terça-feira, 17 de junho de 2025

LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL (2013)


         Adaptado do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, o curta dirigido por Bruno Gularte Barreto oferece uma interpretação íntima e emocionante do momento em que Fernando, o filho, retorna à casa de sua mãe após um período de ausência. Logo no início, percebe-se a estranheza desse reencontro. Fernando, interpretado por Rafael Régoli, é recebido por uma mãe que não esperava sua chegada e, apesar da distância afetiva, há algo de não dito pairando no ar. Sandra Dani, no papel da mãe, traz à tona com precisão os sentimentos de uma mulher endurecida pela vida, cujos gestos contidos revelam mais do que o próprio diálogo.

A interação entre mãe e filho é marcada por uma tensão silenciosa. Embora eles conversem, muito fica por ser dito, e o que é falado parece não tocar no essencial, sugerindo uma barreira emocional que impede a verdadeira conexão. Essa barreira é evidenciada pelo desconforto mútuo e pelo contraste entre a preocupação da mãe, que nota as mudanças físicas no filho, como a perda de peso e de cabelo, e a aparente superficialidade da comunicação. Ainda assim, mesmo com essa distância, há uma necessidade afetiva latente: Fernando busca um conforto que só a mãe pode oferecer, enquanto ela, por mais que carregue certa amargura, não deixa de se preocupar com o filho.

A construção dos personagens, tanto no filme quanto no conto, é impecável. A fotografia contribui para essa atmosfera introspectiva, com ângulos que alternam entre planos fechados, que ressaltam a proximidade física, e planos mais abertos, que sugerem o abismo emocional entre os dois. A direção de arte também acerta nos detalhes, criando um ambiente que complementa o tom do filme e reflete a aridez emocional entre mãe e filho.

Esse distanciamento, no entanto, não é apenas circunstancial. Ele reflete o contexto de uma época em que questões como a homossexualidade e o impacto devastador da epidemia de HIV moldaram a vida e as relações de muitas famílias. Caio Fernando Abreu, ao escrever "Linda, Uma História Horrível", estava profundamente imerso em uma realidade em que o HIV ceifava vidas e estigmatizava comunidades. No Brasil dos anos 1980, a doença, apelidada cruelmente de "praga gay", trouxe um peso insuportável para muitos, e isso ecoa na história de Fernando.

A angústia de Fernando vai além do reencontro com a mãe. Ele carrega o peso de uma doença que, na época, era uma sentença de morte. A narrativa sugere que seu retorno à casa da mãe seja movido por essa necessidade de amparo, um refúgio contra a morte iminente e contra o isolamento emocional que a doença frequentemente causava. A presença fantasmagórica do HIV é confirmada quando ele, no final do curta, mostra as lesões causadas pela doença. Aqui, o filme atinge um clímax emocional, revelando que a jornada de Fernando até ali era, na verdade, um apelo desesperado por amor e compreensão.

A obra de Caio Fernando Abreu, mesmo escrita antes de ele ser diagnosticado com HIV, já antecipava muitas das reflexões profundas sobre a vida, a morte e o medo que o vírus suscitava. Abreu, sempre sensível às questões de marginalização e sofrimento, criou em "Linda, Uma História Horrível" um retrato pungente do isolamento emocional que permeava as relações humanas. O curta de Barreto consegue capturar essa essência, com um ritmo que respeita a profundidade dos personagens e suas complexas dinâmicas.

A menção à filha que abandonou a mãe e a questão de Pedro, o "amigo" de Fernando, levantam outras camadas interpretativas. A mãe, embora relutante, parece ter começado a aceitar a sexualidade do filho, ainda que com certa hesitação. Essa aceitação, no entanto, é apenas sugerida, como tantas outras coisas no curta, deixando ao espectador a tarefa de preencher as lacunas.

O desfecho, com Fernando dizendo "Amanhã a gente fala melhor, mãe", traz um misto de esperança e resignação. Sabemos que esse "amanhã" pode nunca chegar, mas o momento também sugere que há espaço para um recomeço entre eles. Talvez o fardo da doença possa aproximá-los novamente, curando velhas feridas e permitindo que mãe e filho se reencontrem, não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

"Linda, Uma História Horrível" é uma obra que, assim como o conto de Caio Fernando Abreu, transcende o tempo e o contexto em que foi criado. Ele toca em temas universais de amor, perda e reconciliação, levando o espectador a refletir sobre suas próprias relações e sobre o peso das palavras que, muitas vezes, ficam por dizer.       


Assista: https://vimeo.com/84035348

 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

INEXISTENTE (2018) - CONTÉM SPOILERS







Ao assistir o curta-metragem “Inexistente” pela primeira vez, o espectador é imediatamente envolvido pela história de Andréia, uma jovem mulher que recentemente perdeu o marido em um trágico homicídio motivado por xenofobia. Ainda imersa em seu luto, ela se vê incapaz de aceitar completamente a morte abrupta de seu companheiro, e sua dor se reflete em cada palavra que pronuncia sobre essa perda devastadora. O filme começa com Andréia desabafando sobre a sua solidão e o vazio que a morte de seu marido deixou em sua vida. Ela questiona o sentido da existência, ao mesmo tempo em que expressa sua indignação com a maldade que levou ao crime de ódio.

Gustavo, interpretado de maneira contida e sensível por Mij Atunbi, surge como o amigo que tenta consolar Andréia, mas logo se percebe que, frente a uma dor tão profunda, não há muito que possa ser dito. Ele ouve atentamente enquanto ela narra a brutalidade da violência que tirou a vida do marido e reflete sobre as injustiças do mundo. Embora ele seja uma presença constante e tranquilizadora, Gustavo mantém uma postura discreta, com sua serenidade contrastando fortemente com a angústia da protagonista.

