sábado, 21 de junho de 2025

O ÚLTIMO RETRATO (2016)

 


         "O Último Retrato", com roteiro e direção de Arthur Tuoto, é um curta-metragem que mistura com maestria elementos de Drama e Suspense, envolvendo o espectador em uma atmosfera emocional densa e introspectiva. A trama acompanha uma mulher, interpretada pela talentosa Camilla Loreta, que luta para lidar com o luto após a morte de seu companheiro, interpretado por Marco Barreto. Ele permanece presente em sua vida, não apenas em suas lembranças, mas também em inúmeras fotos, seja nas redes sociais ou em retratos físicos espalhados por sua casa. A atuação de Loreta é sutil, porém intensa, transmitindo com profundidade a dor silenciosa e o vazio que acompanham sua personagem.

O curta explora uma questão aparentemente banal, mas de grande impacto emocional: a decisão de deletar ou manter ativo o perfil do falecido nas redes sociais. Em um mundo onde as memórias de uma pessoa são frequentemente capturadas e armazenadas digitalmente, apagar o perfil de alguém que partiu pode ser visto como um gesto simbólico de apagar partes de sua existência, o que aumenta a angústia da protagonista. O filme aborda essa reflexão de forma sensível, questionando o que significa se desapegar das memórias de alguém e como as plataformas digitais moldam nosso luto.

A atmosfera sombria e introspectiva do filme é acentuada pela escolha cuidadosa da fotografia e da trilha sonora. A fotografia, com seus tons escuros e pouca luminosidade, espelha o estado mental da protagonista, imersa na escuridão de seu luto. O ambiente retratado no filme reflete a sensação de isolamento, não apenas físico, mas também emocional, à medida que a personagem se afasta de qualquer contato com o mundo exterior. O apartamento, sempre em tons opacos e cinzentos, parece uma extensão do estado de espírito da mulher, representando o confinamento emocional em que ela vive. Mesmo fora de casa, não há cores vibrantes ou muitos sinais de vida. Tudo parece tingido por uma névoa de tristeza, sugerindo que, onde quer que ela vá, o luto a acompanha.

A trilha sonora é igualmente impactante, optando pelo silêncio e por sons ambientes ao longo da maior parte do filme. Esse silêncio é uma escolha poderosa, que enfatiza o isolamento da protagonista e cria uma imersão completa no universo emocional da personagem. O som quase inexistente, acompanhado pela ausência de falas, contribui para o desenvolvimento da tensão emocional que cresce gradualmente. Somente no terceiro ato, o silêncio é rompido de maneira sutil, mas decisiva, quando o elemento do Suspense começa a se revelar.

Embora o início de "O Último Retrato" sugira um filme focado no Drama, o roteiro se transforma de maneira elegante, introduzindo gradualmente o Suspense. O filme, que até então acompanhava o cotidiano sombrio e repetitivo da protagonista, passa a insinuar que o "último retrato" do título pode não ser aquele que ela contempla nas fotografias. Há uma sensação crescente de que algo mais está acontecendo, algo que transcende a simples tristeza. O espectador é convidado a questionar a realidade dos acontecimentos: estaria a mulher, em seu desespero, criando um universo próprio, no qual o falecido pode retornar para vê-la, ou os eventos sobrenaturais que parecem se desenrolar no final são reais?

O curta é inteligente ao deixar espaço para múltiplas interpretações. Pode-se ver o final do filme através de uma lente mais concreta e emocional, interpretando as ações da protagonista como fruto de sua angústia e de uma mente perturbada pela dor. Ou pode-se optar por uma leitura mais metafísica, na qual a mulher, ao reviver incessantemente as memórias de seu amado, acaba por invocá-lo de alguma forma. A ambiguidade em torno dessa questão é um dos pontos altos do roteiro, mantendo o público em um estado de suspense até o último segundo.

Tecnicamente, "O Último Retrato" é impecável. A montagem é fluida, conduzindo o espectador por uma jornada emocional profunda e, ao mesmo tempo, ajudando a construir a tensão de maneira sutil e gradual. A direção de arte também merece destaque, criando um cenário minimalista, mas carregado de simbolismo. Cada detalhe do apartamento da protagonista reflete sua dor e seu luto, desde a falta de cor até a disposição dos objetos que indicam sua obsessão em manter vivas as memórias do companheiro.

A transição de Drama para Suspense é feita de forma gradual e refinada, sem apelos a sustos fáceis ou clichês. O Suspense em "O Último Retrato" não é do tipo que provoca medo imediato, mas sim um desconforto psicológico, um questionamento sobre o que é real e o que é fruto da mente da personagem. O desfecho deixa o espectador com a inquietante dúvida: será que a mulher sucumbiu a seu luto e perdeu o contato com a realidade, ou será que houve algo mais, algo inexplicável, que a visitou em seus momentos finais?

"O Último Retrato" é um exemplo notável de como é possível criar uma narrativa envolvente e profunda com recursos limitados, focando-se na exploração emocional e psicológica da protagonista. Com sua atmosfera densa e sombria, o curta não apenas toca no coração dos espectadores, mas também os deixa refletindo sobre o poder das memórias, o luto e as maneiras complexas com as quais lidamos com a perda.





quinta-feira, 19 de junho de 2025

BEHEMOTH (2003)

          O curta-metragem "Behemoth", dirigido por Carlos G. Gananian, é uma verdadeira obra de arte cinematográfica que se destaca em cada um de seus elementos técnicos e narrativos. Desde a sua primeirOa cena, o filme é envolvente, criando um ambiente de tensão que prende o espectador e o imerge profundamente em uma atmosfera perturbadora e sombria. A direção cuidadosa, aliada a uma fotografia precisa, arte refinada, trilha sonora perturbadora e uma atmosfera carregada de suspense, torna "Behemoth" uma experiência única dentro do gênero do Terror.

