domingo, 18 de outubro de 2026

À MARGEM DO UNIVERSO (2017)

 


        Assistir a uma obra como “À Margem do Universo” provoca uma sensação bastante singular. Primeiro, porque se trata de um gênero ainda pouco explorado dentro do cinema brasileiro. Segundo, porque oferece uma experiência profundamente comovente para o espectador que consegue mergulhar na jornada da personagem principal e nas reflexões propostas pela narrativa.

         Antes de avançar na análise, vale explicar o título deste texto. Segundo uma das definições do termo alien, a palavra pode designar alguém que vem de outro país, cultura ou grupo social. Já em seu sentido mais popular, refere-se a seres extraterrestres. No Brasil, estamos muito mais acostumados a utilizar essa segunda definição. Entretanto, “À Margem do Universo” trabalha de forma interessante com ambas as interpretações, permitindo que elas coexistam ao longo da narrativa.

        Com roteiro de Fáuston da Silva e direção de Tiago Esmeraldo, o filme se inicia com o despertar de Adawa, interpretada pela atriz angolana Petra Sunjo, após um período de hibernação. Sua missão consiste em descer à superfície de um planeta aparentemente devastado, possivelmente destruído pela própria população em consequência de uma guerra biológica. A partir desse momento, o espectador é conduzido por uma experiência visual extremamente rica.

         O que vemos em tela é resultado de uma combinação muito eficiente entre fotografia, direção de arte, maquiagem, trilha sonora e efeitos visuais. Todos esses elementos trabalham em sintonia para criar uma atmosfera envolvente e convincente. Os efeitos visuais impressionam pela qualidade e ajudam a construir um universo que parece vivo e crível. Já a fotografia de Gustavo Serrate, premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, é um dos grandes destaques da produção.

         A escolha da Chapada dos Veadeiros como cenário também merece atenção. As formações rochosas, os espaços amplos e a aparência quase extraterrestre da paisagem contribuem para a sensação de descoberta e isolamento que acompanha Adawa durante toda a jornada. Em diversos momentos, o ambiente se transforma em um personagem silencioso da narrativa.

        Tudo o que acontece em “À Margem do Universo” possui uma finalidade. O roteiro e a direção demonstram enorme precisão narrativa. Não existem cenas desperdiçadas nem momentos que pareçam desnecessários. Tiago Esmeraldo conduz os 17 minutos de duração mantendo constantemente o interesse do público. Seja através de planos abertos que exploram a grandiosidade da paisagem ou de planos mais fechados que aproximam o espectador da protagonista, o filme demonstra domínio de sua linguagem visual.

         Outro aspecto bastante interessante é a inversão promovida pelo roteiro em relação a muitos clichês tradicionais da Ficção Científica. Em diversas obras do gênero, a humanidade costuma ser retratada como uma espécie incapaz de superar seus conflitos. Aqui, embora exista a memória de um planeta destruído, o filme parece seguir por outro caminho. A narrativa sugere que os seres humanos podem evoluir não apenas tecnologicamente, mas também social e moralmente. É uma visão surpreendentemente otimista e que ajuda a explicar por que tantos espectadores destacam a esperança presente na obra.

         A atuação de Petra Sunjo reforça ainda mais essa proposta. Sua interpretação confere humanidade, sensibilidade e profundidade à personagem Adawa. Além disso, sua presença amplia as possibilidades de representação dentro da Ficção Científica nacional, ajudando o filme a construir uma identidade própria.

        Quando Adawa perde contato com a Unidade Wami e encontra outro integrante de sua espécie pertencente a uma expedição diferente, a narrativa passa a desenvolver reflexões ainda mais profundas sobre os seres humanos. O filme questiona como uma espécie capaz de alcançar níveis tão elevados de desenvolvimento tecnológico também foi capaz de produzir violência, destruição e guerras.

         Nesse momento, a obra nos convida a refletir sobre a nossa própria realidade. Vivemos no mesmo planeta, compartilhamos os mesmos espaços, mas frequentemente permitimos que diferenças ideológicas, culturais ou políticas se transformem em barreiras. Em tempos marcados por polarizações e conflitos, “À Margem do Universo” oferece uma mensagem rara de esperança e reconciliação.

         Outro detalhe que merece destaque é a utilização do idioma indígena Suruwahá. Atualmente falado por cerca de 140 pessoas, trata-se de uma língua ameaçada de desaparecimento. Sua presença no filme vai muito além de uma curiosidade linguística. Enquanto muitas produções criam idiomas fictícios para representar civilizações alienígenas, o longa utiliza uma língua real, ligada à ancestralidade brasileira. Dessa forma, estabelece um diálogo fascinante entre futuro e passado, tecnologia e tradição.

        Talvez seja justamente por isso que sua resolução final seja tão impactante. Depois de acompanhar uma investigação arqueológica em um planeta aparentemente morto, percebemos que o verdadeiro objeto de estudo nunca foi apenas a civilização desaparecida. O filme está interessado em compreender aquilo que ainda existe de melhor dentro da humanidade.

     Com um desfecho magistral, “À Margem do Universo” eleva a discussão para um nível profundamente humano. É uma obra que utiliza a Ficção Científica para refletir sobre quem somos, o que fazemos e para onde desejamos seguir. Mais do que uma história sobre seres vindos de outro planeta, trata-se de uma reflexão sensível sobre nossa própria existência.




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