A atuação de Paloma Gavinhos, que interpreta Andréia, é notável pela intensidade emocional. Ela não apenas interpreta uma mulher em luto, mas sim uma pessoa à beira de uma crise existencial, dilacerada pela perda e pela crueldade do assassinato. Suas expressões faciais e a carga emocional em sua voz transmitem o peso do trauma, fazendo com que o público sinta cada momento de sua dor e revolta. A maneira como ela expõe suas incertezas sobre o futuro, e o porquê de tanta crueldade no mundo, nos aproxima ainda mais de sua realidade.

O filme é uma obra delicadamente conduzida pela diretora Giovanna Imperatore, que utiliza uma fotografia densa e evocativa para amplificar o clima de luto e reflexão. 

À medida que a trama avança, fica evidente que há mais do que um simples relato de perda. A relação entre Gustavo e Andréia se revela gradualmente, com ele tentando, de todas as maneiras, acalmar a viúva, oferecendo uma espécie de consolo que vai além das palavras. No entanto, o espectador atento perceberá que há algo de estranho na forma como Gustavo interage com ela, sempre com uma postura excessivamente calma, em contraste com a agitação de Andréia. Enquanto ela fala sobre o marido falecido, sobre os detalhes do crime e como tudo aconteceu, Gustavo escuta em silêncio, com suas poucas palavras sendo apenas o suficiente para manter a conversa.

Esse contraste entre a calma de Gustavo e a dor avassaladora de Andréia é uma das grandes sacadas do roteiro. O desempenho comedido de Mij Atunbi faz com que o público acredite que ele é apenas um amigo do casal, alguém que estava próximo o suficiente para conhecer ambos intimamente, mas que ainda mantém uma distância emocional. É exatamente essa atuação discreta que prepara o terreno para a grande revelação do filme.

Quando finalmente chega o clímax da narrativa, a verdade é revelada de maneira surpreendente: Gustavo, na verdade, é o marido assassinado. Essa reviravolta, executada de forma brilhante, transforma todo o filme em algo muito maior do que um simples drama sobre luto. Gustavo não é apenas uma figura de consolo, mas sim uma presença espectral, ainda preso ao mundo dos vivos, procurando ajudar sua esposa a seguir em frente. A sua aflição só se torna visível quando o sofrimento de Andréia atinge o ápice. Ele tenta tocá-la, estender-lhe a mão, mas é nesse momento que o público se depara com a verdade devastadora: ele já não pertence a este mundo.

A maneira como a diretora constrói essa revelação é sutil, mas extremamente impactante. Ao longo do filme, somos levados a acreditar que Gustavo é apenas um amigo solidário, mas a sua postura inexpressiva e as suas ações limitadas são pistas que, uma vez compreendidas, tornam a reviravolta ainda mais poderosa. É quando ele tenta acalmar Andréia que sua impotência fica evidente, e percebemos que, por mais que ele deseje aliviar o sofrimento dela, ele está preso em uma condição que impede qualquer intervenção real. Sua resignação é tocante, pois ele parece ter aceitado sua morte, enquanto Andréia ainda luta com a dor da ausência.

Além da questão da perda, “Inexistente” também aborda temas universais e urgentes, como a intolerância e os crimes motivados por ódio, algo especialmente relevante no Brasil e no mundo contemporâneo. A narrativa levanta reflexões importantes sobre como a xenofobia, o racismo e outras formas de discriminação continuam a impactar vidas de maneira trágica. A brutalidade que tirou a vida de Gustavo, um imigrante, reflete um problema social mais amplo, que o filme coloca em destaque de maneira urgente.

No fim, “Inexistente” não é apenas um filme sobre a morte, mas sobre o amor que persiste além da vida, sobre como lidar com o luto e a dor, e sobre as forças desumanizadoras que ainda permeiam a sociedade. A resolução final, com Gustavo aceitando sua nova realidade enquanto Andréia enfrenta a dura jornada de seguir em frente, é ao mesmo tempo triste e esperançosa. O filme é uma reflexão profunda sobre a morte, a saudade e as injustiças do mundo, e sua narrativa, ainda que breve, deixa uma marca no espectador.

A obra, conduzida com sensibilidade e inteligência, torna-se um espelho das nossas lutas cotidianas, questionando não apenas a violência e o preconceito, mas também nossa própria capacidade de lidar com a perda e encontrar sentido em um mundo tão cheio de ódio e dor.




sexta-feira, 13 de junho de 2025

O PERFUMADO (2002)

 





Em uma pequena cidade do interior, o bar local está em plena agitação com uma animada partida de truco. Quatro homens jogam concentrados, mas o que está em jogo não é dinheiro ou bebida, e sim a promessa de contar um “causo” em caso de derrota, uma tradição peculiar entre os frequentadores daquele local. A aposta, simples à primeira vista, carrega uma atmosfera de mistério, já que, em uma cidade onde as histórias se misturam com o folclore, um “causo” pode revelar mais do que apenas uma anedota; ele pode mergulhar o ouvinte em um universo onde o real e o sobrenatural se encontram.

