segunda-feira, 30 de junho de 2025

BAILE (2019)


          O curta-metragem "Baile", dirigido por Cíntia Domit Bittar, é um exemplo impressionante da habilidade da cineasta em transformar situações cotidianas em histórias tocantes e emocionantes. A trama gira em torno de uma família, composta por Andrea, uma menina de 10 anos, sua mãe, Lurdes, e sua bisavó. Através de uma narrativa intimista e sensível, o filme explora as lutas diárias dessa família, que vive em condições simples, mas não se rende diante das dificuldades.

Lurdes, uma mãe solo que sustenta a casa com o seu emprego e tirando fotos 3x4 em casa, conta com a ajuda de Andrea para cuidar da bisavó. Andrea, apesar da pouca idade, já se depara com as desigualdades do mundo ao acompanhar sua mãe na vida diária, desde o corte dos remédios gratuitos que antes conseguiam nas farmácias públicas, até a sua visita à Assembleia Legislativa, onde ela percebe de maneira simbólica as diferenças de gênero e de poder na sociedade. Na assembleia, o espaço dedicado às mulheres eleitas é diminuto e composto de simples fotografias, enquanto os presidentes da casa, todos homens, são homenageados com quadros imponentes. A jovem Andrea se dá conta dessa desigualdade ao observar como os homens ganham mais destaque, algo que escancara as disparidades que ainda existem.

Com muita sutileza, Cíntia Domit Bittar traça um paralelo entre a situação de Andrea e o contexto maior em que ela vive. A coleção de fotos 3x4 tiradas em casa por sua mãe adquire uma relevância simbólica dentro da narrativa, estabelecendo uma ligação emocional entre as experiências cotidianas da protagonista e os retratos de figuras públicas. Essa metáfora, além de representar a luta por visibilidade das mulheres, também reflete os sonhos e as esperanças de uma menina que, mesmo diante das dificuldades, anseia por um futuro melhor.

Tecnicamente, "Baile" brilha em diversos aspectos. A fotografia é notável pela forma como os enquadramentos acompanham de perto a vida de Andrea, criando uma conexão íntima entre o público e a personagem. A trilha sonora, discreta e precisa, complementa o tom sensível da narrativa, assim como o figurino e a direção de arte, que retratam com fidelidade a simplicidade da vida de uma família comum.

Outro elemento essencial para o sucesso do filme é o elenco. Emily de Jesus, como Andrea, oferece uma interpretação cheia de nuances, que captura a inocência e a criatividade da infância. Patrícia Saravy, no papel de Lurdes, representa com honestidade e força a luta diária de uma mulher que faz o melhor para manter o bem estar da família. Adélia Domingues Garcia, interpretando a bisavó, completa o núcleo familiar com uma atuação tocante e comovente. Além disso, o filme conta com a presença de Adriane Canan, Chico Caprario, Elaina Sallas e Giovana Valgas, que acrescentam ainda mais riqueza ao elenco.

O curta tem uma estrutura narrativa circular, o que reforça a conexão entre o início e o final do filme. A sequência inicial, em que Lurdes fotografa as pessoas, é espelhada na cena final, quando Andrea, repetindo as palavras da mãe, tenta fazer o mesmo com a bisavó. A ideia de manter o sorriso diante das adversidades é um dos temas centrais da obra, sublinhando a resiliência e a força dessa família.

"Baile" foi exibido em diversos festivais ao redor do mundo, destacando-se por sua sensibilidade e pela maneira única como aborda questões sociais e pessoais. O filme foi premiado como melhor curta-metragem pela Academia Brasileira de Cinema em 2020 e recebeu elogios da crítica por seu olhar refinado sobre a vida de mulheres comuns que, muitas vezes, não têm suas histórias contadas. O sucesso do filme foi tanto que chegou a ser cotado para concorrer ao Oscar de melhor curta-metragem em 2021, consolidando Cíntia Domit Bittar como uma das diretoras mais importantes do cinema nacional.

"Baile" transcende sua condição de curta-metragem para se transformar em uma poderosa reflexão sobre desigualdade, sonhos e a importância de encontrar momentos de felicidade, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. A história de Andrea, Lurdes e sua bisavó é um convite para que o público veja a beleza nas pequenas coisas da vida e perceba que, mesmo em um ambiente de desafios e restrições, sempre há espaço para o sorriso e para a esperança, porém, sem abrir mão das pertinentes reflexões e críticas.




TRÊS CORTES PARA GLAUBER (2009)

            Mesclando habilmente imagens de obras de Glauber Rocha, registros de arquivo e cenas emblemáticas do contexto histórico, o diretor Gabriel Dib constrói uma profunda radiografia do cinema brasileiro a partir da visão artística e intelectual de Glauber. O Documentário “Três Cortes Para Glauber” não se limita a ser uma simples homenagem: é uma imersão densa na mente criativa de Glauber, inspirada nas estéticas que ele tanto explorou em sua obra, como a fome, o sonho e a violência, pilares conceituais que moldaram seu legado. Esses três elementos não só refletem as questões políticas e sociais da época, mas também o desejo de um cinema que falasse diretamente à realidade do Brasil.

Com uma montagem precisa, de Pedro Gorender, Pedro Bento e Gabriel Dib, o curta-metragem estabelece um jogo entre som e imagem que resulta em uma experiência sensorial instigante. A trilha sonora, utilizada de maneira cirúrgica, intensifica a narrativa, criando uma atmosfera imersiva que conecta o espectador ao universo glauberiano. Os elementos técnicos e narrativos se destacam ao amplificar a dialética proposta por Glauber em seus filmes: uma constante tensão entre o poético e o brutal, o sonho e o pesadelo, a fome e a resistência.

O Documentário reflete sobre a missão central de Glauber Rocha: a criação de um cinema autenticamente brasileiro, feito por brasileiros e para brasileiros. Glauber acreditava que a produção cinematográfica nacional deveria se libertar das fórmulas enlatadas de Hollywood e buscar uma narrativa própria, que falasse sobre a realidade social e cultural do Brasil. Em "Três Cortes Para Glauber", essa busca por um cinema original é explorada através de cenas que revelam como Glauber olhava para as múltiplas facetas do Brasil; suas paisagens, sua cultura e suas contradições.

