terça-feira, 28 de outubro de 2025

ISSO DÁ UM CURTA (2025)

 


Com roteiro e direção de Felipe Siqueira, “Isso Dá um Curta” acompanha uma tarde descontraída de André e Luíza, moradores de uma república que, por conta das férias, está praticamente vazia. Entre goles de cerveja, risadas e conversas improvisadas, os dois começam a projetar ideias para a produção de um curta-metragem. O filme consegue capturar com perfeição aquela energia espontânea, típica de quem cria algo do zero, e transforma um ambiente limitado em um verdadeiro palco de imaginação.

O charme da obra está na forma como ela transforma limitações em força narrativa. Filmado quase inteiramente em um único espaço, o curta explora o ambiente como extensão da mente criativa dos personagens. Cada objeto, canto da sala e detalhe visual é aproveitado para materializar as ideias que surgem na cabeça de André e Luíza. Entre as propostas, o filme brinca com diferentes gêneros: o suspense de um assassino em série, o drama delicado de um romance improvável durante a busca por um cachorro perdido, e o drama tocante de um último encontro entre duas amigas, em que uma delas lida com uma doença terminal. Essa alternância de estilos, misturando o improvável e o clichê com inteligência e pontualidade, permite que o espectador se envolva profundamente na narrativa e viva as ideias como se fossem suas próprias criações.

As interpretações de Izzy e Matheus Faria são outro ponto alto do curta. Eles conseguem equilibrar naturalidade, intensidade e timing cômico, tornando seus personagens vivos, genuínos e extremamente cativantes. A química entre os dois contribui para que o público se sinta parte da criação, rindo e torcendo a cada nova ideia surgida. A espontaneidade da atuação é um convite para que o espectador compartilhe o entusiasmo e a diversão de planejar um curta de maneira despretensiosa, mas incrivelmente inventiva.

O elenco de apoio complementa de forma brilhante a narrativa, mesmo com participações curtas. Personagens como o assassino acima do peso, o cachorrinho vestido com tutu, ou outras figuras que surgem rapidamente na trama, contribuem para a riqueza cômica e absurda do curta. Nomes como Rafael Brandão, Mantega, Maravilha, José Carlos de Siqueira, Felipe Siqueira, Letícia Mirelly, Eriberto Silva, Ana Carolina da Silva e Mariane Cintra dão profundidade e completam o universo criado pelos protagonistas, mostrando que mesmo aparições breves podem gerar impacto e humor.

Outro ponto que se destaca em “Isso Dá um Curta” é o trabalho técnico primoroso. A direção de arte de Karol Rocha e a fotografia de Rafael Brandão são fundamentais para diferenciar (e aproximar) os dois mundos que coexistem na narrativa: o real, que se passa na sala da república, e a fantasia, materializada nas ideias criativas dos personagens. Cada mudança de cenário, cada objeto, cada escolha de luz e cor ajuda a criar a sensação de que os universos imaginados estão, de fato, tomando vida diante dos olhos do público. Essa fusão entre técnica e narrativa fortalece a imersão, permitindo que o espectador sinta que está dentro da sala junto com André e Luíza, participando de cada descoberta, tropeço ou insight.

O curta também se destaca por refletir de forma bem-humorada as dificuldades do audiovisual independente. Limitações orçamentárias, falta de recursos para transporte e locações, burocracia de editais e restrições logísticas são apresentadas de maneira leve, mas sem perder a crítica. Essa abordagem traz autenticidade à narrativa, evidenciando os desafios que muitos realizadores enfrentam na produção de curtas-metragens, e reforça a criatividade como solução diante das adversidades.

Em sua essência, “Isso Dá um Curta” é uma comédia leve, divertida e inventiva, que consegue transportar o espectador para o universo de criação dos protagonistas. O filme celebra a capacidade de transformar ideias simples em experiências cômicas e envolventes, mostrando que, no fim, o mais importante na criação artística não é o recurso disponível, mas a imaginação, a colaboração e a energia que se coloca no projeto. Entre risadas, absurdos e momentos de ternura, o curta reforça que a criatividade é o motor que move a realização de qualquer obra, e que o entusiasmo e a empolgação podem ser tão cativantes quanto o resultado final.

