar o discurso cheio de esperanças e promessas com imagens desoladoras do cotidiano maranhense: casas de taipa, esgoto a céu aberto, hospitais caindo aos pedaços. A alternância dessas cenas gera uma sensação de desconforto e indignação no espectador, revelando a falsa esperança vendida pela classe política em tempos de eleição. O Documentário não é uma simples crítica ao governador, mas sim uma exposição de uma realidade muito mais ampla, que toca as oligarquias que há décadas controlam o poder em várias regiões do Brasil.

Nas imagens de “Maranhão 66”, a pobreza e a desigualdade social ganham uma dimensão quase palpável. A lente de Glauber Rocha escancara a situação precária da população maranhense, abandonada por um sistema que promete mudança, mas perpetua um ciclo de negligências. A promessa de Sarney de um governo voltado para o desenvolvimento e a melhoria da vida das pessoas parece cada vez mais distante à medida que o filme avança e as imagens de miséria se intensificam.

Um dos momentos mais impactantes do Documentário ocorre quando, em meio aos gritos de apoio ao governador, surgem os depoimentos de uma enfermeira e de um paciente em um hospital sem a mínima condição de funcionamento. A precariedade é evidente: falta de leitos, falta de medicamentos, e uma estrutura incapaz de atender as necessidades mais básicas. Esses depoimentos humanizam a narrativa e dão voz àqueles que mais sofrem com o abandono estatal.

Rocha e Duarte fazem um trabalho excepcional ao contrastar esses relatos de dor e abandono com a retórica política de Sarney, que ecoa palavras como "progresso" e "desenvolvimento", mas que, na prática, não se concretizam para a maioria da população. As contradições entre discurso e realidade são escancaradas, fazendo com que o espectador reflita sobre a distância abissal entre o que é prometido e o que é vivido.

“Maranhão 66” é um Documentário que vai além de uma simples denúncia. Ele expõe a perpetuação de um sistema político excludente, onde as promessas de campanha são rapidamente esquecidas e onde os políticos, após eleitos, voltam a aparecer apenas quando novas eleições se aproximam. O ciclo de abandono e promessas vazias é apresentado de forma visceral, deixando claro que o que é retratado no Maranhão é um reflexo de uma realidade brasileira muito mais ampla.

As cenas de lixos nas ruas, urubus sobrevoando as áreas mais degradadas e crianças famintas compõem um retrato visual impactante, que não pode ser ignorado. O filme não oferece alívio ou esperança imediata. Ao contrário, Glauber Rocha provoca o espectador a encarar a realidade nua e crua da miséria e da fome que assolam o Maranhão, e que, em muitos aspectos, continuam a assolar diversas regiões do Brasil, décadas depois.

A genialidade de Glauber Rocha reside também em sua capacidade de colocar o espectador como parte da crítica social. O estilo documental cru e direto cria uma ruptura emocional com a forma convencional de se fazer política. O filme é uma declaração audaciosa de que os problemas sociais não podem ser varridos para debaixo do tapete, e que o cinema tem o poder de revelar essas verdades incômodas.

Em termos de linguagem cinematográfica, “Maranhão 66” é um exemplo da estética da fome defendida por Glauber Rocha e pelo Cinema Novo, movimento que buscava retratar as realidades sociais do Brasil de forma direta e sem romantizações. A opção por não maquiar ou suavizar a miséria e as condições precárias da população é uma escolha consciente, que visa chocar e provocar reflexão no espectador. A estética utilizada no filme reforça a sensação de caos e abandono que permeia as vidas das pessoas retratadas.

Outro ponto que merece destaque é a fotografia, que, apesar de sua simplicidade, é incrivelmente eficaz. As imagens de campos áridos, ruas enlameadas e corpos subnutridos contrastam com a pompa e circunstância do discurso político, criando uma dicotomia visual que amplifica a mensagem crítica do filme.

“Maranhão 66” é, sem dúvidas, um Documentário essencial para quem deseja entender não apenas a situação do Maranhão naquele período, mas também as dinâmicas políticas e sociais que continuam a moldar o Brasil. O filme é um retrato fiel de uma realidade que, infelizmente, permanece atual. Mesmo décadas após o lançamento do Documentário, as promessas políticas para combater a miséria e melhorar as condições de vida continuam a ser repetidas, e os problemas persistem.

Glauber Rocha, com sua visão crítica e seu talento inquestionável, criou uma obra que é, ao mesmo tempo, um documento histórico e uma denúncia atemporal. “Maranhão 66” é uma peça fundamental do Cinema Novo e da filmografia brasileira, que continua a reverberar como um grito de alerta contra a hipocrisia política e o abandono social.




JOSEFINA (2017)



           Inspirado na fotonovela homônima de Walda Marques, “Josefina” é um Suspense romântico que envolve o espectador ao mergulhar nas complexidades da nostalgia, do amor, dos sonhos e da solidão, explorando essas emoções em suas formas mais puras e delicadas. A trama, estruturada de maneira fragmentada, constrói uma narrativa que mistura passado e presente, realidade e fantasia, oferecendo uma experiência cinematográfica rica em significados e interpretações.

