O filme é uma adaptação do conto homônimo de Marcelino Freire, publicado na obra “BaléRalé”, de 2003. O próprio Freire explica que o conto nasceu de uma fotografia dos chamados Homens de Weerdinge, dois corpos encontrados na Holanda que ficaram conhecidos como um dos mais antigos registros associados a um casal homossexual.
Com
muita criatividade, o diretor Rodrigo Burdman constrói uma animação diferente,
divertida e de enorme capacidade criativa. O diretor também é responsável pela
ilustração e animação, que mistura elementos do humor e da comédia com uma
proposta visual bastante particular.
A
primeira coisa interessante é perceber que a suposta descoberta arqueológica
funciona quase como uma armadilha narrativa. O narrador começa falando de um
homem encontrado congelado, descrevendo seus restos, sua antiguidade, seus
parentes pré-históricos e todos os detalhes que poderiam fazer o espectador
acreditar que está diante de uma importante descoberta científica. Aos poucos,
porém, o assunto deixa de ser arqueologia.
O
que interessa não é realmente descobrir quem era aquele homem, mas o que sua
existência representa. O passado remoto serve para mostrar que determinadas
experiências humanas não são invenções da modernidade. O filme leva a
homossexualidade para um território aparentemente absurdo: a pré-história.
Isso
dá ao curta uma dimensão provocadora. Se a experiência homossexual pode ser
imaginada como algo existente desde tempos imemoriais, perde força qualquer
discurso que tente tratá-la como "desvio", novidade ou ameaça
contemporânea. A ideia é simples, mas justamente por isso se torna bastante
eficiente e reflexiva.
Um
dos detalhes mais incríveis da obra é a capacidade da criação de permitir o
humor como expectativa do espectador. O filme constrói uma expectativa e depois
a desmonta. Durante boa parte da narrativa, somos levados a acreditar que
estamos acompanhando uma investigação arqueológica séria. A graça aparece
quando percebemos que a investigação estava conduzindo nossa atenção para outro
lugar.
A
narração de Paulo César Pereio tem um tom quase documental, como se
estivéssemos diante de uma importante descoberta científica. A linguagem é
cheia de perguntas, referências históricas e termos ligados à arqueologia. Só
que essa seriedade vai preparando o terreno para uma conclusão completamente
diferente.
O
humor nasce justamente do contraste entre a solenidade da narração e aquilo que
está sendo revelado. Não é uma comédia construída por personagens fazendo
piadas. É uma comédia de estrutura: o espectador é conduzido a interpretar as
imagens de determinada maneira e depois percebe que estava olhando para outra
coisa.
Paulo
César Pereio não está simplesmente "narrando" as imagens. A
interpretação dele dá personalidade ao texto. Sua voz grave, debochada e
carregada de ironia transforma o conto de Marcelino Freire em uma espécie de
monólogo performático. Isso é especialmente importante porque o texto original
já possui características muito próximas da poesia.
Burdman
não precisava transformar o conto em uma narrativa cinematográfica
convencional. Ele percebeu que o texto já possuía uma musicalidade própria e
construiu o filme em torno dela de maneira muito inteligente. A voz conduz a
experiência enquanto as imagens criam uma interpretação visual própria para
aquilo que está sendo contado.
A
animação foi realizada quadro a quadro e desenhada à mão, mas o mais
interessante não é apenas o trabalho artesanal. É pensar como essa estética
combina perfeitamente com o texto. O desenho permite que a imagem seja tão
imprecisa, fragmentada e delirante quanto a própria narração. Em vez de
oferecer uma reconstrução arqueológica realista, Rodrigo Burdman cria uma espécie
de imaginação visual daquilo que está sendo contado.
A
simplicidade aparente do desenho não é uma limitação, mas parte de uma
linguagem cinematográfica totalmente desafiadora. O filme não precisa de uma
representação realista para convencer o espectador de que está diante do
passado. Pelo contrário, a liberdade da animação permite que o diretor brinque
com aquilo que é narrado e mantenha o caráter absurdo da situação.
A
maneira como a revelação final transforma o passado em provocação é
extremamente inteligente. O filme começa falando de um homem pré-histórico e
termina revelando que a verdadeira questão está relacionada à sua sexualidade.
O efeito da revelação é cômico, mas também antropológico. O curta faz algo
bastante esperto: leva a homossexualidade para o passado mais distante possível
para questionar um preconceito que continua absolutamente presente.
E
existe uma ironia curiosa: aquilo que deveria ser uma "descoberta"
extraordinária talvez não seja tão extraordinário. O que surpreende não é que
dois homens tenham tido uma relação, mas sim a necessidade que as pessoas têm
de transformar isso em algo extraordinário.
“Homo
erectus” não precisa ser interpretado somente como uma obra sobre
homossexualidade. Ele é também uma sátira da obsessão social em classificar,
investigar e julgar a intimidade dos outros. É significativo que o filme seja
tão curto. Ele não argumenta, não explica e não desenvolve uma tese. Ele
simplesmente conduz o espectador por uma longa preparação aparentemente
histórica e científica para chegar a uma conclusão que, depois de revelada,
parece absurdamente simples: a vida íntima daquele homem não deveria interessar
a ninguém.
Há
uma espécie de inversão aí: os arqueólogos querem saber quem era aquele homem,
o narrador quer reconstruir sua história e nós, espectadores, somos convidados
a acompanhar a investigação. No fim, percebemos que talvez tenhamos caído na
mesma armadilha. Também fomos levados a querer saber demais sobre a vida de
alguém que morreu milhares de anos atrás.
E talvez seja justamente nessa participação involuntária do espectador que esteja uma das maiores qualidades do curta. “Homo erectus” nos faz rir da situação, mas também nos coloca dentro dela. Primeiro queremos descobrir, depois somos surpreendidos pela revelação e, finalmente, percebemos que a própria curiosidade pode fazer parte da crítica construída pelo filme.

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