Com sua combinação de roteiro ágil, atuações carismáticas e direção técnica precisa, “Isso Dá um Curta” não é apenas uma história sobre a criação de um filme dentro de um filme. É uma obra que celebra a criatividade, a amizade e a magia de transformar o cotidiano em pura diversão cinematográfica, deixando o espectador inspirado, entretido e com vontade de criar suas próprias histórias.




sábado, 25 de outubro de 2025

TRÊS NO TRI (2013)

 


"Três no Tri" é um documentário emocionante e muito bem produzido, que mergulha na história de três repórteres fotográficos enviados para cobrir a Copa do Mundo de 1970, no México, onde a seleção brasileira conquistou seu tricampeonato. O filme tem como principal foco o renomado fotógrafo Orlando Abrunhosa, cujo trabalho resultou em uma das imagens mais icônicas da história do futebol mundial.

O documentário exibe um cuidadoso trabalho de pesquisa e edição, mesclando materiais de arquivo, como fotografias, áudios e vídeos da época, para recriar o cenário do jornalismo esportivo das décadas de 1960 e 1970. Essa era uma época em que a fotografia analógica exigia grande habilidade técnica e intuição, já que os fotógrafos não podiam conferir os resultados de suas imagens de imediato, como fazemos hoje com câmeras digitais. Eles só viam o fruto do seu trabalho após a revelação dos filmes, o que torna a precisão e a sensibilidade para captar momentos históricos ainda mais impressionantes.

Um dos pontos altos do filme é a reconstituição do momento em que Abrunhosa captura a famosa imagem de Pelé comemorando seu gol contra a Tchecoslováquia, com o emblemático soco no ar, enquanto Tostão e Jairzinho aparecem ao fundo. Essa foto não apenas registrou um momento de euforia, mas transcendeu o evento esportivo, tornando-se um símbolo da vitória e da paixão pelo futebol. A fotografia foi amplamente reproduzida em jornais, revistas e veículos de mídia ao redor do mundo, se consolidando como uma das imagens mais reconhecidas e emblemáticas da história das Copas.

Além de Orlando Abrunhosa, o documentário também presta homenagem a outros dois grandes fotógrafos que cobriram a campanha brasileira no México: Evandro Teixeira e Walter Firmo. Ambos, assim como Abrunhosa, compartilham seus relatos pessoais sobre a experiência de documentar o evento e as dificuldades e desafios enfrentados na época. Os depoimentos são tocantes e trazem à tona a realidade do trabalho fotográfico em grandes eventos, onde cada clique tem o potencial de registrar um momento que ficará eternizado na história.

Dirigido por Eduardo Souza Lima, com uma excelente pesquisa realizada por Bárbara Morais e pelo próprio diretor, "Três no Tri" é uma verdadeira homenagem a esses fotógrafos, que, através de suas lentes, não apenas documentaram a história, mas a imortalizaram. A produção é tecnicamente impecável, desde a escolha da trilha sonora, até a montagem fluida, que envolve o espectador e o transporta para o calor dos gramados e a emoção dos estádios mexicanos de 1970.

O documentário vai além de ser apenas um registro do futebol. Ele transcende os limites do jornalismo esportivo e se coloca como um documento histórico de uma era do jornalismo fotográfico, onde cada clique demandava precisão e um olhar artístico apurado. É um filme que resgata o valor da fotografia como arte e como testemunho histórico, ao mesmo tempo em que oferece uma visão sobre o impacto cultural e emocional que esses registros têm sobre o público.

Para os fãs de futebol, cinéfilos ou qualquer pessoa que aprecia um bom documentário, "Três no Tri" é uma obra que merece ser vista. Combinando história, nostalgia e um profundo respeito pelos profissionais que fazem do jornalismo uma arte, o curta é um exemplo magistral de como unir narrativa e técnica em uma produção audiovisual de alta qualidade.




quarta-feira, 22 de outubro de 2025

LITANIA DA VELHA (1997)

 

Com um tom sensível e melancólico, o Drama em curta-metragem é baseado no poema homônimo de Arlete Nogueira da Cruz. Com direção e roteiro adaptado de Frederico Machado, a trama se desenrola a partir do início do último dia de uma velha mulher que mendiga pelas ruas históricas de São Luiz.

