“Encosto” é um
curta que mescla os gêneros de Terror e Suspense, envolvendo um ritual proibido
realizado por um homem e as pavorosas consequências que o afligem.
Joel
Caetano, que dirige, roteiriza e atua, já não é uma promessa, mas uma realidade
no Terror nacional, com uma qualidade indiscutível na arte de impactar e
amedrontar o espectador. “Encosto” é mais uma obra na carreira desse talentosíssimo
profissional.
“Encosto”
é um filme onde os elementos técnicos, como fotografia, trilha sonora e arte,
atuam de forma altamente eficiente, colocando quem assiste junto do
protagonista e experimentando as perturbações dele. Ora com um plano mais aberto
e com sons mais distantes, ora com super closes e um som atordoante, a
narrativa se constrói de maneira a intensificar a conexão do público com as aflições
do protagonista.
O
filme tem, desde o seu início até a sua conclusão, uma atmosfera densa, pesada
e extremamente perturbadora. A maquiagem de efeitos, de Rodrigo Aragão, dá
ainda mais vida e pavor à realidade do protagonista e investindo pesado no
horror gráfico.
“Encosto”
trabalha com a premissa da invocação de uma entidade que não deveria ser
invocada. O filme transmite a reflexão sobre “desejar tudo a qualquer custo” e
as consequências que uma ação pode causar na vida de alguém. Se a entidade
invocada tem um preço, ela irá cobrar esse preço, mais cedo ou mais tarde. E o
protagonista não escapa dessa cobrança. Ir para casa e encontrar silêncio e
tranquilidade é apenas uma ilusão temporária.
“Encosto”
explora o horror gráfico do sobrenatural, mas também mergulha fundo no thriller
psicológico. Os pedidos do protagonista para que a entidade o deixe em paz são
em vão. E tudo o que já está ruim, sempre pode piorar.
O
curta de Joel Caetano tem uma estrutura narrativa coesa e um arco dramático
muito bem elaborado. Todos os elementos técnicos de produção funcionam de forma
harmônica e perfeita, tendo como resultado um filme de Terror maduro e
incrivelmente sinistro, aterrorizante e surpreendente.
O
curta-metragem “Anjos da Marquise” é uma adaptação primorosa do conto homônimo
presente no livro “Confraria dos Espadas”, de Rubem Fonseca, um dos grandes
nomes da literatura brasileira. Com roteiro de Paulo Miranda, com colaboração
de Márcio Tadeu, o curta consegue manter a essência da obra original, ao mesmo
tempo em que acrescenta uma camada mais emocional e visualmente impactante à
história, graças à direção competente e ao uso inteligente, principalmente da
trilha sonora e da fotografia.
Desde o
início, fica claro o cuidado na adaptação do conto. Poucas alterações foram
feitas em relação ao texto de Rubem Fonseca, e as que existem são justificadas
pela necessidade de transposição para o formato audiovisual. Essas mudanças não
apenas preservam a integridade da narrativa, mas também adicionam uma
profundidade emocional maior, intensificando as sensações que o espectador
experimenta ao acompanhar a jornada do protagonista. O equilíbrio entre
fidelidade ao texto original e a criatividade necessária para o cinema é um dos
grandes trunfos do filme.
A trama segue
a vida de Paiva, um homem recentemente viúvo, interpretado de forma brilhante
por Juca de Oliveira. Sua atuação é uma combinação rara de sutileza e
intensidade, capturando com perfeição a solidão e o vazio existencial que
dominam a vida de Paiva após a morte de sua esposa. A tristeza profunda do personagem
é refletida em cada detalhe da produção: os tons frios da fotografia, a
iluminação sombria e o ritmo pausado da narrativa contribuem para criar uma
atmosfera melancólica que praticamente transporta o público para dentro do
universo emocional de Paiva.
A vida apática
e sem propósito do protagonista começa a mudar quando, em uma de suas
caminhadas noturnas, ele avista uma ambulância que realiza trabalho social,
acolhendo moradores de rua. Movido por um misto de curiosidade e empatia, Paiva
se aproxima da equipe e deixa seu nome e telefone, expressando o desejo de
colaborar com aquele serviço de assistência. Sem receber retorno, ele passa a
vagar pelas ruas da cidade, em busca daquela mesma ambulância, determinado a
encontrar uma forma de contribuir para aquela causa. Quando finalmente consegue
reencontrá-la, sua atitude voluntariosa parece abrir um novo capítulo em sua
vida, ao menos momentaneamente.
O curta, assim
como o conto original, se constrói em torno dessa transformação interna do
protagonista, que, de espectador passivo de sua própria vida, passa a buscar
uma forma de se reconectar com o mundo. No entanto, essa jornada é abruptamente
interrompida por uma reviravolta inesperada e chocante. Tanto no conto quanto
no filme, o desfecho é impactante, mas o curta traz uma pequena alteração na
sequência final, que, longe de diluir a força do texto de Fonseca, consegue
adaptá-la ao formato visual, proporcionando uma experiência igualmente
desconfortável e impactante para o espectador. A cena final é poderosa e deixa
uma marca profunda, ao causar uma mistura de sentimentos que vão desde a raiva
até a dó.
Do ponto de
vista técnico, “Anjos da Marquise” brilha em diversos aspectos. A direção de
fotografia, com sua paleta de cores sombrias e o uso estratégico de filtros com
tonalidades pesadas, contribui para criar uma sensação constante de opressão e
isolamento, refletindo o estado emocional de Paiva. A trilha sonora, sutil, mas
eficaz, reforça o tom dramático e melancólico, sem nunca se sobrepor às
imagens. A montagem do filme é outro destaque, conduzindo o espectador com
fluidez através das mudanças de ritmo e tom da narrativa, e mantendo a tensão
necessária para sustentar o impacto da reviravolta final.