Glauber não apenas rejeitava a fantasia escapista proposta pelo cinema comercial, mas abraçava uma estética da realidade, onde a simplicidade, a verdade e a resistência ocupavam o centro de sua criação artística. O curta revela o quanto o cineasta foi influenciado pelo Neorrealismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa, mas sempre com os pés fincados no solo brasileiro. Sua obra é um espelho da luta por um cinema político, uma arte que falasse de forma direta com o povo e sobre o povo, revelando suas angústias, suas lutas e suas esperanças.

Em “Três Cortes Para Glauber”, a estética do Cinema Novo é explorada com profundidade. O movimento, do qual Glauber foi um dos principais expoentes, buscava retratar o Brasil de forma fiel, abordando o Brasil profundo, com suas desigualdades e complexidades. Esse cinema se afastava das fantasias importadas, preferindo uma abordagem que desnudava as mazelas sociais, trazendo à tona a violência estrutural, a fome, e o sofrimento dos marginalizados. O Documentário destaca essa missão de Glauber, de construir uma arte que fosse não só cinematográfica, mas também política e socialmente comprometida. Essa estética da resistência é um dos temas centrais de "Três Cortes Para Glauber", e é evidenciada de forma brilhante ao longo de toda a obra.

A narrativa não linear do curta, inspirada na própria estrutura dos filmes de Glauber, permite que o espectador entre no fluxo de pensamentos do cineasta. Não há uma cronologia rígida, assim como nas lembranças e nos sonhos, temas recorrentes na filmografia de Glauber. Esse rompimento com a narrativa tradicional faz com que o filme se aproxime mais da obra glauberiana, onde o tempo, assim como a realidade, é fragmentado. “Três Cortes Para Glauber” abraça essa fragmentação, permitindo ao espectador vivenciar não apenas a trajetória de Glauber Rocha, mas também a profundidade de suas reflexões sobre o cinema e o Brasil.

O filme conta com a participação de Bastïen Viltart, Barbara Vida, Pedro Bento, Gabriel Dib e Pedro Gorender, que ajudam a dar vida a essa reflexão multifacetada sobre o cinema glauberiano. A presença de tantos colaboradores reflete o caráter coletivo do Cinema Novo, um movimento que sempre buscou a cooperação e o engajamento de diversos artistas na luta por um cinema que fosse não apenas estético, mas revolucionário em essência.

“Três Cortes Para Glauber” é, portanto, mais do que uma simples análise de uma carreira cinematográfica. É uma viagem intelectual e sensorial que explora a mente de Glauber Rocha, seus desafios e suas conquistas. É um convite para entender a importância de Glauber não apenas como cineasta, mas como pensador e crítico da sociedade brasileira. Ao assistir o Documentário, somos levados a refletir sobre o papel do cinema como ferramenta de mudança social e cultural, e sobre o legado imortal de Glauber Rocha, que continua a influenciar gerações de cineastas no Brasil e no mundo.




sexta-feira, 27 de junho de 2025

ALCOVA (2008)

"Alcova" é uma obra cinematográfica que oferece uma experiência profundamente introspectiva e perturbadora, inspirada no filme "A Cela", de Tarsem Singh. Nesta produção, Eduardo Moraes não só dirige com maestria, como também assume o papel de produtor, montador e ator, interpretando três personalidades distintas que habitam a mente de um único homem. O filme mergulha o espectador em um universo sombrio e sufocante, onde a realidade e o inconsciente se misturam de maneira caótica, revelando os traumas mais profundos do protagonista, e definindo o Suspense Experimental como base para a experiência sensorial para o espectador.

Logo no início, o filme estabelece sua proposta visual e narrativa: um homem, isolado e preso dentro de sua própria mente, é confrontado por três facetas de sua personalidade, cada uma representando diferentes aspectos de seus medos, culpas e traumas. Essa dualidade entre sonho e alucinação confere ao filme uma atmosfera opressiva e altamente simbólica, onde cada elemento cênico carrega significado. A direção de Eduardo Moraes é precisa, aproveitando ao máximo os recursos técnicos para criar uma ambientação claustrofóbica, intensificada pela fotografia densa, pela trilha sonora angustiante e pela arte minimalista que reflete a prisão emocional do personagem.

A tensão é palpável em "Alcova", com cada movimento e diálogo carregado de um simbolismo que vai além do que está na superfície. O vilão, uma das três personalidades do protagonista, assume o papel de algoz implacável, atacando física e psicologicamente o refém, que é, na verdade, outra faceta do mesmo homem. Esses ataques físicos, ao mesmo tempo em que ferem o refém, simbolizam uma automutilação emocional, um reflexo da culpa e do trauma que consomem Alex, o protagonista. Eduardo Moraes consegue transmitir com sutileza e profundidade essa dualidade, mostrando que os verdadeiros inimigos do personagem não são externos, mas partes de si mesmo.

O ponto alto do filme é justamente a batalha interna travada entre as três personalidades. O vilão, por exemplo, não é um simples antagonista, mas uma representação do sentimento de culpa que Alex carrega e que se manifesta de forma cruel. Já o refém é a personificação de sua impotência, alguém que, mesmo diante do caos interno, não consegue se libertar dos grilhões psicológicos que o aprisionam. A terceira personalidade, Alex, oscila entre esses extremos, tentando encontrar uma maneira de reconciliar-se consigo mesmo e silenciar temporariamente o vilão interior.

A arte é um dos destaques, com uma cenografia incrivelmente eficaz. O ambiente da alcova é carregado de significados, com uma paleta de cores que reflete a mente perturbada do protagonista. A maquiagem e os efeitos práticos também são utilizados com habilidade, acentuando a degradação psicológica que o filme retrata. A montagem ágil e precisa intensifica a sensação de aprisionamento, criando uma experiência quase sufocante para o espectador, que se vê preso, assim como o protagonista, nesse ciclo de dor e tormento.

"Alcova" vai além de um simples filme de Suspense psicológico. É uma obra que aborda temas profundos como perda, culpa, autoflagelo e, principalmente, a difícil jornada de perdoar a si mesmo. A trama nos leva a questionar o quanto nossas próprias emoções e memórias podem se tornar nossas maiores inimigas. O vilão que agride o refém não é um ser independente, mas uma faceta do próprio Alex, e seus golpes são, na verdade, feridas que o próprio protagonista inflige em si mesmo.

