terça-feira, 29 de julho de 2025

AUSÊNCIA (2024)

 


Com direção sensível e apurada de Fernanda Terra Costa, o curta-metragem “Ausência” mergulha de forma delicada, mas profunda, na complexidade emocional de um reencontro entre pai e filho após um longo período de distanciamento. Já no primeiro contato entre os dois, em uma cafeteria, fica evidente o abismo que os separa. O silêncio inicial, as palavras hesitantes e a linguagem corporal contida deixam claro que a reconexão será um processo lento, cercado de mágoas não ditas e afetos sufocados.

O roteiro, com autoria de Fernanda Terra Costa, Giovana Tavares e Mirielen de Arantes, conduz o espectador por um caminho repleto de nuances, onde cada pausa e cada frase carregam significados profundos. A narrativa evita apontar culpados ou definir um motivo único para o afastamento, apostando na sutileza para construir um retrato honesto sobre relações familiares marcadas por lacunas emocionais. Em vez de julgamentos ou confrontos abertos, o que se vê é uma tentativa de reconciliação marcada pelo respeito e pela necessidade mútua de compreensão.

Na conversa aparentemente banal sobre a antiga sorveteria que existia onde hoje está a cafeteria, há um lampejo de memória afetiva. Pequenas lembranças do passado surgem com um certo calor nostálgico, sugerindo que, apesar da distância e das feridas, ainda existem raízes compartilhadas que podem sustentar um recomeço.

À medida que a dupla se desloca para um parque da cidade, um novo cenário, frio, vazio e cinzento, reflete com precisão o estado emocional dos personagens. A escolha do local é simbólica: o parque representa o espaço aberto da possibilidade, mas também o terreno gelado das emoções ainda não resolvidas. É ali que o texto começa a expor com mais clareza os motivos da ruptura, mas sem recorrer a explicações diretas. O que importa não é tanto o que aconteceu, mas o que ainda pode acontecer entre os dois.

As atuações de Marcus Amaral e Lucas Barbosa são um dos pontos altos do curta. Eles oferecem interpretações profundamente comoventes, construindo seus personagens com camadas de dor, arrependimento e um desejo sincero de se reconectarem. Os diálogos entre os dois são marcados por uma tensão emocional palpável, mas também por um carinho contido, que se manifesta mais nos gestos e nos silêncios do que nas palavras.

“Ausência” é também um exemplo primoroso de como os elementos técnicos podem potencializar uma narrativa intimista. A fotografia aposta em uma paleta de cores frias e acinzentadas, sugerindo o distanciamento emocional e a rigidez de sentimentos que ainda precisam ser descongelados. Isso se mantém durante toda a narrativa, porém, abrindo possibilidade para que uma luz mais forte e quente possa iluminar o relacionamento entre pai e filho a partir daquele reencontro.

A direção de arte acerta nos detalhes, utilizando objetos e figurinos de maneira funcional e simbólica, reforçando os estados internos dos personagens sem apelar para coisas superficiais. Já a trilha sonora, ou melhor, sua quase ausência, funciona como um recurso de imersão. O silêncio é preenchido por sons diegéticos suaves, como os passos sobre a terra ou o canto distante de pássaros, criando uma atmosfera contemplativa que amplifica as emoções contidas. A ausência de uma trilha musical invasiva é, na verdade, um recurso narrativo poderoso: ela reforça o tom realista e introspectivo da obra.

O que “Ausência” entrega ao espectador é mais do que uma história sobre reconciliação: é uma reflexão sobre o tempo, a solidão, os afetos que se perdem, e os laços que, mesmo frágeis, ainda podem ser restaurados. O curta grita, silenciosamente, por um abraço que não se vê, mas se sente, um abraço carregado de afeto, dor, e sobretudo de esperança. Não há pretensões de redenção plena ou soluções fáceis. O que se vê é um gesto singelo de abertura, um primeiro passo em direção à reconstrução de algo que, por muito tempo, esteve quebrado.

“Ausência” é um Drama intimista e emocionalmente profunda, uma obra feita com afeto, empatia e inteligência emocional. A sensibilidade da direção, aliada ao texto maduro e às atuações impactantes, resulta em um filme comovente, que ressoa no coração de quem já enfrentou o silêncio de vínculos familiares interrompidos. É, sobretudo, um convite à escuta, à presença e ao perdão. Um curta que, ao final, deixa uma certeza: mesmo os afetos mais adormecidos podem despertar, quando alimentados com honestidade e desejo sincero de recomeçar.



sexta-feira, 25 de julho de 2025

ABRIGO AO SOL (2013)

 

O curta-metragem "Abrigo ao Sol" mergulha na delicada e íntima jornada de uma mulher após a morte de seu marido, explorando não apenas suas experiências emocionais, mas também as físicas, em uma narrativa visualmente rica e profundamente sensorial. Teuda Bara assume com maestria o papel de Senhora X, uma personagem cuja vida, após a perda do companheiro, parece girar em torno de suas rotinas diárias. Cozinhar, limpar, lavar, varrer a casa – tarefas simples que se transformam em um reflexo de sua tentativa de manter um resquício de familiaridade, como uma forma de preservação em meio ao luto. No entanto, "Abrigo ao Sol" transcende o retrato de uma vida insatisfeita, revelando gradualmente o processo de libertação e transformação da protagonista.

