terça-feira, 30 de setembro de 2025

HOTEL DO CORAÇÃO PARTIDO (2008)

 

A Animação "Hotel do Coração Partido" é uma belíssima e sensível obra que traz à tona uma profunda reflexão sobre as relações humanas, tendo como fio condutor o personagem Ronaldo. Este Drama narra a maneira singular como ele guarda cada pessoa que passa pela sua vida dentro do coração, criando um espaço metafórico onde a intensidade das conexões varia de acordo com a importância que essas pessoas têm para ele. Para alguns, há um lugar vasto, enquanto para outros, o espaço é reduzido e quase insignificante. A Animação, com seu tom poético e delicado, revela as camadas emocionais de Ronaldo e a maneira como ele lida com o amor, a amizade e o interesse.

A narração do curta é precisa ao descrever os diferentes tipos de amores que Ronaldo experimenta ao longo de sua vida, seja ele amor romântico, familiar ou de amizade. Com uma construção dramática muito bem delineada, o curta mostra como as afinidades e os graus de parentesco influenciam a maneira como Ronaldo atribui valor e espaço a cada pessoa em seu coração. A beleza da história está em sua simplicidade e profundidade: o espectador é levado a refletir sobre como ele próprio lida com seus relacionamentos e sobre como, muitas vezes, guardamos pessoas em nossos corações de formas muito diferentes.

A narrativa não se limita apenas à visão de Ronaldo sobre quem ele ama e quanto espaço dedica a essas pessoas, mas também revela as intenções de quem o guarda em seu coração. Algumas pessoas o amam de forma genuína, com sentimentos sinceros e profundos, enquanto outras se aproximam dele por puro interesse, manipulando seu afeto para obter vantagens pessoais. A animação capta magistralmente essa dualidade dos relacionamentos, mostrando como Ronaldo, por estar imerso em seus sentimentos, muitas vezes se torna incapaz de perceber o interesse egoísta por trás de algumas aproximações. O curta aborda, de forma sutil, a cegueira emocional que, em muitos casos, impede as pessoas de enxergar as verdadeiras intenções por trás das relações que constroem.

Um dos pontos centrais da trama é o relacionamento de Ronaldo com sua esposa, que ocupa o maior e mais importante espaço em seu coração. Entretanto, o curta revela como, apesar desse amor profundo, Ronaldo ainda reserva pequenos espaços para outras mulheres, sugerindo uma abertura emocional que o torna vulnerável a ser explorado por alguém que reconhece esse sentimento. Esse elemento da trama adiciona uma camada de complexidade ao personagem, que se mostra dividido entre o amor que sente por sua esposa e os sentimentos que, mesmo menores, existem por outras pessoas. Essa dualidade emocional é um dos aspectos mais interessantes da Animação, pois coloca Ronaldo diante de dilemas que envolvem lealdade, desejo e a própria natureza do amor.

Para Ronaldo, amar é o suficiente para acreditar que o sentimento será recíproco. No entanto, a Animação expõe de maneira sutil e impactante que o amor, muitas vezes, não é correspondido da mesma forma. O curta trabalha com a ideia de que, independentemente de quanto espaço alguém ocupe em nosso coração, o amor pode ser negado ou ignorado. Essa desconexão entre o que Ronaldo sente e o que ele recebe em troca é um dos aspectos mais trágicos e tocantes da narrativa, e reflete a realidade de muitos relacionamentos na vida real, onde o amor nem sempre é mútuo ou sincero.

"Hotel do Coração Partido" é uma animação que fala sobre os altos e baixos dos sentimentos humanos. Ao mesmo tempo que explora a alegria do amor correspondido, também lida com a dor da rejeição e a frustração de um coração partido. O curta apresenta de forma muito tocante como o coração de uma pessoa pode se fechar para novos e antigos amores, quando a desilusão se instala e ocupa o espaço que antes era reservado para alguém especial. Essa metáfora do coração como um "hotel", onde diferentes pessoas entram e saem, cada uma deixando uma marca única, é uma maneira criativa e poética de abordar as emoções humanas e suas complexidades.

Os aspectos técnicos da Animação são igualmente impressionantes. A arte, a animação e o som trabalham em perfeita harmonia para criar uma experiência imersiva e emocionalmente poderosa. Os detalhes visuais e a trilha sonora são cuidadosamente projetados para transmitir o estado emocional de Ronaldo e suas experiências, permitindo que o espectador se conecte de forma profunda com o personagem. Cada cena é cuidadosamente construída para reforçar a narrativa.

"Hotel do Coração Partido" é uma grande história sobre amor, desilusão e os complexos sentimentos que nos definem como seres humanos. Com uma narrativa sólida, personagens bem construídos e um enredo que equilibra poesia e drama, a Animação é uma verdadeira joia no gênero, oferecendo uma reflexão sensível e profunda sobre os relacionamentos e as emoções que moldam nossas vidas.




segunda-feira, 29 de setembro de 2025

NÁUSEA (2019)

 


O curta-metragem de terror "Náusea", dirigido e roteirizado por Thomas Webber, é uma verdadeira obra de intensidade, horror e mistério. Com uma narrativa envolvente e angustiante, o filme nos leva ao sombrio universo de Ana, uma jovem mulher atormentada por pesadelos e alucinações que, pouco a pouco, revelam um trauma profundamente enraizado. "Náusea" vai além de um simples filme de Terror psicológico; ele se destaca pela maneira como explora o surrealismo que habita a mente da protagonista, criando uma atmosfera de tensão constante, onde realidade e delírio se entrelaçam de forma indistinguível.