“O Perfumado”, um curta-metragem envolvente, nos transporta para esse cenário de suspense e mistério, utilizando como ponto de partida a figura enigmática de um homem que vive na região, conhecido apenas por seu apelido: O Perfumado. O filme encanta logo de início, não só pela sua narrativa intrigante, mas também pela forma como mescla elementos do folclore brasileiro com um enredo cheio de tensão e sutileza. Desde o começo, o espectador é convidado a adentrar um universo onde as histórias contadas na mesa de um bar podem esconder verdades sombrias e inesperadas.

Dirigido por Mauro Giuntini e com roteiro de Di Moretti, “O Perfumado” se destaca ao construir sua trama a partir de uma narração bem-humorada e envolvente, que aos poucos vai revelando os mistérios que cercam a figura central da história. O causo narrado durante a partida de truco tem como protagonista uma mulher que aparece certo dia no bar, com um objetivo claro: encontrar o homem conhecido como O Perfumado. A mulher, interpretada por Felícia Johanson, se aproxima do proprietário do local pedindo um copo d’água e, em seguida, questiona o paradeiro do enigmático homem. O ambiente muda de tom, pois o simples pedido do endereço gera desconforto, como se o nome do Perfumado trouxesse uma espécie de maldição.

A presença do sobrenatural no filme é sutil, mas marcante. O Perfumado é uma figura temida, cuja reputação se espalha por lendas e cochichos entre os moradores, chegando até a cidade grande. O filme consegue, com maestria, criar uma atmosfera de mistério que prende o espectador, enquanto acompanhamos a jornada da vendedora em busca desse homem que parece habitar tanto o mundo real quanto o imaginário da cidade. A cada passo que a mulher dá em direção ao seu destino, a tensão cresce.

A trilha sonora é um dos elementos mais poderosos da produção, contribuindo para a imersão completa nesse universo rural e misterioso. O som da viola caipira, característico da região, acompanha a narração do causo, adicionando uma camada emocional que enriquece ainda mais a experiência do espectador. A música não só reforça o tom folclórico da história, como também funciona como um fio condutor, guiando-nos pela crescente sensação de que algo perturbador está prestes a acontecer.

A fotografia é outro aspecto técnico que merece destaque. Utilizando tons escuros e sombras profundas, o diretor de fotografia opta por uma abordagem que amplifica o mistério em torno do Perfumado. O homem é retratado de forma quase fantasiosa, com suas roupas escuras e presença elegante, criando um contraste com o ambiente simples da cidade.

No que diz respeito à montagem, o filme adota um ritmo que reflete o suspense crescente da narrativa. Cada corte é calculado para aumentar a tensão, e a cada momento em que a mulher se aproxima do encontro com o Perfumado, a montagem enfatiza a iminência de um possível desfecho trágico ou sobrenatural. Entretanto, a revelação final é tanto surpreendente quanto sutil, deixando no ar a pergunta sobre até que ponto o medo e o mistério em torno do homem são fruto de sua natureza ou de projeções daqueles que o temem.

O elenco do filme é igualmente eficiente na criação dessa atmosfera de suspense. João Antônio assume o papel do contador do causo, trazendo uma performance cheia de carisma e autenticidade, enquanto José Delvinei Santos interpreta o enigmático Perfumado de maneira contida, mas impactante. Sua atuação é marcada por gestos sutis, que vão compondo a aura sobrenatural em torno de sua figura. Os personagens coadjuvantes, interpretados por Chico Sant’Anna e Patrícia Carvalho, completam o elenco com atuações que contribuem para o senso de comunidade e folclore que permeia o filme.

“O Perfumado” é um exemplo primoroso de como o cinema pode utilizar o sobrenatural de forma criativa e original, sem recorrer aos clichês do gênero. Em vez de imagens assustadoras ou sustos batidos, o filme opta por um suspense construído lentamente, baseado no desconhecido e no poder das histórias contadas. O que torna o curta ainda mais fascinante é sua capacidade de brincar com as expectativas do espectador, subvertendo-as de maneira inteligente ao final.

Com suas camadas de mistério, narrativa cativante e elementos técnicos primorosos, "O Perfumado" não é apenas um filme de Suspense, mas uma reflexão sobre o medo do desconhecido e o poder das histórias que contamos uns aos outros. Ao término do curta, o espectador é deixado com uma sensação de encantamento e reflexão, relembrando que, no final, as maiores ameaças podem estar mais em nossas mentes do que na realidade.




quinta-feira, 12 de junho de 2025

O DIABO DA GUARITA (2007)

 






"O Diabo da Guarita" é um curta-metragem que consegue mesclar habilmente os elementos de Terror e Suspense, construindo um Thriller psicológico profundamente perturbador. Desde os primeiros minutos, o diretor e roteirista João Tenório demonstra uma maestria em envolver o espectador no interior da mente torturada do protagonista, um porteiro de condomínio interpretado de forma brilhante por Maurício Marques. A atmosfera de tensão se instala imediatamente, e é possível sentir o peso da opressão que domina o personagem conforme a história avança.

A trama gira em torno de um homem simples, cujo cotidiano, já solitário e repetitivo, é progressivamente dominado por uma entidade demoníaca que não apenas conhece seus segredos mais profundos, como também explora seus pensamentos e desejos mais sombrios. A entidade parece não estar confinada apenas ao espaço físico da guarita, mas invade também a mente do porteiro, corroendo seu psicológico de maneira gradativa e implacável. O roteiro constrói, com muita habilidade, uma atmosfera de claustrofobia e paranoia, onde a figura do Diabo pode ser vista tanto como uma manifestação sobrenatural quanto como um reflexo interno, uma projeção dos próprios pecados e culpas do protagonista.