O elenco, além
de Juca de Oliveira, conta com ótimas performances de Joca Andreazza, Melissa
Vettore e Keila Mégda Blascke, todos contribuindo para dar vida aos personagens
com autenticidade e profundidade. Mesmo os papéis secundários, interpretados
por Roberto Faria dos Santos, Roberto Haathner, Adriano Vilas Boas, João
Rivaldo e Murilo Ferreira Inforsato, acrescentam camadas à história, mostrando
a atenção aos detalhes na construção de cada personagem.
Em seus 13
minutos, “Anjos da Marquise” não é apenas um filme de Suspense e Drama, mas
também uma obra que presta uma homenagem ao legado de Rubem Fonseca, um dos
maiores escritores brasileiros. Ao mesmo tempo em que revisita sua obra, o
curta traz à tona questões atemporais sobre a solidão, o desejo de
pertencimento e a fragilidade das relações humanas, proporcionando uma
experiência cinematográfica intensa e memorável.
Com direção de Yuri Amaral e Nalu
Béco, "Eletrotorpe" é um curta-metragem que se destaca pela
habilidade de criar uma narrativa onde universos aparentemente desconexos se
entrelaçam de maneira surpreendente durante uma única noite e madrugada. O
filme, que parece simples à primeira vista, é uma trama complexa, onde quatro
personagens se veem de alguma forma ligados, e o que acontece durante esse
curto período é suficiente para desestabilizar seus mundos de forma impressionante.
A construção
da narrativa é habilmente conduzida, começando com o contraste entre dois
ambientes de natureza completamente diferente. De um lado, temos os movimentos
frenéticos, as luzes e os sons pulsantes de uma rave, com seus elementos de
festa, energia e caos. Do outro, a tranquilidade e o silêncio inquietante da
cabine de um caminhão, onde um motorista se vê imerso em sua solidão. Esses
dois cenários, aparentemente opostos, são ligados por uma tensão crescente que
permeia todo o filme, criando uma atmosfera densa, misteriosa e cheia de
suspense.
As atuações
são, sem dúvida, um dos grandes trunfos de "Eletrotorpe". Com Mayana
Moura, Rita Pisano, Tiago Real e João Rodrigues, o elenco principal transmite
com intensidade e profundidade as emoções complexas de seus personagens. As
reações e interações entre eles são sutis em alguns momentos e mais diretas em
outros, mas sempre carregadas de significados. O ritmo da história é conduzido
por esses atores, cujas performances intensas e genuínas ajudam a construir a tensão
que só aumenta conforme os eventos se desenrolam.
Desde o
primeiro momento, quando a mulher pede carona ao caminhoneiro, até o encontro
do casal na festa, uma atmosfera de desconforto e intriga é mantida. O que
parece uma história comum de carona e encontros casuais se transforma em algo
muito mais perturbador à medida que o filme avança, guiado por um MacGuffin —
aquele elemento narrativo que, à primeira vista, parece ser apenas um simples
objeto ou motivo, mas que tem o poder de unir e desestabilizar as vidas dos
personagens de maneiras inesperadas. O MacGuffin aqui é a chave que conecta
esses universos dispares de maneira visceral, tornando a trama ainda mais
intrigante. Cada personagem tem sua relação com ele, seja direta ou
indiretamente, e cada uma dessas relações influencia suas ações, escolhas e
consequências.
A mulher, com
sua ansiedade e pressa, demonstra o peso de uma fuga, mas a verdadeira razão de
sua urgência só vai sendo revelada aos poucos. O caminhoneiro, que inicialmente
se sente desconfortável com sua presença, logo percebe que algo não está certo,
e suas reações tornam-se cada vez mais carregadas de tensão. E o jovem, que vai
à rave após um dia de trabalho, também se vê tocado por esse elemento, mas de
maneira diferente. Enquanto ele e sua namorada se envolvem no mistério, suas
escolhas e atitudes refletem as consequências do poder desse MacGuffin em suas
vidas.
No âmbito
técnico, "Eletrotorpe" é impecável. A fotografia é eficaz em criar a
atmosfera desejada, alternando entre a iluminação opaca e escura da cabine do
caminhão e as cores vibrantes da rave, sem nunca perder o clima de suspense. A
montagem é afiada e precisa, ajudando a manter o ritmo da narrativa sem deixar
o espectador descansar. A arte é bem pensada e cada detalhe visual contribui
para a construção do clima psicológico do filme. E, como não poderia deixar de
ser, a trilha sonora é essencial para a imersão do espectador, com uma
combinação de sons ambientes e momentos de silêncio que acentuam a tensão
crescente.
Há também uma
reflexão ética embutida na história, especialmente no comportamento do jovem.
Sua atitude ao sair do trabalho para a rave e a forma como lida com a situação,
levanta questões sobre responsabilidade e escolhas, aprofundando a trama e
dando mais densidade aos personagens. Sabendo de onde veio as drogas que ele
oferece à namorada durante a rave, o tom do filme se torna ainda mais macabro.
"Eletrotorpe"
é um filme que se desenrola de forma condensada, mas nunca superficial. A trama
se move com fluidez e coesão, mantendo o espectador cativado do início ao fim.