Ana é uma personagem que carrega em si o peso de um passado doloroso, mas, como tantas vítimas de traumas, luta para lidar com suas lembranças perturbadoras. A mãe de Ana, interpretada por Ana Paula Taques, parece ciente de algo, mas prefere manter o silêncio, evitando confrontar o que há de mais sombrio em sua filha e, talvez, em si mesma. Essa escolha narrativa mantém o espectador em suspense, pois o filme se recusa a revelar, de imediato, o segredo que atormenta as duas personagens. Essa dinâmica entre mãe e filha adiciona uma camada de mistério ao enredo, fazendo com que o público se questione não apenas sobre o passado de Ana, mas também sobre o que a mãe estaria preferindo ignorar.

A atmosfera de "Náusea" é sufocante e imersiva, construída com maestria pela direção de fotografia, que desempenha um papel crucial na criação do ambiente. A fotografia ajuda a transmitir o estado emocional e psicológico deteriorado da protagonista, utilizando sombras, tons escuros e composições visuais perturbadoras para refletir o caos interno de Ana. A trilha sonora, por sua vez, complementa essa imersão, com sons que intensificam a sensação de angústia e paranoia, fazendo com que o espectador mergulhe ainda mais profundamente na mente da personagem.

O roteiro de Webber é eficiente ao fornecer informações de maneira gradual, criando uma tensão crescente à medida que detalhes sobre o passado de Ana são revelados. Esse ritmo lento, porém constante, mantém o espectador intrigado, ansioso para entender o que desencadeou os pesadelos e alucinações da protagonista. Embora, em muitos momentos, Ana pareça apenas uma adolescente comum, seu sofrimento silencioso revela a profundidade de seu trauma. Ela vive em um universo mental obscuro, sufocante e permeado por visões terríveis, e o filme faz questão de nos fazer sentir essa sensação.

A atuação de Larissa Merlo como Ana é um dos pontos altos de "Náusea". Ela entrega uma atuação comovente e poderosa, capturando de maneira precisa o tormento psicológico e emocional que a personagem enfrenta. Seu olhar vazio e expressões contidas comunicam mais do que palavras poderiam, deixando claro o turbilhão de sentimentos que ela tenta, em vão, controlar. Ao lado de Merlo, Ana Paula Taques, principalmente, e Helder Clayton (no papel do pai) oferecem suporte sólido para construir a complexidade emocional que permeia o filme.

Um dos aspectos mais marcantes de "Náusea" é o uso simbólico dos insetos ao longo da trama. Eles surgem como uma metáfora poderosa para o estado emocional de Ana, representando a invasão constante de lembranças e traumas que ela não consegue afastar. Associados à decomposição e à sujeira, os insetos refletem o colapso psicológico da protagonista, à medida que suas memórias se tornam insuportáveis e sua mente começa a se fragmentar. As visões desses insetos, seja em seus pesadelos ou no ambiente ao seu redor, aumentam a sensação de desconforto e repulsa, reforçando a ideia de que algo está irremediavelmente corrompido em seu psicológico.

Além da riqueza simbólica, "Náusea" brilha nos aspectos técnicos, como fotografia, trilha sonora, direção de arte e maquiagem, que colaboram para criar uma experiência visualmente impactante e emocionalmente angustiante. Cada detalhe, desde o uso das sombras até o design dos ambientes, contribui para intensificar a sensação de isolamento e horror psicológico que define o filme e a protagonista.

Em resumo, "Náusea" é um curta-metragem impressionante que mergulha profundamente nas águas turvas do trauma e do terror psicológico. A combinação de uma atmosfera opressiva, uma narrativa misteriosa e atuações marcantes faz deste filme uma experiência imperdível para os fãs de Terror que buscam algo mais do que apenas sustos convencionais do gênero.




sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O MAL DE SANDERPYL (2003)

 


Com roteiro e direção de Pedro Foss, “O Mal de Sanderpyl” oferece uma experiência cinematográfica imersiva e profundamente envolvente, mergulhando o espectador em um suspense psicológico denso e repleto de mistério. O curta-metragem constrói sua narrativa com grande maestria, equilibrando tensão e surpresa em uma trama que mantém o público preso do início ao fim.

A história gira em torno de Laura, uma jovem estudante de Psicologia, que se vê diante de uma situação assustadora e perturbadora quando vê sua mãe cuidando de uma antiga boneca como se fosse um bebê real. Esse comportamento bizarro e inexplicável desperta em Laura um temor crescente pela sanidade mental da mãe, levando-a a procurar ajuda. Ela recorre a um de seus professores para relatar o problema, acreditando que está diante de uma crise psicológica. No entanto, quanto mais Laura investiga a origem desse comportamento inquietante, mais segredos sombrios e revelações devastadoras começam a surgir, transformando sua busca por respostas em uma jornada cada vez mais perigosa.

O filme se destaca pela maneira com que trabalha a tensão em níveis altíssimos, sem perder o ritmo ou a cadência da narrativa. Cada momento é meticulosamente construído, com um arco dramático afiado que acompanha o desenvolvimento dos personagens e dos eventos. Veridiana Guterres, que interpreta Laura, oferece uma atuação impressionante, trazendo à tona a complexidade emocional da personagem enquanto ela lida com o terror crescente e as revelações chocantes que vai encontrando ao longo do caminho. O elenco, composto ainda por grandes nomes como Oscar Simch, Werner Schünemann, Suzana G. Foss, Duca Leindecker, Jarelina Petró e Félix H. Krebs, contribui de maneira essencial para o sucesso do curta, com performances que agregam camadas de profundidade e mistério à trama.