         O curta, com narração de Othon Bastos, dialoga em sincronia perfeita com a fotografia e a triste música selecionada pela equipe de som. A dificuldades de locomoção, as fragilidades do corpo e as roupas rasgadas se misturam com os prédios históricos abandonados e degradados. A mesma passagem de tempo que transformou o corpo e a alma da idosa ao longo de sua vida é a mesma que fragilizou as antigas edificações tomadas por mato, sem teto e com paredes caindo.

        “Litania da Velha” tem Porfíria de Jesus como a protagonista que, ao mesmo tempo que luta e resiste pela sua existência, tem o seu caminho marcado pelo descaso, abandono e indiferença. Seja na sua pobre e humilde casa de pau a pique, ou em frente a suntuosos prédios largados e desgastados pelo tempo, a idosa é o que carrega em seu velho corpo e tem o que carrega dentro da sacola.

         A sensibilidade da equipe criativa combina os elementos narrados com a elaboração perfeita da condução de trama, trazendo à tona os sentimentos do espectador sobre a pobre e esquecida mulher e em como o descaso é um elemento forte de outros personagens que transformam ela numa figura invisível, sem direitos e sem dignidade.

        “Litania da Velha” dá voz a uma velha que parece estar refletindo sobre sua vida, suas experiências e sobre a passagem do tempo. A velha no poema se encontra em um estado de contemplação, e sua "litania" é um tipo de oração ou mantra que reflete seus pensamentos, seus desejos e seus lamentos. O tom é melancólico, mas também resignado, e o poema capta o espírito da velhice, da solidão e da sabedoria que vem com o passar dos anos.

         Frederico Machado destaca-se em “Litania da Velha” especialmente por sua profundidade visual e a delicadeza com que aborda o envelhecimento e as emoções humanas. Com seu estilo único de direção, foca mais nas imagens e no simbolismo para transmitir os sentimentos e a poesia contida na vida da velha personagem.

        “Litania da Velha” é um curta esteticamente perfeito, com um arco narrativo e dramático extremamente emocionante e sensível, que traz uma reflexão importante sobre o respeito à dignidade humana e as dores silenciosas da velhice. A obra não só evidencia a fragilidade física e emocional de sua protagonista, como também aprofunda a ideia de isolamento e abandono que muitos idosos enfrentam na sociedade. A direção de Frederico Machado consegue equilibrar o lirismo visual com uma narrativa profunda, provocando no espectador uma empatia genuína pela personagem, que resiste com dignidade aos desafios impostos pelo tempo. A atuação de Porfíria de Jesus contribui para criar uma atmosfera tocante, onde o silêncio, a solidão e a memória formam a espinha dorsal do filme, conduzindo-o a um final ao mesmo tempo melancólico e belo, deixando uma marca duradoura sobre a importância de valorizar a vida em todas as suas fases.




segunda-feira, 20 de outubro de 2025

DOMINGOS (2015)

 


O curta-metragem “Domingos” oferece uma imersão perturbadora na vida de um homem aparentemente comum, cuja rotina meticulosamente repetida esconde segredos macabros. O filme, dirigido e roteirizado por Jota Bosco, tem início com a apresentação de Domingos, um sujeito que acorda sempre no mesmo horário, segue os mesmos rituais ao longo do dia, e cumpre com precisão cada etapa de seu cotidiano. Desde a preparação matinal até o momento em que, ao fim do expediente, relaxa em frente à TV comendo pipoca, a vida do protagonista parece rotineira e inofensiva.

No trabalho, Domingos é visto ao lado de sua colega Rosinha, interpretada por Raíza Cardoso, e do chefe, o desprezível Seu Francisco, vivido por Chico Nóbrega. Ambos os personagens orbitam ao redor de Domingos sem perceber o abismo que se esconde por trás de sua fachada pacata. A interação entre os três aparenta ser a de qualquer escritório normal, sem desconfiança alguma de que algo de sombrio possa acontecer. No entanto, Bosco constrói cuidadosamente uma atmosfera de crescente tensão, com pistas sutis de que nem tudo é o que parece ser. À medida que o enredo se desenvolve, o espectador é levado a questionar se Domingos é realmente tão normal quanto sua rotina faz parecer.

