sexta-feira, 8 de novembro de 2024

UMBRA (2024)


O curta, que tem roteiro e direção de Gabriela Gonçalves, é um potente filme de Suspense/Terror que explora o universo de uma escritora com bloqueio criativo.

“Umbra” é uma realização da Bem+Mais e demonstra muitas qualidades, tanto nos elementos narrativos, quanto dramáticos e técnicos. Num geral, toda a equipe envolvida na realização do projeto, mandou muito bem, entregando um filme com uma atmosfera densa, misteriosa e surpreendente.

Manter um filme, mesmo curto, dentro de um único ambiente é sempre um desafio. E a equipe criativa de “Umbra” se saiu muito bem. Primeiro apontando o isolamento da protagonista, interpretada por Jennifer Tenório, procurando inspiração para escrever uma história de Terror. A forma como os dois universos interagem é bastante interessante, com um ótimo uso da fotografia, criando uma crescente de medo e perigo com luz e sombras.

O curta traz o lembrete de que: algumas coisas são melhores de serem feitas durante o dia. Mas aí, fica a indagação: o que é dia e o que é noite na vida da protagonista? O que é criação proposital ou invasão criativa não intencional?

Explorar o uso da Inteligência Artificial foi um grande acerto. Primeiro, porque realmente ajuda no processo de escrita, com descrições mais detalhadas de ambientes e, segundo, porque a IA pode além de criar um ambiente que precisa ser descrito, pode dar vida a um personagem, um lugar, um universo, ou quem sabe, um pesadelo. Aí, cabe questionar o estado emocional e psicológico da nossa protagonista e representante em tela, que já envolveu o espectador para dentro do seu mundo.

"Umbra" é um filme produzido por uma equipe que claramente sabe o que está fazendo e domina a arte de criar um bom Terror, com muita tensão e atmosfera opressiva. A forma como a equipe criativa manipula a escuridão, o som e os elementos visuais, nos mantém constantemente à beira do desconforto, tornando a experiência assustadoramente imersiva. É o tipo de terror psicológico que mexe mais com a mente do que com sustos baratos, levando o público a questionar a realidade e a sanidade da protagonista, assim como a própria.




quarta-feira, 6 de novembro de 2024

O COLECIONADOR (2012)

 O Romance/Drama, com direção e roteiro de Günter Sarfert, apresenta Lucas, um jovem colecionador de objetos e aparelhos antigos e que conhece Anna, a dona de uma loja de objetos retrô, especialmente máquinas fotográficas.

O filme tem um entrosamento muito forte entre Maria Flor, interpretando Anna, e Álamo Facó, no papel de Lucas. Desde os primeiros contatos, passando pelo desenvolvimento e durante a resolução final, os atores transmitem muita naturalidade, também pela qualidade do texto, com uma trama envolvente e cativante.

“O Colecionador” tem algumas sacadas de humor bastante interessantes e pontuais, aproximando ainda mais o espectador aos personagens e ao universo produzido pelas equipes técnica e criativa.

O filme tem uma atmosfera vintage e, como não poderia ser diferente, traz o elemento nostálgico, que ajuda muito bem no ritmo da trama. E ponto para a equipe de arte e fotografia, que acertaram na medida certa no mundo de Anna e Lucas.

Porém, o filme tem um empecilho para os personagens e que exige tanto de Anna quanto de Lucas. E aí que, na minha opinião, o filme acerta em focar principalmente nas máquinas fotográficas. Se hoje, quase todo mundo tem celulares com câmeras e todas as facilidades de se fotografar e descartar, as máquinas antigas precisavam de um rolo de filme para capturarem momentos realmente importantes e, logo que chegasse no limite, as fotos podiam ser reveladas.

A vida é assim: com momentos marcantes que merecem viver nas memórias e lembranças. As fotografias são ferramentas que alimentam as lembranças com a captura de um momento romântico, ou de algum parente que já morreu, ou de uma viagem inesquecível. “O Colecionador”, vai muito além de uma simples história de amor. O curta traz a reflexão da importância de se viver e se guardar as melhores recordações.




quinta-feira, 31 de outubro de 2024

SUPERBARROCO (2008)

 

O Drama Experimental da diretora Renata Pinheiro e estrelado pelo ator paraibano Everaldo Pontes, não é simplesmente um filme onde o espectador somente vê e ouve. “Superbarroco” é um filme para ser experimentado, apreciado e sentido. Com elementos do surrealismo, o curta de 17 minutos, leva o espectador para uma abordagem artística, filosófica-existencialista e totalmente imersiva, se quem assiste se permitir viajar pela mente do protagonista.