O uso do rádio como elemento narrativo é uma das grandes sacadas do filme. A constante presença da voz de um pastor evangélico, que ecoa pela guarita quase como uma sentença moral, intensifica a sensação de pressão psicológica e espiritual que o protagonista enfrenta. A relação simbólica entre o som do rádio e os tormentos mentais do porteiro é desenvolvida de forma sutil, mas poderosa. A pregação incessante sobre pecado e redenção exacerba a culpa do personagem, fazendo com que o espectador se sinta imerso em sua luta interna. A voz do pastor, aparentemente inofensiva, transforma-se em um elemento opressor, capaz de invadir o espaço íntimo do protagonista e amplificar sua autopunição.

O curta explora com muita competência os sentimentos de culpa, vergonha e desejo reprimido, temas frequentemente abordados sob a ótica religiosa. No entanto, o que poderia ser uma reflexão comum sobre a repressão religiosa ganha contornos mais profundos e perturbadores em "O Diabo da Guarita". O protagonista, um homem comum e devoto, é tragado por uma espiral de punição interna, onde qualquer pensamento ou desejo que desvie das normas religiosas é imediatamente autocondenado. A força do filme reside justamente na maneira como o espectador é conduzido a entender essa dualidade: o porteiro não é perseguido por forças externas, mas por ele mesmo, pela sua própria incapacidade de lidar com seus impulsos e desejos.

A presença do "Diabo" pode ser interpretada tanto como uma figura da mitologia cristã quanto como uma metáfora para o peso psicológico da culpa. Em vez de ser cobrado diretamente por membros da igreja ou por uma autoridade religiosa, o porteiro se autoflagela mentalmente, temendo ser desmascarado pelos outros ou por Deus. O medo de ser exposto, seja para o pastor, para os colegas de trabalho, ou mesmo para os moradores e colegas de trabalho do condomínio, transforma-se na verdadeira fonte de terror. Esse medo é o que alimenta sua paranoia e o leva a reforçar constantemente sua imagem de "bom cristão", escondendo sua verdadeira natureza e seus desejos mais íntimos.

A resolução do filme é particularmente impactante, culminando em uma cena de autoafirmação que revela a profundidade do conflito interno em que o protagonista vive. Se no início, ele é confrontado com a chegada de uma revista masculina, que desperta seus desejos reprimidos, no final surge outro elemento que pode o fazer desviar da retidão que ele impõe para si. Da mesma forma, quando uma mulher deixa uma encomenda para o zelador, o porteiro reage de maneira impulsiva, tentando reafirmar sua honestidade e seu papel "aceitável" dentro da comunidade.

Os elementos técnicos do filme elevam a narrativa a outro patamar. A fotografia e a direção de arte criam um ambiente visualmente sombrio e opressor, onde cada sombra e cada detalhe parecem contribuir para a crescente sensação de desespero. O design de som é um dos grandes destaques do curta, com a trilha sonora e os ruídos cuidadosamente selecionados para transmitir a pressão psicológica que o porteiro sente. O som incessante do rádio, em particular, é utilizado de maneira brilhante, transformando-se em uma presença constante e insuportável, que invade cada canto da mente do personagem e do próprio filme.

"O Diabo da Guarita" é um Thriller psicológico que, com seu clima denso e perturbador, consegue provocar reflexões profundas sobre culpa, desejo e repressão, enquanto conduz o espectador por uma jornada intensa e desconcertante dentro da mente de seu protagonista.



Assista "O Diabo da Guarita": https://vimeo.com/14867498

quarta-feira, 11 de junho de 2025

TAPA NA PANTERA (2006)

 






"Tapa na Pantera", de 2006, é um curta-metragem que se tornou um marco na comédia brasileira, criando uma verdadeira revolução na internet nacional. O contexto histórico é importante para entender o impacto desse trabalho: o Brasil ainda vivia um período de transição tecnológica, em 2006, quando grande parte da população não tinha acesso à internet de alta velocidade. No entanto, um simples vídeo, publicado no YouTube, conseguiu quebrar barreiras e alcançar mais de 200 mil visualizações em apenas uma semana, se tornando um dos primeiros virais da história da internet brasileira.

O curta, dirigido por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, é uma pseudoentrevista que gira em torno de uma mulher, interpretada magistralmente por Maria Alice Vergueiro, que compartilha, de maneira descontraída e sem filtros, suas experiências pessoais com a maconha. Ela detalha o termo "tapa na pantera", uma expressão popular para se referir ao ato de fumar a erva, e fala abertamente sobre o uso diário da substância e seus efeitos em sua vida. O caráter informal e autêntico da entrevista fez com que muitos espectadores se questionassem sobre a veracidade do conteúdo, já que a linha entre ficção e realidade era, de fato, tênue. Esse elemento de dúvida, que fez o público pensar se o vídeo era ou não genuíno, é um dos maiores êxitos do curta, sendo uma das razões que o tornaram tão marcante.

O filme foi postado na internet sem o consentimento dos realizadores, o que, ironicamente, se mostrou um movimento de grande sorte, pois impulsionou sua popularidade. A atuação de Maria Alice Vergueiro, que estava completamente à vontade no papel, é outro ponto que merece destaque. Sua naturalidade e carisma foram cruciais para o sucesso do projeto, com sua performance sendo reconhecida como um grande feito, considerando a profundidade e a autenticidade que ela trouxe à personagem.