A resolução do filme é tanto angustiante quanto libertadora. O refém, incapaz de lutar fisicamente, busca a única forma de sobrevivência possível: retornar à realidade. A reconciliação com seu "eu" fragmentado é um momento de profundo simbolismo, representando a necessidade de Alex de lidar com seus demônios internos e, ao menos por um tempo, deixar o vilão adormecido. Porém, o filme nos deixa com a inquietante sensação de que essa batalha está longe de acabar.

"Alcova" é, sem dúvida, um curta-metragem extremamente bem construído, com uma narrativa fluida e envolvente. Eduardo Moraes, com sua atuação e direção competentes, nos entrega uma obra cinematográfica que provoca reflexão e desconforto, convidando o público a refletir sobre os medos e traumas do protagonista. O filme não apenas entretém, mas também desafia o espectador a mergulhar em suas camadas mais profundas, proporcionando uma experiência cinematográfica intensa e memorável.


Assista: https://vimeo.com/28183914

segunda-feira, 23 de junho de 2025

O QUADRO (2012)


 

No curta-metragem "O Quadro", a trama gira em torno de Sarah, uma mulher que, ao receber um quadro misterioso sem remetente, vê sua vida virar de cabeça para baixo com a manifestação de estranhos fenômenos. O filme, dirigido e produzido por Humberto Gomez e Thairon Bortolato, utiliza o Suspense de maneira envolvente, aprofundando o mistério que envolve o quadro, ao mesmo tempo em que entrega uma narrativa ágil e cheia de nuances.

Desde a primeira cena, em que Sarah encontra o pacote em sua porta, o espectador já é envolvido por uma atmosfera intrigante. O roteiro se destaca por sua capacidade de transmitir a sensação de estranheza e desconforto através de pequenos detalhes, como as reações da protagonista e os eventos sobrenaturais que ocorrem logo após o quadro ser pendurado. A direção é hábil em explorar o medo do desconhecido, sem se apoiar em sustos fáceis, mas sim na crescente tensão e nas sutis mudanças no ambiente ao redor da personagem.

Um dos pontos fortes de "O Quadro" é como o filme equilibra o Suspense com alívios cômicos, o que dá leveza em momentos de alta tensão. Esses momentos de humor são pontuais e bem executados, sem quebrar o ritmo ou a imersão do espectador no mistério. O filme também faz uso inteligente do conceito de curiosidade coletiva, quando, ao longo da história, amigos e até curiosos de fora começam a se interessar pelo quadro.

No elenco, Isabela Parkinson interpreta Sarah com uma profundidade que transmite a mistura de medo e curiosidade que a personagem sente em relação ao quadro. Vivian Duarte, como sua amiga, adiciona um tom questionador à história, enquanto Samir Murad, no papel do professor que lidera o grupo de pesquisa paranormal, traz um lado racional, tentando desvendar o mistério de maneira científica, mas se deparando com as limitações de suas explicações diante do inexplicável.

À medida que o grupo de especialistas em fenômenos paranormais tenta entender as alterações no quadro, a narrativa sugere teorias que vão desde a possibilidade das figuras retratadas no quadro estarem mortas, procurando se comunicar através do objeto. Essa suposição traz uma camada a mais de mistério, que prende o espectador e o faz questionar o que está realmente acontecendo.

A resolução do filme é extremamente eficiente e criativa, apresentando uma explicação para as estranhas mudanças no quadro de forma surpreendente. Contudo, o final também deixa algumas questões em aberto, o que faz com que "O Quadro" se encaixe perfeitamente no gênero conhecido como “Mindfuck”, em que o público é desafiado a interpretar a trama de maneiras diferentes, mantendo a discussão e a curiosidade.

Tecnicamente, o filme é impecável. A fotografia, assinada por uma equipe talentosa, ajuda a construir a atmosfera misteriosa, utilizando ângulos e planos que ajudam a amplificar o suspense. A direção de arte também merece destaque, com o design do quadro sendo um elemento central na trama, gerando um desconforto visual que contribui para o tom sobrenatural do filme. A trilha sonora, por sua vez, caminha de forma harmoniosa com o desenvolvimento da história, intensificando o clima de mistério e suspense.

No geral, "O Quadro" é uma obra que se destaca tanto pelo seu roteiro inteligente quanto pela sua execução técnica, entregando um suspense que não apenas entretém, mas também provoca reflexões e teorias. É o tipo de curta que deixa uma marca no espectador, principalmente por sua habilidade de manter o mistério vivo até o último segundo, sem dar todas as respostas, mas deixando uma pulga atrás da orelha.




TÂNTALO (2024)

            Em um futuro distópico, onde o contato físico e as interações pessoais são proibidos, um homem vive aprisionado em uma rotina solitária e monótona dentro de sua casa, onde tudo o que lhe resta é a dedicação ao seu trabalho. Os dias se arrastam repetidamente, sem grandes expectativas ou mudanças, até que a chegada de um novo vizinho na casa em frente transforma completamente a sua realidade. Este é o ponto de partida do curta-metragem "Tântalo", dirigido por Diego Krausz, com roteiro em parceria com Jeferson Kuci. Krausz e Kuci também se destacam pela atuação, como protagonistas desse emocionante Drama, que ainda conta no elenco com Ana Branco em um papel coadjuvante.

"Tântalo" é um Drama que se destaca pela maneira como explora o isolamento e a desolação do ser humano em um mundo onde a conexão entre as pessoas foi perdida. Com uma estética meticulosamente planejada, o filme utiliza elementos técnicos de forma notável para intensificar o clima de solidão e mudança. A fotografia, por exemplo, é um dos grandes trunfos da obra. Com uma paleta de cores que alterna entre tons frios e sombrios no início, à medida que o protagonista vive isolado e sem esperança, o cenário gradualmente ganha cores mais vivas e quentes conforme os vizinhos começam a interagir, ainda que sem se tocarem ou falarem diretamente. A transição das cores reflete com precisão a transformação emocional que ocorre no interior dos personagens.