Sua estrutura narrativa é direta, como um quebra-cabeças em que cada peça se
encaixa no momento certo, sem deixar lacunas. O filme não oferece respostas,
deixando um final aberto que provoca interpretações e especulações, o que é um
dos seus maiores encantos. Ao unir mistério, suspense e uma trama com múltiplas
camadas, "Eletrotorpe" se estabelece como uma excelente opção para
quem busca um cinema que desafia a mente e oferece novas leituras a cada visualização.
Antes de
qualquer coisa, é preciso alertar que “Juvenília” é um filme extremamente forte
e pesado, não sendo indicado para pessoas sensíveis. Muito provavelmente, este
é um dos curtas de Terror mais chocantes, nem tanto pela forma, mas pelo
conteúdo violentamente perturbador.
O
diretor e roteirista Paulo Sacramento apresenta uma narrativa através de uma
exposição de fotos que conduzem a trama. As primeiras imagens mostram um bairro
tranquilo, de médio padrão e ruas largas. Logo, os personagens surgem em cena.
Eles são interpretados por Christian Saghaard, Paolo Gregori, Vitor Ângelo e
Sônia Marmo. À toa, andam pelo bairro, até que encontram um cachorro. Eles,
então, decidem por uma sessão de tortura e assassinato do animal.
Essa
sequência de cenas é muito perturbadora, pois o sadismo domina o ânimo dos
jovens. Enquanto as imagens mostram as primeiras agressões até a abertura do
ventre do cachorro já morto, os jovens riem e se divertem.
A
polêmica que gira em torno do filme de Paulo Sacramento se dá pela violência
contra um animal indefeso; e essa realmente é a ideia do filme. Porém, é
necessário explicar que o cachorro usado nas filmagens já estava morto.
O
local onde os realizadores conseguiram o cão é um canil, onde animais são recolhidos.
Se ninguém procurar pelo animal num prazo de três dias, o mesmo é sacrificado.
A equipe de Paulo Sacramento solicitou um desses animais recém sacrificados.
Portanto, o cachorro filmado para o curta já estava morto.
“Juvenília”
é um filme de violência extrema, que incomoda demais, mesmo com um animal
morto. Se outros filmes de ficção, apresentam cenas violentas de tortura com
humanos ou assassinatos de crianças, a obra de Paulo Sacramento soa muito mais
violenta por se tratar de um semidocumentário. Jovens entediados caminham pelas
ruas do bairro, até encontrarem algo que lhes dê satisfação: torturar e matar
um cachorro.
Num
país onde, infelizmente, muitos já se acostumaram com a violência periférica e
negra, é chocante ver jovens brancos e de classe média cometendo um crime tão
hediondo. A proposta do filme é abordar essas contradições. Por que a violência
distante da nossa realidade não perturba tanto quanto a que é cometida pelos
jovens do filme? Infelizmente, houve uma naturalização da violência contra
crianças, jovens e adultos negros periféricos. O maior impacto do filme de
Sacramente se dá, justamente pelo fato dos envolvidos não serem jovens pobres,
negros e de periferia. Os personagens não são jovens, envolvidos com
criminalidade, e que podem matar ou morrer a qualquer instante. O
diretor-roteirista força o espectador a questionar que violência é violência,
não importa quem é o autor ou a vítima. O filme propõe uma reflexão muito maior
do que é mostrada em tela.
“Juvenília”
é um filme chocante, até para quem tem estômago. O curta é um Terror Gore
extremamente perturbador. O filme vai além da trama de jovens que decidem matar
um cachorro. O filme explora a maldade, o sadismo e o quão mau muitas pessoas
podem ser. O Terror de Paulo Sacramento em “Juvenília” não tem nada de
sobrenatural, ou Slasher, ou Thriller. É um Terror que se aproxima muito do
real, e isso é motivo para se temer.
Com uma
direção notável e altamente competente, Karin Silva nos entrega em
"Mersilde" uma obra envolvente, densa e visualmente impressionante. O
curta, protagonizado pela talentosa Vitória Galhardi, explora de forma
inventiva o poder sobrenatural do demônio Mersilde, que possui a capacidade de
se transportar instantaneamente para onde desejar, manipulando o tempo e o
espaço ao seu favor. Através dessa premissa instigante, o filme convida o espectador
a questionar a percepção do tempo e da realidade, oferecendo uma experiência
sensorial e filosófica única.
O filme foi
realizado como parte de um projeto para o laboratório de edição das Faculdades
Integradas de Bauru (FIB), e desde sua concepção técnica até a execução
narrativa, demonstra o domínio artístico de Karin Silva e sua equipe. O enredo
acompanha a jovem protagonista em um jogo narrativo de múltiplas camadas, onde
ela se encontra em diversos locais simultaneamente, como se seu corpo e mente
estivessem fragmentados em diferentes realidades. Essa dualidade entre o físico
e o metafísico é reforçada pela utilização criativa dos efeitos visuais e
sonoros, que elevam a trama ao proporcionar uma atmosfera que se adapta de
maneira fluida aos conflitos internos e externos vividos pela protagonista.
A mescla entre
fantasia e realidade cria um ambiente que, ao mesmo tempo que desafia a lógica,
faz o espectador mergulhar na jornada emocional da personagem. À medida que o
filme avança, somos conduzidos por um percurso que ora é leve e contemplativo,
ora é caótico e perturbador. Essa alternância é proposital e eficaz, pois
reflete a fragilidade da condição humana frente à inconstância da vida. A
experiência que o filme oferece transcende o entretenimento, permitindo ao
público filosofar sobre como os acontecimentos podem nos tirar de uma zona de
conforto para uma espiral de caos, muitas vezes em questão de segundos, assim
como o demônio Mersilde faz com sua vítima.