A história por trás da produção é igualmente fascinante. O curta nasceu de uma ideia simples: três estudantes de cinema da FAAP – Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes – procuraram Maria Alice Vergueiro para uma filmagem em sua casa. O cenário foi improvisado, sem grandes preparações, e a entrevista se desenvolveu de forma espontânea, sem roteiro fixo, permitindo que Vergueiro dialogasse livremente sobre suas experiências e visões. Esse ambiente descomplicado e natural, somado à montagem precisa que acentuou o tom documental do filme, foi o que realmente fez a diferença. O curta não apenas se destaca pela interpretação de Vergueiro, mas também pela forma como foi estruturado e editado, o que ajudou a manter a ilusão de que se tratava de uma situação real.

O sucesso de "Tapa na Pantera" não só fez história na internet, mas também contribuiu para consolidar a carreira de seus realizadores. Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, que já tinham outros projetos cinematográficos de qualidade, alcançaram uma nova dimensão de reconhecimento com este curta, que permanece até hoje como um dos maiores sucessos da Comédia brasileira contemporânea.

Além disso, Maria Alice Vergueiro, uma veterana do teatro brasileiro que já possuía uma carreira sólida, foi projetada para o cenário nacional de forma inédita, sendo reconhecida por uma geração inteira que, provavelmente, nunca tinha tido a oportunidade de vê-la atuar em outras produções. "Tapa na Pantera" mostrou ao Brasil não só o talento e a versatilidade da atriz, mas também a maneira única de como a comédia pode ser abordada, com autenticidade, crítica social e humor irreverente.

"Tapa na Pantera" é muito mais do que um simples vídeo viral – é um curta-metragem que soube capturar, com muita competência, a essência de uma época e uma discussão tão relevante sobre questões sociais e comportamentais, ao mesmo tempo em que trouxe à tona uma grande atriz e um talento criativo que permanece influente até os dias de hoje. 




segunda-feira, 9 de junho de 2025

A VOLTA PARA CASA (2019)

            








O filme "A Volta Para Casa", baseado no argumento de Guilherme Rodio, apresenta uma narrativa tocante e profundamente emocionante ao seguir a jornada de Plínio, um idoso aposentado que vive em um asilo na cidade de São Paulo. A marcenaria é sua forma de terapia, e na pequena oficina do asilo, ele mantém a mente ativa ao criar peças em madeira. Esses trabalhos manuais são muito mais que simples atividades; representam a tentativa de Plínio de se conectar com suas lembranças e preservar sua autonomia em meio ao inevitável processo de envelhecimento.

A chegada de Anselmo, o novo jardineiro do asilo, marca o início de uma relação que, à primeira vista, parece casual, mas rapidamente revela uma profundidade emocional inesperada. O filme ganha ritmo quando Plínio, ao ver Anselmo podando as plantas de forma que considera inadequada, critica o seu trabalho. Esse embate inicial, sutil e aparentemente trivial, esconde camadas mais profundas; enquanto Anselmo, jovem e cheio de vigor, segue sua rotina sem grande apego, Plínio agarra-se a detalhes como forma de manter algum controle sobre sua vida. Essa cena não é apenas um choque de gerações; ela antecipa um dos principais temas do filme: a busca pela dignidade na velhice e o desejo de manter relevância em um mundo que parece esquecê-lo.

À medida que o filme avança, o elo entre Plínio e Anselmo se fortalece, especialmente durante a celebração da Páscoa no asilo. Plínio espera ansiosamente pela visita de seus familiares, acreditando que eles chegarão a qualquer momento. Em contraste, uma outra residente, em meio à demência, fala sobre a chegada de sua mãe e primos, figuras que claramente não vêm. Plínio, ainda lúcido, insiste que seus filhos virão, criando uma tensão dolorosa. Ele se distingue da outra idosa, mas, conforme a festa avança e seus parentes não aparecem, a linha entre o delírio da demência e a esperança em vão começa a se apagar. Este momento é crucial para o espectador compreender a fragilidade emocional de Plínio e a profunda sensação de abandono que ele enfrenta.

Em uma demonstração de bondade, Anselmo se oferece para levar Plínio até sua antiga casa. O percurso é repleto de diálogos que evidenciam o abismo entre o passado de Plínio e o presente, trazendo à tona o sentimento de desconexão que muitos idosos sentem em relação ao mundo moderno. Plínio fala com nostalgia dos tempos em que nadava no rio Tietê, agora poluído e irreconhecível, enquanto Anselmo tenta explicar o uso de aplicativos e GPS, tecnologias que parecem distantes demais para o idoso compreender plenamente. Esse contraste entre o passado e o presente simboliza não apenas a transformação do ambiente ao redor de Plínio, mas também o quanto ele se sente deslocado em um mundo que mudou drasticamente.

Ao chegarem ao local onde ficava sua antiga casa, Plínio é tomado por uma sensação de desolação ao perceber que sua residência foi substituída por um prédio moderno. A cena captura, de maneira devastadora, o sentimento de perda que permeia a vida de Plínio — ele não perdeu apenas um espaço físico, mas uma parte significativa de sua identidade, das memórias e das conexões que faziam parte de quem ele é. Anselmo, com sua paciência habitual, permanece ao lado de Plínio, permitindo-lhe processar essa nova realidade. Depois de um tempo, o jardineiro o convida para sua casa, onde compartilham uma refeição simples, mas cheia de simbolismo e afeto.