Outro aspecto fundamental de "Tântalo" é o cuidado com a direção de arte. Cada detalhe dos ambientes é pensado para transmitir o estado emocional dos personagens e o cenário distópico ao seu redor. As casas, que inicialmente parecem vazias e sem vida, começam a revelar camadas sutis de personalização e humanidade conforme o relacionamento entre os vizinhos evolui. Esse contraste é acentuado pelo trabalho cuidadoso da trilha sonora, que passa da melancolia a uma leve esperança, à medida que a conexão entre os dois personagens cresce.

O enredo é simples, mas carregado de significado. Um dos vizinhos, o protagonista, passa seus dias mecanicamente digitando em uma máquina de escrever. Sua vida parece girar em torno dessa rotina repetitiva e sem sentido. Do outro lado, o novo morador é um artista, um pintor, cuja criatividade lentamente desperta algo adormecido no protagonista. A interação entre eles se dá de forma não verbal, o que transforma "Tântalo" em uma obra centrada nas expressões, nos gestos e nos olhares. Diego Krausz e Jeferson Kuci entregam performances sutis e profundamente conectadas, mostrando uma química silenciosa que transcende as palavras e demonstra como, mesmo à distância, as pessoas podem transformar a vida umas das outras.

A narrativa de "Tântalo" nos convida a refletir sobre a solidão, o isolamento forçado e a importância das interações humanas, mesmo que essas interações sejam limitadas a gestos sutis ou a um simples olhar pela janela. Em um mundo onde os contatos físicos são proibidos, o curta explora como a presença do outro pode ser suficiente para trazer um sentido maior à vida. A chegada do novo vizinho funciona como um catalisador de mudança, oferecendo uma nova perspectiva ao protagonista e resgatando nele uma vontade de viver que antes parecia perdida.

O filme apresenta uma metáfora poderosa sobre a condição humana em tempos de isolamento e sobre como pequenos gestos podem ter impactos profundos. Uma troca de olhares, um aceno, ou até mesmo o simples fato de saber que não se está completamente sozinho pode mudar a perspectiva de alguém que vive preso em uma rotina sem vida. É através dessas sutis interações que os personagens de "Tântalo" encontram novos propósitos e uma razão para seguir em frente.

Além das camadas emocionais e filosóficas, o filme traz uma mensagem clara sobre a importância da amizade e do apoio mútuo, mesmo em circunstâncias adversas. O curta-metragem nos mostra que, por mais que o mundo ao redor seja desolador e sem esperança, é possível encontrar conexões humanas que iluminem o caminho. É essa a essência de "Tântalo": a capacidade de fazer a diferença na vida do outro, mesmo sem palavras, mesmo à distância.

"Tântalo" é uma obra cinematográfica que combina de forma excepcional seus aspectos técnicos, como fotografia, trilha sonora e direção de arte, com uma narrativa intimista e emocionalmente envolvente. Com atuações impactantes e uma história que ressoa com temas universais, o filme consegue transmitir uma mensagem de esperança e reflexão sobre o valor das pequenas interações humanas. Um curta que, pela sua profundidade e sutileza, merece ser apreciado repetidas vezes, e sempre revelando novas camadas. 




sábado, 21 de junho de 2025

O ÚLTIMO RETRATO (2016)

 


         "O Último Retrato", com roteiro e direção de Arthur Tuoto, é um curta-metragem que mistura com maestria elementos de Drama e Suspense, envolvendo o espectador em uma atmosfera emocional densa e introspectiva. A trama acompanha uma mulher, interpretada pela talentosa Camilla Loreta, que luta para lidar com o luto após a morte de seu companheiro, interpretado por Marco Barreto. Ele permanece presente em sua vida, não apenas em suas lembranças, mas também em inúmeras fotos, seja nas redes sociais ou em retratos físicos espalhados por sua casa. A atuação de Loreta é sutil, porém intensa, transmitindo com profundidade a dor silenciosa e o vazio que acompanham sua personagem.

O curta explora uma questão aparentemente banal, mas de grande impacto emocional: a decisão de deletar ou manter ativo o perfil do falecido nas redes sociais. Em um mundo onde as memórias de uma pessoa são frequentemente capturadas e armazenadas digitalmente, apagar o perfil de alguém que partiu pode ser visto como um gesto simbólico de apagar partes de sua existência, o que aumenta a angústia da protagonista. O filme aborda essa reflexão de forma sensível, questionando o que significa se desapegar das memórias de alguém e como as plataformas digitais moldam nosso luto.

A atmosfera sombria e introspectiva do filme é acentuada pela escolha cuidadosa da fotografia e da trilha sonora. A fotografia, com seus tons escuros e pouca luminosidade, espelha o estado mental da protagonista, imersa na escuridão de seu luto. O ambiente retratado no filme reflete a sensação de isolamento, não apenas físico, mas também emocional, à medida que a personagem se afasta de qualquer contato com o mundo exterior. O apartamento, sempre em tons opacos e cinzentos, parece uma extensão do estado de espírito da mulher, representando o confinamento emocional em que ela vive. Mesmo fora de casa, não há cores vibrantes ou muitos sinais de vida. Tudo parece tingido por uma névoa de tristeza, sugerindo que, onde quer que ela vá, o luto a acompanha.

A trilha sonora é igualmente impactante, optando pelo silêncio e por sons ambientes ao longo da maior parte do filme. Esse silêncio é uma escolha poderosa, que enfatiza o isolamento da protagonista e cria uma imersão completa no universo emocional da personagem. O som quase inexistente, acompanhado pela ausência de falas, contribui para o desenvolvimento da tensão emocional que cresce gradualmente. Somente no terceiro ato, o silêncio é rompido de maneira sutil, mas decisiva, quando o elemento do Suspense começa a se revelar.

Embora o início de "O Último Retrato" sugira um filme focado no Drama, o roteiro se transforma de maneira elegante, introduzindo gradualmente o Suspense. O filme, que até então acompanhava o cotidiano sombrio e repetitivo da protagonista, passa a insinuar que o "último retrato" do título pode não ser aquele que ela contempla nas fotografias. Há uma sensação crescente de que algo mais está acontecendo, algo que transcende a simples tristeza. O espectador é convidado a questionar a realidade dos acontecimentos: estaria a mulher, em seu desespero, criando um universo próprio, no qual o falecido pode retornar para vê-la, ou os eventos sobrenaturais que parecem se desenrolar no final são reais?