Embora o tema
central gire em torno do sobrenatural, “Mersilde” vai muito além de ser um
filme sobre um demônio. A narrativa habilmente explora as consequências das
escolhas humanas, mostrando que, mesmo sob influência de forças externas, a
protagonista ainda mantém sua capacidade de tomar decisões. Ela não é apenas
uma peça manipulada pelo demônio, mas uma personagem complexa, que está em
constante confronto com seu próprio livre-arbítrio. Essa dimensão psicológica e
moral acrescenta camadas profundas à história, transformando o filme em uma reflexão
sobre poder, controle e as repercussões de nossos atos.
Outro ponto
alto de "Mersilde" é a sua ausência de diálogos. Em vez de depender
das palavras, o filme se apoia em uma linguagem cinematográfica rica em imagens
e sons para transmitir sua mensagem. Essa escolha estilística aumenta a
intensidade da experiência, forçando o espectador a mergulhar nas emoções da
personagem e a sentir o peso de cada momento através de suas expressões e das
mudanças visuais e sonoras ao seu redor. A ausência de palavras cria uma
atmosfera quase poética, onde o suspense é construído de forma silenciosa, mas
penetrante.
A trilha
sonora e o design de som merecem destaque, pois são peças fundamentais na
construção da imersão do filme. As transições entre momentos de calma e desespero
são acompanhadas por sons que amplificam o impacto emocional de cada cena,
enquanto os efeitos visuais adicionam uma camada de surrealismo que reforça o
caráter onírico da narrativa. A montagem é ágil e eficiente, permitindo que o
filme mantenha o espectador em um estado constante de alerta e curiosidade.
"Mersilde"
se destaca como uma obra-prima do cinema experimental brasileiro, explorando os
gêneros de Suspense, Fantasia e Drama psicológico com uma sensibilidade rara.
Em poucos minutos, o curta é capaz de transmitir uma variedade de sensações e
emoções, indo do sereno ao perturbador com uma fluidez que reflete a natureza
imprevisível da vida. O filme sugere que, assim como Mersilde pode distorcer o
tempo e o espaço, a vida também pode nos surpreender de maneiras inesperadas, e
nem sempre estamos preparados para lidar com as consequências de nossas ações.
Com sua
narrativa envolvente e técnica impecável, "Mersilde" é uma verdadeira
joia do audiovisual nacional, provando que o cinema independente brasileiro tem
o poder de criar experiências profundas e transformadoras. O filme de Karin
Silva transcende os limites do sobrenatural e oferece uma reflexão poderosa
sobre o ser humano, suas escolhas e o impacto do tempo em nossas vidas.
Dirigido por Kleber Mendonça
Filho e escrito por ele, em parceria com Bohdana Smyrnov. O filme é uma livre
adaptação de uma fábula infantil russa intitulada “Luvas Verdes”. A trama se
desenrola quando Mãe dá a Filha uma caixa com vários disquinhos coloridos. Ele
pode ouvir todos, exceto o disco verde.
Montado
a partir de fotografias 35mm e com uma narrativa inventiva e surreal, o curta
tem uma atmosfera perturbadora e sinistra. Com esse estilo narrativo e com uma
direção de arte extremamente eficiente, “Vinil Verde” trabalha de forma macabra
com temas como desobediência e castigo, causa e efeito.
O
filme conta com as atuações de Verônica Alves, no papel da mãe, e Gabriela
Souza, no papel da filha. O enredo flui com a intensa narração de Ivan Soares,
que dá um toque poético a essa história de suspense e horror.
Filha
é uma personagem complexa. Estando num estágio transitório da infância para a
adolescência, ela continua a desobedecer a Mãe, mesmo com os estragos que o
vinil verde é capaz de fazer. A narrativa tem uma tensão constante. E se
aprofunda mais a cada vez que a menina escuta o disco, independente das
consequências que atingem a mãe. Essa fase de transição etária e egoísmo por
parte da filha é perceptível se compararmos a personagem no início e no final
do filme. O aspecto infantil dá lugar a uma jovem adolescente. E o filme
demonstra que essa quase mulher pode ser perigosa para qualquer outra pessoa.
Muito
perto da morte e, diante do pedido da mãe para que a filha não use luvas
verdes, a jovem decide ir contra a mãe. As músicas de Silvério Pessoa, que
acompanham o curta, ajudam a criar a atmosfera de estranheza e perturbação. E
essa atmosfera não é algo que está somente no meio externo; antes fosse. Essa
atmosfera dá significado à personalidade e temperamento da filha. Indiferente ao sofrimento da mãe, essa
criança logo será uma adulta que, muito provavelmente, será capaz de fazer
qualquer coisa para conseguir o que quer.
Kleber
Mendonça Filho utiliza muito bem os elementos técnicos e narrativos para
construir uma obra densa, sinistra e profundamente perturbadora. A fotografia e
montagem são providenciais para a criação de um filme marcante e, ao mesmo
tempo, horripilante.
Rico
em metáforas e simbolismos, “Vinil Verde” tem várias interpretações e mensagens
que vão desde a perda da inocência, à curiosidade pelo desconhecido, o gosto
pelo proibido e as consequências de nossas escolhas.
Ao viver o luto da perda de sua
esposa, Victor encara uma realidade perturbadora, onde sua sanidade é posta em
prova. Em meio a memórias fragmentadas e a não aceitação da morte de Clara,
Victor sobrevive num mundo onde realidade, lembranças e alucinações se
misturam.