O filme começa com uma cena impactante: um ritual de invocação que resulta em consequências desastrosas e macabras. O protagonista, envolto em mistério, murmura palavras em tom quase sussurrado, evocando uma entidade desconhecida em um cenário tão perturbador quanto os próprios sussurros que ecoam. A escolha por não revelar imediatamente as motivações do protagonista cria uma camada de mistério que apenas intensifica a atmosfera claustrofóbica do curta.

Essa ausência de explicação detalhada sobre o motivo que levou o protagonista a optar pelo ritual é uma das escolhas mais inteligentes do roteiro. Em vez de oferecer uma exposição clara, "Behemoth" deixa que a narrativa visual e o desenvolvimento da trama falem por si, e isso funciona perfeitamente. Não é necessário saber o que exatamente levou o personagem a realizar o ritual; o que importa é o resultado e o que essa decisão desperta no decorrer da história. O espectador mergulha nesse universo de horror, onde a motivação não precisa ser explícita, pois a atmosfera criada já é suficiente para transmitir a urgência e o perigo da situação.

Os movimentos de câmera são executados de maneira brilhante, guiando o espectador por cada detalhe, cada gesto e expressão, enquanto a arte cuidadosamente elaborada complementa o tom sombrio do filme. As escolhas visuais são sutis, mas impactantes, e a combinação com uma trilha sonora profundamente perturbadora cria um estado de imersão quase hipnótico. Cada elemento do filme trabalha em perfeita sincronia para construir a tensão gradualmente, sem recorrer a sustos baratos ou clichês do gênero.

"Behemoth" é, de fato, um filme de Terror que se destaca pela sua atmosfera pesada e angustiante, superando as expectativas. Há algo de fascinante na maneira como o filme se desenrola lentamente, levando o espectador a uma jornada de horror psicológico e sensorial. A descrição de "Trash poético" se encaixa perfeitamente, pois o filme, embora tenha seus elementos grotescos e sanguinolentos, é tratado com uma abordagem artística, que valoriza a construção do medo e da tensão de forma gradual e refinada.

Os efeitos práticos são outro aspecto que merece destaque. Em um período onde o CGI domina grande parte das produções de Terror, "Behemoth" opta por usar efeitos visuais práticos, o que confere uma sensação mais visceral e realista ao filme. Os momentos de violência e sangue, embora presentes, são utilizados com precisão, sem exageros. O sangue, aliás, tem um papel importante na narrativa, sendo exposto de forma altamente detalhada, o que amplifica a sensação de desconforto e a urgência da situação. No entanto, o uso do sangue é controlado, garantindo que não se torne um elemento gratuito, mas, sim, parte essencial da história.

O figurino e a maquiagem também são caprichosamente perfeitos. Os detalhes das marcas do personagem principal reforçam a ideia de que ele está envolvido em algo profundamente sombrio. Já a caracterização da entidade invocada é perturbadora e impressiona pela riqueza de detalhes, fazendo com que a criatura pareça saída diretamente de um pesadelo.

Além dos aspectos visuais, "Behemoth" se destaca por seu ritmo. O curta não se apressa em mostrar seus horrores; ao contrário, ele constrói lentamente um senso de pavor e desconforto, mantendo o público em um estado constante de tensão. Esse ritmo controlado permite que o terror se instale de forma mais profunda, criando uma sensação de inevitabilidade e desespero à medida que o ritual progride e as consequências começam a se manifestar.

A direção de Carlos G. Gananian é precisa e detalhista, demonstrando um domínio completo sobre a narrativa e os elementos cinematográficos. Ele conduz o filme com mãos firmes, sabendo exatamente quando aumentar a tensão e quando permitir que o silêncio e a escuridão falem por si. Cada movimento de câmera, cada som, cada fala do protagonista contribui para a sensação de que algo terrível está para acontecer, criando uma atmosfera de pesadelo.

Outro ponto que faz de "Behemoth" uma obra única é o equilíbrio entre o grotesco e o artístico. Embora o filme tenha suas raízes no Terror "Trash", ele nunca se deixa levar pelo exagero ou pelo choque gratuito. Pelo contrário, cada cena é cuidadosamente composta para transmitir uma mistura de beleza e horror, algo que poucos filmes de Terror conseguem alcançar. Essa fusão de arte e horror dá ao filme um toque quase lírico, onde o grotesco é elevado a uma forma de expressão estética.

Em resumo, "Behemoth" é um curta-metragem que vai além do Terror convencional, oferecendo ao público uma experiência intensa e perturbadora. A combinação de uma atmosfera densa, efeitos visuais práticos, uma direção impecável e uma narrativa que prende a atenção do início ao fim faz de "Behemoth" um filme que merece ser celebrado. É uma obra que desafia as convenções do gênero, oferecendo uma visão poética do horror que, ao mesmo tempo, não deixa de ser profundamente assustadora. Para os fãs de Terror e para aqueles que apreciam o cinema como uma forma de arte, "Behemoth" é uma experiência imperdível e necessária.




quarta-feira, 18 de junho de 2025

SEM TÍTULO (2004)

O curta-metragem “Sem Título”, com roteiro e direção de Caio Polesi, é uma dessas obras que não se prestam a explicações fáceis e simplistas. Transitando entre a Comédia, o Drama e o Experimental e com uma premissa instigante, o filme apresenta um homem que desperta dentro de um museu e se vê, sem aviso, parte de uma instalação artística. A partir desse momento, inicia-se um percurso que não é apenas narrativo, mas também sensorial, filosófico e político. A narrativa não se resolve em si mesma: ela perturba, provoca, resiste à leitura rápida. E isso, por si só, já é um mérito do roteiro.

Inspirado em uma visita do diretor a uma exposição de arte contemporânea, em especial às obras de Henrique Oliveira, Polesi parte da confusão entre representação e realidade, característica marcante das instalações artísticas, para criar um cenário onde o limite entre o humano e o objeto artístico se dissolve. A ideia, segundo ele, nasce da observação crítica (e um tanto sarcástica) desse tipo de arte: e se alguém acordasse dentro de uma obra e não soubesse se está sendo representado ou exposto?

