“Manhã Cinzenta” foi realizado
por Olney São Paulo entre 1968 e 1969, a partir de um conto homônimo escrito
pelo próprio cineasta em 1966. A história acontece em um país fictício da
América Latina, onde um casal de estudantes participa de uma manifestação
contra um regime autoritário. Eles são presos e submetidos a um interrogatório
absurdo, envolvendo policiais, um robô e um “cérebro eletrônico”. Mas o país
fictício é justamente uma das grandes estratégias de Olney. Ele cria uma
distância geográfica para falar de algo extremamente concreto: o Brasil sob a
ditadura militar.
O
filme é uma alegoria, mas não uma alegoria distante. Olney não precisa mostrar
explicitamente o Brasil para falar do Brasil. O golpe acontece em um país
inventado, mas as imagens documentais das manifestações de rua aproximam o
filme da realidade brasileira. O resultado é uma mistura deliberada de ficção,
documentário, literatura, música, teatro e material jornalístico. Estudos
acadêmicos tratam justamente dessa construção intermidiática do filme. Isso é
muito importante porque transforma “Manhã Cinzenta” em algo mais complexo do
que uma simples narrativa sobre repressão.
O filme não está dizendo: “Isso aconteceu naquele país imaginário”. A estrutura permite compreender que estava ocorrendo aqui. E, para quem assistia ao filme em 1969, provavelmente a distância entre o país fictício e o Brasil era ainda menor. A alegoria funcionava justamente porque o espectador conseguia reconhecer, por trás da ficção, uma realidade que fazia parte do seu cotidiano.
Uma
das grandes forças do curta reside na potência de seu elenco, que inclui nomes
como Janet Chermont, Maria Helena Saldanha, Sonélio Costa, Jorge Dias, Nestor
Noya, Cláudio Paiva, Paulo Neves, Antonio Manoel, Carlos Pinto, Marcio Cury,
Flávio Moreira da Costa, Iberê Cavalcante, Nevile Almeida, Poty e Zena Felix.
Seja com maior ou menor protagonismo, todas as atuações engrandecem ainda mais
uma obra provocativa, desafiadora e incômoda.
Outra
grande força é a montagem. Glauber Rocha chamou o filme de “filmexplosão” e
destacou sua “montagem caleidoscópica”. A montagem não procura necessariamente
oferecer uma narrativa confortável, linear e explicativa. Ela fragmenta.
Imagens, sons, discursos, manifestações, música, elementos documentais e
ficcionais aparecem como pedaços de uma realidade política que está sendo
desmontada diante do espectador. É quase como se a forma do filme reproduzisse
aquilo que ele está denunciando: uma sociedade fragmentada pela violência
política.
O título também pode render uma interpretação bastante pertinente. A manhã normalmente pode representar começo, nascimento, esperança, renovação, futuro. Mas essa manhã é cinzenta. O filme transforma aquilo que deveria ser luminoso em algo opressivo. A “manhã” existe, mas não significa necessariamente um novo começo. Pode significar o começo de uma nova fase de repressão. E existe ainda outra possibilidade: a manhã cinzenta pode ser uma sociedade que perdeu a capacidade de enxergar claramente o próprio futuro.
O
casal é muito importante para a narrativa e a dramaticidade do filme porque não
representa apenas duas pessoas. Janet Chermont e Sonélio Costa, como
protagonistas, podem ser compreendidos como uma representação de uma juventude
politicamente inquieta. Os estudantes aparecem associados à manifestação, à
contestação e à possibilidade de transformação social.
Pesquisas
recentes analisam justamente a representação da comunidade universitária no
filme e sua relação com o projeto autoritário para as universidades durante a
ditadura. E isso é particularmente interessante porque o regime autoritário não
reprime somente uma manifestação. Ele reprime a possibilidade de pensamento
crítico. A universidade, nesse contexto, torna-se um espaço perigoso para um
governo que deseja controlar a produção de conhecimento e limitar a circulação
de ideias.
A
música também merece atenção. A trilha reúne obras como “Misa Criolla”, de
Ariel Ramírez, “Semper Fidelis” e “Washington Post March”, de John Philip
Sousa, e “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso. A presença de “É Proibido
Proibir”, particularmente, é carregada de significado histórico. A música
nasceu no contexto das manifestações estudantis de 1968 e da própria repressão
daquele período. Portanto, ela não está simplesmente acompanhando as imagens.
Introduz dentro do filme um contexto histórico que já existia fora dele.
