quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PRETO NO BRANCO (2016)


            Com roteiro e direção de Valter Rege, “Preto no Branco” é um Drama que acompanha a saída de Roberto Carlos do trabalho e sua corrida pela rua para não perder o ônibus. Entretanto, ao passar pela frente de um shopping center, a vida dele e de Isabella se cruzam, iniciando uma experiência violenta, angustiante e profundamente perturbadora para o jovem negro.

         Acusado pela mulher, Roberto é abordado por dois policiais civis que passavam pelo local no momento em que Isabella teve sua bolsa roubada. Essa sequência é extremamente desconfortável. E o seu impacto é ainda maior porque a situação apresentada pelo filme não parece distante da realidade brasileira. Pelo contrário. A sensação é de que estamos assistindo a algo que se repete diariamente em diferentes cidades do país. O curta consegue transformar um acontecimento específico em uma reflexão muito mais ampla sobre preconceito, suspeita e desigualdade.

        Com um elenco afiado, “Preto no Branco” desenvolve uma trama cheia de camadas e que merecem ser debatidas e refletidas. Numa perspectiva mais abrangente, Roberto e Isabella podem ser vistos menos como indivíduos específicos e mais como representantes de posições sociais diferentes dentro da sociedade brasileira. O jovem, interpretado por Marcos Oliveira, entrega uma atuação potente, intensa e visceral. Sua expressão corporal, seu olhar e sua reação diante das acusações ajudam a transmitir a sensação de impotência vivida pelo personagem. Maria Bopp vive o papel da vítima do roubo, tendo uma performance bastante competente. Taiguara Nazareth e Guilherme Lopes interpretam os policiais responsáveis pela prisão de Roberto Carlos.

         No entanto, a delegada Patrícia, interpretada por Carolina Holanda, é uma personagem que merece atenção especial. Ela ocupa uma posição interessante dentro da narrativa. Não está claramente alinhada nem com Roberto nem com Isabella. Sua hesitação pode representar algo maior: a dificuldade das instituições em lidar com situações onde preconceito, memória e verdade se misturam. A forma como a personagem é construída faz com que ela funcione como representante do próprio espectador, que ouve tanto Isabella quanto Roberto e precisa compreender a situação sem ter acesso imediato à verdade dos fatos.

         “Preto no Branco” foi realizado através do edital Curta Afirmativo para Jovens Produtores Negros, iniciativa voltada ao protagonismo de cineastas negros no audiovisual brasileiro. Trata-se de uma informação relevante porque ajuda a compreender a importância do filme dentro de um contexto maior de representatividade e produção cultural. Além disso, o curta foi selecionado para o Toronto Black Film Festival, demonstrando que sua temática dialoga com discussões raciais que ultrapassam o contexto brasileiro e encontram eco em diferentes partes do mundo.

         O verdadeiro conflito estabelecido por Valter Rege não está somente no embate criado entre Roberto e Isabella. O verdadeiro confronto ocorre entre duas formas de credibilidade social. De um lado está Roberto, jovem negro, trabalhador e acusado. Do outro está Isabella, jovem branca e vítima de um crime. O filme questiona qual das versões tende a ser considerada verdadeira antes mesmo da existência de provas concretas. Essa é uma das reflexões mais poderosas da obra.

        Sendo assim, “Preto no Branco” busca questionar um fator extremamente relevante para a sociedade brasileira: o racismo estrutural. No filme, a abordagem de Roberto Carlos possui uma motivação racista por parte dos policiais, mesmo com um deles sendo negro. E esse detalhe é particularmente interessante porque o curta evita simplificações. O preconceito não aparece apenas através de atitudes individuais, mas também através de mecanismos sociais que acabam sendo reproduzidos por diferentes pessoas.

         No entanto, abordagens de jovens negros não precisam focar necessariamente no racismo explícito. Ninguém precisa fazer um discurso racista para que o racismo esteja presente. No caso de Roberto, o preconceito aparece através de mecanismos aparentemente normais: a abordagem policial imediata, a associação automática entre negritude e suspeição, a força atribuída ao reconhecimento da vítima e a dificuldade em conceder ao acusado o benefício da dúvida. É justamente por isso que o filme costuma ser utilizado em contextos educacionais para discutir direitos humanos e relações raciais.

         Outro aspecto importante é o reconhecimento da vítima. O cinema frequentemente trata o reconhecimento visual como prova absoluta. Mas o filme parece questionar essa ideia. A lembrança de Isabella é verdadeira? Ela acredita sinceramente naquilo que viu? Ou sua percepção foi influenciada por fatores externos e já impregnados em sua mente? Essas questões ampliam o alcance da narrativa e aproximam o curta não apenas do Drama social, mas também do Thriller psicológico, devido às pressões estabelecidas pelo sistema sobre Roberto.

         Embora seja classificado como Policial, talvez o gênero funcione mais como estrutura narrativa. O foco não parece estar na investigação. O foco está nas consequências da acusação e nos impactos emocionais, sociais e institucionais gerados por ela. Por isso, talvez seja mais produtivo analisar o filme como um Drama social com elementos policiais do que como um Policial tradicional.

            Utilizando recursos técnicos de maneira extremamente competente, Valter Rege constrói em “Preto no Branco” uma obra que mantém a coesão dramática e narrativa de forma impecável. A fotografia, com câmera nervosa durante a abordagem, eleva esse momento do filme ao campo do Horror psicológico. Ângulos, planos e tomadas funcionam perfeitamente, tanto na construção da narrativa quanto na entrega de elementos dramáticos fundamentais para a experiência do espectador.

         Montagem, trilha sonora e direção de arte trabalham em consonância, sem que um aspecto diminua o outro. Na verdade, a produção de objetos, o desenho sonoro e o figurino se complementam para dar vida aos personagens e à trama. Tudo funciona de maneira pontual e cadenciada, contribuindo para a sensação crescente de tensão e desconforto.

         “Preto no Branco” não fala apenas sobre culpa ou inocência. Fala sobre percepção. O curta está interessado em mostrar que a verdade factual pode ser menos importante do que a forma como as pessoas constroem suas certezas dentro de uma sociedade onde o racismo estrutural ainda produz reflexos e consequências extremamente fortes e perturbadoras. Ao transformar uma situação cotidiana em uma discussão ampla sobre preconceito, justiça e credibilidade, Valter Rege realiza uma obra necessária, relevante e profundamente atual. 




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