O curta é inteligente ao deixar espaço para múltiplas interpretações. Pode-se ver o final do filme através de uma lente mais concreta e emocional, interpretando as ações da protagonista como fruto de sua angústia e de uma mente perturbada pela dor. Ou pode-se optar por uma leitura mais metafísica, na qual a mulher, ao reviver incessantemente as memórias de seu amado, acaba por invocá-lo de alguma forma. A ambiguidade em torno dessa questão é um dos pontos altos do roteiro, mantendo o público em um estado de suspense até o último segundo.

Tecnicamente, "O Último Retrato" é impecável. A montagem é fluida, conduzindo o espectador por uma jornada emocional profunda e, ao mesmo tempo, ajudando a construir a tensão de maneira sutil e gradual. A direção de arte também merece destaque, criando um cenário minimalista, mas carregado de simbolismo. Cada detalhe do apartamento da protagonista reflete sua dor e seu luto, desde a falta de cor até a disposição dos objetos que indicam sua obsessão em manter vivas as memórias do companheiro.

A transição de Drama para Suspense é feita de forma gradual e refinada, sem apelos a sustos fáceis ou clichês. O Suspense em "O Último Retrato" não é do tipo que provoca medo imediato, mas sim um desconforto psicológico, um questionamento sobre o que é real e o que é fruto da mente da personagem. O desfecho deixa o espectador com a inquietante dúvida: será que a mulher sucumbiu a seu luto e perdeu o contato com a realidade, ou será que houve algo mais, algo inexplicável, que a visitou em seus momentos finais?

"O Último Retrato" é um exemplo notável de como é possível criar uma narrativa envolvente e profunda com recursos limitados, focando-se na exploração emocional e psicológica da protagonista. Com sua atmosfera densa e sombria, o curta não apenas toca no coração dos espectadores, mas também os deixa refletindo sobre o poder das memórias, o luto e as maneiras complexas com as quais lidamos com a perda.





quinta-feira, 19 de junho de 2025

BEHEMOTH (2003)

          O curta-metragem "Behemoth", dirigido por Carlos G. Gananian, é uma verdadeira obra de arte cinematográfica que se destaca em cada um de seus elementos técnicos e narrativos. Desde a sua primeirOa cena, o filme é envolvente, criando um ambiente de tensão que prende o espectador e o imerge profundamente em uma atmosfera perturbadora e sombria. A direção cuidadosa, aliada a uma fotografia precisa, arte refinada, trilha sonora perturbadora e uma atmosfera carregada de suspense, torna "Behemoth" uma experiência única dentro do gênero do Terror.

O filme começa com uma cena impactante: um ritual de invocação que resulta em consequências desastrosas e macabras. O protagonista, envolto em mistério, murmura palavras em tom quase sussurrado, evocando uma entidade desconhecida em um cenário tão perturbador quanto os próprios sussurros que ecoam. A escolha por não revelar imediatamente as motivações do protagonista cria uma camada de mistério que apenas intensifica a atmosfera claustrofóbica do curta.

Essa ausência de explicação detalhada sobre o motivo que levou o protagonista a optar pelo ritual é uma das escolhas mais inteligentes do roteiro. Em vez de oferecer uma exposição clara, "Behemoth" deixa que a narrativa visual e o desenvolvimento da trama falem por si, e isso funciona perfeitamente. Não é necessário saber o que exatamente levou o personagem a realizar o ritual; o que importa é o resultado e o que essa decisão desperta no decorrer da história. O espectador mergulha nesse universo de horror, onde a motivação não precisa ser explícita, pois a atmosfera criada já é suficiente para transmitir a urgência e o perigo da situação.

Os movimentos de câmera são executados de maneira brilhante, guiando o espectador por cada detalhe, cada gesto e expressão, enquanto a arte cuidadosamente elaborada complementa o tom sombrio do filme. As escolhas visuais são sutis, mas impactantes, e a combinação com uma trilha sonora profundamente perturbadora cria um estado de imersão quase hipnótico. Cada elemento do filme trabalha em perfeita sincronia para construir a tensão gradualmente, sem recorrer a sustos baratos ou clichês do gênero.

"Behemoth" é, de fato, um filme de Terror que se destaca pela sua atmosfera pesada e angustiante, superando as expectativas. Há algo de fascinante na maneira como o filme se desenrola lentamente, levando o espectador a uma jornada de horror psicológico e sensorial. A descrição de "Trash poético" se encaixa perfeitamente, pois o filme, embora tenha seus elementos grotescos e sanguinolentos, é tratado com uma abordagem artística, que valoriza a construção do medo e da tensão de forma gradual e refinada.

Os efeitos práticos são outro aspecto que merece destaque. Em um período onde o CGI domina grande parte das produções de Terror, "Behemoth" opta por usar efeitos visuais práticos, o que confere uma sensação mais visceral e realista ao filme. Os momentos de violência e sangue, embora presentes, são utilizados com precisão, sem exageros. O sangue, aliás, tem um papel importante na narrativa, sendo exposto de forma altamente detalhada, o que amplifica a sensação de desconforto e a urgência da situação. No entanto, o uso do sangue é controlado, garantindo que não se torne um elemento gratuito, mas, sim, parte essencial da história.

O figurino e a maquiagem também são caprichosamente perfeitos. Os detalhes das marcas do personagem principal reforçam a ideia de que ele está envolvido em algo profundamente sombrio. Já a caracterização da entidade invocada é perturbadora e impressiona pela riqueza de detalhes, fazendo com que a criatura pareça saída diretamente de um pesadelo.

Além dos aspectos visuais, "Behemoth" se destaca por seu ritmo. O curta não se apressa em mostrar seus horrores; ao contrário, ele constrói lentamente um senso de pavor e desconforto, mantendo o público em um estado constante de tensão. Esse ritmo controlado permite que o terror se instale de forma mais profunda, criando uma sensação de inevitabilidade e desespero à medida que o ritual progride e as consequências começam a se manifestar.

A direção de Carlos G. Gananian é precisa e detalhista, demonstrando um domínio completo sobre a narrativa e os elementos cinematográficos. Ele conduz o filme com mãos firmes, sabendo exatamente quando aumentar a tensão e quando permitir que o silêncio e a escuridão falem por si. Cada movimento de câmera, cada som, cada fala do protagonista contribui para a sensação de que algo terrível está para acontecer, criando uma atmosfera de pesadelo.