A repetição intencional das ações do protagonista tem um efeito quase hipnótico, conduzindo o público a se sentir parte daquela vida monótona e, ao mesmo tempo, deixando uma sensação incômoda de que algo está fora do lugar. Jota Bosco, que também interpreta o protagonista, entrega uma atuação contida, mas que carrega uma inquietante dualidade: por um lado, ele transmite a calma e a ordem de um homem que vive no piloto automático; por outro, há pequenos detalhes em seu comportamento que sugerem que essa rotina meticulosa pode estar ocultando algo muito mais sinistro.

Rosinha, sua colega de trabalho, é a chave para a descoberta dessa faceta obscura. Quando ela encontra os documentos de Domingos no chão da empresa, isso desperta uma série de questionamentos. Ele deixou os papéis ali de propósito, como uma espécie de teste ou armadilha? Ou foi um acidente, fruto de sua distração? Esses momentos em que o filme sugere possibilidades sem entregar respostas definitivas enriquecem o suspense, permitindo ao público interpretar a cena de diferentes maneiras. Ao seguir para a casa de Domingos com a intenção de devolver os documentos, Rosinha se depara com a face oculta do colega da pior maneira possível. Quando ele abre a porta e, de forma seca, tenta encerrar a interação, nos perguntamos se ele está lutando contra seus impulsos, porque tem algum pequeno sentimento de compaixão pela colega de trabalho.

O clímax da trama é assustador e sinistro. No dia seguinte ao ocorrido, Domingos segue sua rotina exatamente como qualquer outro dia, reforçando a ideia de que, para ele, nada mudou. Isso levanta questões sobre quantas outras pessoas como ele podem existir, escondendo segredos sombrios sob uma fachada de normalidade. A vida de Domingos continua, imutável, como se os acontecimentos recentes não tivessem impacto sobre ele. Essa indiferença perante o horror vivido é o que torna o personagem ainda mais assustador.

A atmosfera de “Domingos” é habilmente construída pela equipe técnica. A fotografia, inicialmente simples e estática, vai ganhando tons mais sombrios à medida que a trama avança, refletindo a mudança na percepção que o público tem do protagonista. A trilha sonora acompanha essa transformação, começando de forma sutil e gradualmente tornando-se mais intensa, aumentando a sensação de desconforto. O uso de planos e ângulos que inicialmente parecem banais acaba sendo uma ferramenta eficaz para destacar a normalidade do cenário, mas que, com o passar do tempo, se transformam em uma representação visual do aprisionamento psicológico de Domingos dentro de sua própria rotina e de sua mente.

“Domingos” é um Terror psicológico que dialoga com a ideia de que a verdadeira ameaça muitas vezes não está à espreita em locais escuros ou em personagens excêntricos, mas em figuras cotidianas, aquelas que vemos todos os dias e que não chamam atenção. O curta faz referência a clássicos do gênero que exploram a mente humana e o perigo que ela pode representar, onde o terror emerge de dentro, de uma mente comum que, lentamente, se revela monstruosa.

Além disso, o filme oferece uma reflexão sobre a rotina e o quanto ela pode ser uma armadilha psicológica. Domingos é um personagem que encontra segurança na repetição de suas atividades, mas essa rotina também serve para esconder suas inclinações mais sombrias. É como se, por trás da tranquilidade de cada dia, houvesse uma fenda pela qual ele permite que sua verdadeira natureza escape, de forma calculada e controlada.

         “Domingos” é um curta-metragem impactante, que utiliza de forma inteligente os recursos do Terror psicológico para construir um personagem complexo, cuja aparente normalidade esconde segredos perturbadores. Com uma direção precisa e atuações envolventes, o filme prende a atenção do público até o último momento, deixando uma marca bastante forte ao levantar questionamentos sobre o que realmente sabemos sobre aqueles com quem convivemos diariamente.




quinta-feira, 16 de outubro de 2025

VELHA HISTÓRIA (2004)

 


A partir do poema de Mário Quintana, conhecemos um pescador que fisgou um peixinho e, sentindo pena dele, retirou o anzol, tratou o ferimento e fez surgir uma amizade inusitada entre eles.