Essa proposta se concretiza com potência na direção de arte, que é um dos pontos altos do curta. A instalação central, criada por Patricia Osses, é ao mesmo tempo visualmente forte e conceitualmente cruel: um projetor de slides lança incessantemente luzes de recortes de jornal sobre o protagonista, que não consegue ver o conteúdo das imagens, apenas é agredido por elas. A obra se impõe como uma alegoria do excesso de informação, da opressão da imagem, da violência contida na própria ideia de representar o outro sem seu consentimento. O ruído mecânico do projetor torna-se trilha sonora, marca rítmica e linha narrativa do curta. É um som que, como o próprio filme, incomoda, e cumpre bem esse papel.

Mesmo produzido em 2004, bem antes da popularização da internet e das mídias sociais, “Sem Título” consegue dialogar com a atualidade, com exposição excessiva e extrema de pessoas e de como todos podem ser vistos, analisados, rotulados e julgados. Se o protagonista está preso à uma realidade concreta, dentro de um museu, as mídias sociais amplificam muito mais a crítica proposta por Polesi, pois, no atual cenário, a exposição virtual é muito mais acelerada e destrutiva.

A fotografia do filme colabora de maneira decisiva com o estado de desconforto do espectador. A luz ofuscante que atinge o personagem, o uso inteligente dos enquadramentos e a vastidão crua do espaço expositivo, o pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera, cedido pelo MAC-USP, acentuam a sensação de solidão e absurdidade da situação. Tudo parece contribuir para a alienação do homem-obra: o espaço não o acolhe, não o explica, não o liberta.

O trabalho do ator Paulo Federal é outro grande acerto. Sem contar com uma direção tradicional, ele foi praticamente deixado livre para construir seu personagem; um risco que, nesse caso, resultou em uma atuação densa, ambígua e sensível. Federal consegue transmitir ao mesmo tempo a perplexidade, o incômodo e a impotência de quem é jogado no meio de um jogo de significações que não controla. Nas palavras do próprio diretor, foi o ator quem acabou dirigindo o filme em muitos momentos, tamanha a entrega e a consciência de cena.

A entrevista de Polesi à RUA (Revista Universitária Audiovisual), criada pelos alunos da turma de 2007 do Curso de Imagem e Som da UFSCar,  revela um diretor ao mesmo tempo consciente e crítico de suas limitações, e talvez seja essa franqueza que dá força ao curta. Ele admite os tropeços da produção, como a precariedade nos ensaios, a inexperiência na direção de atores e até o desabamento parcial do cenário durante as gravações. Mas também revela um entusiasmo genuíno, uma vontade experimental e coletiva de fazer cinema com o que se tem, e esse espírito transborda para o resultado final. A própria criação da “exposição fictícia” envolveu estudantes de artes plásticas, que criaram obras do zero com restos de materiais, conferindo ao projeto um caráter híbrido e quase performático.

Mais do que um exercício estético, “Sem Título” é um gesto político. Quando questionado sobre se o filme é uma afirmação ou uma negação da arte moderna, Polesi responde com sarcasmo e desdém, recusando o papel do artista que precisa “explicar sua obra”. Para ele, o curta é uma crítica feroz a tudo que está aí: ao mercado cultural, à arte esvaziada de sentido, ao cinema domesticado pelas fórmulas. Ele não pretende dialogar com o público; quer incomodar, deslocar, quebrar expectativas. E consegue.

 “Sem Título” é exatamente o que seu nome sugere: uma obra aberta, sem rótulo, sem submissão a categorias pré-determinadas. Um filme para poucos, talvez, mas um filme necessário, que reafirma a arte como lugar de embate, conflito e reflexão. Não é pouco, num tempo em que até a arte muitas vezes se rende à comodidade.




DIA DE EXORCISMO (2018)

A Comédia de Terror “Dia de Exorcismo” é um curta que, em seus pouco mais de 8 minutos entretém, diverte e causa aquele certo desconforto que só os filmes Trash são capazes. Lógico, que tudo incrementado por um forte humor mórbido e ácido.

         Com direção, roteiro, e montagem de Vinícius J. Santos, “Dia de Exorcismo” se destaca pela forma como une elementos do Terror Trash e Comédia na medida certa, com uma narrativa que satiriza as produções sobre possessões demoníacas.

         O elenco conta com Marcelo Rodrigues, no papel de Padre Estevam, Gustavo Peres, como Padre Henrique, Ana Rosenrot, interpretando Iolanda, a mãe da jovem possuída e Adriele Faria no papel da jovem encapirotada. As atuações dispensam comentários, afinal são nomes respeitados, com outros trabalhos ótimos.

         O roteiro se desenvolve de forma eficiente, com elementos técnicos muito interessantes. Os efeitos visuais, práticos ou as alterações na fotografia, demonstram uma qualidade impressionante. A união de um bom texto, com aspectos técnicos pontuais e atuações fortes, conseguem causar espanto e também rir, quando a Comédia se sobrepõe ao Horror. E isso é alternado de forma brilhante nas transições entre os gêneros.

        Padre Estevam, mais experiente, conta com a ajuda do jovem Padre Henrique. Diante de um demônio agressivo, ambos são pegos de surpresa pelas peripécias da entidade, tendo o clímax no humor escatológico e da situação bizarra.

         Com Estevam dominado pela garota, que havia conseguido se soltar das amarras, cabe ao jovem Henrique, prosseguir com a sessão de exorcismo para salvar Estevam e libertar a jovem das garras do demônio.

         “Dia de Exorcismo” se aproveita dos clichês do subgênero de possessões demoníacas a seu favor para construir uma obra criativa, divertida e cativante. Muitos dos ataques do demônio já foram vistos em praticamente todos os filmes com essa temática. Porém, um dos ataques, totalmente inesperado, arranca risos devido à forma como o demônio decide sujar o padre.

         Um ponto de destaque de “Dia de Exorcismo” está na direção de arte, com figurino bem alinhado e maquiagem realmente surpreendente. Juntando a fotografia caprichada e trilha sonora coesa, temos uma obra muito bem executada, em seus mínimos detalhes.