Pode até haver um estranhamento sobre a narrativa, o personagem e o arco dramático do filme. E, de forma magistral, a equipe criativa consegue nos atrair para aquele universo, que aprofunda em questões relativas à identidade pessoal, memórias, lembranças, pertencimento, com técnicas de filmagem aparentemente simples, mas hipnotizantes. A arte visual, envolta no protagonista, permite sentir os sentimentos dele. A obra permite ao espectador se aprofundar ao máximo numa realidade onírica e introspectiva.

“Superbarroco” é arte no estado mais puro, refinado e autêntico. É certo que demorar um pouco até compreendermos as imagens das projeções. Mas, quando percebemos do que se trata, passamos a participar do filme. Não há quarta parede para ser quebrada. Simplesmente, quem assiste é introduzido dentro do universo do personagem principal.

E a arqueologia da mente do protagonista mistura realidade, sonhos e memórias. A narrativa é lenta e imersiva, justamente para que tudo passe a fazer sentido. Ou nem tudo possa fazer sentido, porque ninguém é capaz de conhecer totalmente o que uma pessoa carrega na sua bagagem de vivências, memórias, sonhos e ilusões.

O uso de flashbacks com projeções nas paredes da casa do protagonista demonstra uma execução técnica sublime. Ao abrir mão de flashbacks convencionais e utilizar projeções nas paredes, o filme transforma a memória em algo vivo, visual e interativo dentro do cenário. Essa abordagem não apenas comunica informações sobre o passado, mas também reflete o estado mental e emocional do protagonista. Essa ruptura com os padrões permite que o público experimente o passado de uma maneira sensorial, fundindo-o com o presente de forma mais fluida e poética, tornando a própria casa um personagem que "guarda" essas lembranças.

Assistir a “Superbarroco” é uma experiência única. O filme traz várias sensações e sentimentos, dentro de sua proposta narrativa e aspectos técnicos, que desconstroem a linearidade da narrativa tradicional. Através de uma linguagem visual poética e simbólica, a obra nos transporta para um universo em que o passado e o presente se entrelaçam, convidando o espectador a uma reflexão profunda sobre suas próprias memórias e experiências. A imersão nas nuances da história e a originalidade na construção das cenas fazem do filme uma obra marcante que desafia nossas percepções e expectativas.


Assista "Superbarroco" no Embaúba Play: https://embaubaplay.com/catalogo/superbarroco/ ou pelo canal Programa Curta Pernambuco, com uma entrevista com a diretora.





segunda-feira, 28 de outubro de 2024

CANA (2017)







O curta, com direção, roteiro e produção de Giovani Beloto, acompanha um pai que vai até um bar para assistir a um jogo de futebol com os amigos. Pedro e Aninha, seus filhos, estão juntos. Porém, já no caminho Aninha percebe algo estranho no canavial que cerca o bar e um campo de futebol.

Enquanto os adultos assistem à partida de futebol, as crianças optam por brincar no campo. Gradativamente, o perigo que está escondido no canavial vai tomando forma e atingindo as crianças.

“Cana” é uma produção de Suspense, Mistério e Terror que realmente surpreende por aguçar as expectativas do espectador e mostrar o que acontece, sem obrigatoriamente mostrar a criatura, ou monstro, ou assombração (ou que mais o espectador imaginar). O filme tem um trabalho de fotografia e trilha sonora eficiente, pois não mostrando a cara do perigo, faz com que a gente tenha certeza de que há algo realmente perigoso habitando o canavial. O movimento e o barulho do canavial são suficientes para criar o clima de tensão e mistério. Alguns efeitos sonoros são pontualmente bem utilizados.

Outra coisa que chama muito a atenção é o trabalho da equipe de arte, figurino e maquiagem. A ambientação dos anos 1970 ou início dos 1980, insinua que o que ronda o bar, dentro do canavial, pode ser o personagem de uma antiga lenda da região.

