sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

PEIXE VERMELHO (2009)

 








Com roteiro de Matt Palasz e Andreia Vigo, "Peixe Vermelho" é um curta-metragem de Suspense e Mistério que desafia os sentidos e leva o espectador a uma jornada intensa, onde a apreensão e a angústia estão sempre no ápice. A obra se destaca pela sua narrativa não linear e ousada, conduzida com maestria pela diretora Andreia Vigo, que cria um filme ao mesmo tempo fascinante e profundamente perturbador.

A trama gira em torno da protagonista, vivida por Carina Dias, que entrega uma atuação imersiva e cheia de nuances. A personagem nos conduz por uma trama intrincada e emocionalmente densa, marcada pelo desaparecimento de seu namorado, interpretado por Rafael Sieg. O mistério ao redor desse sumiço é o ponto central da narrativa, mas o verdadeiro destaque do curta é a maneira como a história se desdobra, não apenas através dos eventos concretos, mas também pelos fragmentos da mente atormentada da protagonista.

O filme tem uma atmosfera carregada de tensão, onde a confusão e o desconforto são elementos constantes. A cada cena, somos levados a adentrar os pensamentos fragmentados e as lembranças difusas da protagonista, que luta para entender o que aconteceu com o namorado e com ela própria. No entanto, conforme ela mergulha mais fundo em suas próprias memórias, parece afundar também em uma espiral de loucura, questionando a própria sanidade. A sensação é de estar preso em uma areia movediça mental, onde cada tentativa de compreensão leva a uma maior desorientação.

Com claras influências do cinema de David Lynch, "Peixe Vermelho" abraça o surrealismo e o bizarro de maneira brilhante. A estética visual e a narrativa lembram as obras mais emblemáticas do cineasta, trazendo à tona questionamentos sobre o que é real e o que pode ser fruto da imaginação da protagonista. O próprio Lynch faz uma participação mais do que especial no curta, interpretando o misterioso personagem "The Knowledgeable One", adicionando ainda mais camadas à trama.

Os cenários do filme reforçam a sensação de deslocamento e desconexão da protagonista. Em lugares como um parque de diversões vazio, um trailer, um hotel ou até dentro de um táxi, a personagem nunca parece realmente pertencente a qualquer espaço. É como se ela estivesse presa entre dois mundos, flutuando em uma realidade distorcida e imprevisível, onde o espectador é convidado a se perder junto com ela. Essa ambiguidade narrativa é um dos grandes trunfos do filme, pois levanta a dúvida: até que ponto estamos vendo a realidade? Ou estamos imersos nas alucinações e devaneios da protagonista?

A trilha sonora, a fotografia e a direção de arte de "Peixe Vermelho" trabalham em total sintonia para criar uma experiência visual e sonora impactante. A fotografia parece se comportar de acordo com o local onde a protagonista está; ora com movimentos lentos e contidos, ora com movimentos rápidos e confusos. A montagem fragmentada intensifica a atmosfera onírica, contribuindo para o caráter enigmático do curta. A trilha sonora, por sua vez, pontua os momentos de maior tensão e reforça o sentimento de inquietação que permeia o filme.

Com sua abordagem inovadora e envolvente, "Peixe Vermelho" é uma obra que não só entretém, mas também provoca reflexão. Ao manter o espectador sempre no limite entre o real e o imaginário, o filme cria uma experiência profundamente imersiva, onde as respostas não são entregues de maneira fácil. Ao contrário, cabe ao público questionar e especular sobre os mistérios apresentados, mergulhando nas múltiplas camadas dessa narrativa complexa.

O resultado é um curta provocador e instigante, que desperta sensações viscerais e permanece com o espectador por muito tempo. Com elementos técnicos impecáveis e uma história que desafia as convenções do gênero, "Peixe Vermelho" se estabelece como uma obra essencial para os amantes do cinema de Mistério e Suspense, oferecendo uma experiência única e inesquecível.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

ESTRADA (1998)

 









Com roteiro e direção de Beto Sporkens, “Estrada” narra a situação de duas jovens que ficam perdidas no meio da estrada após o carro quebrar. Sem outra opção, elas precisam pedir carona. Elas se veem correndo risco quando um carro, com três homens dentro, para e oferece a carona.