O curta-metragem se baseia na lenda urbana da “Moça do Carro de Aluguel”, um conto popular sobre a aparição sobrenatural de uma jovem mulher que sempre solicita carona para taxistas em noites silenciosas nas ruas da cidade de Belém, no Pará. Esse detalhe acrescenta à obra uma camada de mistério e sobrenaturalidade, que reforça o tom melancólico e poético da história.

A trilha sonora, cuidadosamente selecionada, complementa a narrativa com uma sensibilidade ímpar, potencializando os momentos de introspecção e solidão. Já a fotografia, com enquadramentos sutis e uma paleta de cores suave, cria uma atmosfera de nostalgia que transporta o público para as memórias dos personagens. Cada elemento visual e sonoro se entrelaça de forma harmônica, elevando o impacto emocional da obra.

O enredo gira em torno de três personagens principais que, à primeira vista, parecem desconectados, mas que estão unidos por algo muito mais profundo e enigmático. Josefina, interpretada com delicadeza por Paola Pinheiro, é uma jovem que, ao longo do filme, revive constantemente as lembranças dos momentos felizes que passava com seu pai, quando ele a levava para passear de carro nos seus aniversários. A construção da personagem é permeada por um misto de melancolia e ternura, fazendo com que suas memórias se tornem quase palpáveis para o espectador.

O segundo personagem, um jovem músico interpretado por Diogo Souza, carrega em si o peso de uma perda irreparável: o amor de sua vida. Sua dor é silenciosa, porém intensa, e sua solidão é retratada de forma sutil, mas poderosa, evocando uma sensação de vazio e saudade que ressoa profundamente no público. Por fim, temos o taxista, vivido por Claudio de Melo, que percorre as ruas da cidade em busca de algo indefinido, algo que ele sente estar perdido e que, talvez, ele nunca encontre. Sua trajetória é marcada por uma inquietação silenciosa, representando a busca incessante por respostas que a vida muitas vezes se recusa a fornecer.

“Josefina” é um Suspense poético que, além de flertar com o sobrenatural, entrelaça de maneira brilhante os gêneros do Drama e Romance, criando uma fusão única e instigante. Ao longo do filme, percebe-se que, embora o estado atual de Josefina pudesse ser interpretado como algo trágico ou assustador, sua presença é, na verdade, marcada por uma profunda serenidade. A personagem não inspira temor, mas sim um sentimento de empatia e conexão, como se suas memórias e sua presença transitória representassem a própria fragilidade da existência humana.

A temática do filme gira em torno da finitude da vida material e do questionamento sobre o que permanece após a morte. Zienhe Castro, ao dirigir a adaptação da fotonovela, opta por não se comprometer inteiramente com uma única visão — seja a de que os mortos vivem apenas em nossas lembranças, ou a possibilidade de uma existência espiritual além da morte. Em vez disso, ela mistura essas duas vertentes, criando um universo onde realidade e sonhos coexistem de maneira fluida, e o presente e o passado se entrelaçam de forma inevitável, como se um fosse consequência direta do outro.

Tecnicamente, o filme impressiona por sua cuidadosa atenção aos detalhes. A narrativa flui com naturalidade, oscilando entre momentos de introspecção e momentos de tensão, enquanto os elementos dramáticos são explorados de maneira suave, sem excessos. A delicadeza com que a história é contada, aliada à escolha precisa dos recursos visuais e sonoros, resulta em uma obra que enche os olhos do espectador e desperta nele um sentimento de saudade, como se, ao final, todos fôssemos de alguma forma parte daquele mundo onírico.

As atuações de Paola Pinheiro, Diogo Souza e Claudio de Melo são contidas, mas poderosas, revelando que a vida, com todas as suas incertezas, nos escapa pelas mãos. Suas performances revelam que há muito sobre o que não temos controle, e que, em meio a essas imposições da vida, somos forçados a seguir adiante, mesmo quando o futuro é incerto e o caminho é árduo. O filme, assim, explora o desencanto e a resignação diante de uma realidade que não é escolhida, mas que, ainda assim, deve ser enfrentada.

“Josefina” é, em essência, uma obra que vai além da simples narração de uma história. Ela transcende os limites convencionais do cinema, tornando-se uma reflexão profunda sobre a condição humana, sobre o que significa viver e, sobretudo, sobre o que permanece quando já não estamos mais aqui. A produção é um verdadeiro testemunho do talento da equipe técnica e criativa, que soube dosar com precisão cada elemento da narrativa, entregando um resultado final que é ao mesmo tempo sensível e impactante.

A sensibilidade com que o filme trata temas como o amor, a perda e a busca por algo que não se pode alcançar, torna "Josefina" uma verdadeira obra de arte.




UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...