A direção de Emerson Evêncio é fundamental para criar uma atmosfera ao mesmo tempo intimista e reflexiva. Nos primeiros momentos do filme, a câmera permanece próxima de Senhora X, quase colada a ela, capturando cada detalhe minucioso – o suor que brilha em sua pele e as expressões faciais esculpidas pelos anos. Essa proximidade inicial não apenas transmite a rotina repetitiva e opressiva da personagem, mas também simboliza o confinamento emocional em que ela se encontra, presa nas lembranças e nas responsabilidades que restaram. A ausência do marido é sentida em cada movimento, em cada olhar distante.

À medida que o filme avança, a câmera, de forma sutil, começa a se afastar gradualmente, abrindo o campo de visão e revelando novos espaços, até então inexplorados. Esse movimento visual acompanha a jornada interior de Senhora X, que, silenciosamente, começa a se emancipar das amarras invisíveis que a prendem ao passado. Esse distanciamento da câmera é mais do que uma escolha técnica; ele simboliza o processo de libertação da protagonista, que, a cada dia, a cada pequeno gesto, se aproxima de algo novo e desconhecido.

O filme se destaca por sua ausência de diálogos, o que intensifica seu caráter contemplativo e poético. Em vez de palavras, "Abrigo ao Sol" se comunica através das imagens e dos sons sutis do cotidiano – o sopro do vento nas folhas, o ruído suave da água correndo por um riacho, o som dos passos de Senhora X sobre o chão de sua casa. O silêncio se torna uma poderosa ferramenta narrativa, sugerindo que as transformações mais profundas e significativas não precisam ser ditas, mas apenas vividas. Esse silêncio carrega uma dualidade; o corpo da protagonista mantém seus movimentos automáticos, repetindo as tarefas diárias, enquanto sua mente, de maneira imperceptível, começa a se desprender dessas rotinas que outrora a definiram.

O ponto de virada emocional do filme ocorre quando Senhora X, em um momento simbólico e de grande carga emocional, decide rasgar cartas à beira de um riacho e deixá-las ser levadas pela correnteza. Esse gesto, aparentemente simples, carrega em si uma profunda reflexão sobre o passado e o que ele representa para a protagonista. As cartas, que sugerem um laço com alguém ou algo do passado, são uma metáfora para as escolhas e caminhos que poderiam ter sido diferentes. O ato de destruí-las e entregá-las às águas simboliza a decisão de se desapegar de um passado, e se deixar que o fluxo da vida siga seu curso natural, sem resistências.

A água, nesse contexto, assume um papel central. O riacho que leva as cartas simboliza o movimento da vida, e sua conexão inevitável com o oceano representando a vastidão do desconhecido, o destino final de todas as correntes. Quando Senhora X finalmente se dirige ao mar, o filme atinge seu clímax. O oceano, com sua imensidão, simboliza a liberdade plena. No momento em que a protagonista, em um gesto de pura libertação, se despe e entra nua no mar, a narrativa alcança um ponto de total desprendimento. A nudez, nesse caso, vai além do corpo; é a exposição da alma, a aceitação de quem ela é, sem as camadas de expectativas e pressões que a sociedade ou o passado impuseram sobre ela.

Esse momento final, com Senhora X imersa nas águas salgadas do oceano, marca um renascimento simbólico. O mar, que antes poderia ter sido visto como algo inatingível, se transforma em um lugar de redenção e aceitação. É nesse novo espaço que a personagem encontra a paz que tanto buscava, não apenas pela ausência física do marido, mas pela necessidade de se redescobrir, de se redefinir como indivíduo em um mundo que continua a girar, mesmo após perdas devastadoras.

A escolha de encerrar o filme com essa cena poderosa proporciona ao espectador uma sensação de ciclo completado, mas também de um novo início. A transformação de Senhora X não é abrupta ou drástica, mas sim gradual e sutil, como as mudanças reais que muitas vezes ocorrem em nossas vidas. "Abrigo ao Sol" é um exemplo sublime de cinema minimalista, que, com nenhuma palavra e imagens profundamente evocativas, nos leva a refletir sobre nossas próprias prisões cotidianas e o que, no fundo, é necessário para nos libertarmos delas. A obra nos deixa com uma sensação de quietude, mas também com a esperança de que a libertação, por mais tardia que seja, é sempre possível.


Assista "Abrigo ao Sol": https://vimeo.com/69842714

quinta-feira, 17 de julho de 2025

CONTRA-FILÉ (2019)

 

                Produzido com muita eficiência e competência, “Contra-Filé” é uma excelente Animação que mescla com os gêneros Suspense e Thriller. Com direção, roteiro, produção, fotografia e montagem de Pedro Iuá, o curta tem uma atmosfera densa e tensa que sintonizam perfeitamente com o humor ácido e mórbido.

         A trama utiliza uma quebra narrativa, apresentando primeiramente um homem amarrado e ensanguentado. Posteriormente, o curta apresenta o protagonista em sua residência, sendo acordado pelo toque do telefone e um aviso para que fugisse do local, pois pessoas estariam a caminho e ele iria sofrer as consequências. A voz ao telefone lhe aconselha a comprar 60 ou 70 quilos de carne no açougue em frente à sua casa, colocar dentro de seu carro, espalhar alguns fios de cabelos, tocar fogo no local e desaparecer o quanto.