Tecnicamente, “O Mal de Sanderpyl” se destaca pelos seus elementos visuais e sonoros. A fotografia cria uma atmosfera pesada e opressora, onde enquadramentos, ângulos e iluminação reforçam o sentimento de que há algo errado, mesmo nos momentos mais calmos. A montagem, cuidadosamente editada, mantém o ritmo tenso e sufocante, enquanto a trilha sonora contribui para a criação de uma atmosfera carregada de suspense. Todos esses elementos guiam o espectador em uma experiência sensorial que intensifica o horror psicológico que permeia a história. Todos esses elementos trabalham em conjunto para criar uma atmosfera de crescente desconforto e tensão.

À medida que Laura se aprofunda em sua investigação, as descobertas feitas por ela afetam não apenas sua percepção da realidade, mas também a maneira como o espectador vivencia o filme. O mistério é construído lentamente, revelando segredos do passado e traumas enterrados que ressurgem de maneiras aterrorizantes. Cada nova revelação é como uma peça de um quebra-cabeça macabro, que vai sendo montado aos poucos, entrelaçando o presente com o passado de maneira que os eventos atuais se tornam reflexos distorcidos de acontecimentos antigos.

O filme aborda com sensibilidade a questão dos traumas e como eles podem moldar o psicológico e o emocional de uma pessoa. O relacionamento entre Laura e sua mãe, no centro da trama, é marcado por uma história de dor e perda que vai sendo revelada aos poucos, com a boneca — o elemento chave da narrativa — simbolizando mais do que um simples objeto. Ela representa um elo sombrio entre o passado e o presente, um catalisador que desencadeia o despertar de antigos medos e culpas, e que acaba envolvendo todos os personagens em sua aura perturbadora. A justificativa para o comportamento da mãe em relação à boneca é dolorosamente compreensível quando o espectador finalmente descobre o trauma que a originou. Poucos poderiam manter a sanidade após vivenciar tal evento, e isso se torna o centro emocional que move a trama.

“O Mal de Sanderpyl” não é apenas um filme de Suspense, mas um estudo profundo sobre a fragilidade da mente humana e os impactos devastadores do luto, do trauma e da culpa. Cada personagem carrega segredos que, quando revelados, afetam profundamente todos à sua volta, criando uma teia de eventos que culminam em um clímax intenso e imprevisível. O filme manipula habilmente a imprevisibilidade, jogando com as expectativas do público e subvertendo-as a cada nova descoberta de Laura. A atmosfera densa e sombria mantém o espectador em constante estado de alerta, enquanto as reviravoltas revelam a verdadeira face de cada personagem, mostrando como segredos ocultos e dores antigas podem corromper até as relações mais próximas.

Com um texto criativo, envolvente e repleto de camadas, “O Mal de Sanderpyl” oferece um final que, embora resolva algumas das questões centrais, deixa espaço para especulações e reflexões por parte do público. O filme não entrega todas as respostas de forma direta, mas convida o espectador a montar seu próprio entendimento dos eventos e das motivações dos personagens, o que só aumenta o impacto da experiência. É um filme que, além de entreter, faz pensar e questionar as complexidades emocionais e psicológicas que moldam o comportamento humano.

Com sua carga elevada de tensão e sua atmosfera envolvente, “O Mal de Sanderpyl” é uma obra que se destaca no gênero do Suspense psicológico, capaz de surpreender e inquietar o espectador a cada minuto, e certamente deixará uma marca em quem o assiste.




quarta-feira, 24 de setembro de 2025

MARIANE COM E (2015)

 


Tinha tudo para ser apenas mais um dia normal de testes para seleção de atriz para um comercial. Eis que chega Mariana... ops, Mariane. Já no local, Mariane, interpretada de forma magistral por Antoniela Canto, nota que, talvez ela não esteja apta para a vaga, mesmo antes do início da gravação do teste. Mesmo assim, Mariane dá o seu melhor, na intenção de reverter uma situação adversa. E quando ela percebe que não funcionou, a sua reação é extrema, insana e totalmente surpreendente.

O cinegrafista faz o seu papel, a responsável pelos contatos com as atrizes não dá tanta importância para atrizes que não têm o perfil desejado. A explosão de Mariane arranca risos, porque ela quer muito fazer aquele papel, ela quer muito participar daquele comercial.

“Mariane com E” tem roteiro de Antoniela Canto e Fernando Sanches, sendo ele o responsável pela direção. O curta consegue prender a atenção do espectador e surpreender a cada sequência. O filme tem muitos momentos tensos, mas também cômicos. Fernando Sanches extrai o máximo do texto, com cada ação produzida de forma pontual. Enquanto isso, Antoniela entrega uma atuação perfeita, densa e inesquecível. Juntando às outras atuações e aos elementos técnicos, como fotografia, arte, montagem e trilha sonora, “Mariane com E” torna-se uma das melhores comédias brasileiras em curta-metragem.

Todos os personagens têm suas motivações. Se os responsáveis pelo comercial veem que Mariane não tem o perfil desejado, Mariane, num ato de desespero, enxerga que não pode perder aquela oportunidade; e ela fará o possível e impossível para não perder aquela vaga. O curta faz uso de uma comédia extremamente inteligente, que consegue transmitir as sensações dos personagens de maneira leve e engraçada.