“Memória
Morta” é um Suspense sobrenatural extremamente perturbador. O filme tem uma
narrativa não linear, onde a trama vai e volta, conforme as lembranças e visões
do protagonista. Afundado na aflição e tristeza, Victor persegue Clara,
mesclando confusão mental e um estado emocional devastador.
O
curta toca em elementos que podem ser gatilhos para certos espectadores,
portanto, o tema de colocar um fim à própria vida, precisa ser destacado na
crítica. E esse o motor da trama. O que levou Clara ao ato extremo? Seriam os
sentimentos de Victor resultados somente da perda ou ele também carregaria a
culpa?
Fato
é que o diretor Dácio Pinheiro explorou ao máximo o texto, culminando com uma
obra sinistra, macabra e perturbadora. A mistura de realidade, alucinações e
visões de Victor são intensificados pelos elementos técnicos utilizados, tanto
na fotografia, na arte e na trilha sonora.
A
fotografia alterna entre planos e ângulos abertos e fechados, aumentando a
afinidade do espectador com o protagonista. O uso da câmera subjetiva, em
alguns momentos, também contribui para a imersão na confusão mental de Victor.
Outro
ponto forte do filme é a trilha sonora perturbadora. As distorções de sons
elevam a experiência a um nível de incômodo que liga fortemente espectador e
realidade do personagem, mesmo que essa realidade seja torta e distorcida
devido à forma como Victor lida com o mundo pós-Clara.
A
presença de Clara, sinistra e perturbadora, dá um toque sobrenatural especial e
é uma delícia a forma como a equipe criativa cria os novos vínculos entre
marido e esposa. “Memória Morta” é uma obra perfeita para quem curte filmes com
conteúdos bizarros e intrigantes. Afinal, a entrega de Victor para Clara é um
ato de desespero. Neste ponto, é muito importante destacar as atuações de
Ricardo Ramory e Geanine Marques, que mesmo sem diálogos, transmitem com
exatidão os sentimentos dos personagens; Victor, com suas dores e culpas, e
Clara, com o desejo de ter o marido ao seu lado, na eternidade da morte.
Com
roteiro de Rhady Nascimento e Dácio Pinheiro, “Memória Morta” é eficiente em
inserir Clara de forma assustadora na trama. E a forma como ela aparece na
trama é muito interessante, porque os realizadores, em nenhum momento,
sinalizam se ela é um espírito vingativo ou somente alucinações de uma mente
perturbada.
“Memória
Morta” é um ótimo filme de Suspense, com uma atmosfera densa, pesada e
aterrorizante. O filme mantém um grau de tensão muito alto e que culmina num
final avassalador.
Estrelando Luciana Vendramini, o
curta de Suspense e Drama “Cirandar” apresenta Kesa, uma jovem bailarina que,
ao voltar para sua casa, nota que estranhos fenômenos começam a mexer em sua
rotina.
Com
direção e roteiro de Sérgio Glasberg, “Cirandar” tem seus momentos de reflexão,
momentos de tensão e momentos de contemplação. Com uma narrativa muito bem
construída, o filme tem um toque existencialista sobre como as nossas vidas
podem tomar rumos diferentes, seja por decisões pessoais, seja por imposição de
algum fator externo.
Kesa
se sente incomodada, e o espectador é levado junto com a protagonista neste
incômodo. Entre pensamentos e ações, a narrativa coloca a visão da personagem
em perspectiva, num momento impactante e, aí quem assiste ao filme se fixa de
vez na personagem, sentindo os seus medos, as suas angústias e as suas frustrações
pela sua vida não acontecer da forma como queria.
A
equipe criativa utiliza elementos técnicos de forma pontual e assertiva. E o
texto também possibilita jogar com a imprevisibilidade e explorar isso de forma
combinada com a narrativa e a dramaticidade. Fotografia e trilha sonora são
alguns dos grandes trunfos de “Cirandar”. E a montagem executa um trabalho
brilhante, ao conectar cenas, sequências e personagens.
“Cirandar”
explora muito bem os conceitos de tempo e espaço através da perspectiva de um
plano material. Porém, em seu ato final, o filme joga com a inexistência do
contínuo espaço-tempo e em como Kesa vive sua angústia ao descobrir sua nova
condição.
“Cirandar”
é um curta que tem várias camadas e que pode propor vários tipos de reflexões e
interpretações. Com o trabalho de uma equipe técnica e criativa extremamente
competente, somado à excelente atuação de Luciana Vendramini, o filme tem seus
momentos de pensar e repensar, sentir e refletir.
Quando Lívia chega em casa e
entra em seu quarto, ela não poderia ter um susto maior. Ele vê uma versão
dela, sentada em sua cama. Desesperada, liga para uma amiga, Lisandra, para
lidar com a situação.
Lisandra
chega na casa de Lívia e duvida sobre a existência da “outra Lívia”, até a
amiga abrir a porta e confirmar a duplicidade da amiga. A partir daí, a tensão
aumenta gradualmente, tendo um desfecho extraordinário e surpreendente.
“Duplo
Sentido” é uma deliciosa obra de Suspense, tendo o subgênero Mindfuck para
sustentar a base narrativa e dramática. Os diretores Luquiras e Gabriel
Fernandes demonstram muita competência e habilidade ao construir uma atmosfera
tensa, mesmo antes de Lívia abrir a porta de seu quarto.
Destaca-se
também as ótimas atuações de Nicolle Ferreira, como Lívia, e Amanda Stadler,
como Lisandra. As performances das duas personagens mantêm a tensão e curiosidade
do espectador alta, afinal, todos estamos no mesmo barco.