A Animação da equipe de Cláudia Jouvin, consegue transmitir o tom melancólico e reflexivo do poema. A trilha sonora combinada com a voz de Marco Nanini traz ainda mais brilhantismo para a história e como ela se desenrola.

“Velha História” trabalha com a proposta das necessidades humanas por ter a quem amar e também ser amado. A amizade do homem e do peixe é motivo de companheirismo e lealdade, sendo admirada pelos outros personagens. Porém, o lugar do peixe não é ali, fora d’água. E o homem passa a ter o pensamento em devolver o peixe à água, por mais difícil que fosse a separação.

O filme aborda questões relacionadas à forma como o ato de amar precisa dar espaço e liberdade para o outro. O amor nunca pode ser uma prisão. O amor não combina com a privação do outro e da perda de sua identidade com a sua essência e natureza.

O curta traz uma reflexão sobre a vida, a passagem do tempo, do que marca e o que realmente é importante. O destino do peixe no final do poema conclui que, assim como a vida, o amor também é transitório e imprevisível, um fenômeno que não pode ser forçado ou mantido contra a natureza das coisas. A morte do peixe é uma metáfora para a inevitabilidade do fim de certas relações e momentos na vida. No entanto, ela também simboliza a necessidade de aceitação e de aprender a viver plenamente, sem posses ou controle sobre o outro. O peixe, ao morrer, representa o ciclo natural das experiências humanas: todas têm um início e um fim, e é a aceitação desse fluxo que nos permite crescer e encontrar significado.




terça-feira, 14 de outubro de 2025

A MENINA ESPANTALHO (2008)

 


Luzia é uma menina que vive no campo, com seu irmão Pedro, e com os pais. Quando Pedro começa a frequentar a escola, a garotinha demonstra vontade de também aprender a ler e escrever. Porém, segundo o pai, ela não deve ir à escola, mas sim, “aprender tarefas domésticas” em casa.

         “A Menina Espantalho” é uma Comédia dramática leve, para todas as idades e públicos. É um filme extremamente sensível, comovente e com uma delicadeza narrativa que transforma temas simples em reflexões universais sobre infância, identidade e a busca por conhecimento.

        No curta, podemos experimentar a vida na roça e a inocência infantil dos dois irmãos. Nesse ponto, Luzia abre espaço para que o irmão a ajude em sua alfabetização. Mesmo com um tom cômico, a cumplicidade entre os irmãos é bela e genuína. Impossível não se encantar com as atuações de Pâmela Silva e Otávio Santiago. Nem por isso, os personagens dos pais perdem profundidade. Vinícius Ferreira e Jane Santos representam a composição padrão familiar, onde homens e mulheres têm funções e objetivos diferentes.

         A plantação de arroz funciona como um pano de fundo muito bem encaixado, pois, estando ali para espantar as aves, Luzia tem tempo e disposição para aprender cada vez mais.

         Um ponto importantíssimo para o impacto do curta se dá ao ótimo trabalho de arte, fotografia e trilha sonora, que transmitem a sensação nostálgica da vida no campo, do período de infância e sonhos, e a sensação de acolhimento, mesmo numa casa onde há uma certa carência financeira e, talvez, a única esperança de mudança seja através da educação do filho.

        Com roteiro e direção de Cássio Pereira Dos Santos, “A Menina Espantalho” é um filme que abraça o espectador e o conduz por uma narrativa coesa, natural e aconchegante. A composição entre narrativa, arco dramático, um elenco competente e elementos técnicos executados com muita competência, faz do curta uma maravilha do cinema brasileiro.