         Ele corre ao açougue, porém a fila cresce rapidamente. Um dos principais acertos de “Contra-Filé” é aliar o sentimento de desespero do protagonista com os diálogos e a forma como Seu Leitão (dono do açougue), Zé Tripa e Valdecir conversam sobre os tipos de carnes e as formas como manusear instrumentos de cortes. Os personagens ganham voz de Almir Martins, Antonio Perez Gonzalez e Gustavo Ottoni, respectivamente. O curta conta ainda com Otto Júnior como a voz ao telefone. A lentidão do atendimento contrapõe com o senso de urgência do protagonista, que precisa o mais rápido possível de carne.

          Os realizadores acertaram em cheio em deixar no ar o porquê da situação, de homens estarem atrás do personagem principal. O que sabemos é que são pessoas violentas e que chegam ao local, quando ele ainda está na fila do açougue.

         Não tendo escapatória, termina sendo agredido violentamente por um homem, enquanto outro, que manuseia algumas bolinhas nas mãos, ordena por mais agressões. Certo é que o protagonista tem algum tipo de acerto de conta com aquele homem, que aparenta ser chefe de um grupo criminoso. O protagonista fica totalmente exposto para a morte, estando nas mãos dele.

         Com cortes rápidos em alguns momentos, “Contra-Filé” tem uma montagem muito bem elaborada que combina com os sensos de perigo e urgência do personagem. Outro elemento técnico muito bem executado é som e trilha sonora, que transmite as sensações de suspense e acidez de um curta com uma narrativa extremamente fluida e surpreendente.

         A direção de animação é de Pedro Iuá, com cenários de Alessandra Vilela, Roberto Custódio, Pâmela Peregrino, Antonia Muniz e do próprio Iuá, assim como na concepção e modelagem de bonecos e objetos, que contam com o trabalho de Antonia Muniz, Miguel Martins e Beatriz Lima.

            “Contra-Filé” é uma Animação que trabalha em sua narrativa com o subgênero de Crime e tem uma produção muito caprichada, combinando muito bem os elementos narrativos e dramáticos aos elementos técnicos. É um curta que extrai o máximo do que tem à disposição, demonstrando a incrível competência dos envolvidos no projeto.




terça-feira, 15 de julho de 2025

ANTES DO CAFÉ (2021)

 


Com produção, roteiro, atuação e direção de Andrea Villela, “Antes do Café” é uma adaptação do monólogo de Eugene O'Neill. A peça escrita por O'Neill apresenta Mrs. Rowland, esposa de Alfred, que precisa lidar com a rotina e “presença” do marido.

         Gravado durante a pandemia de Covid, a adaptação produzida por Andrea consegue, ao mesmo tempo, inserir o espectador naqueles momentos sombrios de isolamento social, na relação conflituosa entre esposa e marido e, por último, mas não menos importante, dentro do psicológico e emocional da protagonista.

         A repetição do nome do marido incomoda. Porém, chamar tantas vezes por Alfredo tem esse objetivo e é primordial para que possamos compreender a raiva, angústia, decepção, ou seja, tudo o que a protagonista sente em relação ao marido, pela situação que vive. O curta não mostra apenas uma mulher aborrecida com o marido; mostra uma relação desgastada e cheia de nuances (algumas mais sutis, outras mais diretas).

          Com fotografia intimista, o filme não fala tanto sobre Alfredo – apesar de seu nome ser dito várias vezes ao longo do curta. Com câmera na mão, colada ao rosto da protagonista, o filme reflete o estado emocional da protagonista, revoltada com o que o marido fez (ou ainda faz). A trilha sonora também é outro ponto de destaque. Nenhum som está fora do lugar, e tudo acontece lentamente, mas de forma impactante.

         Se no início, ao preparar o café, o som ambiente é natural, confortável e rotineiro, o que vem a seguir é uma crescente no som, que começa a preparar o espectador para uma tempestade. As trovoadas, anunciando o temporal, é um espelho do estado mental, emocional e psicológico da protagonista.

         Apesar de contar apenas com uma única personagem (dois, se contarmos com Alfredo, o personagem oculto), Andrea Villela extrai o máximo do texto, seja pela forma como a trama ganha densidade, seja com a sua atuação visceral. É possível perceber desespero quando, ainda no início, ela chama por Alfredo de forma calma e sutil. E é também possível perceber uma certa tranquilidade, mesmo quando ela grita, esbravejando e xingando o marido. Como dizem: “é aquela calma que só o desespero é capaz de dar”. A protagonista mistura calma e agonia, aceitação e negação, força e fraqueza, porém, tudo de forma intensa, onde cada barreira é ultrapassada de um segundo para o outro. Essa ambiguidade mostra como um sentimento pode dar lugar a outro de forma extremamente rápida.

            “Antes do Café” trata de temas densos e pesados, ainda mais quando sabemos o que realmente aconteceu com Alfredo. Aí sim, conseguimos compreender totalmente o comportamento da esposa; sua raiva, sua dor, ou quem sabe, ou o peso de carregar uma culpa, que, talvez, ela nem a tenha, porém, se responsabiliza. A insistência por chamar por Alfredo pode ser interpretada como uma forma de alívio. A impressão que dá é que isso é a única coisa que resta na vida da protagonista: chamar por Alfredo, na esperança que ele possa dar algum sinal. Dessa forma, o filme trata do tema da perda e da solidão, levando o espectador a se perguntar onde está Alfredo e porquê ele não responde. A protagonista mente pra si mesma, vive uma ilusão de forma intencional ou não. Isso porque, estando num estado de confusão mental, não dá para afirmar com certeza o que ela acredita ser verdade ou não, o que ela pensa ou não, o que ela vive como real ou como ilusão.