O ápice emocional do filme ocorre quando, após o almoço, Plínio presenteia Anselmo com uma pequena casinha de madeira que ele mesmo esculpiu. Ao receber o presente, Anselmo o coloca em uma estante já repleta de casinhas idênticas. Esse momento revela uma verdade impactante: a jornada de Plínio não é única, mas parte de um ciclo que ele já percorreu diversas vezes, sem lembrança de que isso já tinha ocorrido antes. A coleção de casinhas que Anselmo acumula simboliza a repetição desse ritual de esquecimento e reencontro, indicando que, apesar de sua aparente lucidez, Plínio está preso a um ciclo de memórias fragmentadas.

A atuação de Lima Duarte como Plínio é um espetáculo de sensibilidade. Ele transita entre momentos de lucidez e dor com uma sutileza notável, demonstrando o sofrimento silencioso de alguém que luta para preservar sua dignidade em meio à sensação de abandono. Guilherme Rodio, no papel de Anselmo, traz uma serenidade acolhedora, atuando como um contraponto necessário à turbulência emocional de Plínio. Seu personagem é a âncora de calma e compaixão, sugerindo, sem precisar dizer, que existe uma profunda conexão entre os dois homens. Essa ligação, que o filme nunca esclarece completamente, deixa o público com a dúvida: será Anselmo apenas um cuidador atencioso ou há uma relação mais íntima, talvez familiar, entre eles?

A direção de arte e a fotografia são igualmente impecáveis. As cores suaves, quase desbotadas, e a iluminação difusa criam a atmosfera melancólica e nostálgica que permeia o filme, reforçando a sensação de perda e o peso do tempo. Já a trilha sonora, sutil e discreta, acompanha as cenas com delicadeza, amplificando o impacto emocional dos momentos-chaves sem jamais se sobrepor à narrativa.        

"A Volta Para Casa" é uma meditação profunda sobre o envelhecimento, a memória e o valor das conexões humanas. Plínio, com sua casinha de madeira, tenta se agarrar ao que ainda resta de sua identidade e de suas lembranças, enquanto Anselmo, com sua paciência e cuidado, representa a esperança de que, mesmo em meio à perda e ao esquecimento, há espaço para gestos de gentileza e empatia. O filme nos convida a refletir sobre a finitude da vida e sobre como podemos lidar com a passagem do tempo — não com respostas, mas com solidariedade e aceitação.




sábado, 31 de maio de 2025

INSPIRAÇÃO (2012)


           Vencedor do "Make it Short", festival internacional de curtas-metragens destinados a jovens diretores, realizado pelo ator e produtor Antonio Banderas em busca dos melhores roteiros para suas fragrâncias, “Inspiração” narra parte da vida de Maria, quando ela passa a demonstrar interesse por uma pessoa que encontra no elevador do prédio onde trabalha.

Em meio a agitação da cidade e o vai e vem no saguão do prédio, Maria se vê sozinha com Carlos dentro do elevador. A narração em Voice-over é essencial para a condução da trama, transmitindo os sentimentos, expectativas e indagações da nossa protagonista, muito bem interpretada por Isabella Lemos. O elenco ainda conta com Roberto Lacava, no papel de Carlos, e André Santi, num papel secundário, mas não menos importante para o desenvolvimento da trama.

         Maria passa por uma transformação, na tentativa de ser notada por Carlos. Porém, ela desperta a atenção de outros homens e não conseguindo atingir seu objetivo.

         A carga de humor do filme é muito bem dosada, tanto através da narração da protagonista quanto pelos eventos que ocorrem no decorrer do curta. O diretor e roteirista Vitor Coldibelli, consegue extrair o máximo do texto, contribuindo para a afinidade criada entre personagens e público. O argumento é de Vitor Coldibelli e Roberto Lacava.

         Apesar de ser uma Comédia Romântica, o filme levanta questões importantes sobre aceitação e a forma como algumas relações podem se iniciar, não por uma mudança física no visual, mas por uma atitude. Maria se questionou sobre vários pontos que podem trazer inseguranças para algumas pessoas quando o assunto é demonstrar interesse por alguém e esperar que esse interesse seja correspondido. Porém, são outros atributos que podem decidir sobre o destino.

             Com elementos técnicos de produção muito bem executados, “Inspiração” conta com uma ótima direção de fotografia, arte e trilha sonora na medida certa. Tudo contribui para a construção de um universo real e natural, apresentado em cena. Tanto em relação a elementos técnicos, narrativos e dramáticos, “Inspiração” tem uma qualidade inquestionável, tendo em seus pouco menos de 8 minutos, um desenvolvimento gradual e que agrada pela sua eficiência e dinamismo.

         “Inspiração” é um ótimo exemplo de como roteiro e elementos técnicos podem resultar numa excelente experiência no audiovisual em curta-metragem. É um filme leve, com camadas importantes e que fascina ao mesmo tempo que diverte.




sexta-feira, 28 de março de 2025

LANDAU 66 (2008)

 








A chuva intensa não impede dois jovens de saírem para curtir a noite. Dentro do Landau ano 1966, os dois amigos planejam como será a noite. Porém, tudo muda quando passam por um homem na estrada que pede carona. Eles preferem não ajudar o homem, mas o carro tem um problema mecânico e para alguns metros à frente.

         “Landau 66” é um Suspense de primeira que, através de uma narrativa fluida, consegue manter o ritmo, mesmo com o filme se passando dentro do veículo. Aí, destaca-se os méritos tanto do texto, quanto da competente direção de Fernando Sanches, que com recursos técnicos muito interessantes, cria uma atmosfera tensa, logo após a pane no veículo, e que fica ainda mais pesada quando o enigmático carona entra no veículo.