            Os realizadores acertaram em cheio nas suas escolhas, com tudo muito bem dosado, mantendo a coesão narrativa e dramática no ponto certo. O filme consegue capturar a atenção do espectador com a sua trama carismática e pontos surpreendentes, que fazem de “Dia de Exorcismo” uma ótima pedida, tanto para os fãs de Terror quanto para os fãs de Comédia.  






terça-feira, 17 de junho de 2025

LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL (2013)


         Adaptado do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, o curta dirigido por Bruno Gularte Barreto oferece uma interpretação íntima e emocionante do momento em que Fernando, o filho, retorna à casa de sua mãe após um período de ausência. Logo no início, percebe-se a estranheza desse reencontro. Fernando, interpretado por Rafael Régoli, é recebido por uma mãe que não esperava sua chegada e, apesar da distância afetiva, há algo de não dito pairando no ar. Sandra Dani, no papel da mãe, traz à tona com precisão os sentimentos de uma mulher endurecida pela vida, cujos gestos contidos revelam mais do que o próprio diálogo.

A interação entre mãe e filho é marcada por uma tensão silenciosa. Embora eles conversem, muito fica por ser dito, e o que é falado parece não tocar no essencial, sugerindo uma barreira emocional que impede a verdadeira conexão. Essa barreira é evidenciada pelo desconforto mútuo e pelo contraste entre a preocupação da mãe, que nota as mudanças físicas no filho, como a perda de peso e de cabelo, e a aparente superficialidade da comunicação. Ainda assim, mesmo com essa distância, há uma necessidade afetiva latente: Fernando busca um conforto que só a mãe pode oferecer, enquanto ela, por mais que carregue certa amargura, não deixa de se preocupar com o filho.

A construção dos personagens, tanto no filme quanto no conto, é impecável. A fotografia contribui para essa atmosfera introspectiva, com ângulos que alternam entre planos fechados, que ressaltam a proximidade física, e planos mais abertos, que sugerem o abismo emocional entre os dois. A direção de arte também acerta nos detalhes, criando um ambiente que complementa o tom do filme e reflete a aridez emocional entre mãe e filho.

Esse distanciamento, no entanto, não é apenas circunstancial. Ele reflete o contexto de uma época em que questões como a homossexualidade e o impacto devastador da epidemia de HIV moldaram a vida e as relações de muitas famílias. Caio Fernando Abreu, ao escrever "Linda, Uma História Horrível", estava profundamente imerso em uma realidade em que o HIV ceifava vidas e estigmatizava comunidades. No Brasil dos anos 1980, a doença, apelidada cruelmente de "praga gay", trouxe um peso insuportável para muitos, e isso ecoa na história de Fernando.

A angústia de Fernando vai além do reencontro com a mãe. Ele carrega o peso de uma doença que, na época, era uma sentença de morte. A narrativa sugere que seu retorno à casa da mãe seja movido por essa necessidade de amparo, um refúgio contra a morte iminente e contra o isolamento emocional que a doença frequentemente causava. A presença fantasmagórica do HIV é confirmada quando ele, no final do curta, mostra as lesões causadas pela doença. Aqui, o filme atinge um clímax emocional, revelando que a jornada de Fernando até ali era, na verdade, um apelo desesperado por amor e compreensão.

A obra de Caio Fernando Abreu, mesmo escrita antes de ele ser diagnosticado com HIV, já antecipava muitas das reflexões profundas sobre a vida, a morte e o medo que o vírus suscitava. Abreu, sempre sensível às questões de marginalização e sofrimento, criou em "Linda, Uma História Horrível" um retrato pungente do isolamento emocional que permeava as relações humanas. O curta de Barreto consegue capturar essa essência, com um ritmo que respeita a profundidade dos personagens e suas complexas dinâmicas.

A menção à filha que abandonou a mãe e a questão de Pedro, o "amigo" de Fernando, levantam outras camadas interpretativas. A mãe, embora relutante, parece ter começado a aceitar a sexualidade do filho, ainda que com certa hesitação. Essa aceitação, no entanto, é apenas sugerida, como tantas outras coisas no curta, deixando ao espectador a tarefa de preencher as lacunas.

O desfecho, com Fernando dizendo "Amanhã a gente fala melhor, mãe", traz um misto de esperança e resignação. Sabemos que esse "amanhã" pode nunca chegar, mas o momento também sugere que há espaço para um recomeço entre eles. Talvez o fardo da doença possa aproximá-los novamente, curando velhas feridas e permitindo que mãe e filho se reencontrem, não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

"Linda, Uma História Horrível" é uma obra que, assim como o conto de Caio Fernando Abreu, transcende o tempo e o contexto em que foi criado. Ele toca em temas universais de amor, perda e reconciliação, levando o espectador a refletir sobre suas próprias relações e sobre o peso das palavras que, muitas vezes, ficam por dizer.       


Assista: https://vimeo.com/84035348

 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

INEXISTENTE (2018) - CONTÉM SPOILERS







Ao assistir o curta-metragem “Inexistente” pela primeira vez, o espectador é imediatamente envolvido pela história de Andréia, uma jovem mulher que recentemente perdeu o marido em um trágico homicídio motivado por xenofobia. Ainda imersa em seu luto, ela se vê incapaz de aceitar completamente a morte abrupta de seu companheiro, e sua dor se reflete em cada palavra que pronuncia sobre essa perda devastadora. O filme começa com Andréia desabafando sobre a sua solidão e o vazio que a morte de seu marido deixou em sua vida. Ela questiona o sentido da existência, ao mesmo tempo em que expressa sua indignação com a maldade que levou ao crime de ódio.

Gustavo, interpretado de maneira contida e sensível por Mij Atunbi, surge como o amigo que tenta consolar Andréia, mas logo se percebe que, frente a uma dor tão profunda, não há muito que possa ser dito. Ele ouve atentamente enquanto ela narra a brutalidade da violência que tirou a vida do marido e reflete sobre as injustiças do mundo. Embora ele seja uma presença constante e tranquilizadora, Gustavo mantém uma postura discreta, com sua serenidade contrastando fortemente com a angústia da protagonista.