Mas “Mariane com E” não é apenas um curta-metragem de comédia que mostra uma atriz que deseja profundamente a aprovação para um comercial. O curta traz uma crítica importante de como, a partir de certa idade, profissionais são descartados e passam a ser rejeitados reiteradamente. A má vontade da assistente de direção, interpretada brilhantemente por Gabriela Fortanell, demonstra o quanto uma atitude pode afetar alguém que está desesperado por um emprego. E essa dinâmica entre as personagens de Antoniela e Gabriela é um dos pontos mais fortes do curta, pois expõe os dois opostos dentro da trama. Uma tem o poder de escolher ou não, enquanto a outra, praticamente, precisa se humilhar. Não que a atitude de Mariane seja correta, mas é até certo ponto compreensível. E lógico, que dentro de uma obra audiovisual de comédia, o absurdo se torna engraçado e divertido.

“Mariane com E” conta ainda com Fernando Rios, Fábio Acorsi, Pablo Perosa, Simonia Queiroz, Paulo Passaro, Mauricio Bittencourt, Leticia Rossetti, Mari Kato e Carol Mendes. E todos os personagens, desde os que estão do início ao fim, e os que têm apenas uma fala, funcionam perfeitamente.

Fernando Sanches demonstra uma habilidade impressionante ao conduzir uma trama densa e cheia de camadas que se passa em um único ambiente. Em nenhum momento, o filme entra no marasmo ou demonstra alguma queda. Pelo contrário, até seu último segundo, “Mariane com E” se mostra como uma comédia potente, forte e instigante. É aquele filme que pede para ser revisitado de tempos em tempos. O filme tem seu lado cômico, divertido, que entretém, mas também é uma forte crítica ao mercado, que, com suas demandas, desumaniza pessoas conforme seus interesses.




sábado, 20 de setembro de 2025

ZÉZERO (1974)

 


“Zézero”, dirigido por Ozualdo Candeias, é uma obra cinematográfica que se destaca pelo seu caráter contestador, provocador e subversivo, representando um dos maiores exemplos do “Cinema Marginal” brasileiro. A narrativa do filme é uma reflexão crítica e amarga sobre a sociedade e a exploração econômica, abordando o dilema de Zézero, um camponês que, seduzido pela promessa de uma vida melhor, decide abandonar a roça e buscar riqueza na cidade grande. Através dessa trama simples, mas profundamente simbólica, Candeias expõe as mazelas de um sistema que alimenta ilusões de prosperidade e, ao mesmo tempo, mantém as massas aprisionadas em um ciclo de exploração.

O que torna o filme tão impactante é a maneira como ele foge das convenções tradicionais do cinema da época. Em vez de seguir uma narrativa linear e convencional, Candeias aposta em uma linguagem mais livre e experimental, característica do movimento do “Cinema Marginal”. Ao se apropriar de uma estética crua e de recursos técnicos refinados, o diretor reforça a sensação de alienação e desilusão vivida pelos personagens, principalmente o protagonista, Zézero. O nome do personagem, uma fusão de “Zé” com “zero”, já aponta para a falta de individualidade e a insignificância do homem comum dentro das engrenagens de uma sociedade desigual. Zézero é, portanto, o reflexo de uma massa de trabalhadores que, embora busquem algo melhor, são constantemente esmagados pela realidade.

A escolha de Carlos Biondi para interpretar Zézero é extremamente acertada, pois sua atuação transmite com precisão a angústia, a desesperança e os sonhos do personagem. Zézero, influenciado pela fada que lhe mostra as glórias da vida urbana através de jornais e revistas, acredita que a cidade é um local de oportunidades infinitas. Porém, à medida que avança em sua jornada, o protagonista é confrontado com uma realidade cruel, onde a classe dominante manipula as massas e onde sonhos de riqueza fácil se tornam uma armadilha. O filme, ao retratar essa busca incessante por uma vida melhor, coloca o espectador frente à dura realidade de uma sociedade que, através da propaganda e do consumo, alimenta fantasias enquanto mantém os pobres e marginalizados no fundo da pirâmide social.

A montagem de “Zézero” é outro aspecto fundamental que contribui para o tom subversivo da obra. Com cortes rápidos e uma edição fragmentada, o filme transmite uma sensação de desorientação, como se o personagem estivesse perdido tanto no espaço quanto no tempo. A fotografia também é decisiva ao criar um contraste entre a simplicidade do campo e a complexidade caótica da cidade. Além disso, a trilha sonora, composta principalmente por sons ambientais e de rádio, desempenha um papel crucial na construção da atmosfera do filme. Quando o rádio, símbolo dos sonhos de riqueza, transmite sons de lobos e coiotes, a metáfora se torna clara: os poderosos da cidade são os predadores, e os camponeses e pobres como Zézero são suas presas. Esse contraste é fundamental para entender a mensagem central de “Zézero”: a opressão social e econômica que coloca os mais pobres em um ciclo de exploração sem fim.

O filme também faz uma crítica velada àqueles que se iludem com promessas de riquezas rápidas, como a loteria esportiva, tema que aparece em diversos momentos do filme. A fada, ao mostrar para Zézero a vida dos ricos e poderosos através de revistas, oferece-lhe um olhar idealizado da realidade, que dificilmente será alcançado. Este detalhe dialoga fortemente com o presente, em que, como no filme, muitas pessoas se afundam em dívidas enquanto perseguem fantasias de sucesso fácil, seja através de apostas ou jogos de azar online. Assim, “Zézero” continua sendo um filme atual, pois aborda questões perenes sobre a alienação, a exploração e os efeitos das ilusões de riqueza na vida das pessoas.