O trabalho de fotografia e som, juntamente com arte e figurino, cria um universo crível e ao mesmo tempo misterioso. Enquanto os adultos estão preocupados com a partida de futebol, as crianças estão realmente correndo risco. E Aninha é quem faz essa ponte entre “o mundo dos adultos” e “o mundo das crianças”. Ela quem percebe o mal no caminho, durante o período em que fica no bar ao invés de ir para o campinho brincar e, num terceiro momento, quando ela já decide brincar, porém temendo o que há no canavial e observando impotente tudo o que acontece.

“Cana” se destaca por sua narrativa fluida, imersiva e intrigante, com méritos para o trabalho da direção de fotografia de Laura Íori, arte de Belle Moro, som de Gezes Teles, Giovani Beloto, Felipe Reis e Gustavo Vilela.

O elenco de “Cana” conta com Sara Coan Santarém, Hugo Vidal, Vinícius Henrique de Arruda Xavier, Sophia de Paula Fré, Gustavo Cancian Ribeiro, Paulo Henrique R. Biazotto, Hercules di Memphis e Sidney Santos.

“Cana” é um curta envolvente e assustador que vale muito a pena. É uma ótima pedida pra quem curte um mistério com clima tenso, denso e sombrio, onde o suspense é mantido até o último segundo.






sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O BRILHO DA MORTE: 30 ANOS DO CÉSIO-137 (2017)

 O excelente documentário faz parte de uma série de reportagens produzidas pela TV Serra Dourada em 2017, narrando os fatos ocorridos em 1987 e afetando diretamente a vida da população inteira da cidade de Goiânia, com impactos traumáticos até hoje.

O acidente, causado por negligência dos ex-proprietários de uma clínica abandonada no centro de Goiânia, poderia ter sido evitado. Isso é o que mais impressiona a revolta ao assistir o filme e ouvir os relatos de vítimas, especialistas e jornalistas. É chocante, revoltante, triste e lamentável saber que tudo o que houve a partir do mês de setembro de 1987 poderia ter sido evitado se, simplesmente, um aparelho de radiologia tão perigoso estivesse num lugar seguro.

Como o aparelho estava num lugar abandonado e sem vigilância, dois catadores de sucatas tiveram acesso ao lugar, o retirando e vendendo para uma ferro-velho. O curta narra como o pó brilhante azul se tornou motivo de admiração e curiosidade entre várias pessoas. A contaminação se alastrou por várias partes da capital goiana e o evento com o Césio-137 tornou-se o maior acidente radioativo da história do Brasil e um dos maiores do mundo.

É triste ouvir das pessoas envolvidas como as suas vidas foram destruídas, pois além de mortes e sequelas físicas, muitas das pessoas que sofreram pela contaminação sofreram e sofrem ainda muito preconceito. Na época, a população de Goiânia sofreu com preconceito de moradores de outras cidades e estados.

“O Brilho da Morte: 30 Anos do Césio-137” é uma produção de Marcos Gallo, Jairo Menezes e Geovane Ázara, com roteiro e edição de Ázara. Utilizando imagens de arquivos pessoais e de outros meios de comunicação, o filme narra com extrema eficiência desde o dia em que o equipamento foi encontrado pelos dois catadores, o caminho que fez, como a contaminação se alastrou e como as consequências são sentidas até hoje.

É importante e necessário relembrar o caso de Goiânia, por vários motivos. O principal é servir de alerta para que casos como esse não aconteçam mais. É preciso que qualquer equipamento ou substância perigosa sejam manuseados por profissionais preparados e bem longe das pessoas comuns. É muito importante conhecer a história e os impactos causados por um acidente tão grave e que marcou a população brasileira. E é muito importante se solidarizar com as famílias afetadas e que têm problemas de saúde até hoje, 37 anos depois do acidente.




quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A SEMANA (2023)

O curta é um pseudo making of de uma produção cinematográfica. Com 23 minutos, “A Semana” apresenta Gui, um jovem cinéfilo que tenta realizar o sonho de produzir um filme, junto com seu melhor amigo, Isaac.

O filme é uma Comédia extremamente eficiente, com uma trama muito bem construída, uma narrativa com muitos diálogos hilários e personagens bastante carismáticos. O protagonista vai da empolgação inicial ao impacto da dificuldade em se produzir sem experiência, mas insiste na produção. Dessa forma, eles enfrentam todos os tipos de percalços em busca da realização do projeto.