Apesar
de haver uma outra versão da Lívia, imóvel, sentada na cama, o curta joga com a
possibilidade de quem assiste ao filme passar a questionar qual das “duas
Lívias” é a real. E os realizadores entregam uma gama de possibilidades de
especulações, onde o espectador pode refletir de diferentes formas sobre a
trama.
Gradualmente,
“Duplo Sentido” transmite novas informações que trazem ainda mais aflição para
as duas amigas e surpreendendo cada vez mais. O pai de Lisandra insiste em
ligar através de um aplicativo de mensagens. E quando a jovem decide responder,
o filme atinge o nível mais elevado de surpresa e espanto.
Alguns
espectadores podem tentar puxar “Duplo Sentido” para uma visão mais racional e
materialista, usando a Síndrome de Capgras como explicação mais plausível para
o que ocorre em tela. Porém, tanto Lívia quanto Lisandra teriam de sofrer do
mesmo transtorno psiquiátrico, onde as pessoas acreditam que foram substituídas
por uma impostora. Outros poderiam utilizar a explicação mitológica e folclórica
de um doppelgänger de Lívia. Porém, o próprio filme trata de construir um
universo bem mais complexo à medida que caminha para a resolução final. E
“Duplo Sentido” tem um final avassalador.
Com
muita competência, os realizadores utilizaram muito bem os elementos narrativos
que o texto pediu. E também usaram com muita habilidade os elementos técnicos
de produção, com vários pontos positivos para a trilha sonora, fotografia,
montagem e arte.
“Duplo
Sentido” fisga o espectador pela imprevisibilidade e pelas surpresas após
surpresas. Mesmo se passando em apenas dois ambientes, ficamos com a certeza de
que o que está acontecendo é algo muito maior e, possivelmente, catastrófico,
pois ficamos sem saber quem é quem e como tudo afetará a vida das pessoas. É um
filme que trabalha com o absurdo, o bizarro e com uma fantástica conclusão.
Com roteiro de Matt Palasz e
Andreia Vigo, "Peixe Vermelho" é um curta-metragem de Suspense e Mistério
que desafia os sentidos e leva o espectador a uma jornada intensa, onde a apreensão
e a angústia estão sempre no ápice. A obra se destaca pela sua narrativa não
linear e ousada, conduzida com maestria pela diretora Andreia Vigo, que cria um
filme ao mesmo tempo fascinante e profundamente perturbador.
A trama gira
em torno da protagonista, vivida por Carina Dias, que entrega uma atuação
imersiva e cheia de nuances. A personagem nos conduz por uma trama intrincada e
emocionalmente densa, marcada pelo desaparecimento de seu namorado,
interpretado por Rafael Sieg. O mistério ao redor desse sumiço é o ponto
central da narrativa, mas o verdadeiro destaque do curta é a maneira como a
história se desdobra, não apenas através dos eventos concretos, mas também
pelos fragmentos da mente atormentada da protagonista.
O filme tem
uma atmosfera carregada de tensão, onde a confusão e o desconforto são
elementos constantes. A cada cena, somos levados a adentrar os pensamentos
fragmentados e as lembranças difusas da protagonista, que luta para entender o
que aconteceu com o namorado e com ela própria. No entanto, conforme ela
mergulha mais fundo em suas próprias memórias, parece afundar também em uma
espiral de loucura, questionando a própria sanidade. A sensação é de estar
preso em uma areia movediça mental, onde cada tentativa de compreensão leva a
uma maior desorientação.
Com claras
influências do cinema de David Lynch, "Peixe Vermelho" abraça o
surrealismo e o bizarro de maneira brilhante. A estética visual e a narrativa
lembram as obras mais emblemáticas do cineasta, trazendo à tona questionamentos
sobre o que é real e o que pode ser fruto da imaginação da protagonista. O
próprio Lynch faz uma participação mais do que especial no curta, interpretando
o misterioso personagem "The Knowledgeable One", adicionando ainda
mais camadas à trama.
Os cenários do
filme reforçam a sensação de deslocamento e desconexão da protagonista. Em
lugares como um parque de diversões vazio, um trailer, um hotel ou até dentro
de um táxi, a personagem nunca parece realmente pertencente a qualquer espaço.
É como se ela estivesse presa entre dois mundos, flutuando em uma realidade
distorcida e imprevisível, onde o espectador é convidado a se perder junto com
ela. Essa ambiguidade narrativa é um dos grandes trunfos do filme, pois levanta
a dúvida: até que ponto estamos vendo a realidade? Ou estamos imersos nas
alucinações e devaneios da protagonista?
A trilha
sonora, a fotografia e a direção de arte de "Peixe Vermelho"
trabalham em total sintonia para criar uma experiência visual e sonora
impactante. A fotografia parece se comportar de acordo com o local onde a
protagonista está; ora com movimentos lentos e contidos, ora com movimentos
rápidos e confusos. A montagem fragmentada intensifica a atmosfera onírica,
contribuindo para o caráter enigmático do curta. A trilha sonora, por sua vez,
pontua os momentos de maior tensão e reforça o sentimento de inquietação que
permeia o filme.
Com sua
abordagem inovadora e envolvente, "Peixe Vermelho" é uma obra que não
só entretém, mas também provoca reflexão. Ao manter o espectador sempre no
limite entre o real e o imaginário, o filme cria uma experiência profundamente
imersiva, onde as respostas não são entregues de maneira fácil. Ao contrário,
cabe ao público questionar e especular sobre os mistérios apresentados,
mergulhando nas múltiplas camadas dessa narrativa complexa.