         “Estrada” é um filme muito bem elaborado e executado. A tensão criada pelo diretor sugere que o perigo ronda as duas garotas e a qualquer momento algo de ruim pode acontecer com elas.

          A trilha sonora tem um papel fundamental, mesclando os sons diegéticos do motor e do rádio, com uma música que eleva o clima de tensão que paira dentro do veículo.

Já a direção de fotografia acertou em cheio, ao fazer uso da câmera subjetiva, com as personagens observando todos os movimentos dos três homens. Os enquadramentos fechados, mostrando meticulosamente os movimentos de cada um é extremamente eficaz para amplificar o temor das jovens em relação aos três homens.

Outro aspecto técnico interessante é a montagem, que consegue, a cada curva ou aceleração do veículo em trechos sinuosos da estrada, apresentar o perigo como algo que está muito próximo.

“Estrada” tem em sua narrativa um ponto fortíssimo, ao construir uma atmosfera de tensão com nenhum diálogo dentro do veículo. Os homens se mantêm calados. As garotas apresentam expressões de angústia e apreensão. É visível que elas se arrependeram de terem entrado naquele carro. Aqui, o mérito é do elenco, que consegue mexer com os sentimentos do espectador, sempre aumentando a tensão à medida que a trama corre. Patricia de Sabrit, Elisa Nunes, Rogério de Moura, Frank Mora e Henrique Rodriguez, têm atuações maiúsculas sem precisar falar nada.

“Estrada” tem uma resolução final surpreendente, onde acontece uma revelação de como podemos criar os nossos próprios medos e apreensões a partir de prejulgamentos. O filme leva o espectador a refletir sobre como podemos identificar falsamente padrões que se apresentam como ameaças.

Ao embarcarmos no veículo, através da perspectiva das protagonistas, passamos a sentir o que elas sentem e presumir o que elas supõem. Caronas podem ser perigosas, tanto para motoristas quanto para quem pede, justamente por não sabermos quem é a outra pessoa. Porém, no caso de “Estrada”, o filme nos chama para uma reflexão muito mais ampla sobre os conceitos da sociedade atual e de que certos estereótipos precisam ser quebrados.

“Estrada” é um filme de Suspense com ótimos elementos técnicos e narrativos. É uma obra com várias camadas, que podem gerar várias reflexões sobre velhos preconceitos e tensões sociais ainda existentes.




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

A ILHA (2007)

 









“A Ilha”, produzida por Mário Lellis e Roger Burdino e com roteiro e direção de Alê Camargo, narra a impressionante história de um jovem que anda pelo centro de uma grande cidade e, de repente, se vê preso a uma situação inusitada.

         Entre o movimento de pessoas e carros, o jovem protagonista percebe que seu celular está com a bateria prestes a descarregar. Observa que, do outro lado de uma avenida, há um telefone público. A sua aventura começa ao atravessar a, até então, pouco movimentada avenida, que se transforma num caos de veículos em alta velocidade. O jovem pula e consegue alcançar uma ilha de trânsito que divide a enorme avenida.

         O jovem tenta escapar da ilha, porém, suas tentativas são frustradas por velozes e perigosos veículos que transitam nos dois sentidos.

            Com uma narrativa fluida e divertida, dividida em capítulos, “A Ilha” mostra a adaptação do jovem naquele espaço restrito, onde é completamente ignorado por motoristas que vem e vão. O filme faz uma crítica de como a cidade, com seus fluxos e movimentos, engolem as cidades e transformam pessoas em seres invisíveis em meio à multidão. O jovem está ali, precisando sair da ilha, mas todos estão muito ocupados consigo mesmos, dirigindo os seus carros e ignorando a existência do jovem. O isolamento do jovem transmite a sensação que, mesmo numa cidade grande, ele está desconectado do todo. E isso ocorre também com os motoristas, que apenas seguem o fluxo, indo ou voltando do trabalho, tendo como objetivo apenas chegar o mais rápido possível em seus destinos. O trânsito caótico contrasta com a “vida” do jovem, preso e sem alternativas.

