sábado, 10 de outubro de 2026

MANHÃ CINZENTA (1969)

 


        “Manhã Cinzenta” foi realizado por Olney São Paulo entre 1968 e 1969, a partir de um conto homônimo escrito pelo próprio cineasta em 1966. A história acontece em um país fictício da América Latina, onde um casal de estudantes participa de uma manifestação contra um regime autoritário. Eles são presos e submetidos a um interrogatório absurdo, envolvendo policiais, um robô e um “cérebro eletrônico”. Mas o país fictício é justamente uma das grandes estratégias de Olney. Ele cria uma distância geográfica para falar de algo extremamente concreto: o Brasil sob a ditadura militar.

         O filme é uma alegoria, mas não uma alegoria distante. Olney não precisa mostrar explicitamente o Brasil para falar do Brasil. O golpe acontece em um país inventado, mas as imagens documentais das manifestações de rua aproximam o filme da realidade brasileira. O resultado é uma mistura deliberada de ficção, documentário, literatura, música, teatro e material jornalístico. Estudos acadêmicos tratam justamente dessa construção intermidiática do filme. Isso é muito importante porque transforma “Manhã Cinzenta” em algo mais complexo do que uma simples narrativa sobre repressão.

        O filme não está dizendo: “Isso aconteceu naquele país imaginário”. A estrutura permite compreender que estava ocorrendo aqui. E, para quem assistia ao filme em 1969, provavelmente a distância entre o país fictício e o Brasil era ainda menor. A alegoria funcionava justamente porque o espectador conseguia reconhecer, por trás da ficção, uma realidade que fazia parte do seu cotidiano.

         Uma das grandes forças do curta reside na potência de seu elenco, que inclui nomes como Janet Chermont, Maria Helena Saldanha, Sonélio Costa, Jorge Dias, Nestor Noya, Cláudio Paiva, Paulo Neves, Antonio Manoel, Carlos Pinto, Marcio Cury, Flávio Moreira da Costa, Iberê Cavalcante, Nevile Almeida, Poty e Zena Felix. Seja com maior ou menor protagonismo, todas as atuações engrandecem ainda mais uma obra provocativa, desafiadora e incômoda.

         Outra grande força é a montagem. Glauber Rocha chamou o filme de “filmexplosão” e destacou sua “montagem caleidoscópica”. A montagem não procura necessariamente oferecer uma narrativa confortável, linear e explicativa. Ela fragmenta. Imagens, sons, discursos, manifestações, música, elementos documentais e ficcionais aparecem como pedaços de uma realidade política que está sendo desmontada diante do espectador. É quase como se a forma do filme reproduzisse aquilo que ele está denunciando: uma sociedade fragmentada pela violência política.

        O título também pode render uma interpretação bastante pertinente. A manhã normalmente pode representar começo, nascimento, esperança, renovação, futuro. Mas essa manhã é cinzenta. O filme transforma aquilo que deveria ser luminoso em algo opressivo. A “manhã” existe, mas não significa necessariamente um novo começo. Pode significar o começo de uma nova fase de repressão. E existe ainda outra possibilidade: a manhã cinzenta pode ser uma sociedade que perdeu a capacidade de enxergar claramente o próprio futuro.

         O casal é muito importante para a narrativa e a dramaticidade do filme porque não representa apenas duas pessoas. Janet Chermont e Sonélio Costa, como protagonistas, podem ser compreendidos como uma representação de uma juventude politicamente inquieta. Os estudantes aparecem associados à manifestação, à contestação e à possibilidade de transformação social.

         Pesquisas recentes analisam justamente a representação da comunidade universitária no filme e sua relação com o projeto autoritário para as universidades durante a ditadura. E isso é particularmente interessante porque o regime autoritário não reprime somente uma manifestação. Ele reprime a possibilidade de pensamento crítico. A universidade, nesse contexto, torna-se um espaço perigoso para um governo que deseja controlar a produção de conhecimento e limitar a circulação de ideias.

         A música também merece atenção. A trilha reúne obras como “Misa Criolla”, de Ariel Ramírez, “Semper Fidelis” e “Washington Post March”, de John Philip Sousa, e “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso. A presença de “É Proibido Proibir”, particularmente, é carregada de significado histórico. A música nasceu no contexto das manifestações estudantis de 1968 e da própria repressão daquele período. Portanto, ela não está simplesmente acompanhando as imagens. Introduz dentro do filme um contexto histórico que já existia fora dele.