A atuação de Paloma Gavinhos, que interpreta Andréia, é notável pela intensidade emocional. Ela não apenas interpreta uma mulher em luto, mas sim uma pessoa à beira de uma crise existencial, dilacerada pela perda e pela crueldade do assassinato. Suas expressões faciais e a carga emocional em sua voz transmitem o peso do trauma, fazendo com que o público sinta cada momento de sua dor e revolta. A maneira como ela expõe suas incertezas sobre o futuro, e o porquê de tanta crueldade no mundo, nos aproxima ainda mais de sua realidade.

O filme é uma obra delicadamente conduzida pela diretora Giovanna Imperatore, que utiliza uma fotografia densa e evocativa para amplificar o clima de luto e reflexão. 

À medida que a trama avança, fica evidente que há mais do que um simples relato de perda. A relação entre Gustavo e Andréia se revela gradualmente, com ele tentando, de todas as maneiras, acalmar a viúva, oferecendo uma espécie de consolo que vai além das palavras. No entanto, o espectador atento perceberá que há algo de estranho na forma como Gustavo interage com ela, sempre com uma postura excessivamente calma, em contraste com a agitação de Andréia. Enquanto ela fala sobre o marido falecido, sobre os detalhes do crime e como tudo aconteceu, Gustavo escuta em silêncio, com suas poucas palavras sendo apenas o suficiente para manter a conversa.

Esse contraste entre a calma de Gustavo e a dor avassaladora de Andréia é uma das grandes sacadas do roteiro. O desempenho comedido de Mij Atunbi faz com que o público acredite que ele é apenas um amigo do casal, alguém que estava próximo o suficiente para conhecer ambos intimamente, mas que ainda mantém uma distância emocional. É exatamente essa atuação discreta que prepara o terreno para a grande revelação do filme.

Quando finalmente chega o clímax da narrativa, a verdade é revelada de maneira surpreendente: Gustavo, na verdade, é o marido assassinado. Essa reviravolta, executada de forma brilhante, transforma todo o filme em algo muito maior do que um simples drama sobre luto. Gustavo não é apenas uma figura de consolo, mas sim uma presença espectral, ainda preso ao mundo dos vivos, procurando ajudar sua esposa a seguir em frente. A sua aflição só se torna visível quando o sofrimento de Andréia atinge o ápice. Ele tenta tocá-la, estender-lhe a mão, mas é nesse momento que o público se depara com a verdade devastadora: ele já não pertence a este mundo.

A maneira como a diretora constrói essa revelação é sutil, mas extremamente impactante. Ao longo do filme, somos levados a acreditar que Gustavo é apenas um amigo solidário, mas a sua postura inexpressiva e as suas ações limitadas são pistas que, uma vez compreendidas, tornam a reviravolta ainda mais poderosa. É quando ele tenta acalmar Andréia que sua impotência fica evidente, e percebemos que, por mais que ele deseje aliviar o sofrimento dela, ele está preso em uma condição que impede qualquer intervenção real. Sua resignação é tocante, pois ele parece ter aceitado sua morte, enquanto Andréia ainda luta com a dor da ausência.

Além da questão da perda, “Inexistente” também aborda temas universais e urgentes, como a intolerância e os crimes motivados por ódio, algo especialmente relevante no Brasil e no mundo contemporâneo. A narrativa levanta reflexões importantes sobre como a xenofobia, o racismo e outras formas de discriminação continuam a impactar vidas de maneira trágica. A brutalidade que tirou a vida de Gustavo, um imigrante, reflete um problema social mais amplo, que o filme coloca em destaque de maneira urgente.

No fim, “Inexistente” não é apenas um filme sobre a morte, mas sobre o amor que persiste além da vida, sobre como lidar com o luto e a dor, e sobre as forças desumanizadoras que ainda permeiam a sociedade. A resolução final, com Gustavo aceitando sua nova realidade enquanto Andréia enfrenta a dura jornada de seguir em frente, é ao mesmo tempo triste e esperançosa. O filme é uma reflexão profunda sobre a morte, a saudade e as injustiças do mundo, e sua narrativa, ainda que breve, deixa uma marca no espectador.

A obra, conduzida com sensibilidade e inteligência, torna-se um espelho das nossas lutas cotidianas, questionando não apenas a violência e o preconceito, mas também nossa própria capacidade de lidar com a perda e encontrar sentido em um mundo tão cheio de ódio e dor.




sexta-feira, 13 de junho de 2025

O PERFUMADO (2002)

 





Em uma pequena cidade do interior, o bar local está em plena agitação com uma animada partida de truco. Quatro homens jogam concentrados, mas o que está em jogo não é dinheiro ou bebida, e sim a promessa de contar um “causo” em caso de derrota, uma tradição peculiar entre os frequentadores daquele local. A aposta, simples à primeira vista, carrega uma atmosfera de mistério, já que, em uma cidade onde as histórias se misturam com o folclore, um “causo” pode revelar mais do que apenas uma anedota; ele pode mergulhar o ouvinte em um universo onde o real e o sobrenatural se encontram.

“O Perfumado”, um curta-metragem envolvente, nos transporta para esse cenário de suspense e mistério, utilizando como ponto de partida a figura enigmática de um homem que vive na região, conhecido apenas por seu apelido: O Perfumado. O filme encanta logo de início, não só pela sua narrativa intrigante, mas também pela forma como mescla elementos do folclore brasileiro com um enredo cheio de tensão e sutileza. Desde o começo, o espectador é convidado a adentrar um universo onde as histórias contadas na mesa de um bar podem esconder verdades sombrias e inesperadas.

Dirigido por Mauro Giuntini e com roteiro de Di Moretti, “O Perfumado” se destaca ao construir sua trama a partir de uma narração bem-humorada e envolvente, que aos poucos vai revelando os mistérios que cercam a figura central da história. O causo narrado durante a partida de truco tem como protagonista uma mulher que aparece certo dia no bar, com um objetivo claro: encontrar o homem conhecido como O Perfumado. A mulher, interpretada por Felícia Johanson, se aproxima do proprietário do local pedindo um copo d’água e, em seguida, questiona o paradeiro do enigmático homem. O ambiente muda de tom, pois o simples pedido do endereço gera desconforto, como se o nome do Perfumado trouxesse uma espécie de maldição.