Outro ponto que faz de "Behemoth" uma obra única é o equilíbrio entre o grotesco e o artístico. Embora o filme tenha suas raízes no Terror "Trash", ele nunca se deixa levar pelo exagero ou pelo choque gratuito. Pelo contrário, cada cena é cuidadosamente composta para transmitir uma mistura de beleza e horror, algo que poucos filmes de Terror conseguem alcançar. Essa fusão de arte e horror dá ao filme um toque quase lírico, onde o grotesco é elevado a uma forma de expressão estética.

Em resumo, "Behemoth" é um curta-metragem que vai além do Terror convencional, oferecendo ao público uma experiência intensa e perturbadora. A combinação de uma atmosfera densa, efeitos visuais práticos, uma direção impecável e uma narrativa que prende a atenção do início ao fim faz de "Behemoth" um filme que merece ser celebrado. É uma obra que desafia as convenções do gênero, oferecendo uma visão poética do horror que, ao mesmo tempo, não deixa de ser profundamente assustadora. Para os fãs de Terror e para aqueles que apreciam o cinema como uma forma de arte, "Behemoth" é uma experiência imperdível e necessária.




quarta-feira, 18 de junho de 2025

SEM TÍTULO (2004)

O curta-metragem “Sem Título”, com roteiro e direção de Caio Polesi, é uma dessas obras que não se prestam a explicações fáceis e simplistas. Transitando entre a Comédia, o Drama e o Experimental e com uma premissa instigante, o filme apresenta um homem que desperta dentro de um museu e se vê, sem aviso, parte de uma instalação artística. A partir desse momento, inicia-se um percurso que não é apenas narrativo, mas também sensorial, filosófico e político. A narrativa não se resolve em si mesma: ela perturba, provoca, resiste à leitura rápida. E isso, por si só, já é um mérito do roteiro.

Inspirado em uma visita do diretor a uma exposição de arte contemporânea, em especial às obras de Henrique Oliveira, Polesi parte da confusão entre representação e realidade, característica marcante das instalações artísticas, para criar um cenário onde o limite entre o humano e o objeto artístico se dissolve. A ideia, segundo ele, nasce da observação crítica (e um tanto sarcástica) desse tipo de arte: e se alguém acordasse dentro de uma obra e não soubesse se está sendo representado ou exposto?

Essa proposta se concretiza com potência na direção de arte, que é um dos pontos altos do curta. A instalação central, criada por Patricia Osses, é ao mesmo tempo visualmente forte e conceitualmente cruel: um projetor de slides lança incessantemente luzes de recortes de jornal sobre o protagonista, que não consegue ver o conteúdo das imagens, apenas é agredido por elas. A obra se impõe como uma alegoria do excesso de informação, da opressão da imagem, da violência contida na própria ideia de representar o outro sem seu consentimento. O ruído mecânico do projetor torna-se trilha sonora, marca rítmica e linha narrativa do curta. É um som que, como o próprio filme, incomoda, e cumpre bem esse papel.

Mesmo produzido em 2004, bem antes da popularização da internet e das mídias sociais, “Sem Título” consegue dialogar com a atualidade, com exposição excessiva e extrema de pessoas e de como todos podem ser vistos, analisados, rotulados e julgados. Se o protagonista está preso à uma realidade concreta, dentro de um museu, as mídias sociais amplificam muito mais a crítica proposta por Polesi, pois, no atual cenário, a exposição virtual é muito mais acelerada e destrutiva.

A fotografia do filme colabora de maneira decisiva com o estado de desconforto do espectador. A luz ofuscante que atinge o personagem, o uso inteligente dos enquadramentos e a vastidão crua do espaço expositivo, o pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera, cedido pelo MAC-USP, acentuam a sensação de solidão e absurdidade da situação. Tudo parece contribuir para a alienação do homem-obra: o espaço não o acolhe, não o explica, não o liberta.

O trabalho do ator Paulo Federal é outro grande acerto. Sem contar com uma direção tradicional, ele foi praticamente deixado livre para construir seu personagem; um risco que, nesse caso, resultou em uma atuação densa, ambígua e sensível. Federal consegue transmitir ao mesmo tempo a perplexidade, o incômodo e a impotência de quem é jogado no meio de um jogo de significações que não controla. Nas palavras do próprio diretor, foi o ator quem acabou dirigindo o filme em muitos momentos, tamanha a entrega e a consciência de cena.

A entrevista de Polesi à RUA (Revista Universitária Audiovisual), criada pelos alunos da turma de 2007 do Curso de Imagem e Som da UFSCar,  revela um diretor ao mesmo tempo consciente e crítico de suas limitações, e talvez seja essa franqueza que dá força ao curta. Ele admite os tropeços da produção, como a precariedade nos ensaios, a inexperiência na direção de atores e até o desabamento parcial do cenário durante as gravações. Mas também revela um entusiasmo genuíno, uma vontade experimental e coletiva de fazer cinema com o que se tem, e esse espírito transborda para o resultado final. A própria criação da “exposição fictícia” envolveu estudantes de artes plásticas, que criaram obras do zero com restos de materiais, conferindo ao projeto um caráter híbrido e quase performático.

Mais do que um exercício estético, “Sem Título” é um gesto político. Quando questionado sobre se o filme é uma afirmação ou uma negação da arte moderna, Polesi responde com sarcasmo e desdém, recusando o papel do artista que precisa “explicar sua obra”. Para ele, o curta é uma crítica feroz a tudo que está aí: ao mercado cultural, à arte esvaziada de sentido, ao cinema domesticado pelas fórmulas. Ele não pretende dialogar com o público; quer incomodar, deslocar, quebrar expectativas. E consegue.

 “Sem Título” é exatamente o que seu nome sugere: uma obra aberta, sem rótulo, sem submissão a categorias pré-determinadas. Um filme para poucos, talvez, mas um filme necessário, que reafirma a arte como lugar de embate, conflito e reflexão. Não é pouco, num tempo em que até a arte muitas vezes se rende à comodidade.




DIA DE EXORCISMO (2018)

A Comédia de Terror “Dia de Exorcismo” é um curta que, em seus pouco mais de 8 minutos entretém, diverte e causa aquele certo desconforto que só os filmes Trash são capazes. Lógico, que tudo incrementado por um forte humor mórbido e ácido.