            Com poucos recursos e com uma limitação física, Andrea Villela consegue entregar uma atuação potente, mostrando a fragilidade de sua personagem. Ela também demonstra muita versatilidade ao roteirizar, dirigir e montar. A limitação física, imposta pela pandemia, dá força ao filme, fazendo o espectador sentir a opressão daquele lugar que, a protagonista se sente incomodada e presa. Isso reforça que ela não está presa apenas ao local, ao imóvel, mas à própria situação de vida. O espaço físico e a trilha sonora, transmitem o estado mental de uma personagem que vive no limite, devido à atitude de Alfredo. E a pergunta que fica é: mesmo que ela não tenha responsabilidade sobre o destino de Alfredo, por que ela se sente tão culpada?

segunda-feira, 14 de julho de 2025

TODA SOMBRA PARECE VIVA (2019)

 

Com roteiro e direção de Leandro Afonso, "Toda Sombra Parece Viva" é um perturbador e incômodo Suspense que reflete, de maneira inquietante, a realidade da segurança das mulheres em diversas sociedades, seja em grandes metrópoles ou em pequenas cidades. O curta-metragem mergulha o espectador na angústia da protagonista, utilizando uma construção cuidadosa para criar uma atmosfera de constante tensão e medo, um reflexo do que muitas mulheres experimentam diariamente.

A partir de elementos inicialmente sutis, o filme gradualmente desenvolve uma atmosfera claustrofóbica e assustadora. A escolha da fotografia é crucial para estabelecer esse tom, com o uso de filtros frios que realçam o desconforto da protagonista e envolvem o espectador em sua jornada de apreensão. Essa sensação de frio não é apenas visual, mas também emocional, deixando clara a vulnerabilidade da personagem frente ao mundo que a cerca.

No centro da narrativa, temos uma protagonista que vive constantemente em estado de alerta. Para ela, simples ações cotidianas, como caminhar pela rua, pegar um elevador ou utilizar um carro de aplicativo, podem representar um risco iminente. A ameaça de assédio ou violência parece sempre à espreita, transformando esses espaços comuns em campos de batalha silenciosos, onde cada olhar e cada movimento pode carregar um perigo oculto.

O grande mérito de "Toda Sombra Parece Viva" é evitar discursos expositivos ou panfletários. Em vez disso, o filme aproxima o público da protagonista, fazendo com que vivenciemos suas aflições de maneira visceral. Sentimos sua paranoia, suas incertezas e seu medo crescente à medida que as "sombras" – que simbolizam ameaças invisíveis, mas sempre presentes – passam a dominar o campo visual e emocional. É uma abordagem inteligente por parte do roteiro, que nos mantém constantemente em alerta, aguardando, com temor, pelo momento em que a protagonista pode ser vítima de algo terrível. A tensão é palpável, e a incerteza é uma companheira constante ao longo do curta.

Fernanda Marques entrega uma performance magistral, transmitindo com precisão as emoções contraditórias de uma mulher que, ao mesmo tempo em que tenta manter uma aparência de normalidade, está sempre à beira do colapso. Seus olhares, gestos e postura corporal revelam uma personagem que já viveu o trauma – ou pelo menos, o medo de viver esse trauma – e que, por isso, interpreta qualquer sombra ou gesto como uma ameaça. Mesmo um simples olhar acintoso de um desconhecido pode ser devastador, revelando o quanto a protagonista está constantemente em posição de defesa.

Tecnicamente, o curta é impecável. O uso de sons diegéticos cria uma sensação de realismo que aproxima ainda mais o espectador da protagonista. Esses sons, tão comuns no dia a dia, se transformam em gatilhos de ansiedade quando vistos do ponto de vista da personagem, que parece nunca estar completamente segura, exceto quando está dentro de sua casa, rodeada por fechaduras e barreiras que lhe proporcionam algum alívio momentâneo. A conexão entre o início e o final do filme é habilmente trabalhada, destacando a diferença brutal entre o mundo externo, que representa o perigo, e o espaço interno da casa, onde ela finalmente pode relaxar e sentir-se segura.

O ápice do curta é uma longa sequência final, onde vemos pessoas transitando pelas ruas, num vai e vem que parece banal, mas que para a protagonista – e para o espectador, a essa altura, é carregado de uma tensão silenciosa. As "sombras" que povoam essas cenas são uma metáfora poderosa para as ameaças invisíveis que mulheres enfrentam diariamente, muitas vezes sem que ninguém ao redor perceba ou compreenda a gravidade da situação.