A presença do sobrenatural no filme é sutil, mas marcante. O Perfumado é uma figura temida, cuja reputação se espalha por lendas e cochichos entre os moradores, chegando até a cidade grande. O filme consegue, com maestria, criar uma atmosfera de mistério que prende o espectador, enquanto acompanhamos a jornada da vendedora em busca desse homem que parece habitar tanto o mundo real quanto o imaginário da cidade. A cada passo que a mulher dá em direção ao seu destino, a tensão cresce.

A trilha sonora é um dos elementos mais poderosos da produção, contribuindo para a imersão completa nesse universo rural e misterioso. O som da viola caipira, característico da região, acompanha a narração do causo, adicionando uma camada emocional que enriquece ainda mais a experiência do espectador. A música não só reforça o tom folclórico da história, como também funciona como um fio condutor, guiando-nos pela crescente sensação de que algo perturbador está prestes a acontecer.

A fotografia é outro aspecto técnico que merece destaque. Utilizando tons escuros e sombras profundas, o diretor de fotografia opta por uma abordagem que amplifica o mistério em torno do Perfumado. O homem é retratado de forma quase fantasiosa, com suas roupas escuras e presença elegante, criando um contraste com o ambiente simples da cidade.

No que diz respeito à montagem, o filme adota um ritmo que reflete o suspense crescente da narrativa. Cada corte é calculado para aumentar a tensão, e a cada momento em que a mulher se aproxima do encontro com o Perfumado, a montagem enfatiza a iminência de um possível desfecho trágico ou sobrenatural. Entretanto, a revelação final é tanto surpreendente quanto sutil, deixando no ar a pergunta sobre até que ponto o medo e o mistério em torno do homem são fruto de sua natureza ou de projeções daqueles que o temem.

O elenco do filme é igualmente eficiente na criação dessa atmosfera de suspense. João Antônio assume o papel do contador do causo, trazendo uma performance cheia de carisma e autenticidade, enquanto José Delvinei Santos interpreta o enigmático Perfumado de maneira contida, mas impactante. Sua atuação é marcada por gestos sutis, que vão compondo a aura sobrenatural em torno de sua figura. Os personagens coadjuvantes, interpretados por Chico Sant’Anna e Patrícia Carvalho, completam o elenco com atuações que contribuem para o senso de comunidade e folclore que permeia o filme.

“O Perfumado” é um exemplo primoroso de como o cinema pode utilizar o sobrenatural de forma criativa e original, sem recorrer aos clichês do gênero. Em vez de imagens assustadoras ou sustos batidos, o filme opta por um suspense construído lentamente, baseado no desconhecido e no poder das histórias contadas. O que torna o curta ainda mais fascinante é sua capacidade de brincar com as expectativas do espectador, subvertendo-as de maneira inteligente ao final.

Com suas camadas de mistério, narrativa cativante e elementos técnicos primorosos, "O Perfumado" não é apenas um filme de Suspense, mas uma reflexão sobre o medo do desconhecido e o poder das histórias que contamos uns aos outros. Ao término do curta, o espectador é deixado com uma sensação de encantamento e reflexão, relembrando que, no final, as maiores ameaças podem estar mais em nossas mentes do que na realidade.




quinta-feira, 12 de junho de 2025

O DIABO DA GUARITA (2007)

 






"O Diabo da Guarita" é um curta-metragem que consegue mesclar habilmente os elementos de Terror e Suspense, construindo um Thriller psicológico profundamente perturbador. Desde os primeiros minutos, o diretor e roteirista João Tenório demonstra uma maestria em envolver o espectador no interior da mente torturada do protagonista, um porteiro de condomínio interpretado de forma brilhante por Maurício Marques. A atmosfera de tensão se instala imediatamente, e é possível sentir o peso da opressão que domina o personagem conforme a história avança.

A trama gira em torno de um homem simples, cujo cotidiano, já solitário e repetitivo, é progressivamente dominado por uma entidade demoníaca que não apenas conhece seus segredos mais profundos, como também explora seus pensamentos e desejos mais sombrios. A entidade parece não estar confinada apenas ao espaço físico da guarita, mas invade também a mente do porteiro, corroendo seu psicológico de maneira gradativa e implacável. O roteiro constrói, com muita habilidade, uma atmosfera de claustrofobia e paranoia, onde a figura do Diabo pode ser vista tanto como uma manifestação sobrenatural quanto como um reflexo interno, uma projeção dos próprios pecados e culpas do protagonista.

O uso do rádio como elemento narrativo é uma das grandes sacadas do filme. A constante presença da voz de um pastor evangélico, que ecoa pela guarita quase como uma sentença moral, intensifica a sensação de pressão psicológica e espiritual que o protagonista enfrenta. A relação simbólica entre o som do rádio e os tormentos mentais do porteiro é desenvolvida de forma sutil, mas poderosa. A pregação incessante sobre pecado e redenção exacerba a culpa do personagem, fazendo com que o espectador se sinta imerso em sua luta interna. A voz do pastor, aparentemente inofensiva, transforma-se em um elemento opressor, capaz de invadir o espaço íntimo do protagonista e amplificar sua autopunição.

O curta explora com muita competência os sentimentos de culpa, vergonha e desejo reprimido, temas frequentemente abordados sob a ótica religiosa. No entanto, o que poderia ser uma reflexão comum sobre a repressão religiosa ganha contornos mais profundos e perturbadores em "O Diabo da Guarita". O protagonista, um homem comum e devoto, é tragado por uma espiral de punição interna, onde qualquer pensamento ou desejo que desvie das normas religiosas é imediatamente autocondenado. A força do filme reside justamente na maneira como o espectador é conduzido a entender essa dualidade: o porteiro não é perseguido por forças externas, mas por ele mesmo, pela sua própria incapacidade de lidar com seus impulsos e desejos.