         “A Menina Espantalho” é daqueles filmes que marca e fica guardado no coração. A produção exalta a simplicidade e utiliza isso como ferramenta de ligação entre o espectador e a família, principalmente com Luzia. E esse é um dos grandes méritos do diretor, que consegue transformar a simplicidade em imersão, unindo quem assiste ao filme com os personagens em tela. É um filme para ser visto e revisto muitas vezes.




quinta-feira, 9 de outubro de 2025

PROGRAMA DE PROTEÇÃO À CARREIRA ARTÍSTICA, EM QUE POSSO AJUDAR? (2023)

 


“Programa de Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” é um curta-metragem que mistura, de forma habilidosa e provocativa, Drama, Comédia e Suspense, conduzindo o espectador por uma narrativa marcada pelo humor ácido e por uma crítica cortante à indústria cultural contemporânea. Com direção de Manu Gavassi e Gabriel Dietrich, o filme apresenta uma artista que, cansada de seu afastamento do cenário musical, procura o misterioso serviço do chamado “Programa de Proteção à Carreira Artística”, acreditando que ali encontrará a chance de retomar sua trajetória.

O roteiro, da própria Manu Gavassi, é uma peça afiada, inteligente e ousada, que revela os sintomas de um modelo de arte cada vez mais padronizado, em que a autenticidade e a originalidade de um artista são frequentemente sufocadas por exigências de mercado. A narrativa desconstrói o glamour superficial da indústria cultural e evidencia a lógica perversa que transforma a expressão artística em produto, expondo a forma como a arte, em nome da popularidade, é desfigurada e moldada ao gosto das massas.

Manu Gavassi entrega uma atuação dupla impecável, interpretando tanto a cantora que deseja reencontrar sua voz quanto a atendente impassível da empresa. As duas personagens são antagônicas e, ao mesmo tempo, complementares. De um lado, há o desejo genuíno de criar, cantar e ser ouvida. Do outro, o sistema impessoal, frio e calculista, que dita tendências, impõe estéticas e define o que é “vendável”. A atendente, com sua voz robótica e seus pacotes absurdos de “reabilitação artística”, representa o poder desumanizador da indústria, que transforma artistas em marionetes de algoritmos e estratégias de marketing.

A tensão cresce à medida que a artista tenta resistir, mas suas tentativas são esmagadas por um discurso padronizado. O filme acerta em cheio ao evidenciar o absurdo travestido de normalidade, como se fosse natural que um artista precisasse se enquadrar em moldes que anulam sua própria identidade. É nesse ponto que o curta brilha: o que poderia facilmente se tornar uma paródia ou uma comédia de esquetes, nas mãos de outro diretor, aqui ganha profundidade, ironia e uma crítica mordaz, equilibrando perfeitamente humor e desconforto.

As atuações são intensas, e a química entre as duas “versões” da própria Manu potencializa a força dramática da obra. A atendente jamais perde a compostura, suas falas são precisas, calculadas, robóticas, enquanto a artista, aos poucos, se fragmenta emocionalmente diante da impossibilidade de conciliar autenticidade e aceitação. Essa dualidade é uma metáfora poderosa do conflito que tantos criadores vivem: a arte como necessidade versus a arte como produto.

A direção de Gabriel Dietrich e Manu Gavassi imprime ritmo e sofisticação à narrativa, apoiada por uma produção visual impecável. A fotografia reforça o clima opressivo com tons frios e iluminação controlada, que ressaltam o contraste entre o artificial e o humano. A montagem, com seus cortes secos e às vezes abruptos, intensifica a sensação de claustrofobia e submissão, interrompendo falas da artista e acentuando sua impotência diante da máquina cultural.

A trilha sonora desempenha um papel essencial: um ruído constante e incômodo permanece ao fundo, funcionando quase como a materialização do desconforto interno da protagonista. Esse som, que parece vir de dentro da própria estrutura da empresa, é ao mesmo tempo moderno e perturbador, marcando o compasso da decadência emocional da artista até o desfecho, um final que é, ao mesmo tempo, simbólico, crítico, profundamente poético e perturbador.

Com apenas sete minutos, “Programa de Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” consegue condensar uma crítica feroz à engrenagem cultural contemporânea, em que a individualidade é sacrificada em nome de números, engajamento e estética. O curta transcende a crítica à música pop e alcança outras esferas da arte, incluindo o cinema, a televisão e as redes sociais, espaços em que a linha entre expressão e mercadoria se torna cada vez mais tênue.