Os outros membros do elenco também são fundamentais para dar profundidade ao universo de Zézero. Milton Pereira, Izabel Antinópolis, Arnaldo Galvão, Maria das Dores de Oliveira, Maria Gizélia, Maria Nina Ferraz e Pamira Balbina de Almeida são atores que desempenham papéis coadjuvantes que ajudam a construir o ambiente de exploração e ilusão que cerca o protagonista. As suas presenças no filme, embora pontuais, são essenciais para o desenvolvimento do tema e reforçam a ideia de que Zézero não é um caso isolado, mas sim um representante de uma classe que está sendo sistematicamente explorada.

“Zézero” é, portanto, uma obra de crítica social e política, que vai muito além de uma simples história de um camponês buscando riqueza na cidade. O filme expõe algumas das falácias da sociedade capitalista, que ilude seus cidadãos com promessas de prosperidade, mas, na realidade, os aprisiona em um ciclo de exploração e frustração. Ao questionar a busca incessante pelo “ter” em detrimento do “ser”, Candeias cria uma obra que soa como um alerta sobre os perigos de viver em uma sociedade que privilegia o materialismo e a alienação.




terça-feira, 16 de setembro de 2025

ENCONTRO MARCADO COM A MORTE (2023)

 


O curta, com produção, roteiro e direção de João Augusto De Nardo, apresenta dois jovens que decidem por um jantar para se conhecerem melhor. O local do jantar: a residência da mulher.

         “Encontro Marcado com a Morte” tem, desde o seu início, uma atmosfera densa e misteriosa, fruto da combinação de uma fotografia escurecida com uma trilha sonora sugestiva para o Suspense e Mistério. As ações dos personagens, desde os primeiros contatos, apresentam um certo estranhamento, que é muito bem bolado para a reviravolta futura.

         Giovana Florenciano e Guilherme Siebenichler demonstram muita habilidade e naturalidade para interpretarem personagens complexos e com muitas camadas. A química entre os dois jovens atores é um ponto crucial para o sucesso do curta.

          Mesmo com as confissões que ambos compartilham, o clima de que, algo pode acontecer a qualquer momento, perdura. E é aí, que o texto tem uma sacada inventiva, criativa e que foge dos padrões. Outra direção, com uma outra mentalidade (ou proposta) poderia jogar “Encontro Marcado com a Morte” para a comédia pastelona e cheia de clichês. Mas, João Augusto De Nardo não tem dificuldades em criar um humor mórbido, inteligente e extremamente fluido.

         As citações, tanto de programas de TV’s que investigam crimes quanto as argumentações forenses, dão um toque especial. A criação dos diálogos demonstra pesquisa, criatividade e pontualidade. Tudo o que o homem e a mulher falam, surgem de maneira gradual, à medida que se conhecem melhor.

              E um dos pontos mais fortes do filme é a admiração instantânea entre os dois personagens. Eles reconhecem a competência, inteligência e o cuidado que cada um deles tem com as suas obsessões, maneiras de agir e as particularidades, que são suas marcas.

“Encontro Marcado com a Morte” transita de forma natural entre gêneros; Suspense, Mistério e Terror se complementam e quando o gênero Comédia se estabelece, a trama se desenvolve de maneira cativante e agradável.

O curta é fruto de uma boa combinação de elementos dramáticos e narrativos, muito bem encaixados, criando a ambientação perfeita. Há destaques positivos também para a direção de arte, fotografia, trilha sonora e montagem.

“Encontro Marcado com a Morte” é uma Comédia inteligente, com um humor refinado (e sombrio), que leva o espectador a pensar em como as coincidências da vida podem, muitas vezes, evitar um final trágico.




domingo, 14 de setembro de 2025

ASTARTE (2017)

 


O curta-metragem "Astarte" mergulha profundamente no Terror sobrenatural e paranormal, abordando uma narrativa envolvente e cheia de tensão. A trama gira em torno de um grupo de amigos que, motivados pela curiosidade e pelo fascínio pelo oculto, decidem utilizar um tabuleiro ouija para tentar se comunicar com os mortos. O que começa como uma tentativa aparentemente inocente de explorar o desconhecido rapidamente sai de controle quando um demônio surge, possuindo cada um dos amigos de forma progressiva.

Com direção e roteiro de Danilo Morales, o curta se destaca não apenas pelo seu enredo, mas também pela sua habilidade em construir uma atmosfera densa e assustadora. Desde os primeiros momentos, "Astarte" usa a estética visual e sonora de forma magistral para intensificar o medo e o suspense. A fotografia do filme é sombria, com tons que alternam entre luzes baixas e sombras profundas, criando um ambiente quase sufocante. Esse trabalho visual é acompanhado por uma direção de arte minuciosa que reforça a sensação de isolamento e perigo iminente, enquanto a trilha sonora inquietante marca cada reviravolta com precisão, intensificando o pavor à medida que os eventos se desenrolam.

O uso de efeitos práticos e maquiagem no filme é outro elemento que merece destaque. O visual das possessões é cuidadosamente trabalhado para transmitir uma sensação de realismo perturbador. Cada transformação dos personagens sob a influência da entidade é marcada por detalhes de maquiagem que reforçam o horror gráfico e psicológico, criando uma conexão visceral com o público. Essas escolhas criativas fazem com que o ambiente de "Astarte" seja sinistro, estabelecendo uma sensação de que o perigo pode surgir a qualquer momento, tornando as possessões ainda mais assustadoras e impactantes.