A
relação entre cinema e música é fundamental para compreender a construção do
discurso de resistência de “Manhã Cinzenta”. A trilha ajuda a criar uma obra
que não apenas conta uma história, mas reúne diferentes manifestações artísticas
e culturais para construir uma espécie de mosaico político.
Outro
aspecto extremamente importante é a maneira como ficção e documentário se
confundem. O filme utiliza imagens de manifestações reais ao mesmo tempo em que
apresenta uma narrativa ficcional. Isso produz uma espécie de contaminação: a
ficção parece real porque as imagens documentais estão ali; e o documento
parece ficção porque está inserido dentro daquela narrativa alegórica.
O
espectador não consegue manter uma distância confortável. A ditadura não
aparece somente como uma história contada por personagens. Ela aparece como
realidade histórica registrada pela câmera. Essa escolha é politicamente
poderosa porque aproxima o espectador de acontecimentos que poderiam ser
tratados apenas como parte de uma narrativa inventada.
“Manhã
Cinzenta” também acabou se tornando um documento histórico de seu próprio
período. O filme não é somente uma obra que fala sobre a ditadura. Ele próprio
passou a fazer parte da história da repressão brasileira. E isso acontece de
maneira particularmente dolorosa porque Olney São Paulo não apenas representou
um Estado autoritário. O cineasta também sofreu diretamente as consequências da
repressão.
Em
8 de outubro de 1969, um avião brasileiro foi sequestrado por integrantes do
MR-8 e desviado para Cuba. Uma cópia de “Manhã Cinzenta” foi exibida dentro do
avião. As autoridades associaram Olney ao sequestro, embora ele não tivesse
participado dele. O cineasta foi preso e permaneceu incomunicável por cerca de
doze dias. Foi submetido a torturas e sofreu graves consequências físicas e
psicológicas. Mais tarde, em 13 de janeiro de 1972, o Superior Tribunal Militar
o absolveu definitivamente das acusações relacionadas ao filme.
Essa relação entre obra e realidade torna a experiência de assistir ao curta ainda mais perturbadora. Olney fez um filme sobre um regime que prende e tortura pessoas e acabou preso e torturado pelo próprio regime que sua obra denunciava metaforicamente. Depois disso, “Manhã Cinzenta” passou a adquirir uma dimensão ainda mais dolorosa, porque a violência representada na ficção encontraria correspondência na própria experiência do realizador.
Os
negativos e cópias do filme foram confiscados. Uma cópia, entretanto, foi
preservada clandestinamente na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro durante aproximadamente 25 anos. Olney também tomou precauções para
enviar cópias para fora do país, permitindo que a obra circulasse
internacionalmente. O filme passou por festivais como Pesaro, Viña del Mar,
Quinzena dos Realizadores de Cannes, Mannheim e Oberhausen. A Cinemateca
registra ainda o prêmio de Melhor Média-Metragem na Semana Internacional de
Mannheim, em 1970.
Existe
uma ironia terrível nessa trajetória. O Brasil tentou silenciar “Manhã Cinzenta”,
mas o próprio esforço de censura e repressão não conseguiu impedir que a obra
sobrevivesse. Pelo contrário, o filme acabou encontrando espaços de circulação
fora do país e conquistando reconhecimento internacional.
Talvez seja justamente por isso que “Manhã Cinzenta” possa ser compreendido como uma espécie de dispositivo de alerta. O filme não parece querer apenas dizer “olhem o que está acontecendo”. Ele também parece dizer: “prestem atenção”. A obra nasceu dentro de um período de repressão, mas sua força permanece porque os mecanismos de autoritarismo, silenciamento e controle continuam sendo questões que precisam ser observadas.
“Manhã
Cinzenta” é uma obra provocativa, experimental e profundamente política. Olney
São Paulo utiliza ficção, documentário, música, montagem fragmentada e alegoria
para construir um retrato perturbador de uma sociedade submetida à violência
autoritária. É um filme que não facilita a experiência do espectador, e
justamente por isso permanece tão inquietante.
Mais
do que falar sobre a ditadura, “Manhã Cinzenta” tornou-se parte da história que
pretendia denunciar. E talvez essa seja uma de suas características mais
trágicas e poderosas. O filme tentou representar a violência de um regime, mas
acabou tendo sua própria existência perseguida por esse mesmo regime. Décadas
depois, continua sendo um alerta sobre a importância da liberdade, da memória e
da resistência.





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