O resultado é uma obra densamente simbólica e surpreendentemente madura, que faz refletir e desconcertar na mesma medida. Com roteiro afiado, atuações inspiradas e uma direção de arte impecável, o curta reafirma Manu Gavassi como uma artista consciente e criativa, capaz de ironizar a um tipo de indústria que engole artistas e entrega enlatados com rótulos. “Programa de Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” é um espelho, ácido, sarcástico e necessário, sobre o preço da autenticidade em tempos de padronização.




terça-feira, 7 de outubro de 2025

BRASILIÁRIOS (1986)

 

O curta é um passeio pela capital federal na companhia de Clarice Lispector. Inspirado na obra “Brasília”, da genial escritora, o curta nos leva para o universo e ligação entre ela e a cidade.

         As palavras descrevem o que muitas cenas mostram e, capturado, pela imersão proposta, o espectador mergulha profundamente nas palavras da autora, narradas por Cláudia Pereira, que interpreta Clarice Lispector, nesse Drama muito bem elaborado e produzido.

            Com direção e roteiro de Zuleica Porto e Sergio Bazi, “Brasiliários” é um curta que apresenta a intimidade e afinidade entre a escritora e a cidade. A forma como Brasília é descrita, deixa claro que a cidade é diferente de outros lugares do Brasil, justamente pelo planejamento, construções peculiares e a atmosfera de centralização e poder.

         Com um olhar sensível, a escritora explora sentimentos de solidão e a sensação de artificialidade da cidade, que, apesar de ser monumental e organizada, parece não oferecer acolhimento humano. Ao mesmo tempo, Clarice também reconhece a beleza e a imponência de Brasília, mas seu olhar profundamente introspectivo vai além da superfície, tocando em questões existenciais.

            O curta tem uma condução muito bem executada por parte dos diretores, com uma narrativa visual extremamente competente e profunda. A fotografia tem papel fundamental nas sensações que o filme provoca, assim com a trilha sonora, que alterna momentos de silêncio, sons e narrações.

         Com muita qualidade técnica e dramática, “Brasiliários” consegue transmitir a dualidade percebida por Clarice Lispector, mas também uma certa uma nostalgia, típica dos textos da escritora e que podem trazer diferentes reflexões sobre a capital do Brasil.




segunda-feira, 6 de outubro de 2025

CRISES NO ESCURO (2022)

 


Com roteiro de Bruno Rapone e direção de Luke Schatzmann, a divertida comédia “Crises no Escuro” acompanha uma equipe de trabalho de uma agência de publicidade que se vê em apuros quando falta energia justamente no dia em que um projeto crucial precisa ser entregue. A situação se complica ainda mais porque o projeto, que deveria ser finalizado naquele dia, ainda não estava pronto, desencadeando uma série de eventos hilários e tensos.

“Crises no Escuro” é aquele tipo de curta que consegue prender a atenção do espectador, mesmo se passando quase integralmente em um único ambiente. Essa limitação espacial não é um obstáculo, mas sim um estímulo para a criatividade narrativa e técnica: cada diálogo, cada gesto e cada reação ganha maior relevância, e o humor se intensifica pela proximidade com os personagens. O roteiro bem construído, aliado à entrega impecável de toda a equipe criativa e técnica, transforma uma situação cotidiana em uma obra que entretém, diverte e surpreende.

O elenco, formado por Elisa Pinheiro, Ana Paula Assmann, Aline Machado, Ariel Gustsack, Rodrigo Lemos, Lucas de Oliveira e o próprio Bruno Rapone, se destaca pela naturalidade e pelo timing cômico. As atuações não são forçadas; pelo contrário, fluem de maneira orgânica, tornando cada interação crível e divertida. O equilíbrio entre espontaneidade e competência permite que o espectador se envolva totalmente com a narrativa, torcendo e rindo junto com os personagens.

O curta ainda se beneficia de uma proposta narrativa muito bem pensada: em plena sexta-feira, a equipe aguarda ansiosamente a confirmação de um cliente para fechar o projeto. A falta de energia elétrica transforma o que poderia ser apenas um atraso em um caos absoluto. O desespero dos funcionários é duplamente justificado: primeiro, pelo desconhecimento sobre quando a luz voltará, e segundo, porque o tão esperado “sextou” rapidamente se transforma em um “ferrou”. Um dos grandes acertos de “Crises no Escuro” é mostrar a transição da tensão inicial para uma estranha sensação de tranquilidade, quando a equipe percebe que nada pode ser feito. Essa mudança reflete perfeitamente a ideia de que “existe um tipo de calma que só o desespero é capaz de proporcionar”, trazendo um tom humano e filosófico mesmo dentro de uma comédia leve.