O elenco, composto por Tamires Osses, Fercho Vilela, Erick Camargo, Stephanie Gomes, André Paixão, Loraine Ribeiro e André Machado, entrega atuações que elevam a qualidade do curta. A química entre os atores e a maneira como eles retratam o desespero e o medo crescente contribuem significativamente para a imersão da narrativa. Cada personagem é explorado de forma a criar uma sensação de proximidade com o espectador, que acompanha sua jornada no terror absoluto à medida que a situação se torna cada vez mais insustentável.

Um dos aspectos mais interessantes de "Astarte" é sua abordagem da mitologia judaico-cristã, trazendo à tona a figura da entidade que dá nome ao curta. Astarte, originalmente uma deusa venerada no antigo Oriente Médio, foi posteriormente associada a forças malignas na tradição cristã, sendo equiparada a Astaroth, um dos grandes demônios da demonologia medieval. Essa reinterpretação da figura mitológica é explorada de forma inteligente no curta, dando à narrativa uma profundidade mitológica e simbólica. A introdução desse demônio não apenas alimenta o horror gráfico, mas também proporciona um forte impacto psicológico nos personagens, pois a presença de Astarte desafia sua compreensão do que é real e do que é sobrenatural.

Além do terror explícito, "Astarte" também aposta em uma carga emocional e psicológica intensa. Conforme os amigos vão sendo possuídos, o curta explora os sinais do desespero e da impotência diante de forças incontroláveis. O uso da câmera próxima aos personagens aumenta a sensação de proximidade com a situação aterradora, causando um incômodo necessário para “sentir” o filme. O curta adota uma técnica de filmagem ágil, com movimentos rápidos, ângulos fechados e cortes repentinos, o que amplifica a tensão e gera uma atmosfera imprevisível. Essa escolha é eficaz para manter o espectador tenso, sentindo-se tão impotente quanto os personagens diante do caos que os envolve.

"Astarte" é, sem dúvida, um curta obrigatório para os fãs do gênero de Terror, especialmente aqueles que apreciam narrativas de possessão demoníaca e terror psicológico. Com uma direção segura e eficiente de Danilo Morales, o filme demonstra que, mesmo com recursos limitados, é possível criar uma obra cinematográfica que assusta e intriga, utilizando-se de recursos técnicos e narrativos com precisão. O filme é um excelente exemplo de como o Terror pode ser construído com base na simplicidade e criatividade, criando uma experiência imersiva e aterrorizante.

Com uma mistura de horror gráfico, possessão e elementos psicológicos, "Astarte" é um curta poderoso que explora os medos primitivos do desconhecido e do sobrenatural de forma muito eficiente.




quarta-feira, 10 de setembro de 2025

ALMA NO OLHO (1973)

 


          Com forte apelo musical e visual em relação ao corpo negro, o Drama Experimental que se utiliza muito da música da trilha sonora para compor a sua narrativa, “Alma no Olho” é um dos primeiros filmes que coloca a beleza negra em destaque, com suas todas as suas formas, detalhes e contornos.

         O filme destaca como séculos de escravidão resultou num atual estado onde o negro ainda não é totalmente capaz de uma liberdade plena. E essa liberdade vem, primeiramente, com a tomada de consciência da situação e dos atos de resistência.

         Por ter um caráter questionador, Zózimo Bulbul, ator, diretor, roteirista e produtor do curta, foi obrigado a prestar depoimento à Polícia Federal referentes ao filme “Alma no Olho”. Zózimo foi acusado de inserir mensagens subliminares no filme contra o regime militar. Em 1974, o diretor decidiu partir para o exílio, vivendo nos Estados Unidos, Portugal e França.

           A trilha sonora de “Alma no Olho” é composta pela faixa “Kulu Sé Mama” do saxofonista de jazz John Coltrane em parceria com o percussionista Julian Lewis. Com uma fotografia certeira aliada à trilha sonora marcante, o curta de Zózimo é capaz de levar o espectador à uma imersão profunda, onde história, cultura, arte e ancestralidade se despem em tela. “Alma no Olho” é o tipo de filme que precisa ser assistido com o volume alto. Não há diálogos, porém, imagens e sons falam por si só.

         “Alma no Olho” é um monólogo artístico visual que destaca sobre os temas da negritude, da escravidão, da liberdade e emancipação através de uma performance corporal simbólica impressionante. Os elementos técnicos utilizados por Zózimo Bulbul são extremamente eficientes, transmitindo as dores, as marcas e a necessidade de luta e resistência.

            Com um final avassalador, “Alma no Olho” está muito além de um curta de Drama, que mescla música e uma narrativa Experimental. O filme é um verdadeiro manifesto poético sobre a obrigação da sociedade brasileira inteira em lutar contra o racismo estrutural, que infelizmente ainda assola o país, mesmo depois de muito tempo depois do lançamento do filme.




terça-feira, 9 de setembro de 2025

MENTIRA (1989)

 


Adaptação de um texto de Luis Fernando Veríssimo, "Mentira" apresenta a história de um homem comum que, ao voltar do trabalho, se depara com o pneu de seu veículo furado. O que poderia ser um contratempo simples se transforma em um desafio quase épico: ele precisa se esforçar ao máximo para trocar o pneu sozinho, enfrentando frustrações, cansaço e o ritmo lento do tempo que parece conspirar contra ele. Mas, ao fim desse esforço árduo, uma nova adversidade se apresenta: sua aliança escapa de seu dedo e cai por um bueiro, desaparecendo em meio à escuridão.