Os realizadores foram certeiros em todas as escolhas para produzir um filme com belas sacadas de humor, sarcasmo e ironia. Tudo ficou exatamente no ponto certo. A forma como os dias de trabalho se desenrolam durante a gravação do filme “O Agente Mascarado” é excelente, com picuinhas, dúvidas e irritações surgindo, e divertindo o expectador, que fica na curiosidade sobre o final da obra.

Desde a atriz inexperiente, o técnico de som que não sabe operar até o editor ranzinza, tudo funciona muito bem. E “A Semana” tem aspectos técnicos bem interessantes e com profissionais que sabem o que fazem e entregando um ótimo filme.

O roteiro é do diretor Cesar Gallego, que também atua no filme no papel de Jefferson. O elenco ainda conta com Victor Dornellas interpretando Gui, Sebá Neto como Isaac, Déco Araújo como Robson, Raquel Godoy como Camila, João Saldanha como Carlos, Jotta Moraes como o vilão, Ruann Oliveira como Lucas, Ben Gomes como o capanga, e Henrique Roque como o Vingador de Capuz. O filme é uma realização da Duque Pato Filmes, com produção de Cesar Gallego, Ben Gomes e Hugo L.V e Oliveira.

“A Semana” é certeza de que você vai assistir a uma divertidíssima comédia e o filme passa muito rápido.



CAÍDO (2023)

O curta independente, com roteiro, direção, montagem e produção de Alexandre Estevanato, traz a história de um homem isolado e recluso em sua pequena tapera. Mesmo distante de tudo e de todos, o homem costuma ser visitado por pessoas que o cobram e o agridem, o culpando pela maioria dos erros e problemas existentes.

“Caído” é um curta que mescla o Drama, a Fantasia e o Suspense e humor ácido. No primeiro ato são apresentados a vida do protagonista, os seus pensamentos e os incômodos por ser responsabilizado por erros de terceiros.

As ações do homem, interpretado de forma brilhante por Sérgio Pardal, deixa uma dúvida sobre a sua origem. O que é explicitado ao longo do curta. O comportamento do protagonista alterna irritação, impaciência e sonhos de luxúria e hedonismo.

De forma muito interessante o diretor-roteirista, deu alguns toques cômicos ao seu filme, tanto para o homem se proteger de pessoas que são ruins e o atacam, como na sequência final pós-créditos.

“Caído” tem uma trama muito bem elaborada e conduzida por Alexandre Estevanato. A qualidade do texto e as atuações, tanto de Sérgio Pardal quanto de Roberto Borenstein, trazem uma reflexão interessante sobre a natureza do comportamento humano. Os elementos técnicos como fotografia, arte, maquiagem e figurino, compõem muito bem o personagem. A paleta de cores mistura e funde personagem, tapera e terra, como uma coisa só.

 


O nome do curta e a sinopse são bastantes sugestivos sobre a natureza do personagem. Gradativamente, a sua personalidade é revelada e o contexto é inserido.

“Caído” é um filme para quem tem a mente aberta ou procura enxergar a crítica proposta pelo diretor através de uma perspectiva diferente. O curta não nega a existência de Satanás, mas procura dialogar com a ideia de que nem tudo o que acontece no mundo é responsabilidade dele. Vale muito a pena ler a entrevista do portal “Diário da Região” com Alexandre Estevanato: https://www.diariodaregiao.com.br/cultura/diretor-rio-pretense-alexandre-estevanato-divulga-novo-curta-1.1237209. E não há como discordar de que muitas pessoas estão dispostas a culpar, ou o Diabo ou outras pessoas, pelos seus fracassos ou frustrações.

Com um apego filosófico e metafórico, o curta personifica o “bode expiatório” da cosmologia moral humana, onde o mal é constantemente projetado em uma entidade mitológica. O filme tem como ponto central, não o Diabo em si, mas o mal humano que habita a Terra e como muitos se esquivam das consequências de seus atos.

Quando Deus, interpretado por Roberto Borenstein, surge e inicia uma interação com o Diabo, aí sim, o curta é mais direto sobre a forma como o “criador” enxerga a natureza humana e o desvio feito pela humanidade. E essa interação reflete uma cosmologia metafórica na qual a imperfeição humana, a negligência de responsabilidade e a ambiguidade moral são os temas centrais do curta, como crítica às ações dos homens.