         Logo após passarem pelo ponto onde o homem pede carona, o veículo para de funcionar imediatamente. Porém, ao explicarem que não tinham a intenção de dar carona, o homem pede para que abram o capô. Ele mexe em algo e, surpreendentemente, o veículo volta a funcionar. Isso faz com que os jovens se sintam na obrigação de levar o homem de carona.

        A conversa entre eles flui naturalmente e, sentindo-se à vontade com a presença do carona, iniciam um bate-papo à base de maconha e cerveja.

         É interessante notar que o excelente roteiro de J.M. Trevisan, vai soltando algumas pistas de algo ali não está normal. O motorista, filho do dono do Landau, parece não estar confortável, enquanto os outros dois bebem, fumam e conversam sobre garotas, noitadas, distrações.

          Pedro Carvalho, Ricardo Gelli e Victor Ribeiro têm atuações monstruosas, que, através do entrosamento deles, vai ditando o grau de tensão dentro do carro. E de papo em papo, a conversa chega num assunto que muda o destino de todos eles. Em seu clímax, “Landau 66” consegue elevar a tensão para o seu nível máximo, insinuando que algo sobrenatural possa estar afetando o comportamento dos jovens.

        “Landau 66” é um Suspense potente e surpreendente. Com ótimos elementos narrativos, dramáticos e técnicos, o filme intriga, fascina e impacta, com uma resolução final memorável.




terça-feira, 25 de março de 2025

A RUA DAS CASAS SURDAS (2016)

 







Com direção e roteiro de Flávio Costa e Gabriel Mayer, “A Rua das Casas Surdas” se passa na década de 1970. Numa vizinhança tranquila, Carlos e Ernesto estão no trabalho e acompanham a transmissão de uma partida de futebol. Logo que o jogo entre no intervalo, eles decidem voltar ao trabalho.

         “A Rua das Casas Surdas” trabalha com ótimos elementos dramáticos e narrativos. A trama é fluida, com o seu desenrolar sobre assuntos de futebol e curiosidades sobre baratas, que incomodam os protagonistas.

         A direção de arte fez um trabalho incrível de ambientação, com objetos e móveis e também na parte de figurino. E a equipe está atenta a todos os detalhes, pontuando todos os elementos que são necessários para impactar o espectador.

       Outro detalhe bastante interessante é a forma como Carlos e Ernesto dialogam, tanto quando o assunto é futebol, quanto quando o assunto parte para um lado mais obscuro e sádico, com Ernesto explicando sobre a sua experiência em retirar a cabeça de uma barata e ver a mesma sobreviver (e sofrer) por uma semana. A direção é certeira em demonstrar a naturalidade com que os protagonistas enxergam o trabalho. E isto é muito impactante, pois, ao descerem para o subsolo do imóvel, agem tranquilamente, como aquilo sendo algo rotineiro e comum.

          A forma como a narrativa transita entre os atos é de uma competência fora de série. Os únicos sons audíveis são, no primeiro ato, a transmissão do jogo e os diálogos dos personagens. Os diálogos são calmos e pausados, não demonstrando sentimentos de empatia ou compaixão por parte dos dois colegas de trabalho. Entre a ida para o subsolo e a preparação para a execução do trabalho, o que impera é o silêncio. E, uma vez que se abre uma porta e gritos são iniciados, o filme tem a resolução final surpreendente e chocante. Com a porta entreaberta ainda é possível ouvir o que acontece. Logo que ela é fechada, o silêncio volta a imperar.

         “A Rua das Casas Surdas” traz a reflexão sobre como alguns órgãos ligados à ditadura militar funcionavam e como impactavam a sociedade. A vizinhança sabia ou não sobre o que acontecia naquele local? Se soubesse, seria mais prudente fingir que não sabia?

         Um dos grandes acertos do filme é não explicitar a violência, deixando com que o som falasse por si só. Da mesma forma que a vizinhança não via o que acontecia, o espectador também não vê. O espectador somente ouve alguns instantes sobre o que acontece no local. Provavelmente, alguns moradores poderiam escutar algo, assim como o espectador. Porém, num período ditatorial, seria natural não procurar saber a origem ou detalhes dos sons vindos daquele imóvel.

              Outro detalhe extremamente pontual é o documento na lixeira, que diz muito sobre o destino do personagem que está no subsolo. A imagem é muito forte, pois, antecipa o destino desse personagem e toda a angústia que amigos e parentes terão posteriormente.

         “A Rua das Casas Surdas” tem um trabalho impecável de fotografia, som, trilha sonora e montagem. Todos os elementos técnicos são fundamentais para a realização de um curta que transita entre o Drama e o Thriller de uma forma impressionante, causando diversos tipos de sentimentos, quando a verdadeira face do trabalho de Carlos e Ernesto é exposta.

         Com atuações impecáveis de João França e Evandro Soldatelli, nos papéis dos protagonistas, “A Rua das Casas Surdas” conta ainda com Rafael Franskowiak, Léo Tietboehl e Luis Fernando da Silva Bettio no elenco.