         Com direção, roteiro, e montagem de Vinícius J. Santos, “Dia de Exorcismo” se destaca pela forma como une elementos do Terror Trash e Comédia na medida certa, com uma narrativa que satiriza as produções sobre possessões demoníacas.

         O elenco conta com Marcelo Rodrigues, no papel de Padre Estevam, Gustavo Peres, como Padre Henrique, Ana Rosenrot, interpretando Iolanda, a mãe da jovem possuída e Adriele Faria no papel da jovem encapirotada. As atuações dispensam comentários, afinal são nomes respeitados, com outros trabalhos ótimos.

         O roteiro se desenvolve de forma eficiente, com elementos técnicos muito interessantes. Os efeitos visuais, práticos ou as alterações na fotografia, demonstram uma qualidade impressionante. A união de um bom texto, com aspectos técnicos pontuais e atuações fortes, conseguem causar espanto e também rir, quando a Comédia se sobrepõe ao Horror. E isso é alternado de forma brilhante nas transições entre os gêneros.

        Padre Estevam, mais experiente, conta com a ajuda do jovem Padre Henrique. Diante de um demônio agressivo, ambos são pegos de surpresa pelas peripécias da entidade, tendo o clímax no humor escatológico e da situação bizarra.

         Com Estevam dominado pela garota, que havia conseguido se soltar das amarras, cabe ao jovem Henrique, prosseguir com a sessão de exorcismo para salvar Estevam e libertar a jovem das garras do demônio.

         “Dia de Exorcismo” se aproveita dos clichês do subgênero de possessões demoníacas a seu favor para construir uma obra criativa, divertida e cativante. Muitos dos ataques do demônio já foram vistos em praticamente todos os filmes com essa temática. Porém, um dos ataques, totalmente inesperado, arranca risos devido à forma como o demônio decide sujar o padre.

         Um ponto de destaque de “Dia de Exorcismo” está na direção de arte, com figurino bem alinhado e maquiagem realmente surpreendente. Juntando a fotografia caprichada e trilha sonora coesa, temos uma obra muito bem executada, em seus mínimos detalhes.

            Os realizadores acertaram em cheio nas suas escolhas, com tudo muito bem dosado, mantendo a coesão narrativa e dramática no ponto certo. O filme consegue capturar a atenção do espectador com a sua trama carismática e pontos surpreendentes, que fazem de “Dia de Exorcismo” uma ótima pedida, tanto para os fãs de Terror quanto para os fãs de Comédia.  






terça-feira, 17 de junho de 2025

LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL (2013)


         Adaptado do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, o curta dirigido por Bruno Gularte Barreto oferece uma interpretação íntima e emocionante do momento em que Fernando, o filho, retorna à casa de sua mãe após um período de ausência. Logo no início, percebe-se a estranheza desse reencontro. Fernando, interpretado por Rafael Régoli, é recebido por uma mãe que não esperava sua chegada e, apesar da distância afetiva, há algo de não dito pairando no ar. Sandra Dani, no papel da mãe, traz à tona com precisão os sentimentos de uma mulher endurecida pela vida, cujos gestos contidos revelam mais do que o próprio diálogo.

A interação entre mãe e filho é marcada por uma tensão silenciosa. Embora eles conversem, muito fica por ser dito, e o que é falado parece não tocar no essencial, sugerindo uma barreira emocional que impede a verdadeira conexão. Essa barreira é evidenciada pelo desconforto mútuo e pelo contraste entre a preocupação da mãe, que nota as mudanças físicas no filho, como a perda de peso e de cabelo, e a aparente superficialidade da comunicação. Ainda assim, mesmo com essa distância, há uma necessidade afetiva latente: Fernando busca um conforto que só a mãe pode oferecer, enquanto ela, por mais que carregue certa amargura, não deixa de se preocupar com o filho.

A construção dos personagens, tanto no filme quanto no conto, é impecável. A fotografia contribui para essa atmosfera introspectiva, com ângulos que alternam entre planos fechados, que ressaltam a proximidade física, e planos mais abertos, que sugerem o abismo emocional entre os dois. A direção de arte também acerta nos detalhes, criando um ambiente que complementa o tom do filme e reflete a aridez emocional entre mãe e filho.

Esse distanciamento, no entanto, não é apenas circunstancial. Ele reflete o contexto de uma época em que questões como a homossexualidade e o impacto devastador da epidemia de HIV moldaram a vida e as relações de muitas famílias. Caio Fernando Abreu, ao escrever "Linda, Uma História Horrível", estava profundamente imerso em uma realidade em que o HIV ceifava vidas e estigmatizava comunidades. No Brasil dos anos 1980, a doença, apelidada cruelmente de "praga gay", trouxe um peso insuportável para muitos, e isso ecoa na história de Fernando.

A angústia de Fernando vai além do reencontro com a mãe. Ele carrega o peso de uma doença que, na época, era uma sentença de morte. A narrativa sugere que seu retorno à casa da mãe seja movido por essa necessidade de amparo, um refúgio contra a morte iminente e contra o isolamento emocional que a doença frequentemente causava. A presença fantasmagórica do HIV é confirmada quando ele, no final do curta, mostra as lesões causadas pela doença. Aqui, o filme atinge um clímax emocional, revelando que a jornada de Fernando até ali era, na verdade, um apelo desesperado por amor e compreensão.

A obra de Caio Fernando Abreu, mesmo escrita antes de ele ser diagnosticado com HIV, já antecipava muitas das reflexões profundas sobre a vida, a morte e o medo que o vírus suscitava. Abreu, sempre sensível às questões de marginalização e sofrimento, criou em "Linda, Uma História Horrível" um retrato pungente do isolamento emocional que permeava as relações humanas. O curta de Barreto consegue capturar essa essência, com um ritmo que respeita a profundidade dos personagens e suas complexas dinâmicas.

A menção à filha que abandonou a mãe e a questão de Pedro, o "amigo" de Fernando, levantam outras camadas interpretativas. A mãe, embora relutante, parece ter começado a aceitar a sexualidade do filho, ainda que com certa hesitação. Essa aceitação, no entanto, é apenas sugerida, como tantas outras coisas no curta, deixando ao espectador a tarefa de preencher as lacunas.