Sem ver outra saída, Deus decide que é hora de acabar com tudo e dar um novo início. O filme assume um tom irônico e com uma forte pegada de humor ácido, onde o Diabo terá a infelicidade de fazer o que Noé fez, de acordo com o Gênesis.

“Caído” aborda, com muito bom humor, uma crítica pertinente sobre a dualidade humana e a quebra de expectativa que reflete sobre o papel das figuras mitológicas e a maneira como os humanos interpretam o bem e o mal.









terça-feira, 22 de outubro de 2024

O BILHETE (2020)


O curta, adaptado do conto homônimo de Fahya Kury Cassins, tem como ambiente um bar. Tudo está normal, até que uma mulher entra e implora para que alguém escreva uma carta para ela. Ele tem o papel, tem o dinheiro para enviar, tem o texto que deve ser escrito, porém, mesmo assim, encontra resistência do dono do bar. Ele chama por uma mulher que, inicialmente, alega que ali é um bar. No entanto, ela escreve o que a mulher precisa dizer.

“O Bilhete” tem na sua protagonista, uma pessoa aflita e emocionalmente abalada. A sua fala, os seus gestos, as suas expressões faciais, demonstram que ela precisa colocar para fora as suas angústias, diante da realidade que ela narra, não só para a mulher que escreve a carta, mas para todos os outros presentes no local.

A indiferença com que as pessoas lidam com a situação, ou se negando a escrever, ou escrevendo sem demonstrar empatia, ou simplesmente deixando entrar por um ouvido e sair pelo outro, demonstra que a maioria das pessoas não se importa com os problemas dos outros.

A própria protagonista não sabe lidar com os seus problemas. Ora dita uma coisa, ora dita outra, pedindo para a pessoa que escreve, colocar ou tirar algo de seu desabafo.

O conteúdo da carta guarda algumas situações e sentimentos que é incompreensível para outros, mas que machuca fortemente a protagonista. Ok, o homem e a mulher disseram para ela que ali era um bar, o espectador sabe que o local correto para se ditar e despachar uma carta é uma agência dos correios. Mas, diante da frustração da personagem principal, há de se pensar se ela já passou por outros lugares, pedindo a mesma coisa. Ou se ela entrará em outros bares, lojas de roupas, escritórios de contabilidade, ou num posto de gasolina e irá pedir a mesma coisa. Fica a impressão que, para ela, a carta nem é tão importante, mas é preciso colocar para fora o que sente.

E o comportamento das pessoas que ficam, logo após a mulher deixar o dinheiro para que a carta seja enviada é triste, é insensível, mas infelizmente, parece ser a realidade de muitas pessoas que se negam a compreender os problemas de outras e tratar com indiferença.

Em seus 6 minutos, “O Bilhete” demonstra uma qualidade enorme da equipe técnica e criativa. O diretor Clark Cesar, consegue extrair o máximo do texto, criando o universo onde o espectador rapidamente se conecta com a protagonista, interpretada por Luana Santos. Mesmo com as poucas informações transmitidas pela mulher que dita a carta, o elo de ligação entre protagonista e espectador se cria muito devido à excelente atuação de Luana. O filme conta ainda com Samuel Kühn, Giseli Rover, Nelso Buttendorf Junior, Marlon Ricci e Gino Ricardo no elenco.

“O Bilhete” cumpre com muita eficiência o desafio de ser um filme que se passa num único ambiente, com um arco dramático e narrativo muito bem alinhado. O filme é uma realização da Oficina Produções. 




domingo, 20 de outubro de 2024

O DUPLO (2012)






O curta, com roteiro e direção, da talentosíssima Juliana Rojas, explora o universo de uma professora do primário que passou a sofrer com a aparição e impacto de seu doppelgänger. Da mitologia germânica, um doppelgänger é uma criatura que assume a forma perfeita de uma pessoa. Porém, essa sósia perfeita é maligna, trazendo um presságio de má sorte, maldade e morte. Inspirado no caso da professora Emilie Sagée, no ano de 1845, o filme tem uma atmosfera intensamente sinistra.

Durante uma aula, a professora de Matemática Sílvia, interpretada de forma brilhante pela atriz Sabrina Greve, se vê na horripilante situação. Desde então, a sua rotina é alterada de toda forma. Os realizadores foram extremamente felizes em criar o clima para que os espectadores pudessem adentrar na mente da protagonista.