"Toda Sombra Parece Viva" é um filme que combina Suspense psicológico e crítica social de forma elegante e impactante. Além de entreter, o curta convida à reflexão sobre como o medo da violência é uma constante na vida de muitas mulheres. Leandro Afonso entrega uma obra sensível e poderosa, que ressoa profundamente com os medos e inseguranças que fazem parte do cotidiano feminino em um mundo onde as ameaças nem sempre são visíveis, mas estão sempre presentes, como sombras que espreitam em cada esquina, elevador ou corrida de aplicativo.




domingo, 6 de julho de 2025

ANTES QUE VENHAM ESTOURAR OS NOSSOS MIOLOS (2016) - CONTÉM SPOILERS

 

O encontro entre um garoto e o chefe de um grupo criminoso marca o ponto de partida de "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos"; uma obra que transcende as expectativas de um simples acerto de contas no mundo do crime. No passado, o chefe foi acolhido pelo pai do garoto, e agora, ele decide que chegou a hora do menino ser introduzido aos meandros violentos e impiedosos da vida criminosa. A primeira lição? Executar um homem. A vítima, amarrada e imobilizada em uma cadeira, luta desesperadamente para negociar sua sobrevivência, numa tentativa frenética de escapar da morte iminente.

Dirigido por Tiago Picado e com um roteiro afiado de Pedro Murad, o curta "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é uma joia rara do cinema nacional. Ele se destaca por navegar entre diferentes gêneros, pegando o espectador de surpresa e entregando uma obra cheia de camadas e reviravoltas inesperadas. O que começa como uma tensa negociação entre um criminoso e sua vítima logo se transforma em uma trama de Suspense psicológico e até mesmo de Horror, envolvendo elementos sobrenaturais. O filme quebra expectativas ao ir além do clichê do acerto de contas, criando uma narrativa rica em tensão e mistério.

O elenco é composto por Alan Pellegrino, André Soares, André Tavares e Cridemar Aquino, todos entregando performances de alta qualidade que elevam a densidade dramática da trama. Cada um traz uma intensidade visceral às suas cenas, destacando o peso moral e emocional da situação em que seus personagens estão envolvidos. Em especial, a interação entre o garoto e o chefe do grupo criminoso é carregada de uma dualidade perturbadora: de um lado, a figura paternal distorcida do chefe, ensinando o menino a matar; do outro, a resistência silenciosa do garoto, que enfrenta o dilema de seguir adiante com a execução.

O enredo nos coloca nos momentos finais da vida de um homem desesperado. A primeira parte de sua negociação é com o chefe do grupo, que, sem hesitar, entrega uma pistola nas mãos do garoto, o deixando encarregado de realizar a execução. Não sabemos exatamente o que o homem fez para acabar ali, mas essa ausência de explicação é proposital, deixando espaço para que o público especule sobre o passado da vítima. Esse mistério dá profundidade à trama, enquanto o roteiro, sabiamente, mantém o foco na tensão presente.

O que inicialmente parece ser apenas uma execução no submundo do crime ganha uma dimensão inesperada após o disparo fatal. O homem, agora à beira da morte, é conduzido a uma experiência sobrenatural, onde se vê frente a frente com a personificação da Morte. Esta segunda negociação, entre ele e a Morte, insere um novo nível de complexidade na narrativa, pois revela que, assim como ele devia algo aos criminosos em vida, também deve algo à Morte. O filme surpreende o espectador ao transformar a trama em um Suspense metafísico, onde o homem é pressionado a revelar um segredo crucial que, até então, ele e seus irmãos mantinham. No entanto, seus irmãos já se foram, e ele é a última chance da Morte de descobrir esse segredo.

A dinâmica entre o homem e a Morte é magistralmente construída. Enquanto ele tentava negociar com os criminosos sua vida, agora sua barganha é com a própria entidade da Morte, o que amplia ainda mais o clima de desespero e tensão. A Morte não é simplesmente uma figura passiva à espera; ela tem um interesse próprio e impõe sua vontade, buscando respostas que só o homem pode fornecer. Esse toque sobrenatural não apenas eleva a história, mas também a torna mais instigante e rica em possibilidades interpretativas.

A direção de Tiago Picado é notável por conseguir manter o suspense elevado ao longo de todo o curta, mesmo com poucos cenários e uma trama essencialmente centrada em diálogos e negociações. Ele consegue extrair o máximo de cada cena, criando uma atmosfera sufocante que prende a atenção do espectador do início ao fim. A fotografia, arte e montagem trabalham em perfeita harmonia para criar um ambiente perturbador e sombrio, refletindo o desespero do homem e a implacabilidade dos criminosos. Já os efeitos visuais, muito bem elaborados, dão vida à aparição da Morte, sem exageros, mas com impacto visual suficiente para marcar a sequência sobrenatural.

A escolha de não explicar o passado do homem e o motivo pelo qual ele está naquela situação é uma jogada inteligente do roteiro, pois permite que a trama se concentre mais no presente e no que está em jogo naquele momento decisivo. Essa omissão deliberada também contribui para o ar de mistério que permeia o filme, fazendo com que o espectador fique imerso na tensão do agora, ao invés de se perder em explicações sobre o passado. A resolução final é chocante, tanto em termos narrativos quanto dramáticos, deixando o público refletindo sobre as escolhas que foram feitas e as implicações que elas trazem.

"Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é um filme que desafia expectativas, mesclando Suspense, Drama e Thriller com uma pitada de sobrenatural de maneira hábil e original. Sua atmosfera densa e seu ritmo bem conduzido fazem dele uma experiência única e envolvente. É um curta que nos deixa com a sensação de que, no universo do crime, assim como na vida e na morte, nada é tão simples quanto parece.




sábado, 5 de julho de 2025

DOSSIÊ RÊ BORDOSA (2008)

 

Com um humor ácido e afiado, “Dossiê Rê Bordosa” é um curta-metragem em Animação que mergulha profundamente no processo criativo por trás da icônica personagem de quadrinhos Rê Bordosa e na surpreendente decisão de seu criador, Angeli, em dar um fim a ela. O filme, com direção de Cesar Cabral, não apenas explora a criação e evolução da personagem, mas também levanta questões sobre o poder do criador sobre suas criações e a relação entre arte e público.