O resultado é
um curta provocador e instigante, que desperta sensações viscerais e permanece
com o espectador por muito tempo. Com elementos técnicos impecáveis e uma
história que desafia as convenções do gênero, "Peixe Vermelho" se
estabelece como uma obra essencial para os amantes do cinema de Mistério e Suspense,
oferecendo uma experiência única e inesquecível.
Com roteiro e direção de Beto
Sporkens, “Estrada” narra a situação de duas jovens que ficam perdidas no meio
da estrada após o carro quebrar. Sem outra opção, elas precisam pedir carona.
Elas se veem correndo risco quando um carro, com três homens dentro, para e
oferece a carona.
“Estrada”
é um filme muito bem elaborado e executado. A tensão criada pelo diretor sugere
que o perigo ronda as duas garotas e a qualquer momento algo de ruim pode
acontecer com elas.
A
trilha sonora tem um papel fundamental, mesclando os sons diegéticos do motor e
do rádio, com uma música que eleva o clima de tensão que paira dentro do
veículo.
Já a direção
de fotografia acertou em cheio, ao fazer uso da câmera subjetiva, com as
personagens observando todos os movimentos dos três homens. Os enquadramentos
fechados, mostrando meticulosamente os movimentos de cada um é extremamente
eficaz para amplificar o temor das jovens em relação aos três homens.
Outro aspecto
técnico interessante é a montagem, que consegue, a cada curva ou aceleração do
veículo em trechos sinuosos da estrada, apresentar o perigo como algo que está
muito próximo.
“Estrada” tem
em sua narrativa um ponto fortíssimo, ao construir uma atmosfera de tensão com
nenhum diálogo dentro do veículo. Os homens se mantêm calados. As garotas
apresentam expressões de angústia e apreensão. É visível que elas se
arrependeram de terem entrado naquele carro. Aqui, o mérito é do elenco, que
consegue mexer com os sentimentos do espectador, sempre aumentando a tensão à
medida que a trama corre. Patricia de Sabrit, Elisa Nunes, Rogério de Moura,
Frank Mora e Henrique Rodriguez, têm atuações maiúsculas sem precisar falar
nada.
“Estrada” tem
uma resolução final surpreendente, onde acontece uma revelação de como podemos criar
os nossos próprios medos e apreensões a partir de prejulgamentos. O filme leva
o espectador a refletir sobre como podemos identificar falsamente padrões que se
apresentam como ameaças.
Ao embarcarmos
no veículo, através da perspectiva das protagonistas, passamos a sentir o que
elas sentem e presumir o que elas supõem. Caronas podem ser perigosas, tanto
para motoristas quanto para quem pede, justamente por não sabermos quem é a
outra pessoa. Porém, no caso de “Estrada”, o filme nos chama para uma reflexão
muito mais ampla sobre os conceitos da sociedade atual e de que certos
estereótipos precisam ser quebrados.
“Estrada” é um
filme de Suspense com ótimos elementos técnicos e narrativos. É uma obra com
várias camadas, que podem gerar várias reflexões sobre velhos preconceitos e
tensões sociais ainda existentes.
“A Ilha”,
produzida por Mário Lellis e Roger Burdino e com roteiro e direção de Alê
Camargo, narra a impressionante história de um jovem que anda pelo centro de
uma grande cidade e, de repente, se vê preso a uma situação inusitada.
Entre
o movimento de pessoas e carros, o jovem protagonista percebe que seu celular
está com a bateria prestes a descarregar. Observa que, do outro lado de uma
avenida, há um telefone público. A sua aventura começa ao atravessar a, até
então, pouco movimentada avenida, que se transforma num caos de veículos em
alta velocidade. O jovem pula e consegue alcançar uma ilha de trânsito que
divide a enorme avenida.
O
jovem tenta escapar da ilha, porém, suas tentativas são frustradas por velozes
e perigosos veículos que transitam nos dois sentidos.
Com
uma narrativa fluida e divertida, dividida em capítulos, “A Ilha” mostra a
adaptação do jovem naquele espaço restrito, onde é completamente ignorado por
motoristas que vem e vão. O filme faz uma crítica de como a cidade, com seus
fluxos e movimentos, engolem as cidades e transformam pessoas em seres
invisíveis em meio à multidão. O jovem está ali, precisando sair da ilha, mas
todos estão muito ocupados consigo mesmos, dirigindo os seus carros e ignorando
a existência do jovem. O isolamento do jovem transmite a sensação que, mesmo
numa cidade grande, ele está desconectado do todo. E isso ocorre também com os
motoristas, que apenas seguem o fluxo, indo ou voltando do trabalho, tendo como
objetivo apenas chegar o mais rápido possível em seus destinos. O trânsito
caótico contrasta com a “vida” do jovem, preso e sem alternativas.
Uma
das grandes críticas contida em “A Ilha” reside também ao individualismo
exacerbado da sociedade moderna. Quantas vezes o protagonista já deve ter
passado pelo local e nunca prestou atenção em alguém que estivesse preso na
ilha? Quantas vezes ignoramos os problemas visíveis de pessoas no centro da
cidade e ignoramos, ou porque não temos tempo ou simplesmente porque a vida
alheia não é da nossa conta?
“É
necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós”.