         A relação entre cinema e música é fundamental para compreender a construção do discurso de resistência de “Manhã Cinzenta”. A trilha ajuda a criar uma obra que não apenas conta uma história, mas reúne diferentes manifestações artísticas e culturais para construir uma espécie de mosaico político.

         Outro aspecto extremamente importante é a maneira como ficção e documentário se confundem. O filme utiliza imagens de manifestações reais ao mesmo tempo em que apresenta uma narrativa ficcional. Isso produz uma espécie de contaminação: a ficção parece real porque as imagens documentais estão ali; e o documento parece ficção porque está inserido dentro daquela narrativa alegórica.

         O espectador não consegue manter uma distância confortável. A ditadura não aparece somente como uma história contada por personagens. Ela aparece como realidade histórica registrada pela câmera. Essa escolha é politicamente poderosa porque aproxima o espectador de acontecimentos que poderiam ser tratados apenas como parte de uma narrativa inventada.

         “Manhã Cinzenta” também acabou se tornando um documento histórico de seu próprio período. O filme não é somente uma obra que fala sobre a ditadura. Ele próprio passou a fazer parte da história da repressão brasileira. E isso acontece de maneira particularmente dolorosa porque Olney São Paulo não apenas representou um Estado autoritário. O cineasta também sofreu diretamente as consequências da repressão.

         Em 8 de outubro de 1969, um avião brasileiro foi sequestrado por integrantes do MR-8 e desviado para Cuba. Uma cópia de “Manhã Cinzenta” foi exibida dentro do avião. As autoridades associaram Olney ao sequestro, embora ele não tivesse participado dele. O cineasta foi preso e permaneceu incomunicável por cerca de doze dias. Foi submetido a torturas e sofreu graves consequências físicas e psicológicas. Mais tarde, em 13 de janeiro de 1972, o Superior Tribunal Militar o absolveu definitivamente das acusações relacionadas ao filme.

          Essa relação entre obra e realidade torna a experiência de assistir ao curta ainda mais perturbadora. Olney fez um filme sobre um regime que prende e tortura pessoas e acabou preso e torturado pelo próprio regime que sua obra denunciava metaforicamente. Depois disso, “Manhã Cinzenta” passou a adquirir uma dimensão ainda mais dolorosa, porque a violência representada na ficção encontraria correspondência na própria experiência do realizador.

         Os negativos e cópias do filme foram confiscados. Uma cópia, entretanto, foi preservada clandestinamente na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro durante aproximadamente 25 anos. Olney também tomou precauções para enviar cópias para fora do país, permitindo que a obra circulasse internacionalmente. O filme passou por festivais como Pesaro, Viña del Mar, Quinzena dos Realizadores de Cannes, Mannheim e Oberhausen. A Cinemateca registra ainda o prêmio de Melhor Média-Metragem na Semana Internacional de Mannheim, em 1970.

         Existe uma ironia terrível nessa trajetória. O Brasil tentou silenciar “Manhã Cinzenta”, mas o próprio esforço de censura e repressão não conseguiu impedir que a obra sobrevivesse. Pelo contrário, o filme acabou encontrando espaços de circulação fora do país e conquistando reconhecimento internacional.

            Talvez seja justamente por isso que “Manhã Cinzenta” possa ser compreendido como uma espécie de dispositivo de alerta. O filme não parece querer apenas dizer “olhem o que está acontecendo”. Ele também parece dizer: “prestem atenção”. A obra nasceu dentro de um período de repressão, mas sua força permanece porque os mecanismos de autoritarismo, silenciamento e controle continuam sendo questões que precisam ser observadas.

         “Manhã Cinzenta” é uma obra provocativa, experimental e profundamente política. Olney São Paulo utiliza ficção, documentário, música, montagem fragmentada e alegoria para construir um retrato perturbador de uma sociedade submetida à violência autoritária. É um filme que não facilita a experiência do espectador, e justamente por isso permanece tão inquietante.

         Mais do que falar sobre a ditadura, “Manhã Cinzenta” tornou-se parte da história que pretendia denunciar. E talvez essa seja uma de suas características mais trágicas e poderosas. O filme tentou representar a violência de um regime, mas acabou tendo sua própria existência perseguida por esse mesmo regime. Décadas depois, continua sendo um alerta sobre a importância da liberdade, da memória e da resistência.


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