A narrativa do curta alterna de forma inteligente entre uma narração incisiva e mordaz de Lena Whitaker e Odayr Baptista, conduzida pelo roteiro de Leandro Maciel e Cesar Cabral, e depoimentos fictícios de outros personagens criados por Angeli, como Bob Cuspe e Bibelô, além de personalidades reais como Laerte, grande amiga e colega de trabalho de Angeli, e outros convidados, como Márcia Aguiar, Paula Madureira, Tales Ab'Sáber e Toninho Mendes. Essas participações adicionam camadas ao humor do curta, trazendo um tom de pseudodocumentário que satiriza os bastidores do mundo dos quadrinhos, ao mesmo tempo em que presta uma homenagem bem-humorada à trajetória de Angeli.

Ao longo do filme, vemos Rê Bordosa passar de uma personagem secundária a um ícone das noites boêmias paulistanas, imortalizada como a eterna frequentadora de bares, amante do álcool e do caos. A animação ainda recria momentos de sua “vida” fictícia, desde uma infância inventada até os dias em que se tornou uma das figuras mais desajustadas e queridas dos quadrinhos brasileiros.

Um dos grandes trunfos técnicos do filme é a qualidade da animação em stop-motion, cuidadosamente produzida por Cesar Cabral e sua equipe. Os bonecos e cenários, confeccionados por Olyntho Tahara, criam uma atmosfera nostálgica que nos transporta diretamente para os anos 80 e 90, período de auge dos personagens de Angeli. A riqueza dos detalhes visuais, combinada com a trilha sonora precisa e a ambientação caprichada, faz com que o espectador se sinta imerso no universo dos quadrinhos de humor daquela época.

As vozes de Paulo César Pereio, Laert Sarrumor e Grace Gianoukas também são fundamentais para dar vida aos personagens e criar uma dinâmica divertida e envolvente. Pereio, com sua voz inconfundível, empresta ainda mais personalidade à narrativa, enquanto Sarrumor e Gianoukas trazem um toque especial de humor irreverente e sarcástico às suas interpretações. Esses elementos contribuem para que a história se desenrole de maneira fluida, mantendo o ritmo acelerado e o público interessado do início ao fim.

Além de ser uma obra visualmente atraente, “Dossiê Rê Bordosa” é também uma reflexão sobre o papel do artista em relação às suas criações. A decisão de Angeli de "matar" Rê Bordosa é apresentada de maneira irônica, quase como um crime premeditado, gerando discussões sobre o poder do criador de determinar o destino de suas figuras mais populares. O curta-metragem consegue abordar essa questão com um toque de humor mórbido, sem perder de vista o carinho e o respeito pelo legado da personagem e de seu criador.

“Dossiê Rê Bordosa” é muito mais do que uma homenagem a Angeli e a seus personagens. É um tributo a toda uma geração de quadrinistas e revistas de HQs que marcaram profundamente o cenário cultural brasileiro. O filme consegue despertar nos espectadores, sejam eles fãs antigos ou novos curiosos, um desejo de revisitar ou conhecer pela primeira vez o universo dos quadrinhos alternativos dos anos 80 e 90. A trama lembra que, apesar da morte de Rê Bordosa nos quadrinhos, sua irreverência e seu espírito escrachado permanecem vivos na memória e no coração do público.


O curta está disponível no perfil da Coala Filmes no Vimeo: https://vimeo.com/7296571

sexta-feira, 4 de julho de 2025

TITÃS – TUDO AO MESMO TEMPO AGORA (1991)


        O Documentário em curta-metragem "Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" nos transporta diretamente para os bastidores da criação de um dos álbuns mais icônicos da banda Titãs, lançado em 1991. Com direção de Arthur Fontes e Lula Buarque e roteiro de Cláudio Torres, o filme oferece uma visão íntima e descontraída do processo criativo do grupo, que na época contava com Arnaldo Antunes, Branco Mello, Charles Gavin, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Toni Bellotto. Através de uma combinação envolvente de imagens de arquivo e entrevistas, o Documentário apresenta as dinâmicas internas entre os membros da banda e explora os detalhes que moldaram a criação do álbum "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora".

Uma das escolhas mais interessantes e inusitadas da banda foi a decisão de se reunirem para os ensaios e criações em uma casa, em vez de um estúdio tradicional. Esse detalhe, que à primeira vista pode parecer simples, tem grande impacto na atmosfera criativa da produção. Ao optar por esse ambiente mais informal e relaxado, o Titãs recria o espírito de uma banda de garagem, algo que permitiu maior liberdade na experimentação musical. O Documentário ressalta como essa escolha influenciou diretamente o processo criativo, proporcionando aos músicos um espaço onde se sentiam à vontade para testar novos arranjos, experimentar diferentes sonoridades e modificar elementos das músicas conforme surgiam novas ideias. Esse ambiente doméstico parece ter alimentado a espontaneidade e a camaradagem entre os membros da banda, aspectos que transparecem nas cenas de ensaios.