         Uma das grandes críticas contida em “A Ilha” reside também ao individualismo exacerbado da sociedade moderna. Quantas vezes o protagonista já deve ter passado pelo local e nunca prestou atenção em alguém que estivesse preso na ilha? Quantas vezes ignoramos os problemas visíveis de pessoas no centro da cidade e ignoramos, ou porque não temos tempo ou simplesmente porque a vida alheia não é da nossa conta?

         “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós”. A citação inicial do conto de José Saramago deve ser refletida junto com a imersão do espectador nesse curta-metragem. Muitas vezes só damos importância aos problemas de outras pessoas após passarmos por algum problema parecido. Ao conseguir sair da ilha, o jovem sai transformado e passa a ter uma nova percepção de si, e também, um novo entendimento sobre o mundo. Passados alguns dias na ilha, agora ele tem como enxergar coisas que não eram possíveis, justamente pelo fato de até então ter tido uma vida limitada somente ao seu mundo. Entrar e sair da ilha fazem parte de um aprendizado de autoconhecimento e compreensão do mundo.

         “A Ilha” tem elementos técnicos perfeitos, contribuindo para uma narrativa coesa e intensa. O filme tem todos os predicados necessários para uma obra que puxa o espectador pelo braço para uma reflexão de muito mais do que aparece em tela. “A Ilha” é um filme que alterna cenas de humor, num cenário dramático e de aflição. É uma animação de alto nível e que merece ser vista e revista muitas vezes.

           "A Ilha" está disponível no Porta Curtas

UM BRANCO SÚBITO (2002)







O curta-metragem “Um Branco Súbito”, que tem direção, produção e roteiro de Ricardo Mehedff, é um excelente representante brasileiro do subgênero “Mindfuck”. O excelente texto possibilita um grau de tensão elevado, o que garante uma ótima experiência para quem curte esse tipo de Suspense e gosta de tramas complexas.

Em tela, temos a ótima atuação de Bruce Gomlevsky, que interpreta um escritor que sofre com um bloqueio criativo. Ele tenta escrever, porém, é interrompido pelo toque da campainha. Pelo olho mágico, ele enxerga somente o olho da pessoa que tocou a campainha, sem ter como identificar a pessoa que passa a atormentá-lo.

É muito importante reparar que, mesmo antes do toque da campainha, a situação do cômodo onde o protagonista diz muito sobre o seu estado emocional e psicológico. A bagunça do local é um reflexo do seu estado mental. O bloqueio criativo pode ser destrutivo para algumas pessoas que tem na escrita o seu meio de ganhar dinheiro.

“Um Branco Súbito” tem uma narrativa coesa e complexa. O diálogo que ocorre na porta e as atitudes que o protagonista decide tomar ditam o ritmo da trama, mantendo um tom de expectativa e apreensão. E tudo corre de maneira fluida e surpreendente.

Além da narrativa e do excelente arco dramático, “Um Branco Súbito” se destaca também pelos seus aspectos técnicos de produção, com um excelente trabalho de fotografia, arte, montagem e trilha sonora. A combinação perfeita desses elementos causa ainda mais impacto numa narrativa densa, tensa e perturbadora.

Sobre a personalidade do protagonista, existem várias camadas que podem explicar o que houve (ou não). O cansaço físico e mental pode explicar o que acontece no desenrolar da trama. “Um Branco Súbito” abre margens para interpretações, o que faz dele uma experiência única. Especular sobre a sanidade mental de um personagem num filme de Suspense é uma tarefa maravilhosa que a equipe criativa deixa para o espectador. Será que o toque na campainha no início do filme foi o primeiro? Se foi, quanto tempo faz que o protagonista vive nesse looping? Essas são algumas perguntas que podem ser feitas, além de várias outras que podem surgir na cabeça de quem assiste ao filme.