Enquanto dirige de volta para casa, o protagonista passa a refletir sobre todas as possibilidades de explicar a perda do anel à esposa. Sua mente se enche de cenários hipotéticos, antecipando reações que variam do desapontamento à raiva, tentando preparar-se para cada nuance do inesperado. Esse mergulho psicológico, sutil e bem-humorado, aproxima o espectador da experiência cotidiana do personagem, permitindo identificação imediata com suas angústias e inseguranças.

O casal é interpretado de maneira cativante por Roney Facchini e Ellen Helene, cujas atuações equilibram naturalidade e humor, conferindo autenticidade às pequenas tensões e gestos cotidianos que permeiam o filme. O brilho da narrativa, entretanto, se intensifica ainda mais com a narração de José Wilker. Sua voz confere a "Mentira" um tom de crônica envolvente, transformando cada cena em uma experiência imersiva, onde o humor e a reflexão coexistem de forma divertida. A narração não apenas explica ações, mas também estabelece um diálogo íntimo com o público, tornando cada pensamento do protagonista acessível e cômico.

Outro ponto de destaque de "Mentira" é a sequência de animação, que ilustra como cobaias de laboratório reagem diante de situações estressantes e gatilhos de ansiedade. Através dessa analogia, o curta aproxima o comportamento animal do comportamento humano, ressaltando nossas próprias reações exageradas ou imprevisíveis diante de pequenos contratempos. A criatividade dessa inserção não apenas acrescenta humor, mas também enriquece o caráter reflexivo do filme, permitindo que o espectador perceba as semelhanças entre nossas experiências diárias e situações estudadas em laboratório.

Tudo isso se combina de maneira brilhante com a direção precisa de Flávia Moraes, que mantém coesão narrativa e ritmo dramático. Flávia consegue extrair do texto original o melhor de forma criativa, equilibrando humor, tensão e pequenas surpresas cotidianas. Elementos técnicos, como trilha sonora, fotografia e direção de arte, são perfeitamente encaixados, criando "Mentira" com um estilo narrativo ousado e sensível, que impressiona tanto pela estética quanto pela narrativa.

A trama se desenvolve com densidade e profundidade impressionantes, explorando as dinâmicas sociais e psicológicas do cotidiano. A perda de uma aliança, aparentemente trivial, desencadeia uma série de eventos e reflexões, mostrando como pequenas rupturas podem alterar padrões repetitivos de vida. O marido é retratado como alguém que vive uma rotina pacata e previsível, enquanto a esposa mantém seu cotidiano igualmente regular. O desaparecimento do anel representa, portanto, uma ruptura nesse padrão, revelando tensões, expectativas e a fina linha entre a verdade e a mentira. O filme joga com a percepção do espectador: uma mentira pode soar como verdade, assim como uma verdade pode parecer tão absurda que é tomada como mentira.

Com criatividade, dinamismo e timing perfeito, Flávia Moraes entrega um filme bem-humorado, que explora com leveza as pequenas surpresas da vida cotidiana. "Mentira" diverte, engaja e provoca, ao mesmo tempo em que convida o espectador a refletir sobre como detalhes simples podem desencadear grandes mudanças em nossas rotinas. É um curta eficiente, leve e memorável, que celebra o humor presente nas sutilezas do dia a dia.


Essa crítica é dedicada à memória de Luis Fernando Veríssimo.


Assista: Mentira (1989)

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

FRANKENSTEIN PUNK (1986)

 


Com roteiro e direção de Cao Hamburger e Eliana Fonseca, “Frankenstein Punk” é uma Animação brasileira que se destaca por sua ousada combinação de gêneros, mesclando elementos de Ficção Científica, Drama, Comédia, Terror e Musical. Essa mistura, aparentemente improvável, resultou em uma obra marcante e cativante, que se tornou um dos grandes clássicos da animação nacional.

A trama segue Frank, uma criatura que desperta em um laboratório ao som de uma música que, de forma simbólica, o acompanha durante todo o curta. Essa trilha sonora é um dos aspectos centrais de “Frankenstein Punk”, servindo como uma ligação emocional entre o personagem e o público. À medida que Frank consegue sair do laboratório, ele explora o mundo à sua volta, passando por diversos cenários e situações que, ao mesmo tempo em que rendem momentos engraçados e tocantes, fazem uma homenagem direta a obras clássicas do cinema. Uma das principais referências é o filme “Cantando na Chuva”, cuja icônica canção-título, "Singin' in the Rain", serve como pano de fundo e inspiração para diversas cenas do curta.

Ao sair em sua jornada, Frank interage com vários outros personagens, sempre provocando reações de espanto e terror por conta de sua aparência assustadora, o que cria um interessante contraste com sua personalidade inocente e curiosa. Essa dualidade é explorada de maneira brilhante pelos diretores, que conseguem equilibrar momentos de tensão com uma certa doçura e leveza que tornam Frank uma figura cativante. Ele se deslumbra com as pequenas alegrias da vida, como a música e as descobertas de novos lugares, enquanto ao seu redor, os personagens reagem de maneira exagerada e caricatural, adicionando toques de comédia e sátira social ao enredo.