Além das cenas da casa, "Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" também nos leva ao estúdio de gravação, onde o álbum foi finalizado. A transição entre esses dois ambientes — da liberdade descontraída dos ensaios à disciplina técnica do estúdio — é um dos pontos altos do Documentário. A montagem do filme faz um trabalho excepcional em costurar esses momentos, alternando entre as discussões e brincadeiras descontraídas dos músicos e o trabalho mais minucioso e focado das gravações. O espectador se sente imerso nesse processo, como se estivesse acompanhando cada etapa, desde a concepção inicial das músicas até os toques finais que dão forma ao álbum.

Os depoimentos dos integrantes da banda enriquecem ainda mais o Documentário, oferecendo insights valiosos sobre suas percepções individuais do processo criativo. Cada um deles compartilha suas impressões e curiosidades sobre a produção do disco, o que cria uma camada adicional de intimidade e aproximação com o público. Esses depoimentos não apenas complementam o que vemos nas cenas gravadas, mas também revelam a complexidade das relações entre os membros e a maneira como cada um contribuiu para o resultado final. É como se o espectador tivesse a oportunidade de fazer parte das conversas e debates internos da banda, algo que apenas um Documentário desse tipo poderia proporcionar.

Outro ponto de destaque do Documentário é o uso cuidadoso e eficaz das músicas do álbum "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" ao longo da narrativa. O filme não apenas nos conta a história por trás da produção, mas nos faz sentir essa história através da música. As canções são inseridas de maneira precisa, funcionando como uma trilha sonora que guia o espectador pelos diferentes estágios do processo de criação e produção musical. A montagem é ágil, e o ritmo do Documentário é tão bem construído que seus 33 minutos passam rapidamente, deixando no público a sensação de que poderia ter durado mais. Essa agilidade e fluidez fazem do curta uma experiência prazerosa, que não apenas informa, mas também entretém e emociona.

"Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" é, sem dúvida, uma joia do cinema documental brasileiro. Para além de seu valor como registro histórico da produção de um álbum de Rock, o filme é uma verdadeira celebração da criatividade e do espírito colaborativo que marcaram a carreira dos Titãs. A fotografia é cuidadosa e intimista, o som é perfeitamente captado para transmitir tanto a atmosfera dos ensaios quanto a potência das gravações no estúdio, e a arte e montagem são impecáveis. Esses elementos se combinam para nos oferecer um retrato genuíno e fascinante de uma das maiores bandas do Rock nacional.

O Documentário se destaca não apenas por capturar a essência da banda Titãs naquele momento específico de sua trajetória, mas também por transmitir ao espectador a sensação de estar "lá", acompanhando de perto o processo criativo e vivenciando junto com os músicos os desafios e conquistas de se produzir um disco. É uma obra imperdível para os fãs da banda, mas também para qualquer pessoa interessada no universo da música e no poder do trabalho em grupo. "Titãs - Tudo Ao Mesmo Tempo Agora" é um Documentário indispensável para entender não apenas os Titãs, mas também a história do Rock brasileiro. 




PARANOIA (2025)


            Com roteiro e direção de Ju Cassini, “Paranoia” é um Terror perturbador que transita entre o suspense sobrenatural e o thriller psicológico com muita competência e qualidade.

         Luiz Fontes interpreta o atordoado Daniel, que carrega consigo traumas de uma brincadeira que não saiu como o esperado. Sua companheira, Marina, interpretada por Beatriz Algranti, é o ponto de racionalidade, que procura fazer com que Daniel mantenha a sua sanidade mental. As atuações de Luiz e Beatriz são viscerais, intensas e positivamente impactantes. O elenco ainda conta com a participação de Marisa Carnicelli.

            Tudo em “Paranoia” funciona. O susto inicial de Daniel é o gancho para que seus problemas sejam transmitidos ao espectador. A inquietação de Marina, combina com a paciência, pois, para ela, o companheiro sofre de algum distúrbio. E é aí onde “Paranoia” se destaca. Ao deixar no ar se as visões de Luiz são alucinações ou algo a mais, o filme trabalha com as duas hipóteses de maneira primorosa. O texto não bate o pé e afirma que as perturbações de Daniel são reais ou alucinações. Esse namoro do Horror psicológico com o Thriller sobrenatural é intenso, impactante e delicioso para os fãs do gênero.

         “Paranoia” tem elementos técnicos muito bem empregados. A direção de fotografia consegue alternar um ambiente acolhedor e assustador. A escuridão do quarto, iluminado apenas por um abajur, se mostra como um ambiente confortável, onde Marina lê um livro. Mas, com a entrada de Daniel, a mesma escuridão já não passa a transmitir o mesmo senso de afinidade, fazendo com que, talvez, o melhor seja acender a luz e deixar o ambiente o mais claro possível.

           A trilha sonora acerta em cheio ao construir o ambiente acolhedor e, com cortes rápidos, começar a imergir o espectador na mente de Daniel. E a trilha cresce em intensidade junto com a trama, quando o protagonista acorda no meio da madrugada.

         A direção de arte merece destaque e todos os elogios possíveis. Os elementos explorados são de uma precisão extrema. Os efeitos práticos são perfeitamente aplicados e tudo é maravilhosamente bem construído. As ações de Daniel causam angústia e aflição. E para os fãs do Terror, terminam por causar satisfação, devido à qualidade da obra.