“Um Branco Súbito” explora de forma muito inteligente o elemento imprevisibilidade. O diálogo que acontece, tendo a porta entre o escritor e quem tocou a campainha, como um simbolismo para o bloqueio criativo. Uma porta que não se abre e a insistência para que a mesma seja aberta talvez seja o maior conflito para o escritor que, em algum momento vai conseguir destravar a sua criatividade. Enquanto isso, ele convive com seus próprios demônios que o interrompem, atrapalham e o perturbam.


"Um Branco Súbito" está disponível no Embaúba Play: https://embaubaplay.com/catalogo/um-branco-subito/

domingo, 2 de fevereiro de 2025

RAIVA ESTRUTURAL (2025)









Insatisfeito e furioso com o chefe, Leonardo, decide acertar as contas com o patrão, Marcos. Dessa forma, ele demonstra toda a sua raiva estrutural que sente pelo seu superior.

         “Raiva Estrutural” tem elementos técnicos de produção muito bem elaborados. Fotografia e montagem são um show à parte, garantindo um trabalho visual extremamente agradável. As cenas de ação são muito bem realizadas, tanto pelas técnicas da direção de fotografia de Rodney Gonzaga, que também é o roteirista e diretor do curta, quanto pelas atuações perfeitas de Angelo Matos e Emerson Silva, que interpretam funcionário e patrão, respectivamente.

         “Raiva Estrutural” tem uma narrativa fluida e uma coesão dramática muito eficiente, principalmente quando a direção decide revelar sobre o conteúdo do filme. Eu me preparei para um Suspense e adorei a forma como fui surpreendido ao ver o filme tomar rumo para outros gêneros.

           O filme tem um excelente texto à disposição e extrai o máximo possível, seja pelos diálogos dos personagens ou pelas suas ações. Vemos em tela a “luta de classes” ao vive e em preto e branco. Essa quebra de expectativa é incrível. Em seu primeiro ato, a trama nos convida para um Thriller. De repente, estamos assistindo uma Comédia insana com muitos elementos dos filmes de Ação.

          Rodney Gonzaga demonstra grande habilidade e competência ao brincar com esses gêneros cinematográficos. O diretor entrega ao público um filme empolgante, divertido e surpreendente.

         “Raiva Estrutural” com certeza é um filme que é capaz de agradar a todos os públicos, primeiro por ser uma excelente produção, com aspectos técnicos muito bem utilizados, e segundo, pelo fato do filme se permitir ser uma mescla maravilhosa de Comédia e Ação. 




sábado, 1 de fevereiro de 2025

NÃO É PERMITIDO: UM RECORTE DA CENSURA AO PUNK ROCK NO BRASIL (2025)

 








O Documentário em curta-metragem apresenta a conjuntura social e política do Brasil quando da explosão do cenário Punk no Brasil. “Não é Permitido: Um Recorte da Censura ao Punk Rock no Brasil” destaca como os órgãos governamentais de censura atuavam, proibindo trechos ou músicas inteiras de serem lançadas.

         O movimento Punk surgiu em meados dos anos 1970 na Inglaterra e Estado Unidos e se espalhou rapidamente por outros países. No Brasil, o movimento teve forte adesão de jovens das periferias das grandes cidades, tendo São Paulo como o epicentro do movimento no Brasil. Não só as músicas punks foram censuradas; jovens que formaram as primeiras bandas tinham apresentações proibidas e constantemente eram detidos.

         O movimento Punk, contestador por natureza, incomodou demais o sistema ditatorial que vigorava no Brasil, violando direitos básicos, inclusive a liberdade de expressão. Se grandes nomes da MPB foram reprimidos, presos e censurados, devidos às suas canções com mensagens implícitas, com os punks não seria diferente, pois as letras eram agressivas e sagazes. Se por um lado, artistas consagrados tinham como se exilar em outros países, os jovens punks estavam sujeitos à violência institucionalizada nas ruas e becos das periferias.

          Com um excelente trabalho de pesquisa, realizado por Fernando Calderan Pinto da Fonseca e Renan Costa de Negri, “Não é Permitido” é um importante documento histórico do Brasil que vivia na ditadura e via surgir um potente movimento de rebeldia contra a repressão do regime.