         “A Rua das Casas Surdas” é um filme forte, impactante e reflexivo, pois leva o espectador a refletir sobre como muitos órgãos de repressão agiam e como muitas vidas foram afetadas durante a ditadura militar brasileira.




domingo, 9 de março de 2025

LARVAE (2015)





Em uma isolada e pacata propriedade rural, um agricultor começa a ser atormentado por um zumbido incessante e dores intensas em seu ouvido. À medida que o incômodo cresce, ele decide investigar o problema por conta própria e descobre uma larva que havia se alojado em seu ouvido. Acreditando que teria resolvido a questão, ele se tranquiliza momentaneamente. No entanto, as dores e o zumbido retornam de forma ainda mais intensa, levando-o a procurar um médico. Após a consulta, o diagnóstico é tão assustador quanto a situação: uma mosca havia entrado em seu ouvido e depositado uma quantidade significativa de ovos. O médico retira diversas larvas, mas mesmo com a intervenção, o agricultor descobre que a solução definitiva para seu problema exigiria uma consulta com um especialista, algo que poderia levar muito tempo. Com o tormento aumentando e a espera se tornando insuportável, o protagonista começa a perder o controle sobre si mesmo, culminando em uma atitude desesperada e insana que encerra o filme de maneira perturbadora.

O curta-metragem "Larvae", dirigido e roteirizado por Felipe M. Guerra, é uma obra de Terror que se destaca pela combinação eficiente de elementos dos subgêneros Trash e Gore. Desde o início, o filme se propõe a mergulhar o espectador na experiência agoniante do protagonista, utilizando recursos visuais e sonoros que intensificam o desconforto. A estética visual é construída com grande competência através do uso de efeitos práticos, que criam uma atmosfera grotesca e visceral. O espectador é confrontado com cenas gráficas e explícitas, que exibem o sofrimento físico do personagem com uma crueza impressionante. O sangue, as larvas e o constante foco no ouvido do protagonista são elementos que reforçam a tensão, aproximando o público do terror que o personagem vive.

A direção de Felipe M. Guerra demonstra uma habilidade ímpar em orquestrar o desconforto, criando uma crescente de angústia ao longo da trama. A escolha de planos e ângulos de câmera é essencial para essa construção. No início do curta, prevalecem ângulos mais abertos, que contextualizam o ambiente rural e a rotina solitária do agricultor. Contudo, conforme o tormento avança, a câmera se aproxima do protagonista, com planos fechados e invasivos que amplificam a dor e a sensação de perturbação do personagem. Essa transição é acompanhada por uma trilha sonora cuidadosamente construída para evocar tensão e desconforto. Os sons perturbadores, como o zumbido no ouvido e o barulho das larvas, são trabalhados de forma a intensificar a angústia do espectador, criando uma imersão sensorial que vai além do visual.

Além dos aspectos técnicos, é necessário destacar o trabalho do elenco, que contribui significativamente para o impacto dramático de "Larvae". Renoaldo Pavan, que interpreta o agricultor protagonista, oferece uma atuação impressionante. Sem muitos diálogos, ele transmite a crescente agonia de seu personagem através de expressões faciais e corporais. A forma como o medo, o desespero e a loucura vão se apoderando dele ao longo da narrativa é um dos pontos altos do filme. O elenco coadjuvante, composto por José Carlos Ribeiro e Oldina do Monte, também entrega performances convincentes, reforçando a veracidade das interações e elevando o nível da produção.

O roteiro de Felipe M. Guerra é outro fator de destaque. Embora a premissa de uma infestação de larvas no ouvido seja, por si só, uma ideia perturbadora, o desenvolvimento da trama vai além do terror físico, abordando também o impacto psicológico do sofrimento prolongado e da espera por uma solução. A narrativa explora como a dor constante pode levar uma pessoa à beira da insanidade, tornando o protagonista vulnerável a atos extremos. O filme não oferece um alívio fácil para o espectador; ao contrário, ele mantém a tensão até o final, culminando em uma resolução brutal e chocante.

A fotografia desempenha um papel crucial na construção do clima do filme. Com um cuidado estético, combinado com a direção de arte detalhada, cria uma atmosfera opressiva que é mantida do início ao fim.

Outro ponto que merece ser ressaltado é o uso do som em "Larvae". O design sonoro do filme é tão importante quanto os elementos visuais. Os zumbidos, o barulho das larvas e os sons ambientes são usados de forma estratégica para amplificar o horror e criar uma experiência sensorial completa. É uma obra que explora o desconforto de maneira minuciosa, fazendo com que o espectador sinta fisicamente o tormento vivido pelo protagonista.

A sequência final de "Larvae" é, sem dúvida, um dos momentos mais impactantes do filme. Incapaz de suportar a dor e o tormento mental, o protagonista toma uma decisão desesperada que culmina em um ato de surpreendente. O desfecho é brutal e não oferece qualquer tipo de resolução confortável, deixando o espectador atordoado e reflexivo. A escolha de encerrar o filme dessa forma é ousada e reforça a natureza perturbadora do curta, tornando-o uma obra que não é recomendada para espectadores sensíveis, especialmente aqueles que podem ser afetados por temas de autolesão e desespero.

"Larvae" é uma obra de Terror que se destaca pela sua ousadia e pela capacidade de gerar desconforto genuíno. Com uma trama simples, mas muito bem executada, o curta-metragem utiliza os elementos clássicos do Gore e do Trash para construir uma experiência visceral, onde os aspectos técnicos, como a direção de arte, os efeitos práticos e o design de som, trabalham em perfeita harmonia para criar uma atmosfera de horror intenso. O resultado é um filme perturbador, que deixa uma forte impressão e é especialmente recomendado para os fãs do gênero que apreciam obras carregadas de tensão e brutalidade visual. "Larvae" é uma experiência única dentro do Terror Trash e Gore, e merece ser destacado pela qualidade com que entrega seu impacto dramático e sua originalidade.   



   

O DIA DE JERUSA (2014)

            Com direção e roteiro de Viviane Ferreira, “O Dia de Jerusa” é um sensível e adorável Drama, protagonizado por Léa Garcia e Débo...