         Quem assiste “Paranoia” sem saber, provavelmente irá considerar que a obra foi produzida por algum profissional veterano. Mas este é apenas o segundo filme produzido por Ju Cassini. A jovem diretora apresenta ótimos predicados para a produção de um excelente filme de Terror, inserindo aspectos visuais e sonoros extremamente pertinentes, pontuais e necessários. Não há nada fora do lugar em “Paranoia”; tudo está no lugar certo e na hora certa. Não há exageros e tudo o que acontece em cena é a extração do máximo que o texto oferece.

               Ju Cassini desponta como um grande nome nas produções de Terror brasileiro. Já em “Reflexos”, de 2024, ela já demonstra um grande potencial. Com “Paranoia”, já é possível perceber que a diretora-roteirista sabe o que está fazendo e tem pleno conhecimento de como elementos técnicos e narrativos devem ser empregados. Aí, é o caso de perceber talento, conhecimento e dedicação por parte de Ju Cassini. Este parece ser o início de uma carreira brilhante.

         “Paranoia” é um filme de Terror maiúsculo, que explora o sobrenatural e as perturbações psicológicas de maneira magistral, mesclando realidade, alucinações e traumas profundos de forma tão sutil quanto angustiante, levando o espectador a duvidar da sanidade do protagonista e da sua própria. Pois, a linha que separa realidade e sobrenatural não é estabelecida, cabendo ao espectador tentar descobrir se tudo o que aconteceu foi real ou não.




quarta-feira, 2 de julho de 2025

PASSAGEM DE VOLTA (2022)

 

“Passagem de Volta” é um curta-metragem que mergulha profundamente na mente de um homem à beira de um colapso emocional. O protagonista, interpretado de forma brilhante por Welington Moraes, vive uma experiência intensa e exaustiva enquanto está em uma viagem de negócios. Desde o início, é evidente o estresse extremo, com seu comportamento revelando o desespero de alguém que luta para lidar com as pressões da vida. Ele quer voltar para casa, mas enfrenta uma série de obstáculos, como a chuva incessante, o cancelamento do voo, as crescentes tensões com a esposa e a angústia por estar longe da filha. Todos esses fatores se acumulam, criando uma tempestade interna de emoções.

O protagonista, ao longo do filme, revela um conflito interno que vai muito além das circunstâncias externas. Seu desejo de estar na praia, sentir a areia nos pés, sonhar em ter um barco, são sinais de uma busca por liberdade, tranquilidade e talvez uma fuga de sua própria realidade sufocante. Essas aspirações simples contrastam de forma poética com o caos em sua mente, reforçando a sensação de desespero e alienação.

A performance de Welington Moraes é monumental e carrega o filme com nuances de dor, confusão e, por vezes, uma tentativa de encontrar algum tipo de redenção emocional. Ele transita entre momentos de fragilidade e força, sempre com uma carga emocional poderosa que faz o espectador se conectar profundamente com seu personagem. A atuação é tão imersiva que a tensão cresce a cada cena, fazendo com que o público questione até onde aquele homem consegue suportar antes de desmoronar completamente.

A direção, roteiro e produção de Fahya Kury Cassins se destacam pela construção cuidadosa de um personagem multifacetado e por sua habilidade em usar uma estrutura narrativa não linear. Essa técnica, que poderia confundir o público em outras mãos, aqui funciona como uma ferramenta perfeita para mostrar o estado mental fragmentado do protagonista. O enredo é montado como um quebra-cabeças, no qual as peças aparentemente desconexas vão se encaixando aos poucos, levando o espectador a uma revelação final que faz tudo ganhar novo sentido. Quando a trama se completa, o impacto emocional é devastador, e compreendemos não apenas as motivações do personagem principal, mas também as ramificações de sua condição mental em todas as áreas de sua vida.

O curta-metragem também se destaca tecnicamente. A fotografia é cuidadosamente trabalhada para refletir os estados emocionais do protagonista, com cenas que alternam entre paisagens melancólicas e momentos de tensão extrema. A trilha sonora, com suas escolhas precisas, reforça o estado mental do personagem, utilizando sons que ecoam sua confusão e desespero. A arte e a montagem complementam a estética do filme, contribuindo para o clima sombrio e reflexivo da história.

Um dos momentos mais marcantes de “Passagem de Volta” é o diálogo entre o personagem de Welington Moraes e o taxista, interpretado por Lucas Ukah. O que inicialmente parece ser apenas uma conversa trivial adquire um significado muito mais profundo após o desfecho da trama. O destino escolhido pelo protagonista e o que esse momento simboliza para ele ressoam de maneira poderosa, fechando o arco dramático com uma sensação de melancolia e resignação.

Além de Welington Moraes e Lucas Ukah, o elenco traz performances sólidas de Ianca Michelini, Josi Tomaz, Aihmê Schaefer e outros, todos contribuindo para a atmosfera envolvente e emocionalmente carregada do curta.

“Passagem de Volta” é um drama que nos lembra dos limites da mente humana diante do estresse e da solidão, e como a busca por equilíbrio pode ser algo tão elusivo quanto um sonho à beira-mar. A obra é um exemplo de cinema independente brasileiro em sua forma mais sensível e potente, merecendo elogios por sua profundidade e pela entrega emocional de seus profissionais.


Assista: https://www.dailymotion.com/video/x8qor5s

UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...