           Com direção e produção de Fernando Calderan Pinto da Fonseca, Fernando Luiz Bovo, Matheus de Moraes e Renan Costa de Negri, o curta conta com os depoimentos de vários membros das primeiras bandas de Punk Rock brasileira; João Carlos Molina Esteves (Jão), Vladimir de Oliveira (Vlad), Ariel Uliana Junior, Clemente Tadeu Nascimento, Carlos Mariano Lopes Pozzi (Pierre), Valdemir Pinheiro (Val) e Jose Rodrigues Mao Junior (Mao) são entrevistados e contribuem para a contextualização, tanto do regime e repressão, quanto do cenário artístico e musical.

         Nana Leme desempenha um trabalho excepcional na direção de fotografia, reunindo imagens de arquivos, fichas de censuras e entrevistas. Outros elementos técnicos de destaque são a montagem e trilha sonora, que mesclam muito bem imagens e músicas, e contextualizando o espectador no período retratado.

         Assim como centenas de artistas da música, cinema, teatro, etc, os jovens punks dos anos 1970, tiveram seus trabalhos prejudicados pela censura prévia, que interferia diretamente nas mensagens de seus trabalhos. Embora a ditadura tenha acabado em 1985 com a posse de José Sarney, a censura prévia no Brasil terminou oficialmente com a promulgação da Constituição de 1988, que restaurou a plena liberdade de expressão e de imprensa no país. O artigo 5º, inciso IX, da Constituição Federal, garante que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".

         “Não é Permitido: Um Recorte da Censura ao Punk Rock no Brasil” é um Documentário essencial para se compreender a importância do movimento Punk no Brasil, marcando a arte musical na forma de contestação e resistência contra o regime militar. 




quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

UM ANIMAL MENOR (2009)

 


       






        

        Carregando uma profunda carga alegórica, “Um Animal Menor” tem, desde o seu início uma atmosfera densa, opressora e claustrofóbica. Uma mulher desperta ferida dentro de um poço. Sem saber como foi parar ali, passa a ter a companhia de José, um garoto que surge do lado de fora do poço e lhe promete trazer ajuda.

         Antes de mais nada, é necessário enfatizar as ótimas atuações de Elisa Volpatto e Jorge Júnior. O entrosamento da dupla é um destaque extremamente positivo para a construção do enredo.

         Com roteiro e direção de Marcos E. Contreras e Pedro Harres, “Um Animal Menor” leva o espectador para uma profunda imersão num universo psicológico complexo e cheio de simbolismos. A trama, aparentemente simples, envolve uma gama de camadas e significados que se revelam ao longo do curta.

            A relação de opressão a que José sujeita a mulher tem elementos subjetivos e interpretativos. Porém, o relacionamento entre eles é abusivo e tóxico. E os realizadores exploram muito bem os labirintos da mente humana, tanto na figura do opressor quanto na do oprimido.

         Assim como a protagonista, não sabemos como ela foi parar no poço, um espaço escuro e claustrofóbico, assim como o estado mental de uma pessoa que vive num relacionamento tóxico e abusivo. José promete tirar-lhe daquela situação. Em alguns momentos, onde oferece comida e remédios, ele brinca com a corda, baixando e levantando, se divertindo com o sofrimento da mulher. Se, por um lado, isso parece ser apenas uma brincadeira de uma criança, por outro, na alegoria criada pelos realizadores, revela de forma contundente uma relação de poder e posse de um lado e de impotência do outro.

          Um dos grandes acertos de “Um Animal Menor” é a ausência de respostas. O filme, por si só, já revela muito sobre a condição humana dentro de uma relação nada saudável. Os machucados da protagonista não apareceram do nada. A forma de implorar por comida e, pouco tempo depois, o estado de revolta são reações possíveis, partindo de uma pessoa que vive presa numa situação de relacionamento abusivo.

         Em termos técnicos, “Um Animal Menor” se destaca em todos os elementos. A fotografia, escura e densa não revela apenas o estado de isolamento físico da personagem dentro do poço, mas também o estado mental, isolado de pessoas que realmente possam ajudar. Juntamente com a fotografia, a equipe de arte fez um trabalho maravilhoso, fazendo do poço uma espécie de prisão física e mental.