A citação inicial do conto de José Saramago deve ser refletida junto com a
imersão do espectador nesse curta-metragem. Muitas vezes só damos importância
aos problemas de outras pessoas após passarmos por algum problema parecido. Ao
conseguir sair da ilha, o jovem sai transformado e passa a ter uma nova
percepção de si, e também, um novo entendimento sobre o mundo. Passados alguns
dias na ilha, agora ele tem como enxergar coisas que não eram possíveis,
justamente pelo fato de até então ter tido uma vida limitada somente ao seu mundo.
Entrar e sair da ilha fazem parte de um aprendizado de autoconhecimento e
compreensão do mundo.
“A
Ilha” tem elementos técnicos perfeitos, contribuindo para uma narrativa coesa e
intensa. O filme tem todos os predicados necessários para uma obra que puxa o
espectador pelo braço para uma reflexão de muito mais do que aparece em tela.
“A Ilha” é um filme que alterna cenas de humor, num cenário dramático e de
aflição. É uma animação de alto nível e que merece ser vista e revista muitas
vezes.
O
curta-metragem “Um Branco Súbito”, que tem direção, produção e roteiro de Ricardo
Mehedff, é um excelente representante brasileiro do subgênero “Mindfuck”. O excelente
texto possibilita um grau de tensão elevado, o que garante uma ótima
experiência para quem curte esse tipo de Suspense e gosta de tramas complexas.
Em tela, temos
a ótima atuação de Bruce Gomlevsky, que interpreta um escritor que sofre com um
bloqueio criativo. Ele tenta escrever, porém, é interrompido pelo toque da
campainha. Pelo olho mágico, ele enxerga somente o olho da pessoa que tocou a
campainha, sem ter como identificar a pessoa que passa a atormentá-lo.
É muito
importante reparar que, mesmo antes do toque da campainha, a situação do cômodo
onde o protagonista diz muito sobre o seu estado emocional e psicológico. A bagunça
do local é um reflexo do seu estado mental. O bloqueio criativo pode ser
destrutivo para algumas pessoas que tem na escrita o seu meio de ganhar
dinheiro.
“Um Branco
Súbito” tem uma narrativa coesa e complexa. O diálogo que ocorre na porta e as
atitudes que o protagonista decide tomar ditam o ritmo da trama, mantendo um
tom de expectativa e apreensão. E tudo corre de maneira fluida e surpreendente.
Além da
narrativa e do excelente arco dramático, “Um Branco Súbito” se destaca também
pelos seus aspectos técnicos de produção, com um excelente trabalho de
fotografia, arte, montagem e trilha sonora. A combinação perfeita desses
elementos causa ainda mais impacto numa narrativa densa, tensa e perturbadora.
Sobre a
personalidade do protagonista, existem várias camadas que podem explicar o que
houve (ou não). O cansaço físico e mental pode explicar o que acontece no
desenrolar da trama. “Um Branco Súbito” abre margens para interpretações, o que
faz dele uma experiência única. Especular sobre a sanidade mental de um personagem
num filme de Suspense é uma tarefa maravilhosa que a equipe criativa deixa para
o espectador. Será que o toque na campainha no início do filme foi o primeiro?
Se foi, quanto tempo faz que o protagonista vive nesse looping? Essas são
algumas perguntas que podem ser feitas, além de várias outras que podem surgir
na cabeça de quem assiste ao filme.
“Um Branco
Súbito” explora de forma muito inteligente o elemento imprevisibilidade. O diálogo
que acontece, tendo a porta entre o escritor e quem tocou a campainha, como um
simbolismo para o bloqueio criativo. Uma porta que não se abre e a insistência
para que a mesma seja aberta talvez seja o maior conflito para o escritor que,
em algum momento vai conseguir destravar a sua criatividade. Enquanto isso, ele
convive com seus próprios demônios que o interrompem, atrapalham e o perturbam.
"Um Branco Súbito" está disponível no Embaúba Play: https://embaubaplay.com/catalogo/um-branco-subito/
Insatisfeito e furioso
com o chefe, Leonardo, decide acertar as contas com o patrão, Marcos. Dessa
forma, ele demonstra toda a sua raiva estrutural que sente pelo seu superior.
“Raiva Estrutural” tem elementos técnicos
de produção muito bem elaborados. Fotografia e montagem são um show à parte, garantindo
um trabalho visual extremamente agradável. As cenas de ação são muito bem
realizadas, tanto pelas técnicas da direção de fotografia de Rodney Gonzaga,
que também é o roteirista e diretor do curta, quanto pelas atuações perfeitas
de Angelo Matos e Emerson Silva, que interpretam funcionário e patrão,
respectivamente.
“Raiva Estrutural” tem uma narrativa
fluida e uma coesão dramática muito eficiente, principalmente quando a direção
decide revelar sobre o conteúdo do filme. Eu me preparei para um Suspense e
adorei a forma como fui surpreendido ao ver o filme tomar rumo para outros
gêneros.
O filme tem um excelente texto à disposição
e extrai o máximo possível, seja pelos diálogos dos personagens ou pelas suas
ações. Vemos em tela a “luta de classes” ao vive e em preto e branco. Essa
quebra de expectativa é incrível. Em seu primeiro ato, a trama nos convida para
um Thriller. De repente, estamos assistindo uma Comédia insana com muitos
elementos dos filmes de Ação.
Rodney
Gonzaga demonstra grande habilidade e competência ao brincar com esses gêneros
cinematográficos. O diretor entrega ao público um filme empolgante, divertido e
surpreendente.
“Raiva Estrutural” com certeza é um
filme que é capaz de agradar a todos os públicos, primeiro por ser uma excelente
produção, com aspectos técnicos muito bem utilizados, e segundo, pelo fato do
filme se permitir ser uma mescla maravilhosa de Comédia e Ação.