O desfecho, com Fernando dizendo "Amanhã a gente fala melhor, mãe", traz um misto de esperança e resignação. Sabemos que esse "amanhã" pode nunca chegar, mas o momento também sugere que há espaço para um recomeço entre eles. Talvez o fardo da doença possa aproximá-los novamente, curando velhas feridas e permitindo que mãe e filho se reencontrem, não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

"Linda, Uma História Horrível" é uma obra que, assim como o conto de Caio Fernando Abreu, transcende o tempo e o contexto em que foi criado. Ele toca em temas universais de amor, perda e reconciliação, levando o espectador a refletir sobre suas próprias relações e sobre o peso das palavras que, muitas vezes, ficam por dizer.       


Assista: https://vimeo.com/84035348

 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

INEXISTENTE (2018) - CONTÉM SPOILERS







Ao assistir o curta-metragem “Inexistente” pela primeira vez, o espectador é imediatamente envolvido pela história de Andréia, uma jovem mulher que recentemente perdeu o marido em um trágico homicídio motivado por xenofobia. Ainda imersa em seu luto, ela se vê incapaz de aceitar completamente a morte abrupta de seu companheiro, e sua dor se reflete em cada palavra que pronuncia sobre essa perda devastadora. O filme começa com Andréia desabafando sobre a sua solidão e o vazio que a morte de seu marido deixou em sua vida. Ela questiona o sentido da existência, ao mesmo tempo em que expressa sua indignação com a maldade que levou ao crime de ódio.

Gustavo, interpretado de maneira contida e sensível por Mij Atunbi, surge como o amigo que tenta consolar Andréia, mas logo se percebe que, frente a uma dor tão profunda, não há muito que possa ser dito. Ele ouve atentamente enquanto ela narra a brutalidade da violência que tirou a vida do marido e reflete sobre as injustiças do mundo. Embora ele seja uma presença constante e tranquilizadora, Gustavo mantém uma postura discreta, com sua serenidade contrastando fortemente com a angústia da protagonista.

A atuação de Paloma Gavinhos, que interpreta Andréia, é notável pela intensidade emocional. Ela não apenas interpreta uma mulher em luto, mas sim uma pessoa à beira de uma crise existencial, dilacerada pela perda e pela crueldade do assassinato. Suas expressões faciais e a carga emocional em sua voz transmitem o peso do trauma, fazendo com que o público sinta cada momento de sua dor e revolta. A maneira como ela expõe suas incertezas sobre o futuro, e o porquê de tanta crueldade no mundo, nos aproxima ainda mais de sua realidade.

O filme é uma obra delicadamente conduzida pela diretora Giovanna Imperatore, que utiliza uma fotografia densa e evocativa para amplificar o clima de luto e reflexão. 

À medida que a trama avança, fica evidente que há mais do que um simples relato de perda. A relação entre Gustavo e Andréia se revela gradualmente, com ele tentando, de todas as maneiras, acalmar a viúva, oferecendo uma espécie de consolo que vai além das palavras. No entanto, o espectador atento perceberá que há algo de estranho na forma como Gustavo interage com ela, sempre com uma postura excessivamente calma, em contraste com a agitação de Andréia. Enquanto ela fala sobre o marido falecido, sobre os detalhes do crime e como tudo aconteceu, Gustavo escuta em silêncio, com suas poucas palavras sendo apenas o suficiente para manter a conversa.

Esse contraste entre a calma de Gustavo e a dor avassaladora de Andréia é uma das grandes sacadas do roteiro. O desempenho comedido de Mij Atunbi faz com que o público acredite que ele é apenas um amigo do casal, alguém que estava próximo o suficiente para conhecer ambos intimamente, mas que ainda mantém uma distância emocional. É exatamente essa atuação discreta que prepara o terreno para a grande revelação do filme.

Quando finalmente chega o clímax da narrativa, a verdade é revelada de maneira surpreendente: Gustavo, na verdade, é o marido assassinado. Essa reviravolta, executada de forma brilhante, transforma todo o filme em algo muito maior do que um simples drama sobre luto. Gustavo não é apenas uma figura de consolo, mas sim uma presença espectral, ainda preso ao mundo dos vivos, procurando ajudar sua esposa a seguir em frente. A sua aflição só se torna visível quando o sofrimento de Andréia atinge o ápice. Ele tenta tocá-la, estender-lhe a mão, mas é nesse momento que o público se depara com a verdade devastadora: ele já não pertence a este mundo.

A maneira como a diretora constrói essa revelação é sutil, mas extremamente impactante. Ao longo do filme, somos levados a acreditar que Gustavo é apenas um amigo solidário, mas a sua postura inexpressiva e as suas ações limitadas são pistas que, uma vez compreendidas, tornam a reviravolta ainda mais poderosa. É quando ele tenta acalmar Andréia que sua impotência fica evidente, e percebemos que, por mais que ele deseje aliviar o sofrimento dela, ele está preso em uma condição que impede qualquer intervenção real. Sua resignação é tocante, pois ele parece ter aceitado sua morte, enquanto Andréia ainda luta com a dor da ausência.

Além da questão da perda, “Inexistente” também aborda temas universais e urgentes, como a intolerância e os crimes motivados por ódio, algo especialmente relevante no Brasil e no mundo contemporâneo. A narrativa levanta reflexões importantes sobre como a xenofobia, o racismo e outras formas de discriminação continuam a impactar vidas de maneira trágica. A brutalidade que tirou a vida de Gustavo, um imigrante, reflete um problema social mais amplo, que o filme coloca em destaque de maneira urgente.

No fim, “Inexistente” não é apenas um filme sobre a morte, mas sobre o amor que persiste além da vida, sobre como lidar com o luto e a dor, e sobre as forças desumanizadoras que ainda permeiam a sociedade. A resolução final, com Gustavo aceitando sua nova realidade enquanto Andréia enfrenta a dura jornada de seguir em frente, é ao mesmo tempo triste e esperançosa. O filme é uma reflexão profunda sobre a morte, a saudade e as injustiças do mundo, e sua narrativa, ainda que breve, deixa uma marca no espectador.

A obra, conduzida com sensibilidade e inteligência, torna-se um espelho das nossas lutas cotidianas, questionando não apenas a violência e o preconceito, mas também nossa própria capacidade de lidar com a perda e encontrar sentido em um mundo tão cheio de ódio e dor.




UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...