         A trilha sonora é assertiva em deixar somente o som ambiente e os diálogos entre os personagens, contribuindo para a fluidez da trama. Outros elementos como montagem, figurino e maquiagem merecem destaques.

         “Um Animal Menor” é um filme pesado, tenso e com uma carga emocional incômoda e perturbadora. A dualidade na natureza do personagem José é revoltante, porém, faz parte de um abusador, que ora se comporta de maneira solidária, ora de maneira perversa. E o filme explora muito bem o texto, para destacar a solidariedade e a crueldade de José.

           Com uma linguagem visual rica e perturbadora, “Um Animal Menor” é um Suspense e Thriller psicológico capaz de despertar vários tipos de sentimentos no espectador e levar o mesmo a refletir sobre alguns tipos de relações interpessoais onde o abuso prevalece do sentimento de poder e de fragilização do outro. 


Assista "Um Animal Menor": https://vimeo.com/63974044

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O QUINTO POSTULADO (2006)

 







“O Quinto Postulado” é um filme de Suspense com direção de Rodrigo Grota, roteiro de José de Resende Júnior, e que tem no elenco Gustavo Torres, Suzana Proença e Apolo Theodoro.

Em seu início, a obra aborda a teoria proposta por Euclides, em seu livro “Os Elementos”, propõe a hipótese de que duas paralelas se cruzam no infinito. Essa teoria ficou conhecida como “o quinto postulado”.

O primeiro ato do curta segue um homem que trabalha na linha de produção e que encontra uma mulher desacordada num local abandonado, num ponto entre o seu trabalho e a sua residência. Após isso, a narrativa passa a ter contornos de tensão e thriller psicológico em volta do protagonista.

A trilha sonora tem um papel fundamental em todas as etapas do curta, pois num filme sem diálogos, o som precisa ditar junto com a fotografia os ritmos, as perturbações e os tormentos visuais que passam a fazer parte da vida do protagonista. E isso é feito de forma muito competente pela equipe de realizadores, levando o espectador a um estado de ansiedade sobre o que acontece e como acontece.

“O Quinto Postulado” trabalha com a ideia de temas filosóficos e abstratos, dentro de uma realidade perturbadora, também na questão de causa e efeito. O tormento do personagem se dá por suas atitudes e ele é obrigado a conviver com as consequências dos seus atos.

“O Quinto Postulado” é um filme questionador, provocativo, reflexivo e inquietante. A sua narrativa se afasta de forma sensacional de uma linha convencional, fazendo com que o espectador se perca nas dúvidas e propostas que surgem para o protagonista.




O PEREGRINO DE CATABRANCA (2018)


        







Baseado em “A Pata do Macaco”, de W.W. Jacobs, o curta, com roteiro e direção de Leonardo Rolla, apresenta um casal que vive num local isolado. Através de um viajante que passou pelo local, eles recebem uma caixa contendo três ovos mágicos, capaz de realizar seus desejos.

         “O Peregrino de Catabranca” tem atuações geniais de Doró Cross, Edmilson Cordeiro, que interpretam o casal e que se veem nos ovos possibilidades de resolverem alguns de seus problemas. O filme conta ainda com a participação de Carlos Eduardo Valente, que está na pele de um padre local e tem a difícil missão de comunicar sobre o atropelamento e morte do único filho do casal.

         Embora, “O Peregrino de Catabranca” seja um filme de Suspense e Terror, ele aborda de forma muito forte a questão do luto e do estado de negação diante da morte. Podendo recorrer a dois ovos restantes, o casal passa por um turbilhão emocional sobre trazer ou não o filho de volta ao mundo dos vivos. O drama psicológico envolvido carrega um peso enorme, e os realizadores acertam em cheio na escolha de ambientes escuros, com atmosfera densa e pesada, que reflete o estado mental e emocional dos personagens diante da tristeza e do luto.

         O curta conta com um trabalho primoroso da equipe de som na trilha sonora, com sons intrigantes e misteriosos, o que deixa o clima ainda mais carregado, principalmente no terceiro ato e na resolução final.