Além de uma narrativa envolvente, “Frankenstein Punk” impressiona pelo seu apuro técnico. A coordenação de arte e animação, liderada por Cao Hamburger, é de altíssimo nível, contribuindo para criar um universo visualmente rico e dinâmico. A confecção dos bonecos, a cargo de Vivian Altman, é um dos pontos altos do curta, trazendo uma sensação tátil que eleva a qualidade da animação stop-motion. Os cenários, desenvolvidos por uma talentosa equipe que inclui Pedro Mendes da Rocha, Maurizio Zelada, Ana Mara Abreu e outros, conferem uma atmosfera detalhada e criativa à história, permitindo ao espectador se imergir totalmente no mundo peculiar de Frank.

Outro destaque é a trilha sonora, que desempenha um papel essencial na construção da narrativa. A escolha das músicas e o trabalho minucioso da equipe de som fazem com que cada cena seja carregada de emoção, criando uma sinergia perfeita entre som e imagem. O uso da canção "Singin' in the Rain" não só funciona como uma homenagem ao cinema clássico, mas também como uma metáfora para a experiência de Frank, que, assim como o personagem de Gene Kelly no filme, encontra uma alegria quase infantil em explorar o mundo ao seu redor, mesmo diante das adversidades.

“Frankenstein Punk” não é apenas um curta tecnicamente impecável; é também uma obra que, com sua originalidade e criatividade, antecipou o sucesso futuro de seus realizadores. Cao Hamburger e Eliana Fonseca, hoje nomes consolidados no audiovisual brasileiro, demonstraram já nesse trabalho uma capacidade única de contar histórias com profundidade emocional e inovação estética.

A doçura de Frank, combinada com a qualidade técnica e narrativa do curta, faz de “Frankenstein Punk” uma verdadeira obra-prima da Animação brasileira. É um filme que transcende as barreiras de gênero e público, sendo capaz de cativar tanto aqueles que buscam entretenimento leve quanto aqueles que apreciam uma narrativa rica em subtexto e referências culturais. É uma obra para ser apreciada várias vezes, sempre com novas camadas a serem descobertas a cada vez que é revista.




terça-feira, 2 de setembro de 2025

PEDAÇOS (2013)

 


Com direção de Athanasios Kalogiannis e roteiro de Bruno Autran, “Pedaços” se destaca como um excelente thriller psicológico que mergulha o espectador nas aflições e perturbações de uma mulher assombrada por fragmentos de lembranças confusas que invadem sua mente. A trama se desenrola com um ritmo imersivo, conduzindo o público por uma jornada intensa, repleta de suspense e momentos de puro desconforto.

As atuações de Carol Portes e Bruno Autran são um dos pilares fundamentais do filme, trazendo um peso dramático extraordinário a cada cena. A performance de Carol, em particular, é de uma intensidade rara, evidenciando o estado psicológico abalado de sua personagem, enquanto Bruno complementa com uma interpretação igualmente poderosa. Juntos, eles criam uma dinâmica envolvente e inquietante, oferecendo ao público os fragmentos necessários para tentar montar o enigmático quebra-cabeça que se desenrola na tela.

“Pedaços” utiliza magistralmente os elementos clássicos de um thriller psicológico, mesclando habilmente alucinações e memórias, criando uma atmosfera de tensão constante. A narrativa é construída de forma gradual e meticulosa, com o diretor Athanasios Kalogiannis preenchendo aos poucos as lacunas na mente da protagonista e nos revelando aos poucos a complexidade de sua condição mental. O público, assim como a personagem, se vê preso em um labirinto de lembranças desconexas, sem nunca saber o que é real ou fruto de uma mente perturbada.

A parte técnica de “Pedaços” também é digna de elogios. A fotografia é opressiva, capturando a angústia da personagem e refletindo sua confusão interna. A direção de arte, com seu cuidado nos mínimos detalhes do ambiente, adiciona camadas ao Suspense, enquanto a montagem, precisa e pontual, conduz o espectador por uma montanha-russa emocional. A trilha sonora, por sua vez, é utilizada com grande eficiência, intensificando o clima de mistério e terror psicológico, enquanto a maquiagem contribui para o realismo das cenas mais perturbadoras, reforçando o estado psicológico da protagonista.

O filme mantém o espectador em um constante estado de alerta, jogando pistas e peças do enigma que, mesmo quando parecem se encaixar, ainda deixam uma sensação de desconforto. A narrativa vai além do convencional, levando o público a especular sobre o que realmente está acontecendo. Quem é a mulher que vemos em cena? O que realmente aconteceu naquela casa? E quem é o homem que compartilhava a cama com ela? Essas perguntas ecoam ao longo do filme, mantendo a audiência presa à tela até o último segundo.

Mesmo nos momentos em que as coisas parecem fazer sentido, a atmosfera de “Pedaços” permanece densa, carregada de uma sensação de que algo ainda mais sombrio e perturbador está à espreita. A cada nova descoberta, a tensão aumenta, e o espectador é puxado para dentro de um turbilhão emocional junto com a protagonista.

O clímax do filme é um desfecho arrebatador e imprevisível, que além de responder a algumas perguntas, deixa outras abertas à interpretação, permitindo que o público reflita e questione o que foi real ou imaginado. Essa escolha narrativa reforça a qualidade de "Pedaços" como um filme que não subestima a inteligência do espectador, mas o desafia a desvendar as camadas da história.

No fim das contas, “Pedaços” é uma obra que cumpre seu papel de forma excepcional, combinando coesão narrativa e dramática com uma direção e atuações que impressionam. É um filme que tanto perturba quanto fascina, deixando sua marca e fazendo jus a todos os elogios que possa receber.


Assista "Pedaços": Pedaços (2013)

UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...