A sequência na sala de professores é profundamente perturbadora. E durante um evento de apresentação para os pais de alunos, o que se vê é uma perfeição de medo, horror e tensão.

Juliana Rojas leva a trama muito além de simplesmente concluir que o que ocorre com Sílvia é a influência de um doppelgänger, e pronto. A diretora-roteirista convida o espectador a refletir sobre a sanidade mental da professora. E, além de criar essa tarefa para o espectador, ainda ficamos com dúvidas sobre quando estamos vendo a Sílvia e quando estamos vendo a sua sósia maligna. E rebobinamos o filme em nossa cabeça para tentar destrinchar “quem é quem”. “O Duplo” é um exemplo perfeito de um filme que dosa com muita eficiência o Mistério, o Suspense e o Terror.

E muito disso se dá pelo comportamento de Sílvia. Ao invés de expressões de pavor e gritos, a atriz Sabrina Greve mantém expressões de descontentamento e dúvidas (é claro), mas sempre transmitindo a sensação de que há algo mais e que nós não sabemos. Ela segue ou é seguida pela cópia. Ou a sósia quem segue a Sílvia original. E essa aparente tranquilidade, por um lado, mostra que a cabeça de Sílvia pode sim estar ferrada. Mas também se é somente uma cópia maléfica ou, devido a algum problema, Sílvia seria capaz de fazer algumas coisas que faz.

“O Duplo” é uma excelente produção. Com elementos técnicos muito bem utilizados. Por exemplo a trilha sonora; até agora o barulho do elástico continua me incomodando. O filme tem uma ótima fotografia, direção de arte, efeitos sonoros etc. O filme, dentro de seus 24 minutos, tem uma crescente dramática dentro da narrativa, que envolve, choca e impressiona quem assiste ao filme. O espectador se envolve, se choca e se impressiona junto com a protagonista. Nunca o barulho de um elástico batendo no papelão de uma pasta me irritou tanto.


Além de Sabrina Greve,o elenco de "O Duplo" conta com Gilda Nomacce, Majeca Angelucci, Daniel Ribeiro, Henrique Rabelo, Hilda de Alencar Gil, Mariza Junqueira, Sara Silveira, Helena Albergaria e Thereza Cristina, além da participação dos atores mirins.

O curta é uma realização da Itinerante Filmes, em associação com Electrica, Filmes do Caixote, Flora Dias, Lucas Barbi e Quanta Post.





sábado, 19 de outubro de 2024

SINGULAR (2023)

O Drama em curta-metragem acompanha o dia-a-dia de uma solitária mulher, que passa a receber misteriosas mensagens que são deixadas na porta de seu apartamento.

Os bilhetes, escritos à mão, a incomodam porque, além de invadir a sua privacidade, tocam em assuntos que mexem bastante com a sua cabeça, com o seu estado mental, emocional e psicológico.

“Singular” é uma maravilhosa jornada cinematográfica, onde tudo acontece em praticamente um único ambiente e com a eficiente e talentosa atuação de Priscylla Atanes.

Miguel Atanes, responsável por roteiro, direção, montagem e música, demonstra toda a sua qualidade ao extrair o máximo do texto e encaixando, gradativamente, os elementos que revelam o objetivo dos bilhetes misteriosos. Os elementos de Suspense e Mistério, são utilizados pontualmente, de forma a resolução é surpreendente e extremamente sensível.

“Singular” eleva o filme para além do que se vê em tela. O filme traz uma proposta para uma reflexão totalmente relevante para os nossos dias, nossos comportamentos, nossa realidade e a forma como vivemos. Muito provavelmente, vários espectadores vão interpretar o filme de acordo com as suas visões e, pra falar a verdade, todas essas interpretações são especialmente importantes, porque cada pessoa enxerga o “seu mundo” através da sua lente. Pode ser que muitos se identifiquem com a protagonista do filme e se depare com um cotidiano parecido com o dela. E a proposta do filme é como uma sugestão pessoal.

“Singular” é um filme impecável em todos os seus aspectos, seja na narrativa, na dramaticidade e nos elementos técnicos de produção. É um filme que vale ser visto e revisto de tempos em tempos, porque tem uma importante mensagem para todos nós.




O MAL QUE HABITA (2021)

            Com direção de Bruno Rapone, “O Mal que Habita” é um curta de Terror que mergulha no universo das possessões demoníacas por um c...