         O ambiente fechado e escuro, com alguns pontos clareados por velas, transmite a sensação de isolamento físico, mas também mental, diante da perda e do perigo que os personagens sofrem, ainda mais após o segundo ovo ser quebrado, com a intenção da volta do filho morto. Neste ponto, o filme tem um nível elevado de tensão, com uma mistura de sons que confundem. Além dos estalos da lenha que queima, há sons que podem indicar que o filho está de volta. Essa confusão de sons leva o espectador a altos níveis de curiosidade, suspense e medo.

         “O Peregrino de Catabranca” tem uma direção de arte extremamente eficiente em criar o ambiente onde o casal vive, com o rústico se destacando em meio à pobreza do casal. Além da qualidade narrativa, o curta tem elementos técnicos utilizados de forma perfeita, causando vários tipos de sentimentos no espectador. O Terror de “O Peregrino de Catabranca” é sensorial, levando quem assiste para dentro daquela realidade, sem mostrar exatamente, mas sugerindo, como o mal pode chegar até a residência do casal e como aquilo pode representar a destruição deles.




INFERNO (2013)

https://vimeo.com/groups/terroribero/videos/91624782









Um jovem desperta num lugar desconhecido devido aos ruídos de um rádio. O cômodo tem acesso para três portas que permanecem trancadas e, quando cada uma se abre, a sua experiência é de puro desespero.

         O processo de construção do personagem é extremamente positivo, pois o espectador inicia o filme dentro da confusão mental do protagonista, sem saber onde ele está, o que tem por trás das portas e nem como ele foi parar ali. “Inferno”, avança, apresentando gradualmente mais sobre o personagem e o lugar onde ele está. O filme não entrega tudo, abrindo margens para interpretações sobre a origem, o desenvolvimento e o final do filme.

        Com roteiro de João Marciano Neto e direção dele juntamente com Jorge Bonny, “Inferno” é o pesadelo sóbrio de um jovem que está preso a um local e que não sabemos desde quando ele está ali e se o primeiro despertar é, realmente, o primeiro.

         Interpretado por Pedro do Livramento, o protagonista tenta a todo curto escapar dali. Porém, o seu destino está traçado e a sua vida é despertar ali por várias vezes e sem outras alternativas. Ele está preso num espiral de desespero e sofrimento.

         Em muitos momentos, a fotografia faz uso de câmera fixa e enquadramentos que exploram o aprisionamento do local. E os detalhes do desespero do jovem naquela condição, revela também o estado mental perturbado dele. Ele não está preso somente fisicamente. Mentalmente, ele está numa prisão na qual ele mesmo se colocou.

            Com as aberturas das portas, fica evidente que as escolhas do jovem foram determinantes para ele terminar naquele local e viver e reviver aquela situação indefinidamente. O curta conta ainda com a participação de Anna Paiva, que dá a dimensão de que o protagonista ainda vai ter muito o que enfrentar naquele lugar.

         “Inferno” é um tipo de filme desafiador, tanto narrativamente quanto dramaticamente, porque precisa se justificar em dez minutos com apenas um personagem e um cômodo. Se, com um elenco de dois ou três personagens, o texto precisa ter muita qualidade, em “Inferno” o desafio é ainda maior. Daí, então o processo de imersão do espectador precisa ser feito de forma fluida e pontual. A equipe de produção consegue colocar o espectador dentro do ambiente e da mente do jovem, consumindo suas dúvidas e seus desesperos.

         Tecnicamente, “Inferno” é muito bem produzido, com fotografia, trilha sonora, arte e montagem trabalhando em alto nível e contribuindo para a coesão narrativa e dramática do filme. “Inferno” é um filme que intriga e perturba. É um Terror com forte apelo psicológico e que funciona muito bem.


Você pode assistir "Inferno" no Vimeo: https://vimeo.com/groups/terroribero/videos/91624782

O MAL QUE HABITA (2021)

            Com direção de Bruno Rapone, “O Mal que Habita” é um curta de Terror que mergulha no universo das possessões demoníacas por um c...