A direção de Luke Schatzmann é concisa e madura, equilibrando com precisão os elementos narrativos e técnicos. As situações cômicas, apoiadas por diálogos inteligentes e timing certeiro, constroem uma comédia sofisticada, acessível a todos os públicos, sem recorrer a exageros ou clichês. O curta transforma o ordinário em extraordinário, mostrando que mesmo uma situação simples do cotidiano pode se tornar fonte de grande entretenimento quando bem conduzida.  

Em poucos minutos, “Crises no Escuro” consegue explorar várias camadas da comédia: a tensão, o humor situacional e a interação humana em momentos de crise. O resultado é um curta envolvente, dinâmico e alegre, capaz de prender a atenção do espectador do início ao fim, proporcionando um entretenimento puramente prazeroso, leve e memorável.




quinta-feira, 2 de outubro de 2025

NUNCA É NOITE NO MAPA (2016)


Com uma linguagem poética e sensível, Ernesto de Carvalho dirige com maestria o Documentário “Nunca é Noite no Mapa”. Utilizando apenas imagens do Google Maps e Google Street View, ele narra com muita assertividade alguns dos problemas sociais flagrados pelas lentes da big tech. O Google Street View é uma ferramenta do Google Maps que permite explorar virtualmente ruas e avenidas em todo o mundo. Ele oferece imagens panorâmicas de 360° em horizontal.

         O diretor, que também narra o Documentário, divaga sobre as ferramentas disponibilizadas pelo Google e pelo fato dele ter conseguido fotografar a viatura da empresa que captura imagens de cidades e ruas pelo mundo.

         O curta, porém, vai muito além de imagens de ruas, prédios históricos e monumentos importantes. Os realizadores demonstram como a viatura do Google pode apresentar uma triste realidade, especialmente nas periferias das grandes cidades. Os flagrantes registrados de viaturas policiais abordando jovens é frequente. Como também é comum imagens de moradores de rua.

         A linguagem poética dá uma enorme força na capacidade de absorção do espectador, que passa a refletir sobre como muitas coisas mudam no ambiente e, muitas vezes, não damos conta. As datas de imagens revelam essas mudanças e, muitas delas, são difíceis de digerir. Portanto, “Nunca é Noite no Mapa” mostra que essas reflexões são necessárias.

        Nas mudanças de datas feitas pelo diretor, uma mesma área onde pequenas e humildes casa estavam localizadas, foram sendo, ao longo do tempo, derrubadas para uma construção de um edifício usado nas Olimpíadas. Para muito além das imagens e de sua passagem no tempo, passamos a perceber que famílias foram desalojadas. E onde elas estariam nesse momento?

         “Nunca é Noite no Mapa” tem elementos técnicos extremamente importantes para a construção da narrativa. Mesmo com a curta duração de seis minutos, o curta é de uma profundidade impressionante, refletindo sobre cada pessoa flagrada no Google Street View tem uma vida, dificuldades e personalidade. Uma pessoa alcoolizada que dorme num beco, provavelmente não queria ser fotografada pela viatura do Google. Mas, infelizmente, a câmera fez esse registro. E por que essa pessoa estaria alcoolizada? Quais os problemas que ela enfrenta.

          De forma magistral, os realizadores apresentam muitos dos problemas da sociedade atual, com a existência de outras viaturas, que modificam o ambiente ou representam a opressão de parte da população periférica e pobre. A viatura do Google escolheu capturar essas imagens? O profissional que dirige a viatura tinha esse objetivo? O funcionário da empresa de segurança privada que trabalha para o Google tinha isso em mente?

         O Google Street View mostra casas, pontos turísticos, prédios históricos, praças arborizadas, praias ensolaradas, mas, infelizmente não tem a capacidade de ignorar a pobreza, a repressão policial, o desprezo governamental. “Nunca é Noite no Mapa” convida o espectador para essas reflexões. Tudo isso acontece no mesmo mapa que mostra a nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade. 




UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...