A presença do "Diabo" pode ser interpretada tanto como uma figura da mitologia cristã quanto como uma metáfora para o peso psicológico da culpa. Em vez de ser cobrado diretamente por membros da igreja ou por uma autoridade religiosa, o porteiro se autoflagela mentalmente, temendo ser desmascarado pelos outros ou por Deus. O medo de ser exposto, seja para o pastor, para os colegas de trabalho, ou mesmo para os moradores e colegas de trabalho do condomínio, transforma-se na verdadeira fonte de terror. Esse medo é o que alimenta sua paranoia e o leva a reforçar constantemente sua imagem de "bom cristão", escondendo sua verdadeira natureza e seus desejos mais íntimos.

A resolução do filme é particularmente impactante, culminando em uma cena de autoafirmação que revela a profundidade do conflito interno em que o protagonista vive. Se no início, ele é confrontado com a chegada de uma revista masculina, que desperta seus desejos reprimidos, no final surge outro elemento que pode o fazer desviar da retidão que ele impõe para si. Da mesma forma, quando uma mulher deixa uma encomenda para o zelador, o porteiro reage de maneira impulsiva, tentando reafirmar sua honestidade e seu papel "aceitável" dentro da comunidade.

Os elementos técnicos do filme elevam a narrativa a outro patamar. A fotografia e a direção de arte criam um ambiente visualmente sombrio e opressor, onde cada sombra e cada detalhe parecem contribuir para a crescente sensação de desespero. O design de som é um dos grandes destaques do curta, com a trilha sonora e os ruídos cuidadosamente selecionados para transmitir a pressão psicológica que o porteiro sente. O som incessante do rádio, em particular, é utilizado de maneira brilhante, transformando-se em uma presença constante e insuportável, que invade cada canto da mente do personagem e do próprio filme.

"O Diabo da Guarita" é um Thriller psicológico que, com seu clima denso e perturbador, consegue provocar reflexões profundas sobre culpa, desejo e repressão, enquanto conduz o espectador por uma jornada intensa e desconcertante dentro da mente de seu protagonista.



Assista "O Diabo da Guarita": https://vimeo.com/14867498

quarta-feira, 11 de junho de 2025

TAPA NA PANTERA (2006)

 






"Tapa na Pantera", de 2006, é um curta-metragem que se tornou um marco na comédia brasileira, criando uma verdadeira revolução na internet nacional. O contexto histórico é importante para entender o impacto desse trabalho: o Brasil ainda vivia um período de transição tecnológica, em 2006, quando grande parte da população não tinha acesso à internet de alta velocidade. No entanto, um simples vídeo, publicado no YouTube, conseguiu quebrar barreiras e alcançar mais de 200 mil visualizações em apenas uma semana, se tornando um dos primeiros virais da história da internet brasileira.

O curta, dirigido por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, é uma pseudoentrevista que gira em torno de uma mulher, interpretada magistralmente por Maria Alice Vergueiro, que compartilha, de maneira descontraída e sem filtros, suas experiências pessoais com a maconha. Ela detalha o termo "tapa na pantera", uma expressão popular para se referir ao ato de fumar a erva, e fala abertamente sobre o uso diário da substância e seus efeitos em sua vida. O caráter informal e autêntico da entrevista fez com que muitos espectadores se questionassem sobre a veracidade do conteúdo, já que a linha entre ficção e realidade era, de fato, tênue. Esse elemento de dúvida, que fez o público pensar se o vídeo era ou não genuíno, é um dos maiores êxitos do curta, sendo uma das razões que o tornaram tão marcante.

O filme foi postado na internet sem o consentimento dos realizadores, o que, ironicamente, se mostrou um movimento de grande sorte, pois impulsionou sua popularidade. A atuação de Maria Alice Vergueiro, que estava completamente à vontade no papel, é outro ponto que merece destaque. Sua naturalidade e carisma foram cruciais para o sucesso do projeto, com sua performance sendo reconhecida como um grande feito, considerando a profundidade e a autenticidade que ela trouxe à personagem.

A história por trás da produção é igualmente fascinante. O curta nasceu de uma ideia simples: três estudantes de cinema da FAAP – Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes – procuraram Maria Alice Vergueiro para uma filmagem em sua casa. O cenário foi improvisado, sem grandes preparações, e a entrevista se desenvolveu de forma espontânea, sem roteiro fixo, permitindo que Vergueiro dialogasse livremente sobre suas experiências e visões. Esse ambiente descomplicado e natural, somado à montagem precisa que acentuou o tom documental do filme, foi o que realmente fez a diferença. O curta não apenas se destaca pela interpretação de Vergueiro, mas também pela forma como foi estruturado e editado, o que ajudou a manter a ilusão de que se tratava de uma situação real.

O sucesso de "Tapa na Pantera" não só fez história na internet, mas também contribuiu para consolidar a carreira de seus realizadores. Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, que já tinham outros projetos cinematográficos de qualidade, alcançaram uma nova dimensão de reconhecimento com este curta, que permanece até hoje como um dos maiores sucessos da Comédia brasileira contemporânea.

Além disso, Maria Alice Vergueiro, uma veterana do teatro brasileiro que já possuía uma carreira sólida, foi projetada para o cenário nacional de forma inédita, sendo reconhecida por uma geração inteira que, provavelmente, nunca tinha tido a oportunidade de vê-la atuar em outras produções. "Tapa na Pantera" mostrou ao Brasil não só o talento e a versatilidade da atriz, mas também a maneira única de como a comédia pode ser abordada, com autenticidade, crítica social e humor irreverente.

"Tapa na Pantera" é muito mais do que um simples vídeo viral – é um curta-metragem que soube capturar, com muita competência, a essência de uma época e uma discussão tão relevante sobre questões sociais e comportamentais, ao mesmo tempo em que trouxe à tona uma grande atriz e um talento criativo que permanece influente até os dias de hoje. 




segunda-feira, 9 de junho de 2025

A VOLTA PARA CASA (2019)

            








O filme "A Volta Para Casa", baseado no argumento de Guilherme Rodio, apresenta uma narrativa tocante e profundamente emocionante ao seguir a jornada de Plínio, um idoso aposentado que vive em um asilo na cidade de São Paulo. A marcenaria é sua forma de terapia, e na pequena oficina do asilo, ele mantém a mente ativa ao criar peças em madeira. Esses trabalhos manuais são muito mais que simples atividades; representam a tentativa de Plínio de se conectar com suas lembranças e preservar sua autonomia em meio ao inevitável processo de envelhecimento.

A chegada de Anselmo, o novo jardineiro do asilo, marca o início de uma relação que, à primeira vista, parece casual, mas rapidamente revela uma profundidade emocional inesperada. O filme ganha ritmo quando Plínio, ao ver Anselmo podando as plantas de forma que considera inadequada, critica o seu trabalho. Esse embate inicial, sutil e aparentemente trivial, esconde camadas mais profundas; enquanto Anselmo, jovem e cheio de vigor, segue sua rotina sem grande apego, Plínio agarra-se a detalhes como forma de manter algum controle sobre sua vida. Essa cena não é apenas um choque de gerações; ela antecipa um dos principais temas do filme: a busca pela dignidade na velhice e o desejo de manter relevância em um mundo que parece esquecê-lo.

À medida que o filme avança, o elo entre Plínio e Anselmo se fortalece, especialmente durante a celebração da Páscoa no asilo. Plínio espera ansiosamente pela visita de seus familiares, acreditando que eles chegarão a qualquer momento. Em contraste, uma outra residente, em meio à demência, fala sobre a chegada de sua mãe e primos, figuras que claramente não vêm. Plínio, ainda lúcido, insiste que seus filhos virão, criando uma tensão dolorosa. Ele se distingue da outra idosa, mas, conforme a festa avança e seus parentes não aparecem, a linha entre o delírio da demência e a esperança em vão começa a se apagar. Este momento é crucial para o espectador compreender a fragilidade emocional de Plínio e a profunda sensação de abandono que ele enfrenta.

Em uma demonstração de bondade, Anselmo se oferece para levar Plínio até sua antiga casa. O percurso é repleto de diálogos que evidenciam o abismo entre o passado de Plínio e o presente, trazendo à tona o sentimento de desconexão que muitos idosos sentem em relação ao mundo moderno. Plínio fala com nostalgia dos tempos em que nadava no rio Tietê, agora poluído e irreconhecível, enquanto Anselmo tenta explicar o uso de aplicativos e GPS, tecnologias que parecem distantes demais para o idoso compreender plenamente. Esse contraste entre o passado e o presente simboliza não apenas a transformação do ambiente ao redor de Plínio, mas também o quanto ele se sente deslocado em um mundo que mudou drasticamente.

Ao chegarem ao local onde ficava sua antiga casa, Plínio é tomado por uma sensação de desolação ao perceber que sua residência foi substituída por um prédio moderno. A cena captura, de maneira devastadora, o sentimento de perda que permeia a vida de Plínio — ele não perdeu apenas um espaço físico, mas uma parte significativa de sua identidade, das memórias e das conexões que faziam parte de quem ele é. Anselmo, com sua paciência habitual, permanece ao lado de Plínio, permitindo-lhe processar essa nova realidade. Depois de um tempo, o jardineiro o convida para sua casa, onde compartilham uma refeição simples, mas cheia de simbolismo e afeto.

O ápice emocional do filme ocorre quando, após o almoço, Plínio presenteia Anselmo com uma pequena casinha de madeira que ele mesmo esculpiu. Ao receber o presente, Anselmo o coloca em uma estante já repleta de casinhas idênticas. Esse momento revela uma verdade impactante: a jornada de Plínio não é única, mas parte de um ciclo que ele já percorreu diversas vezes, sem lembrança de que isso já tinha ocorrido antes. A coleção de casinhas que Anselmo acumula simboliza a repetição desse ritual de esquecimento e reencontro, indicando que, apesar de sua aparente lucidez, Plínio está preso a um ciclo de memórias fragmentadas.

A atuação de Lima Duarte como Plínio é um espetáculo de sensibilidade. Ele transita entre momentos de lucidez e dor com uma sutileza notável, demonstrando o sofrimento silencioso de alguém que luta para preservar sua dignidade em meio à sensação de abandono. Guilherme Rodio, no papel de Anselmo, traz uma serenidade acolhedora, atuando como um contraponto necessário à turbulência emocional de Plínio. Seu personagem é a âncora de calma e compaixão, sugerindo, sem precisar dizer, que existe uma profunda conexão entre os dois homens. Essa ligação, que o filme nunca esclarece completamente, deixa o público com a dúvida: será Anselmo apenas um cuidador atencioso ou há uma relação mais íntima, talvez familiar, entre eles?

A direção de arte e a fotografia são igualmente impecáveis. As cores suaves, quase desbotadas, e a iluminação difusa criam a atmosfera melancólica e nostálgica que permeia o filme, reforçando a sensação de perda e o peso do tempo. Já a trilha sonora, sutil e discreta, acompanha as cenas com delicadeza, amplificando o impacto emocional dos momentos-chaves sem jamais se sobrepor à narrativa.        

"A Volta Para Casa" é uma meditação profunda sobre o envelhecimento, a memória e o valor das conexões humanas. Plínio, com sua casinha de madeira, tenta se agarrar ao que ainda resta de sua identidade e de suas lembranças, enquanto Anselmo, com sua paciência e cuidado, representa a esperança de que, mesmo em meio à perda e ao esquecimento, há espaço para gestos de gentileza e empatia. O filme nos convida a refletir sobre a finitude da vida e sobre como podemos lidar com a passagem do tempo — não com respostas, mas com solidariedade e aceitação.




O DIA DE JERUSA (2014)

            Com direção e roteiro de Viviane Ferreira, “O Dia de Jerusa” é um sensível e adorável Drama, protagonizado por Léa Garcia e Débo...